Capítulo 02

Gokudera deu um passo para trás, sentindo sua cintura encostar-se a pia. Suas pernas tremiam e seus olhos verdes estavam arregalados. Ele sabia que inevitavelmente acabaria encontrando Yamamoto, mas não achou que seria tão cedo e que os dois ainda estivessem sozinhos.

As lembranças daquela noite misturavam-se com as péssimas memórias que o Guardião da Tempestade tinha dos meses que permaneceu sozinho na Itália. A culpa e principalmente o arrependimento pareciam estar escritos em sua testa.

- Hayato? — O moreno balançou a mão na frente do rosto do homem de cabelos prateados, fazendo-o piscar os olhos como se acordasse de um sonho — Você ainda está ai?

- B-Bom Dia! — A voz de Gokudera mal saiu por seus lábios. Seu rosto tornou-se quente, e suas mãos apertaram automaticamente a borda da pia. Ele precisava de algo para se apoiar ou suas pernas simplesmente deixariam de mantê-lo em pé.

- Bom Dia, pelo visto você ainda não acordou.

Yamamoto sorriu dando um passo a frente. O Guardião da Tempestade prendeu a respiração. Eles estavam perigosamente próximos.

- Posso?!

O homem de cabelos prateados apertou as sobrancelhas sem entender o sentido daquela pergunta. Sua mente não funcionava muito bem naquele momento, e demorou alguns segundos para que ele percebesse que o moreno se referia a pia.

- Oh claro — Gokudera deu um passo para o lado, observando Yamamoto servir-se de mais café. Fora ingenuidade de sua parte pensar que aquela proximidade pudesse significar outra coisa.

- Quer mais uma xícara de café? Eu acho que fiz muito hahaha — O moreno pegou a xícara recém-lavada e serviu um pouco mais de café ao receber um aceno positivo de cabeça por parte do homem ao seu lado — Vamos sentar, Tsuna e os outros devem chegar em poucos minutos.

O convite não surpreendeu o Guardião da Tempestade. A atitude despreocupada por parte de Yamamoto sim o espantou. Depois daquela noite, o braço direito do Jyuudaime não esperava ser tratado tão bem. A maneira como os dois se despediram, e principalmente a forma como tudo terminou entre eles não havia sido nem um pouco positiva.

- Tsuna disse que vocês trabalharam muito na Itália. Não é de estranhar que você tenha recebido uma semana de férias — O Guardião da Chuva falava enquanto assoprava o café.

- O Jyuudaime trabalhou bastante. Eu apenas o auxiliei em poucas coisas.

- Hahaha não foi isso o que eu ouvi, mas já era de se esperar, você sempre foi modesto quando o assunto é o Tsuna.

O café desceu quente e sem gosto pela garganta de Gokudera. O homem de cabelos prateados sentia-se extremamente envergonhado, temendo que o moreno trouxesse a tona certas lembranças e jogasse em seu rosto que no fundo ele sempre estivera certo. A viagem nunca foi o empecilho entre eles, e que os dez meses transformaram-se em oito. O Guardião da Tempestade havia feito uma escolha ruim, e a consequência disso estava bem diante de seus olhos. Nunca o sorriso e a risada de Yamamoto o incomodaram tanto, pois eles eram os mesmos.

Enquanto escutava o Guardião da Chuva falar sobre as últimas missões que realizou, e como seu pai estava bem, Gokudera entendeu porque tudo no moreno o irritava. Ao contrário de Yamamoto, ele não conseguia sorrir ou rir. O peso da responsabilidade em seus ombros era demais.

Se o moreno conseguia sorrir daquela forma era porque cumprira sua promessa. Ele seguira em frente exatamente como dissera naquela noite.

- Você deveria aparecer um dia desses no restaurante. Meu pai ficará feliz em revê-lo.

- Se eu tiver tempo. Não sou totalmente despreocupado como você, Yamamoto. — Gokudera terminou o café, passando os olhos pela cozinha. Qualquer lugar parecia mais interessante do que encarar o homem à sua frente.

- Hahaha é verdade, mas as coisas estão calmas ultimamente, então acredito que você definitivamente terá tempo — O moreno pousou a xícara na mesa, desfazendo um pouco do sorriso em seus lábios. — Você parece bem, Gokudera, de verdade.

Os olhos do Guardião da Tempestade passaram rápidos para a direção de Yamamoto. Os dois se entreolharam, e mesmo que não tocassem no assunto diretamente, era impossível evitar as lembranças. O homem de cabelos prateados as viu claramente nos olhos do moreno, porém, a mágoa que ele procurava não estava ali.

- Você também, alias, parece melhor do que eu imaginava.

O comentário saiu sem nenhum aviso.

Não era exatamente aquilo e daquela forma que Gokudera queria ter dito.

- Muitas coisas aconteceram nesse tempo — O Guardião da Chuva ficou de pé, segurando ambas as xícaras. Sua voz estava um pouco mais séria — E eu me sinto ótimo na verdade.

A observação fez o braço direito do Jyuudaime ficar de pé. Suas mãos apoiaram-se sobre a mesa, ajudando-o a manter o equilíbrio. Seus lábios moveram-se e avisaram que ele estaria arrumando a sala para a reunião, e em segundos Gokudera estava fora da cozinha.

Os passos foram rápidos através do corredor, e somente ao entrar na larga sala de reuniões foi que o Guardião da Tempestade pôde realmente respirar. Sentando-se em uma das cadeiras, o homem de cabelos prateados procurava manter a calma e o autocontrole após ter ouvido a última parte da conversa. Suas mãos correram automaticamente para um de seus bolsos, segurando firme o maço de cigarros. Foi apenas quando levou um até os lábios que ele lembrou que não poderia fumar naquela sala.

Com um movimento raivoso, Gokudera atirou o cigarro ao chão, passando as mãos pela nuca em seguida. Ele estava furioso e sabia que sua atitude era patética. O que mais ele poderia esperar? Que Yamamoto estivesse tão deprimido quanto ele? Que nesse tempo todo o moreno tivesse permanecido o mesmo?

Os pensamentos ocuparam o braço direito do Jyuudaime por alguns minutos. Foi somente quando Tsuna em pessoa adentrou a sala que ele deixou toda sua frustração escondida em alguma parte de seu coração. Ela faria companhia para a culpa e o ressentimento que já tinham morada garantida.

- Bom Dia, Gokudera-kun — O Décimo sorriu. Aquela era a primeira vez que eles se encontravam depois do retorno ao Japão.

- Bom Dia, Jyuudaime, como está? — O Guardião da Tempestade fez uma pequena reverência. Seus olhos pousaram de seu Chefe para as pessoas que entravam atrás dele.

Os cumprimentos de Gokudera se estenderam para Ryohei que entrava com Reborn em seu ombro. Yamamoto vinha logo atrás, e sem erguer os olhos, o homem de cabelos prateados também o cumprimentou. A resposta foi um caloroso bom-dia.

- Hm só nos resta esperar pela Chrome e provavelmente Kusakabe — Tsuna sentou-se em sua macia cadeira — Eu sinceramente espero que seja ela quem venha representar a Névoa.

- Mukuro participou das últimas reuniões — Ryohei juntou as sobrancelhas, parecendo lembrar-se de algo desagradável — Realmente... Espero que seja a Chrome quem venha.

Gokudera estava sentado ao lado direito de Tsuna e em frente a Yamamoto. A conversa girou em torno dos dois Guardiões da Névoa, e as participações especiais e incomodas de Mukuro. O rapaz aparecia vez ou outra, na maioria das vezes sua presença só atrapalhava as negociações, já que ele achava bem mais interessante tentar possuir Tsuna à distância do que debater os assuntos da Família.

Porém, a dúvida não demorou a ser solucionada.

Dez minutos de espera e Chrome adentrava a sala acompanhada de Kusakabe. Tsuna e Ryohei os receberam com um largo sorriso, principalmente a primeira. Se Chrome representaria o anel da Névoa, então eles poderiam ter uma reunião bem sucedida.

- Bom Dia, Chefe — A jovem fez uma tímida reverência para o Décimo e em seguida cumprimentou o restante dos Guardiões e Reborn, que estava presente para representar Lambo (Segundo o Arcobaleno, "Um idiota que mal sabe escrever o próprio nome não tem direito algum de participar de decisões").

Kusakabe como sempre vinha em nome de Hibari.

O Guardião da Nuvem não aparecia nas reuniões, e somente em último caso Tsuna se dava ao trabalho de entrar em contato com o moreno. Na maioria das vezes suas visitas ao templo terminavam com ameaças, ou Hibari simplesmente o enxotava para fora.

Demorou algum tempo para o Décimo aprender o único método quase efetivo de conversar com seu Guardião da Nuvem. As visitas tinham de ser feitas quando Dino estivesse em Namimori, de preferência em um horário em que o Chefe dos Cavallone visitasse casualmente o Templo.

O humor de Hibari sempre estava “menos pior” nesses dias.

- Então, acredito que podemos começar.

Os assuntos relacionados à viagem de Tsuna nos últimos meses tomou toda a manhã. O Décimo relatou sobre seus acordos — alguns bons, outros nem tanto — mencionando sua visita ao Líder da Varia, e que mesmo não demonstrando, Xanxus mantinha a mesma atitude indiferente que no fundo escondia suas reais intenções. Tsuna sabia que se precisasse (em último caso!) ele poderia confiar em seu ex-inimigo.

Gokudera abriu a boca apenas duas vezes durante toda a reunião. A primeira foi para lembrar o Jyuudaime de uma proposta feita por um Chefe italiano, e a outra foi um aviso que Kusakabe deveria repassar para Hibari. As oportunidades para falar não lhe faltaram, mas o Guardião da Tempestade preferiu manter-se calado. Seus olhos não saíram um minuto da figura de Tsuna, e mesmo que ele parecesse extremamente atento ao Jyuudaime, a real intenção era evitar qualquer tipo de troca de olhares com Yamamoto. Porém, após quase duas horas de reunião, Gokudera percebeu que estava perdendo seu tempo tentando evitar aquela situação, pois o moreno não olhou em sua direção nenhuma vez.

Yamamoto falou, comentou, riu e sorriu o tempo todo. As histórias vergonhosas que Tsuna tinha para compartilhar foram bem recebidas pelos Guardiões que não puderam estar presentes na Itália. Esse grupo era formado pelo Guardião da Chuva e Chrome, únicos que não visitaram o Jyuudaime no tempo que ele permaneceu no exterior. Ryohei dividiu seu tempo entre a Itália e Namimori.

O moreno em especial parecia bastante interessado nas histórias. Em momento algum ele demonstrou algum ressentimento ou rancor em relação ao Décimo. Contrariando suas palavras meses atrás, era como se nada tivesse acontecido.

Quando a reunião mostrou indícios que estaria terminando, Gokudera permitiu que seus olhos pousassem pela primeira vez na figura de Yamamoto. O moreno estava de lado e conversava animado com Reborn, e os dois pareciam se divertir com o assunto. O homem de cabelos prateados engoliu seco e voltou a atenção aos seus relatórios, ajeitando seus papéis com certa pressa. Nada. Não havia nenhum tipo de reação.

Tsuna foi o primeiro a ficar de pé, convidando os presentes para almoçarem juntos em algum restaurante.

Kusakabe declinou o convite. Ele teria de repassar as informações da reunião para seu Chefe. Chrome pareceu relutante em aceitar, mas não conseguiu resistir ao insistente convite do Décimo.

A única recusa que pareceu surpreender os presentes, e dessa vez fez com que Yamamoto tomasse conhecimento da presença de tal pessoa, foi Gokudera. O Guardião da Tempestade desculpou-se com o Jyuudaime, mas pediu que lhe dessem licença, pois ele acompanharia Kusakabe.

- Eu mesmo repassarei a proposta, Jyuudaime. Lidar com Hibari é sempre cansativo, e sei que se não formos persuasivos ele recusará e ainda enviará sua negativa por intermédio de Kusakabe — O homem de cabelos prateados sentia as pernas tremerem. A vontade de deixar aquela sala era enorme — Peço desculpas por recusar seu convite, Jyuudaime, mas desejo que tenha um excelente almoço.

O Décimo Vongola agradeceu o trabalho árduo por parte de seu braço direito, e mesmo entendendo, quando Gokudera deixou a sala de reuniões acompanhado de Kusakabe, Tsuna não pôde evitar pousar os olhos na direção de seu braço esquerdo. Yamamoto encarava a mesa com uma expressão séria que durou poucos segundos. Reborn pulou em seu ombro e começou a falar sobre o que comeriam, e então o sorriso retornou ao rosto do moreno.

Aparentemente Tsuna era o único naquela sala — com exceção do Arcobaleno — que sabia que alguma coisa estava acontecendo.

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Kusakabe era provavelmente uma das melhores companhias naquele momento. O braço direito do Guardião da Nuvem não fez pergunta alguma sobre a súbita decisão de Gokudera em acompanhá-lo. O Templo não ficava muito longe do escritório, e quando o carro estacionou, o homem de cabelos prateados quebrou o silêncio.

- Acredito que seja melhor retornar em outro horário. Hibari deve estar almoçando a essa hora.

- Hm... — Kusakabe olhou o relógio e sorriu — Ainda não. Kyo-sama vai almoçar fora essa tarde.

O Guardião da Tempestade retornou ao silêncio, subindo ao lado de Kusakabe. O assunto que ele teria de tratar com Hibari não era de extrema importância. Estar ali era apenas uma desculpa.

Os dois homens pararam ao mesmo tempo quando chegaram à entrada lateral do templo, encarando a figura que estava sentada na pequena escadaria. O braço direito do Guardião da Nuvem suspirou, avisando que Gokudera poderia esperar no escritório. Ele entraria e procuraria seu Chefe.

- O-Ok.

O homem de cabelos prateados aproximou-se, juntando as sobrancelhas. A pessoa que estava sentada sorriu.

Quantas vezes ele não vira aquele rosto enquanto permaneceu na Itália?

- Boa Tarde, Gokudera.

- Boa Tarde.

Dino voltou a encarar o chão e os dois permaneceram em silêncio.

- Hibari está? Eu preciso repassar algumas informações sobre a reunião de hoje.

- Não sei — O italiano virou levemente o rosto para a direção da casa de madeira em suas costas — Eu ainda não entrei.

Os olhos verdes do Guardião da Tempestade se apertaram.

Qual o problema daquele dia? As pessoas estavam agindo estranhamente. Dino era um poço de entusiasmo, mas naquele momento parecia possuir uma nuvem negra em cima de sua cabeça.

O Chefe dos Cavallone ficou de pé, passando a mão nos cabelos.

- Todos os Guardiões participaram da reunião?

A pergunta não pareceu ser feita de maneira desinteressada.

Talvez fosse algo no tom de voz, ou talvez a maneira como os olhos cor de mel que o encaravam pareciam querer saber de alguma coisa em especifico. Havia algo não muito bom se passando pela cabeça de Dino. Gokudera teve certeza disso ao perceber como seus lábios se transformaram em uma fina linha quando o louro ouviu a parte em que Chrome chegou acompanhada por Kusakabe.

- Entendo. Tsuna está feliz por retornar. Ontem jantamos juntos e ele parecia encantado por estar em Namimori — O italiano bateu levemente a calça — Bem, melhor eu ir agora. Boa tarde.

O Chefe dos Cavallone sorriu, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, a pessoa que aparentemente ambos esperavam surgiu.

Hibari deixou a casa de madeira trajando um kimono negro. A expressão em seu rosto estava séria como sempre, e por um instante Gokudera sentiu-se deslocado.

- Ouvi que você gostaria de falar comigo — O Guardião da Nuvem mal olhou para o homem de cabelos prateados, mesmo a pergunta tendo sido direcionada a ele.

- Eu preciso repassar os relatórios referentes à reunião — Gokudera não se deixou intimidar. Ao contrário do Jyuudaime, ele não via problema em dialogar com o moreno. A indiferença de Hibari não o assustava.

- Vocês parecem ocupados e eu preciso voltar ao meu trabalho — Dino meneou a cabeça na direção dos dois Guardiões, afastando-se.

O moreno virou-se na direção de Gokudera, e por um momento ele desejou que o louro tivesse permanecido. O ar ao redor do homem a sua frente pareceu estranhamente pesado, e a maneira impaciente como Hibari pediu que ele o seguisse apenas confirmou as suspeitas de que alguma coisa estava acontecendo.

Respirando fundo, o braço direito do Jyuudaime caminhou na direção do escritório do Templo, deixando de lado os problemas que não lhe pertencessem. Ele já tinha sua cota de lixo pessoal para lidar.

O humor de Hibari não melhorou durante o tempo que os dois Guardiões discutiram (aka Gokudera falou, o moreno ouviu e suas respostas foram sempre "não"). Seus olhos passavam pelos relatórios, mas não havia nenhum tipo de expressão ou emoção.

O silêncio entre eles demonstrava que não importasse o quanto falasse, Gokudera teria de esperar alguns dias até receber uma negativa oficial. Ele não desistiria e provavelmente retornaria, mas a função daquela visita fora somente a desculpa de não almoçar com o restante dos Guardiões, então não havia mais nada que o prendesse ali.

O Guardião da Tempestade agradeceu o tempo e atenção de Hibari, ficando de pé e caminhando em direção a saída, arrastando a porta de madeira.

- Hibari!

A porta foi arrastada com pressa por alguém do lado de fora.

O homem de cabelos prateados deu um passo para trás, assustado com a aparição repentina de Ryohei. Seus olhos pousaram no relógio, ficando surpreso por perceber que passara muito mais tempo no Templo do que imaginara.

- Saiam — O Guardião da Nuvem ficou de pé, lançando um olhar não muito feliz para os dois intrusos em seu escritório.

- Oh! Olá Gokudera — Ryohei sorriu animado — Você perdeu um excelente almoço! Tsuna pagou por tudo.

- E tenho certeza de que como bom sanguessuga você aproveitou — O Guardião da Tempestade apertou os olhos. Como aquele idiota ousava se aproveitar do Jyuudaime?

- Hey, o convite foi feito por ele! Mas, deixando isso de lado, eu apenas vim entregar isso — Ryohei aproximou-se de Hibari, entregando um envelope — Como passo por aqui para ir até minha casa Chrome pediu que eu entregasse.

Os olhos verdes de Gokudera pousaram instintivamente no Guardião da Nuvem. A figura de Dino surgiu em sua mente, e mesmo que nada parecesse relacionado, naquele momento ele sentiu como se o motivo que estivesse incomodando o Chefe dos Cavallone fosse um dos Guardiões da Névoa.

- Bem, eu preciso retornar agora. Hana está me esperando — Ryohei aproximou-se de Gokudera — Se quiser posso lhe dar uma carona. Sua casa fica no caminho.

O braço direito do Décimo negou o convite, apenas para se ver arrastado pelo agitado Guardião do Sol. Os dois deixaram o Templo e o mau humor de Hibari para trás, e exatamente o que seu anel representava, a presença de Ryohei contrastava muito com a indiferença do responsável pela propriedade.

- Você deveria ter ido ao restaurante, Gokudera, foi divertido ao extremo!

Os olhos do Guardião da Tempestade se reviraram nas órbitas. Aqueles seriam os dez minutos mais longos de sua vida.

- Mas tudo bem, tudo bem! Você perdeu uma oportunidade preciosa para conhecer pessoas novas! Tsuna convidou minha irmã que estava com algumas amigas da Universidade, e uma coisa levou a outra e no fim éramos um grupo enorme — A atenção de Gokudera de repente estava totalmente naquela conversa — Kyoko tem algumas amigas interessantes, talvez você gostasse de conhecê-las.

- Não, obrigado. — A conversa voltou a não ter nenhum tipo de atrativo. O homem de cabelos prateados não acreditava que Ryohei estivesse realmente tentando apresentá-lo a alguma garota alheatória.

- Por quê? Tsuna disse que você está solteiro. E eu perguntei várias vezes para garantir — O Guardião do Sol ria — Você deveria seguir o exemplo do Yamamoto. No começo ele estava todo "Não, não hahaha", mas você precisava ver como ele conversava animado com a Yuu-chan.

A chegada ao carro de Ryohei coincidiu com a parada brusca por parte de Gokudera.

Quando aquela última parte entrou por seus ouvidos, sua reação foi quase cômica. Seus lábios se entreabriram em um meio sorriso, e suas sobrancelhas se juntaram. Ele não ouvira direito. Yamamoto saindo com uma garota? Não naquela dimensão.

- Eu sei, parece totalmente improvável, mas eu estou falando a verdade — O Guardião do Sol abriu à porta do carro, completamente alheio a briga interna que o homem a sua frente travava — É a primeira vez que ouço qualquer tipo de boato de que o Yamamoto esteja namorando. Se ele já saiu com alguém antes então escondeu muito bem. Mas vamos, entre... Gokudera? Gokudera?

O homem de cabelos prateados desfez o meio sorriso, entendendo rapidamente que aquilo não fora uma brincadeira.

O moreno dissera que estava ótimo, não? A maneira despreocupada, o jeito sorridente e animado eram os mesmos. Se Yamamoto conseguiu voltar a sua rotina comum, isso poderia incluir ter outra pessoa em sua vida.

Ryohei chamou sua atenção várias vezes, mas tudo o que Gokudera conseguiu fazer foi agradecer a carona, inventando uma desculpa qualquer, seguindo automaticamente para o outro lado da rua. Seu carro ficara no escritório do Jyuudaime, então a única forma de chegar a sua casa seria de taxi ou caminhando pelo menos vinte minutos.

Ao ver o carro do Guardião do Sol se afastar, o braço direito do Décimo pegou o primeiro taxi que passou, pedindo para ser dirigido a uma parte em especial de Namimori.

A corrida não durou nem dez minutos, e foi paga sem que o Guardião da Tempestade olhasse para o dinheiro. Suas pernas o levavam pelas ruas estreitas, e ao encontrar o que procurava, o coração de Gokudera bateu mais rápido.

Ao contrário da Itália, não existiam muitos bares que abriam durante o dia em Namimori. Porém, uma das primeiras coisas que ele fez ao retornar ao Japão foi checar os locais que poderia frequentar, sabendo que em algum momento teria de recorrer ao hábito que adquirira nos últimos meses.

O local parecia de alto nível, e ao sentar-se no balcão e pedir sua bebida, o Guardião da Tempestade fechou os olhos e respirou fundo. Seu corpo tremia, seus pés mexiam-se no apoio da banqueta e suas mãos tamborilavam por cima do balcão. A impaciência misturava-se com a angústia e o medo.

Era preciso tirar de sua mente a imagem de Yamamoto ao lado de uma mulher.

- Pelo menos não vou beber sozinho.

Gokudera abriu os olhos no mesmo instante, reconhecendo a voz.

Ele entrara tão rápido e perdido com seus próprios pensamentos que não notara nada além da banqueta vazia e da possibilidade de esquecer as palavras de Ryohei o quanto antes.

Sentado ao seu lado estava o Chefe dos Cavallone, com a mesma expressão triste que demonstrou no Templo. Um pouco afastado Gokudera viu Romário e alguns subordinados do italiano.

Dino nunca foi a pessoa favorita do Guardião da Tempestade. O jeito e personalidade do louro às vezes o lembravam de Yamamoto, e ultimamente aquela semelhança não lhe trazia boas recordações. Entretanto, ao se dar conta que os dois estavam sentados lado a lado em um balcão de bar àquela hora do dia fez com que ele sentisse um pouco mais de simpatia pelo Chefe dos Cavallone.

Virando o conteúdo de seu copo em um único gole e pedindo uma segunda rodada, Gokudera sorriu triste para si mesmo. Aparentemente ele não era o único homem patético em Namimori cuja vida pessoal parecia ter sido jogada no lixo.

Continua...