Notas iniciais
Perdão pela demora. Na verdade o autor do diário deixou vários capítulos prontos comigo (é a Scarlett Mayfair), mas eu demorei a postar. x.x

I)

Após Müller ter me explicado algumas mudanças que haviam ocorrido, pois ele ansiava em me levar diretamente a mulher que havia me acordado, tracei um plano — um plano de vingança exatamente. Primeiro contra os meus descendentes que apenas procuraram meu corpo para destruir-me, para se tornarem independentes. Müller contara-me que havia um vampiro qualquer, um francês chamado Louis Delacroix, que dizia que havia me matado. Segundo o francês, ele havia achado meu corpo adormecido nas Terras Altas da Escócia — debaixo de uma crosta de gelo — e havia me incendiado; um fogo que foi possível ver de Glasgow no século XIV. Ele é um herói entre os meus descendentes, um participante ativo do Senado. Desprezível. A vingança é também contra os descendentes da minha irmã Brujah, e contra ela própria — se estiver viva ainda. Traição. Minha vida foi permeada de traição. Após a destruição da Segunda Cidade, fugi para as estepes de onde hoje é a Ucrânia. Lá vivi como um deus, alimentando-me quando queria e aterrorizando os mortais que lá viviam. Foi lá que recebi o nome de Koshchey, o Deus Imortal, aquele que aterrorizou o Cáucaso junto com sua mulher Baba Yaga, a que devorava os impuros de coração. Baba Yaga era uma vampira, minha filha-esposa que me acompanhava na dominação das estepes. Não era esse seu nome, apenas a denominação popular para tão temível mulher. Nunca nenhum mortal a vira caçando, mas a ela foi dada uma horrível descrição que não fazia jus a sua beleza. Myriam, seu nome verdadeiro, tentou me matar para sozinha dominar aquelas terras férteis. Falhou. Morreu tentando.

Abandonei as estepes, mas minha figura ficou no folclore daquele povo. Andei por toda a Europa, lugares hoje que anseio ver. A atual geografia denomina os lugares que eu andei como Romênia, Hungria, Áustria, Alemanha, Itália, Croácia, Suíça, França, Espanha e por fim as ilhas da Grã-Bretanha e Irlanda. Na Grã-Bretanha me instalei novamente, após anos de nomadismo que me cansaram. Ajudei no desenvolvimento daquele povo, e mais uma vez fui tido como um deus. Entretanto, não estava só na vida imortal. Não que houvesse vampiros descendentes de meus irmãos, mas havia a presença de bruxos; os druidas, homens poderosos com quem mantive certa cautela. Mortais são apenas para alimentação, mas eles tinham poderes, e isso era perigoso. Fui conhecido como Donn, o solitário deus dos mortos. Não tive filha-esposa, mas um séquito de filhas para minha própria proteção e para de uma maneira me consolidar na ilha. Os druidas as chamavam de banshees, as mensageiras da morte, que com seu grito, anunciavam a morte de alguém. Assim, convivi pacificamente com os outros imortais das ilhas britânicas, com alguns conflitos, em que morriam uns druidas ou filhas minhas, mas eram rapidamente substituídos. Não os via como pessoas ou queridos meus, apenas como objetos que podiam ser mudados. Até que os romanos chegaram.

Müller me dissera que os ventrues, como são chamados meus descendentes, ajudaram na ascendência do Império de Roma, mas meu primeiro contato com eles aconteceu quando uma mulher, Boudicca, reinava entre os povos do centro-leste da Inglaterra. Müller me garante que uma de minhas filhas tenha fugido; talvez isso seja verdade, não me importava com elas. Se fugissem ou não, mal me importaria. Boudicca se rebelou contra os romanos, mas eu os ajudei a fundar as cidades de Londres, Aquae Sulis, Lindinis, e a estabelecerem rotas comerciais. Assim feri o orgulho de Boudicca e dos druidas. Mataram minhas filhas, incendiaram Londres e expulsaram os romanos. Vinguei minhas filhas; não por amor, óbvio, mas por puro ego machucado. Entreguei as táticas de Boudicca e o santuário secreto dos druidas em Ynys Mon em Cymru. Suetônio Paulino, governador romano responsável pela província da Britânia, derrotou as tropas celtas no centro da Inglaterra e ordenou que os centuriões invadissem os bosques sagrados de Ynys Mon. Druidas entraram em decadência, os romanos se estabeleceram e novas religiões entraram na ilha, assim como novos vampiros. Segundo Müller, uma conspiração entre vampiros de Brujah e druidas remanescentes tentou me matar com uma poção fatal, mas minha filha que havia fugido para Roma me encontrara, e me deu seu sangue. A diablerie impediu a minha morte, mas entrei em profundo estágio letárgico. Minha filha fez uma ordem secreta para cuidar de meu corpo, entregando-o a feiticeiras aliadas que o levaram para as terras geladas de onde hoje é a Rússia. A partir daí, os herdeiros de meu irmão Lasombra dizem que me mataram na Revolta da Segunda Cidade, os descendentes de Brujah dizem que me mataram na Londres antiga e o francês Louis Delacroix diz que me matou na Escócia.

Müller seria um servo fiel. Minha filha tem seu paradeiro desconhecido, e a tal mulher que ordenara meu despertar, uma anciã de mil anos, não é confiável, apesar de não conhecê-la. Viveu tempo demais para ser corrompida pela sede de desejo e poder que está no meu sangue. Não estaria vivo se não fosse por ela, entretanto, ela pode ameaçar minha sobrevivência. Estou deitado no caixão de ébano em um jato particular dela, indo para Berlim. É lá que irei resolver os negócios pendentes com ela. A morte dela não pode acontecer por minhas mãos. Algum caçador de vampiro poderá fazê-lo nas devidas condições que irei ofertar. Ela compreenderá. Deu seu sangue para me acordar, agora dará sua vida.

Não irei olhar para o passado. É entediante. Irei olhar o futuro. Minha dominação se estendendo pelo globo, eliminando cada inimigo meu na surdina da noite, nas sombras mais sutis. Müller mandou meu filho não-vampiro para o novo centro de poder do mundo. Ele ainda não me explicou a geopolítica atual, estou por fora. Não há mais Roma, Egito ou Índia, mas sim, países estranhos. Tanta coisa mudou. Nações e terras que eu nunca imaginei existir. Línguas que eu tenho de aprender. A Língua Antiga foi preservada pela ordem que guardou meu corpo. A morte deles significa a quebra com o passado, tudo que eu realmente preciso.

- Senhor, o jato está pousando – Andropov veio me alertar.

As maravilhas da modernidade. O homem voando pelos céus com segurança. Nunca consegui imaginar isso. Nem os bruxos e magos eram capazes disso. Apenas as lendas falavam de tais fatos. Tudo mudado. Os antigos escreveram sobre magia e objetos mágicos. Muito é possível hoje, e será possível depois.

-Berlim está à sua frente, senhor – o serviçal falou se reverenciando a mim.

-O feitiço dos druidas me colocou para dormir muito cedo. Gostaria de ter visto esse mundo contemporâneo se erguer. Essas luzes, essa tecnologia, tudo é surpreendente. No meu tempo, tenha certeza que isso foi há muito tempo, a República de Roma era o nosso maior centro de poder. O Senado era dominado por Ventrues, minha linhagem se dedicava a arte da política e do poder. Quais são os centros de poder de hoje, Müller?

Müller ficou orgulhoso da tarefa que eu havia dado a ele de me explicar a geopolítica do mundo atual em meia hora. Ele se dirigiu a um armário no jato, e pegou um mapa. Foi para uma mesa e o abriu lá e me chamou.

Achei curioso. Já havia visto mapas maiores que esse que comportavam apenas uma parte do mundo de verdade. Nos mapas da minha época, só podia ver um pedaço da Europa, o Oriente próximo e a África do Norte. No mapa que Müller estendeu na mesa, havia várias terras e continentes desconhecidos. Meus olhos brilharam de excitação.

-Que língua é essa, Müller?

-Alemão, senhor. Entretanto, a língua predominante é a língua inglesa.

-Anglorium? Desconheço esse nome no latim.

-Os anglos, os jutos e os saxões foram povos que invadiram a sua Britânia em um período posterior e a conquistaram; da miscigenação deles com os celtas locais, nasceram os ingleses, e sua língua é a dominante.

-Sempre soube que minha ilha seria um lugar próspero – sorri de satisfação.

Müller concordou prontamente:

-Pode ter certeza, senhor. A sua ilha foi terra de rainhas e mulheres fortes. Desde a Boudicca que lhe sabotou, a Elizabeth Tudor que fez a Britânia numa potência marítima e comercial até Vitória Hanôver que fez o maior império já conhecido. Entretanto, hoje a Grã-Bretanha é decadente, apesar de Londres ser um dos cinco centros financeiros do mundo atual. Nós, Ventrues, controlamos todos.

-Londres sempre foi uma cidade promissora. Boudicca a incendiou na sua revolta contra Roma.

-Londres sofreu ainda outros ataques, senhor, mas posso contar isso em outro momento.

Ele apontou para um país num continente grande, que era maior que Europa e África juntas.

-Esse é o continente americano.

-América... – pronunciei esse nome com sabor.

-Sim. Os Estados Unidos são a principal nação, ao lado do Canadá e do Brasil. O Canadá, entretanto, tem poucos habitantes e nenhum centro urbano realmente forte. O Brasil, por sua vez, possui grandes cidades e uma grande floresta, uma das únicas que restaram, mas é assolado por desigualdade social e violência. Há também o México: parecido com o Brasil; e a Argentina e o Chile, uma mistura de Brasil com Canadá. É um continente bem excêntrico, senhor.

-Nesse continente, nós controlamos Nova York, Chicago e Miami, nos Estados Unidos; Toronto e Vancouver, no Canadá; São Paulo e Brasília, no Brasil; Cidade do México e Guadalajara, no México; e Santiago, no Chile. Há outras cidades, claro, mas essas são as que possuem os maiores Diretórios Ventrues. O Senado Ventrue Continental está em Richmond nos Estados Unidos, uma cidade também controlada por nós.

Müller foi me explicando — em uma visão geral — o domínio de minha linhagem pelos cinco continentes, e a guerra vampírica pelo continente gelado da Antártica. Aprendi rápido a nova geopolítica e queria me encontrar logo com Anna van der Graaf, a provável vampira que me acordou. Nunca havia estado tão ansioso na vida, tão cheio de perguntas; não parecia um ser de mais de dez mil anos de idade, um ser que o tempo não havia maculado. Eu havia nascido de novo, estava com a curiosidade e a sede de conhecimento de uma criança. Estava em outro mundo, e estava me sentindo frágil por não o reconhecer. Não sabia quem realmente estava ao meu lado. O que Müller realmente era, o que Anna van der Graaf achava que podia fazer comigo, de qual lado meus filhos estão e onde estão meus irmãos, e o que houve com eles após a revolta do Tenebroso na Segunda Cidade.

Eu era uma criança poderosa. Uma criança que devia ser mimada por todos aqueles que sabiam de minha existência, porque dentro dela há um grande poder que pode ser liberado a qualquer hora, mas ao mesmo tempo uma criança que não reconhece o terreno onde pisa, as línguas que são faladas nesse mundo novo. Doía no meu orgulho admitir que precisava de Müller e de Anna van der Graaf, e de qualquer ajuda que me chegasse. A única coisa que havia feito desde quando eu me acordei foi me alimentar de crianças, fazer uma delas meu filho mortal e viajar em uma máquina voadora para uma cidade desconhecida com língua nova. E tudo que eu mais queria era ver o semblante de Caim novamente e escutar suas palavras sábias e de conforto, para evitar as profecias de Malkav. As profecias que ele havia me dito antes de eu sair a procura de Caim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.