Tlw - Capitulo 1: 2008
1 Capítulo 1 A história dos Adiemla (parte 1)
Dia 12 de Dezembro de 2008, Sexta-Feira. 22h10min h
Era uma salinha feia e mal-mobiliada. O lugar era sem duvida espaçoso, haviam três sofás grandes e carcomidos por traças e uma televisão quadrada e antiga em cima de uma estante cheia de livros. Uma lâmpada incandescente de 100 Watts brilhava com força no teto, espalhando uma claridade laranja por todo o local e ressaltando as infiltrações nas paredes. No lugar haviam apenas dois rapazes, sentados em sofás diferentes. Um deles era baixo e muito gordo, a ponto de suas pernas lembrarem dois toquinhos. Tinha o rosto redondo e cabelos lisos, cor de palha, cortados em forma de cuia, e olhos redondos e castanho-escuros. Seu rosto ainda conservava alguns traços infantis, o que mostrava que ele não devia ter mais de 15 anos. Seu nome era Paulo. O outro era ligeiramente mais alto e muito mais magro. Tinha cabelos encaracolados, negros e curtos e olhos castanhos, além de um nariz ligeiramente grande. Seus braços eram finos como a maioria dos garotos de idade dele, que era de exatamente 15 anos e nove meses. Ele estava sentado no sofá com as pernas cruzadas como se fosse meditar, e sua expressão era séria e ligeiramente sonolenta. Seu nome era Daron, e ele é um dos personagens mais importantes do qual falaremos nessa história.
__Então Daron, tem uma coisa que você nunca me disse. _Disse Paulo, mirando desinteressado o teto. __Por que você veio morar aqui em Ubatuba? O que aconteceu com a sua família?
__É uma longa história. _Disse Daron, ainda sério. __Vai demorar muito para eu te contar tudo, e já ta tarde.
__Deixa de ser chato cara... _Disse Paulo, abaixando o olhar para Daron.
__Pois bem, preste atenção, vou te contar então. Tudo aconteceu no dia 13 de Setembro de 2002, numa sexta-feira, pelo o que eu me lembro._Disse Daron com sua voz grave, que contrastava com a sua aparência frágil e infantil.
__Que massa, foi numa sexta-feira treze. _Disse Paulo, sorrindo e se ajustando mais confortavelmente no sofá cheio de buracos.
__Pois bem. Era um dia muito frio, o céu estava nublado e ventava muito. Às cinco da tarde parecia que já era noite. Eu e meu irmão Viktor saímos da escola, como fazíamos sempre, e fomos correndo para a casa, porque o nosso pai ia passar na TV..
. __Por quê? _Perguntou Paulo, interessado. Daron respirou fundo, pela angustia causada pela interrupção, e voltou a contar.
__O meu pai, Ricardo Adiemla, era dono de uma rede de academias de Karatê Kyokushin e Judô, que havia filiais em todo o estado de São Paulo. Ele foi chamado para lutar em um evento de MMA, entende?
__O que é isso cara? _Perguntou Paulo. __Vale-Tudo, seu burro. Você mora em um lugar aonde você acorda, treina luta, toma banho, vai pra escola, treina luta de novo e vai dormir e não sabe o que é MMA? _Disse Daron. A burrice de Paulo o assombrava às vezes.
__Você é que é que sabe demais, cara. _Disse Paulo. __Não sou uma biblioteca ambulante como você.
__Não é necessário ser uma biblioteca ambulante para saber o que é MMA. _Disse Daron, com um leve desdém na voz. __O próprio Mauricio participa de campeonatos disso, e você vê ele todo dia.
__Infelizmente. _Disse Paulo, azedo. Mauricio Torres, o dono desse casebre onde os dois e mais alguns rapazes moravam, decididamente não era conhecido por sua bondade e nem pelo seu bom humor. Pelo menos não entre os moradores do casebre.
__Então, como eu ia dizendo, o meu pai foi convidado para participar de uma luta de MMA, por que ouviram falar que ele era muito bom, e era mesmo. Ele bateria em nós dois juntos com uma mão só... _Disse Daron, mas novamente foi interrompido.
__Só se for em você. _Paulo disse, com um sorriso sapeca. Daron sentiu mais um assomo de raiva, e novamente respirou fundo antes de responder.
__Poderia fazer a gentileza de parar de me interromper? Se não eu não termino isso hoje, a história é grande, eu já disse.
__Está bem, está bem... _Disse Paulo, resignado. __Mas, posso lhe fazer uma pergunta?
__Faça. _Disse Daron.
__Todo esse mau-humor é nervosismo? Daron pensou bem antes de responder. __Talvez seja. Eu passei seis anos aqui para ganhar o tal medalhão e amanhã será o dia em que eu verei se sou eu que o mereço. _Admitiu ele.
__Fica de boa. _Disse Paulo. __Continue. __Pois bem, meu pai ia lutar com um homem chamado Gong Fedorov, que já tinha sido campeão mundial. Pois bem, eu e Viktor chegamos em casa e sentamos no sofá. Nosso irmão mais velho, o Janick, já estava lá assistindo. Ele não havia ido à aula porque estava gripado, e... __Seu pai era bem criativo ao nomear os filhos, hein? _Disse Paulo, sorrindo. _Continue.
__O que você quis dizer com isso? __Perguntou Daron. __Nada não... Continua logo. _Paulo disse, deixando claro que não queria deixar o amigo ainda mais nervoso. _
_Ok... _Disse Daron, desconfiado. __ Pois bem, meu pai lutou contra esse cara, que por sinal, devia pesar mais do que nós dois juntos, e venceu. Foi uma vitória e tanto, e pelo o que eu ouvi falar, perder para um iniciante fez esse tal Gong perder toda a moral que ele tinha no mundo das lutas, parece que ele se aposentou totalmente desacreditado depois de algum tempo. Enfim, aquele foi um resultado totalmente inesperado, ninguém acreditava que meu pai venceria, mas ele venceu. Pois bem, eu e meus irmãos ficamos farreando em casa após assistir a luta, esperando o pai chegar, até que ele chegou. Assim que ele chegou, começou a chover, me lembro como se fosse hoje...
__Como era seu pai? _Perguntou Paulo. Daron abriu a boca para responder, mas pensou melhor.
__Como ele era em que sentido? _Perguntou ele. __Fisicamente ou na personalidade?
__Nos dois, cara. _Disse Paulo. __Bom, fisicamente ele era bem diferente de mim. Ele tinha uma estrutura óssea muito maior que a minha, como o meu irmão Viktor. Eu puxei à família da minha mãe nesse sentido. Ele tinha a pele clara, olhos castanhos, cabelo igual ao meu, e era bem alto, devia ter no mínimo um metro e oitenta e cinco de altura e pesava mais de noventa quilos facilmente, por que ele lutou na categoria peso-pesado contra Gong. _Disse Daron, pensando.
__Mas e a personalidade dele, como era? _Perguntou Paulo. __Ele era uma pessoa muito legal. Nunca bateu em nenhum dos filhos, e sempre nos educou muito bem, nos ajudava nos estudos, brincava com a gente e nos ensinou o que significava ser homem. Era um bom pai. _Quando disse isso, sentiu sua visão embaçar, e por isso apertou os olhos. A lembrança de seu pai, apesar de já ter seis anos, ainda permanecia horrivelmente fresca em sua mente.
__Então ele está...
__Sim, ele está morto. _Disse Daron secamente, voltando seu olhar para baixo. __Mas como ele...?
__Se você me deixar continuar a história, você vai ficar sabendo. _Disse Daron. __Pois bem, nosso pai chegou em casa à noite já, e chovia muito, trovejava, ventava e fazia um frio que eu jamais senti igual em toda a minha vida. Parecia que o tempo estava refletindo o que viria a acontecer algum tempo depois. _Daron parou de falar e se levantou.
__Vai aonde? _Perguntou Paulo, surpreso.
__Beber água. Contar isso está me dando sede. _Disse Daron.
__É claro que está você fica o dia inteiro calado, qualquer coisa que você fala te dá sede. _Disse Paulo. __Mas vai lá.
__Hum. _Grunhiu Daron. Ele saiu andando pelo corredor em direção à cozinha, que era quase tão feia quanto à sala, mas pelo menos tinha azulejos na parede para tapar as infiltrações. Ele encheu o copo de água e bebeu em um só gole. Sinceramente, ele odiava que pessoas ficassem falando que ele devia falar mais. Esse era o jeito dele! Como se falar muito fizesse alguém melhor. Era assim que ele pensava. Daron passou as mãos pelo rosto, cansado, voltou ao corredor e sentou-se no sofá.
__Vamos, continue. _Disse Paulo, ansioso. __Quero saber!
__Está bem, está bem, eu vou continuar, não precisa ficar falando isso toda hora. _Disse Daron, zangado. __Meu pai aproveitou que nós teríamos de ficar sem ligar nenhum aparelho elétrico por causa da tempestade que caia lá fora, e começou a nos contar a história da vida dele.
__Você tinha razão quando disse que ia demorar. _Disse Paulo. __E eu também tinha razão quando disse que você é um idiota. _Disse Daron. __Pede para eu contar o porquê de eu morar aqui e agora reclama que está demorando?
__Deixa de ser chato, continua aí. _Disse Paulo. __Eu irei. _Disse ele. __Meu pai contou que quando era rapaz, e tinha que trabalhar de servente de pedreiro para sobreviver...
__Detalhes inúteis. _Disse Paulo.Daron revirou os olhos. __Como eu ia dizendo, o meu avô, pai do meu pai, havia morrido em um acidente de caminhão, e a minha avó estava de cama, também muito mal, por causa de um câncer no útero, eu acho. E por isso, meu pai, que tinha uns dezesseis anos na época, e o irmão dele, o Renato, que tinha uns quinze, tinham de trabalhar de servente de pedreiro para sustentar a casa, enquanto a tia Rebeca, que era a irmã mais velha, cuidava da mãe doente. Os três estudavam, e mesmo com tanto trabalho, ainda conseguiam um bom desempenho nos estudos. Pois bem, um dia o meu pai..
. __Como eram os seus tios? _Perguntou Paulo. __E o que aconteceu com eles? Por que você não foi morar com eles? Eles também estão mortos?
__Acho que eles não estão mortos, mas não posso ter certeza, pois perdi o contato com todos eles desde que vim morar aqui. _Disse Daron.
__E porque você decidiu vir morar aqui? _Perguntou Paulo, com um tom de voz que sugeria que o amigo fosse retardado por ter feito tal escolha. __Não fui eu quem decidiu aonde eu iria morar. _Disse Daron, erguendo uma sobrancelha __Eu tinha nove anos, você acha que uma criança de nove anos tem poder de decidir aonde vai morar?
__Ah, é. _Disse Paulo. __Desculpa aí. Mas, mal me pergunte, por que te mandaram morar aqui?
__Nem eu sei ao certo. _Daron falou em tom conclusivo. __Então, um dia o meu pai conheceu um homem chamado Greyhound, que se tornou amigo da família e começou ajudar meu pai nas despesas. Meu pai e o tio Renato puderam diminuir a quantidade de trabalho e se dedicar mais aos estudos.
__Isso me soa meio suspeito. O cara aparece do nada e começa a ajudar a sua família de graça? _Perguntou Paulo, coçando a cabeça.
__Não. O que ele pediu em troca foi a oportunidade de ensinar algo chamado “estado ascendente” ao meu pai, pois disse que ele tinha a genética certa pra isso. _Falou Daron, com uma careta.
__Isso decididamente é estranho. Que diabos é esse tal “estado ascendente”? E como ele poderia saber da genética de seu pai? _Disse Paulo, começando a rir. __Essa história está muito tosca cara.
__Meu pai me contou exatamente assim, por mais estranho que pareça. _Disse ele, dando de ombros. __Mas não vou fingir que não achei estranho quando ele contou. Então, como eu ia dizendo, meu pai aceitou o trato e foi aprender o tal “estado ascendente”... A porta do casebre se escancarou e um vento gelado varreu momentaneamente a casa até que o vulto alto de Mauricio Torres se esgueirou para dentro e cerrou a porta...
continua...
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