Tipsy
1 Tipsy — capítulo único
Era tão fácil apenas sentir, escutar atentamente, cada batida de um coração pulsando o sangue vermelho rubro pelas veias de um corpo qualquer, era tão simples e natural que ela sequer se lembrava de um momento onde essa não fosse uma constante em sua vida.
Fora assim desde que encontrara aquele pardal morto no jardim de casa. Seus instintos pareciam saltar agitando seu corpo pequeno, a levando até a ave no gramado. Parecia ser apenas um filhote que deveria estar tentando voar pela primeira vez, mas ela nem conseguia se importar ou sequer sentir pena, dirá nojo, quando tudo que suas retinas conseguiam processar era o vermelho rubro que pintava a ave mirrada. Era tão bonito, o marrom das penas sequer fazia justiça ao rubro que o pequeno pardal tinha por dentro. Seus dedos mal conseguiram se controlar, tremiam enquanto tocavam a cor vibrante e a levavam a ponta de sua língua.
Talvez aquele fosse o começo.
O começo da constante de sua vida.
Do tormento da dúvida. De ser repreendida por seus pais e de ter olhares desgostosos voltados somente para ela, quando provara do sangue de um colega de classe.
Mas era assim tão errado o que ela havia feito? Afinal, ninguém era como ela? Ninguém passava por aquilo? Ninguém sentia aquilo, aquela coceira, aquela vontade repentina? Ninguém nunca desejou pelo sangue alheio numa inclinada de pescoço, como ela sentia?
Nesses momentos Himiko gostaria de poder realmente sentir algo. Culpa talvez. Ressentimento pelo asco que causava nas pessoas, mas a verdade é que ela não sentia coisa alguma, nada além do desejo por sangue quente.
Só depois ela entendera que sua sede era induzida por sua quirk.
Que se não fosse pelo sangue dos outros ela não conseguiria descobrir que poderia ser quem ela quisesse, quem ela amasse. E isso só com algumas gotas de vermelho rubro.
Um vermelho rubro com a genética exata de qualquer outra pessoa.
Himiko não queria apenas o sangue, o alívio de seus neurônios, o prazer de seu paladar. Ela queria poder amar a todos completamente. Ela queria poder ser quem ela amava.
E ela amava o sangue das pessoas que ela amava.
Era um sentimento que ninguém entendia.
Que seus pais não entenderiam nem se tentassem.
E que se danasse o que as outras pessoas pensassem, ninguém dizia nada além de pedir por clemência quando tinham um estilete apontado em direção ao rosto. O suor escorrendo em bicas pela testa, deixando um gosto ruim quando ela conseguia verter o vermelho na lâmina e os olhos amedrontados quase vermelhos, quase pulando para fora em medo puro e cristalino.
Era algo que a fazia vibrar, mesmo quando levava alguém a óbito.
Era difícil controlar seus instintos quando decidira que controlá-los não era o certo.
E ninguém realmente saberia quem ela era, pois Himiko Toga só existia por fora. Nos olhos vidrados, no cabelo opaco e nas roupas de colegial. No nome pelo qual a polícia a chamava quando achavam que a haviam pego. Pois por dentro, Himiko Toga deixava de ser uma para ser vinte, trinta e quantas pessoas mais ela quisesse ser.
Seu sangue não deixava de pertencer a ela, mas isso não a impedia de roubar o dos outros também.
Pois quando estava em uma multidão ela não via pessoas, ela ouvia o fluxo sanguíneo para depois distinguir cor, altura ou idade.
Aquilo a entorpecia.
Com um pouco de sangue ela tinha o mundo, ela se desconfigurava e era ninguém, tudo ao mesmo tempo.
Himiko não tinha um real interesse de ter algo além disso.
Talvez ter amigos servisse para preencher essa lacuna.
Se seus amigos não se importassem com sua necessidade primária então estaria tudo bem.
Ou ela encontraria algo mais excitante para fazer.
O importante para ela, naquele momento, era poder amar quem ela quisesse.
Todas as pessoas, todos os heróis e vilões e todo o sangue que eles poderiam lhe oferecer.
Tudo o que Himiko desejava era ter uma vida normal. Ser uma garota normal.
E ela não estava errada.
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