Notas iniciais
Postado no ao3, wattpad e spirit.

“Faça o favor de não se mexer tanto.” Zoro comentou quando encarou o loiro sentado na poltrona no meio da sala, falando sério como sempre fazia quando estava no meio do serviço.

“Como se eu quisesse estar aqui.” Sanji murmurou encarando o rosto dele que apenas o ignorou e voltou a focar na tela em sua frente. “Não me ignore!”

“Calado. Estou trabalhando, idiota.”

Uma coisa que Sanji aprendeu por ser amigo de longa data de Zoro, era que ele sempre ficaria mais quieto do que o comum quando estava em serviço. Ele poderia irritá-lo, xingar, atrapalhar, trocar as tintas de lugar ou ficar provocando com coisas bobas, mas Roronoa costumava se desligar do seu redor e focar apenas naquele pedaço de tela que ele tinha na sua frente. Coisa que poucas pessoas sabiam, para falar a verdade, apenas ele, Robin e Perona, que costumavam sempre estar perto dele ou das festas que ele era convidado a participar.

Exceto que aquilo não era o foco daquele dia ou daquela arte.

Zoro costumava ser detalhista. Extremamente detalhista. E isso resultava em ele passar trancado numa sala ou ambiente por horas, apenas para terminar uma tela ou um esboço. Sabendo disso e por sempre ser o primeiro a ver as pinturas dele, não desejava estar ali naquele momento. Pelo menos não naquele dia.

Não é que Sanji não gostasse de ser desenhado, visto ou admirado, pelo contrário, ele adorava ter uma atenção dedicada a ele, especialmente quando ela vinha do brutamontes. Mas desde quando ele fez a mastectomia, ele acabou parando de posar para Zoro, não por vergonha, mas porque não queria ter uma pintura sua onde precisasse ver com tanta frequência as cicatrizes que ainda eram visíveis em seu peito.

Ele não achava elas ruins ou que causava algum desconforto, apenas não gostava de ficar lembrando toda hora de sua existência. Mas Zoro pareceu tão focado em sua coleção nova daquela estação, que nem teve a chance de contradizer quando ele o convidou para pousar nas quatro novas pinturas dele — uma remetendo a cada estação do ano. Apenas ignoraria tudo aquilo e faria o que fosse pedido.

Sanji tinha seu olhar focado no Zoro em pé deixando o carrinho com os materiais que ele usaria. As tintas ele reparou serem novas, tendo uma variedade de tons e separados por cores, bem organizado. Tinha também novos lápis, novos carvões para usar no esboço e também solvente, óleo e duas telas extras caso precisasse.

Ele sabia que iriam começar com a estação de primavera, segundo Zoro, começar com a mais difícil de representar seria mais interessante, porque levaria mais tempo e como eles tinham aquela semana livre, ele conseguiria trabalhar nos retoques ou nas correções sem pressa. Sanji não achou ruim já que em troca de ficar horas sentado na mesma posição, ele devolveria usando todos os alimentos que o outro havia comprado fazendo os pratos das receitas novas que tinha começado a pensar em fazer.

Assim que Zoro terminou de arrumar as coisas mais perto de onde faria sua pintura, ele foi até Sanji, começando a acertá-lo em sua visão. Sanji usava uma camisola de seda laranja, aberta na frente com um cinto ainda solto ao lado do corpo. Zoro se abaixou na frente dele e isso fez Sanji querer provocar um pouco o idiota a sua frente.

“Se queria me convidar para uma foda, podia ter sido mais direto.” Sanji respondeu e sentiu as mãos do homem à sua frente segurando seu roupão. Ele revirou os olhos e empurrou com cuidado Sanji para encostar no apoio do sofá, levantando em seguida sua perna esquerda, a deixando dobrada em cima do sofá. Como combinado, Sanji havia ido apenas com o roupão para o sofá e ficaria com ele aberto enquanto Zoro fazia o esboço e pintava o seu corpo, para depois seguir para o fundo da tela.

“Fica quieto.” Zoro retrucou quando deitou o tecido fino entre os ombros dele, deixando o peito e o restante do seu corpo exposto. “Fique assim por um tempo, quando eu terminar o esboço pode se mexer um pouco e depois voltar desse mesmo jeito para eu terminar.”

“Tão sério…” Sanji revirou os olhos, mas sentiu-se aflito quando os dedos de Zoro passou por seu peito, deslizando o polegar nas duas cicatrizes no mesmo local. “Se ficar olhando demais vou começar a pensar que estou feio.”

Zoro o encarou irritado, mas revirou os olhos ignorando o comentário feito por ele. “Se quiser mudar a posição faça agora, quando eu começar o esboço, não pode se mexer.”

Zoro não deu tanta chance pro loiro continuar com as provocações, apenas saiu de perto dele e foi para seu banco, sentando no mesmo e pegando os carvões que usaria no esboço. Sanji ficou quase da mesma maneira que ele o ajeitou, mudou apenas a posição, deixando suas pernas mais abertas com sua intimidade mais exposta e deixando o roupão mais deitado entre seus braços, permitindo que seu corpo ficasse mais limpo.

Roronoa deixou seu olhar pelo corpo do loiro por mais tempo do que esperava e isso fez com que Sanji sorrisse quando seus olhos se encontraram, fazendo Zoro o ignorar e voltar à sua tela. “Vou começar.”

“Ok.”

Sanji não falou mais nada, apenas respirou da melhor maneira possível para não se mexer tanto. Seus olhos ficavam em cima dos movimentos que Zoro fazia enquanto suas mãos seguiam com o carvão pela tela, montando o esboço da arte final. Ele gostava de fazer pinturas e artes de Sanji, especialmente porque ele foi o melhor modelo que chegou a desenhar. Não por afinidade — diga-se lutas um pouco desproporcionais — ou porque ainda era apaixonado por ele, mas, porque Sanji conseguia se encaixar em qualquer tipo de arte, fundo, estética ou tema. Ele apenas parecia ser feito para isso.

E quando Sanji começou a se esquivar de qualquer tentativa dele de convidá-lo para posar, isso o irritou profundamente. Não entendia sobre o que incomodava o cozinheiro, mas não tentaria descobrir o que era, apenas o esperaria até que estivesse pronto para voltar a ser seu modelo frequente. Então começar com a estação da primavera, não era só porque era a mais complicada e sim por achar que talvez Sanji precisasse de uma repaginação para ele mesmo. Zoro podia ser esperto para algumas coisas envolvendo arte, espadas e lutas, mas lidar com sentimentos e pessoas, não era tanto seu forte quanto Perona lidava.

Mas de alguma forma, ele considerou usar a primavera em si, como uma ponte para o que Sanji estivesse precisando.

Quase uma hora depois, ele havia terminado o esboço, tanto do fundo do desenho quanto de como Sanji ficaria no centro. Estava de certa forma satisfeito, precisaria esperar o final dela.

“Posso me mexer?” Sanji murmurou deitando sua cabeça contra o sofá.

“Pode, vou começar a ajeitar o desenho e a pintar, se eu precisar que você volte a pose, eu aviso.”

“Tanto faz.”

Sanji continuou na mesma posição, não se moveu tanto, apenas relaxou mais sua bunda para mais próximo da ponta do sofá e encostou seu pescoço deitando sua cabeça no apoio. Seus olhos estavam observando e analisando cada movimento que Zoro fazia. Ele começou colocando as tintas nos recipientes ao seu lado, laranja, vermelho, verde, amarelo, rosa, amarelo e azul. Segurava entre suas mãos quatro pincéis, um mais volumoso, dois mais finos e um mais curto para preencher as linhas (como ele costumava chamar). Seus olhos não desviaram nenhuma vez da tela e Sanji percebeu que ele ficaria ali preso pelo menos nas próximas quatro horas.

Sanji respirou fundo quando percebeu a situação engraçada que se encontrava. Se alguém dissesse para ele, seis anos atrás, que ele pousaria para Zoro começar a treinar pintura porque estava precisando de um hobbie novo, ele teria acertado inúmeros chutes no rosto de quem falou. Mas hoje em dia, ele aceitava que isso ter acontecido foi a melhor situação onde poderia ter se encontrado. Além disso, ainda ganhou um companheiro de apartamento que mais dormia do que ele estava acostumado. Pelo menos o silêncio ajudava na apreciação dele em cozinhar em paz.

Com o tempo, ele foi se acostumando com a presença de Zoro em sua casa, comentários estúpidos cá e ali, vezes que ele fazia questão de roubar sua comida que ainda não fora servida, as cervejas praticamente trincando de gelada que eles dividiam de madrugada assistindo alguma série estúpida. Eram momentos que ele não deseja ter com outra pessoa, porque mesmo a existência de Zoro irritando o cotidiano de Sanji, ele gostava de ter a oportunidade de irritar o estúpido marimo.

Mas o que mais fez ele se apaixonar por Zoro, foram os convites nada esperados para ajudá-lo com as suas artes. Sanji teve uma parcela grande nas pesquisas iniciais dele e nas ótimas palavras no fracasso dele. Ele não costumava se irritar quando as pessoas falhavam, mas ver Zoro irritado e esquecendo da péssima arte que ele fazia, era a melhor opção que ele tinha nas mãos. Então ele não deixou de fazer isso.

E acabaram com essas ideias por longos dois anos, que foi quando Zoro realmente começou a ter resultados tão importantes e bons que surpreendeu não apenas Sanji, mas também seus amigos e as pessoas de fora, que começaram a querer mais das pinturas dele. Resultou em Zoro indo em eventos artísticos com frequência, que trouxe muito mais mau-humor para dentro de casa, já que ele não costumava ter sua rotina de doze horas de sono por dia.

Ele não achava ruim, porque dava mais brecha para ele o irritar, mas ele não assumiria isso.

Sanji acabou pegando no sono enquanto pensava em todos os momentos que eles tiveram juntos desde quando decidiram morar juntos no final do ensino médio, eram memórias boas, principalmente porque Zoro nunca o perguntava ou olhava de forma diferente, como alguns já fizeram. Ele apreciava mais isso do que qualquer outra coisa.

Roronoa já havia dito anos atrás que não entendia tão bem sobre o que ele falava daquele assunto, apenas faria o que ele pedisse em relação àquilo. E mesmo sendo o gigante que fosse, Sanji não achou ruim, até preferiu que fosse assim. Então quando ele comentou sobre a cirurgia e outras coisas que ele estava se preparando naquelas semanas e nos futuros meses, Zoro apenas concordou e fez o máximo que pôde para manter as coisas em casa da forma como sempre ficavam e o deixando mais tranquilo.

O que não deu tão certo, já que três dias depois em casa, Sanji já fez a vida de Zoro um inferno, ainda mais quando ele pedia coisas para comer e reclamava sobre como ele cozinhava.

Mas essa era a rotina que eles tinham.

Sanji acordou com a música conhecida por ele, mais por ouvir na biblioteca da Robin quando estava em suas tardes de leitura e ignorava a existência do resto do mundo. Ela havia emprestado parte de seus vinis para eles escutarem enquanto faziam suas rotinas ou seus trabalhos, já que sempre relaxavam quando ela deixava tocando em sua casa. Seus olhos voltaram direto a Zoro, vendo o homem limpar seus pincéis e suas mãos manchadas de tintas coloridas.

“Quanto tempo dormi?” Sanji perguntou esticando seus braços, movendo seu pescoço enquanto sentava corretamente no sofá.

“Algum tempo.” Zoro respondeu e voltou a olhar o quadro, passando um pedaço de lenço cautelosamente no meio da tela.

“Já terminou de pintar as linhas?”

“Já terminei o desenho inteiro.” Zoro sorriu fraco e encarou Sanji de volta. “Quer ver?”

“Não sei se deveria, posso trazer azar para sua publicação.” Sanji riu fraco, se levantando e fechando seu roupão e amarrando o cinto laranja em sua cintura. “Posso ver, se quiser.”

“Preciso que aprove, já que você é o modelo.”

“Tão formal.” Sanji murmurou e empurrou o homem um pouco para trás, afastando seu corpo do quadro e sentando em sua perna, deixando seu corpo mais apoiado nele enquanto encarava a tela.

Sanji por um breve momento não soube o que falar, porque aquele quadro havia sido o melhor que Zoro já chegou a fazer. Roronoa havia de fato usado as referências da estação no quadro inteiro, considerando que a tela era Sanji deitado da forma que ele havia pedido para ficar — com poucos ajustes dele — mas em cima de uma pedra, coberta com flores conectando com a grama do ambiente. Zoro havia encaixado algumas diversas flores, como girassol, gloriosa, azaleia e crisântemo; mas tinha deixado o maior destaque a gloriosa e ao girassol. Ambas as flores envolviam o corpo de Sanji. Sua cabeça estava deitada no centro de um girassol grande, que suas pétalas amarelas se encaixavam com as pétalas rosas da gloriosa.

As pétalas mais vibrantes estavam abraçadas com o corpo quase nu de Sanji, enrolado em seus braços e desenhando suas pernas, enquanto as bordas onduladas estavam roçando nas duas cicatrizes levemente destacadas do peito dele. Por um momento, ele se perdeu em quão bonita a tela se encontrava, com o belíssimo pôr do sol que se destacava no fundo, deixando uma sombra mais alaranjada pelo corpo dele e das flores desenhadas. O dourado do cabelo de Sanji, se misturava com cada pétala amarela que abraçava sua cabeça como um travesseiro. A arte estava melhor do que ele podia imaginar. Tão melhor que não saberia que palavras usar para elogiar.

“O que achou?” Zoro perguntou enquanto suas mãos seguravam a cintura de Sanji em seu colo, fazendo o loiro se mexer de relance pelo toque repentino.

Sanji se apaixonou mais uma vez por Zoro naquela noite, não apenas por sua arte, mas pelo cuidado que ele sabe que ele se esforça em ter, pelo menos em momentos como aquele, mas não seria naquela noite que falaria isso de fato.

“Da próxima vez não use laranja, isso ficou horrível.” Sanji murmurou saindo do colo de Zoro e não olhou para trás quando parou na porta antes de sair do quarto de trabalho dele. “Dá para ser publicado, não ficou tão ruim…”

“Será que dá para um dia você falar algo decente?” Zoro praticamente gritou em resposta vendo Sanji o encarar irritado, mas não tão profundamente quanto no dia-a-dia.

“Farei nossa janta, vá tomar um banho, brutamontes.”

Enquanto Zoro encarava seu desenho, Sanji saiu do cômodo logo em seguida fechando a porta rapidamente atrás de si. Encostou seu corpo nela e finalmente pôde respirar normalmente. Foi difícil esconder o rubor em suas bochechas, esconder as batidas de seu coração, batidas que aos poucos se acalmaram. Andando até a cozinha, Sanji refletia como Zoro sempre tivera um efeito forte sobre si e aquilo o irritava, mesmo que fosse recíproco. Ele só não sabia.

"Maldito."

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