PARA O AMOR NÃO EXISTEM FRONTEIRAS. NÃO TEM HORA DE CHEGAR. VAI E VOLTA QUANDO QUER. DERRUBA AS BARREIRAS.” (anônimo)

Betty olha para o relógio, respira fundo e decide dar a última chance a esse amor. E que aconteça o que tiver que acontecer.Vai ao banheiro molhar o rosto com água fria e sai apressada.

Está a caminho do aeroporto, mas naquela tarde chuvosa e melancólica o trânsito não flui. Houve um acidente e está tudo parado. Por fim a pista é liberada e Betty corre angustiada. Aqueles minutos são cruciais, decisivos.

Betty chega, finalmente, e ouve a última chamada para o vôo de Armando. Desesperada vai ao balcão da companhia aérea e informam-lhe que os últimos passageiros já estão indo para o corredor de embarque.

Ela corre para lá, mas não o encontra. Pensa que ele já embarcou, faltam poucos minutos para o avião decolar. Contém as lágrimas e volta correndo ao balcão da companhia para confirmar se ele já embarcou. Quando sai do corredor e vira à direita ela se choca violentamente com alguém. Com o forte impacto Betty cai ao chão. É Armando que está ali! Quando ele entrava apressado pelo corredor de embarque, ela vinha correndo em sentido contrário. Ele também se atrasara por causa do trânsito. Ajuda-a a levantar-se e ficam ali, mais uma vez paralisados pela violenta emoção daquele encontro totalmente inesperado e naquelas circunstâncias. Ao perceber o olhar angustiado dela, ele pensa que só pode ter acontecido algo gravíssimo para ela estar ali...

Ele a olha com olhar de espanto e interrogação. Ficam ali parados por uns segundos, impossível não notar o quanto ela está nervosa e emocionada.

A – O que houve, Betty? O que está acontecendo? Eu preciso embarcar agora, não posso perder o vôo!

Por fim ela pronuncia aquelas palavras que ele julga mágicas: “Doctor Armando, perdoa-me! Perdoa-me!”

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Por um instante ele fica atordoado, sem entender nada.

B (com a voz embargada e os olhos mareados) – Não vá, Doctor Armando, por favor! Eu lhe imploro, não embarque agora, por favor! Vamos sair daqui depressa, preciso falar urgente com o senhor, é muito importante!

Armando está um pouco assustado, mas saem dali e vão para o carro dela no estacionamento do aeroporto. Atrás deles o avião que o levaria para muito longe levanta vôo com um passageiro a menos.

E ela confessa que ainda o ama, que nunca pretendeu se vingar dele, estava muito ferida e magoada... Que todo esse tempo estivera enganada a respeito dos sentimentos dele... Já não duvidava mais do amor dele... “Perdoa-me, meu amor!”, pedia com os olhos mareados...

Armando está perplexo, completamente incrédulo, o coração batendo violentamente. Mas, para total surpresa e espanto de Betty, ele pega a sua mão e responde docemente olhando nos olhos dela:

A – Eu sei Betty! Nunca duvidei do seu amor. Nunca acreditei em uma só palavra do que você me disse naquela noite no Luna de Bogotá... Eu sabia que você estava muito magoada comigo por tudo o que lhe fiz antes de me apaixonar. Sabia que você também nunca deixou de me amar, mas também tinha certeza que você jamais seria capaz de me perdoar. Por isso queria se afastar de mim... Para me esquecer ... Acertei, Betty?

B – Mas eu o perdoei, Doctor, de verdade!

A – Acho que agora não há mais dúvidas quanto a isso... Vamos para o meu apartamento, meu amor! E não se preocupe com a louca da Marcela, mesmo que ela queira voltar lá para nos incomodar, não vai conseguir entrar. Eu troquei todas as fechaduras!

Ao ouvir isso Betty não contém o riso!

B – Sim, meu amor, vamos. Mas fique certo que nem hoje nem nunca mais ela vai aparecer na sua vida...

A (sorrindo maroto) – Nunca se sabe meu amor! Vai que ela também desistiu de viajar no último minuto e decidiu voltar ao ataque ...

As gargalhadas de Betty recomeçam. Ele não entende o porquê daquela certeza dela.

B – Pois eu te digo que ela nunca mais vai voltar, mas depois eu conto o porquê. Agora não. Agora vamos pensar em nós e recuperar o tempo perdido.

Se abraçam e se beijam apaixonadamente. Ele a devora aos beijos ali mesmo.

A (baixinho no ouvido dela) – “Betty, mi vida, te amo, te quero, te desejo! Vamos embora daqui, ou não respondo por mim!”

Saem dali direto para o apartamento dele. A chuva fina cessou e o céu começa a se abrir.



Entram no apartamento sem parar de se beijar, um começando a despir o outro ainda na sala. Ele tira o casaco dela, mas mal ela tira o paletó dele, Armando a ergue nos braços e leva para o quarto. Deita-a na cama, mas antes precisa ouvir ainda uma vez mais:

A (baixinho) — Betty, me amas?

B (no ouvidinho) – Nunca deixei de amá-lo Doctor ... Eu também morro por vo...

Ele não a deixa terminar e a beija vorazmente, como se ela fosse desaparecer como uma nuvem de um momento para outro. Era ela de novo, ali estava ela, a “minha Betty”!

B – Eu também te amo, te necessito, te desejo ...

Armando está dominado por um desejo mesclado de desespero e ansiedade. Betty mexe com cada fibra do seu ser, ela o tem a seus pés por assim dizer ... Nenhuma outra mulher jamais havia provocado nele esse sentimento estranho e maravilhoso que o sacudia como um vendaval. Ele próprio se estranha.

Betty percebe o alvoroço em que ele se encontra, ela conhece bem esse sentimento. Tantas idas e vindas, reencontros e desencontros, tantos enganos e desenganos. Mas as lembranças da segunda noite ainda estão muito vivas em ambos.

B (suplicando) – Vem, meu amor!

E acontece o que tinha que acontecer. O sonho bruscamente interrompido da noite do desfile se converte, finalmente, em realidade. A paixão explode, transborda, todos os sentimentos misturados, e tudo ali, olhos nos olhos: desejo, ternura, ansiedade, impaciência, entrega, posse cega ...

Sem afrouxarem o abraço seus corpos se movimentam no mesmo ritmo, ora lento, ora descontrolado. Ele sente, enlouquecido, o corpo dela se arremessando forte contra o dele. Percebe a impaciência dela, pelos gemidos, pelos suspiros interrompidos e arfantes, pela pressão das mãos dela nas suas costas, puxando-o cada vez mais forte. O som da respiração acelerada de Armando no ouvido de Betty parece fazer vibrar e esticar cada milímetro do seu corpo inteiro. Parecem desafiar a lei da física e fazer dois corpos ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. A cada investida querem mergulhar e afundar um no corpo do outro, querem a fusão total. “Devolva-me a vida, Betty!”, ele pedira tantas vezes em silêncio, quando estavam separados. A vida agora fazia sentido. Uma vez mais as palavras do diário dela vão confirmar: “Ele se entregou a mim por inteiro...” Lá ficará registrado o triunfo deste amor que tantas vezes quiseram negar, sem no entanto conseguir.

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“Deixa que a minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, embaixo, entre
Minha América! Minha terra à vista,
reino de paz, se um só homem a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
feliz de quem penetra o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes.
As jóias que a mulher ostenta
são como as bolas de ouro da Atlanta;
O olho do tolo que uma gema inflama
ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
para os iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
a alguns (a que tal graça se consente)
é dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
te: atira, sim, o linho fora,
Nem penitência, nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
a coberta de um homem te é bastante.” (*)

(*) Tradução da elegia “Going to Bed” (Indo para o Leito), by John Donne.