Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
7 Um Acordo A Dois
Alice andava distraidamente pelo seu pequeno sítio, ruminando cada detalhe do último dia, incomodada por perceber que Bruce vinha mexendo com ela. Não gostava de se sentir exposta assim, ainda mais numa situação como aquela, em que sabia que toda a atenção que o empresário depositara sobre si desde o incidente foi unicamente para tentar reparar o erro cometido.
Havia tomado a decisão de se isolar de todos naquele limite pouco usado da cidade justamente para se proteger de situações como essa. Estava plenamente em paz com sua decisão de se tornar uma velha excêntrica e solitária, acompanhada unicamente de sua samambaia e de todos os gatos que conseguisse abrigar, já que era de praxe que toda solteirona que se preze devia se tornar a louca dos gatos...
Suspirou, encarando o horizonte e apreciando a brisa que acariciava sua pele.
No segundo seguinte, porém, seus pensamentos foram interrompidos de modo abrupto, cessados pelo som angustiante de inúmeros ganidos que não vinham de longe, propagando-se aflitivamente pelo amplo e livre espaço. Ela começou a procurar em volta e correu na direção daquele choro, tendo como guia o uivo agudo, identificando-o como o lamento de não um, mas vários cachorros.
Suas sobrancelhas ergueram-se o mais alto que conseguiram ao longo de sua testa quando ela viu uma enorme labradora presa numa cerca de arame farpado, com inúmeros filhotes em volta latindo e chorando, como se implorassem que a mãe fugisse logo daquela perigosa armadilha.
– Mas quem foi o imbecil que colocou esse arame farpado aí? – perguntou com raiva, até reconhecer os arredores de sua propriedade – Ah, é... fui eu... – constatou, sentindo-se culpada e ao mesmo tempo solícita com o sofrimento do robusto animal.
Alice adiantou-se a ajudar a pobre cachorra, repuxando o arame para longe do pelo dourado e conseguindo alguns cortes em si com o gesto, mas sem hesitar em momento algum enquanto os belos olhos cor de mel pareciam fitá-la durante o processo, em algum nível cientes de que a mulher a ajudava. A hippie arrastou aos poucos o corpo pesado para mais perto, libertando-a um centímetro por vez da cerca cortante. A bela cachorra nem sequer parecia ligar para seus ferimentos, apenas se preocupava em lamber seus filhotes quando um deles chegava perto o suficiente de sua língua, tão ágil quanto amorosa.
– Calma, garota, eu vou cuidar de você! – tranquilizou-a, afagando de leve a sedosidade próxima a uma de suas orelhas.
Depois de vários minutos, Alice conseguiu finalmente livrar a cachorra de todo aquele arame, e com muito esforço, pegou-a no colo, decidida a levar todos eles para sua casa e tratar dos cortes, que eram superficiais, mas nem por isso mereciam pouca atenção. Ela sabia que os filhotes seguiriam a mãe para onde quer que ela fosse, por isso limitou-se a caminhar em direção à sua casa apenas segurando a cachorra nos braços. Assim que Alice começou a andar, todos os seis filhotinhos foram atrás dela, pulando e correndo quase que ao mesmo tempo, sem nunca parar de latir daquela forma aguda. Vez ou outra um deles conseguia pular alto o suficiente para mordiscar o rabo da mãe, que em momento algum reclamou.
Quando enfim chegou em casa, seus braços doíam por uma vasta extensão e era como se os músculos estivessem em brasa com o esforço de carregar todo aquele peso, mas ao mesmo tempo era gratificante ver a alegria daqueles filhotinhos ao redor da mãe, com certeza já capazes de entender que ela corria riscos se não se libertasse logo daquela maldita cerca.
“Não posso me esquecer de tirar aquele arame horrível de lá! O que eu estava pensando, afinal? Que algum psicopata podia entrar na minha casa? Que ridículo!”
Alice olhou para seus novos hóspedes e pensou por um momento enquanto eles pareciam explorar a casa de um jeito desastroso.
“Preciso tirar os filhotes daqui por enquanto para cuidar da mãe...”
Alice caminhou decidida até o quarto em que jazia o homem ferido, e sem pestanejar, abriu estrondosamente a porta do cômodo de seu hóspede, sem qualquer sutileza no gesto. Os filhotes entraram correndo rapidamente e pularam na cama do Palhaço sem sequer hesitar, todos de uma vez, alguns até caindo justamente no ponto latejante do ferimento de Coringa.
– Mas o quê... – praguejou, surpreso ao ver todos aqueles pares de olhos caninos em cima de si – Mas que droga é essa?
– Libélula, preciso que você seja a mãe deles por um minuto! – avisou com seriedade, sem nem ao menos se afastar da porta que ainda mantinha aberta, por conta da urgência.
– Como é?
– Vamos, não seja ranzinza, cuide deles um instante. – Alice se aproximou da cama onde estavam os filhotes e Coringa – Esse que está rolando na cama se chama Jafar, aquele que está roendo seu sapato é o Satanás, a rechonchuda que está explorando o seu lençol é a Úrsula, esse que lambe o seu braço é o Rasputin, ainda preciso ensiná-lo que não se põe qualquer porcaria na boca. O Hades é o que não para de correr atrás do próprio rabo, e a Yzma é essa franzina que não está conseguindo subir na cama. Libélula, cachorros. Cachorros, Libélula! – apresentou rapidamente, ainda com pressa.
– Você adotou todos eles? – empurrou para longe o tal filhote que lambia compulsivamente o seu antebraço.
– Sim, todos os filhotes e a mãe machucada, que está no meu quarto. Seja bonzinho com eles, eu já volto! Tenho mais um paciente agora, e convenhamos, é uma companhia muito mais interessante – sorriu ironicamente na direção do hóspede.
Alice saiu apressada do quarto ao mesmo tempo em que recitava algumas instruções baixas para si mesma, deixando Coringa a sós com aqueles seis cachorros. Ele percebeu que Satanás havia destruído um dos seus sapatos e já partia para o outro combinado do par, rosnando vorazmente para o inerte oponente.
– Ela escolheu um bom nome para você, seu monte de pelo inútil! – rolou os olhos, imaginando se sua situação ainda poderia piorar.
Satanás parou o que estava fazendo e encarou o Palhaço, os orbes infantis brilhando em desafio, prometendo apenas travessuras. Subiu na cama do psicopata num único pulo, olhou mais uma vez para Coringa e, antes que o psicopata pudesse expulsá-lo, levantou a pata, urinando na sua roupa. Desceu e voltou a roer o sapato, como se nada tivesse acontecido.
– Ei, mas o que diabos foi isso? – rosnou, indignado – Sabe em quem está mijando por acaso, Belzebu? Posso acabar com você com o dobro de rapidez com que destruiu meu sapato, e ninguém vai saber que fui eu, seu insolente!
Os outros cachorros brincavam animadamente entre si, apenas Satanás parecia empenhado em destruir o cadarço do humano, rosnando baixinho para o objeto ao mesmo tempo em que roía o material.
No quarto ao lado, Alice cuidava agora da enorme cachorra que havia deitado folgadamente ao longo de sua cama, ocupando quase todo o espaço. Começou a limpar seus machucados com cautela, esforçando-se ao máximo para não machucá-la ainda mais.
– Garota corajosa! – Alice elogiou com um sorriso sincero, ligeiramente impressionada com a facilidade com que a cachorra permitia que a hippie tratasse de suas feridas, como se realmente entendesse que aquilo era o melhor para sua saúde. Sem dúvida era uma paciente muito mais fácil de lidar do que o homem que ocupava o quarto ao lado...
Quando por fim terminou, a hippie deitou-se na cama ao lado da cachorra e começou a acariciar um ponto atrás de sua orelha, que tremelicou em resposta, soando satisfação.
– Ainda tenho que pensar em um nome para você, pequena... – Alice encarou aqueles olhos grandes e bondosos, que também a miravam – Seus filhotes tinham cara de pequenos vilões da Disney, já você parece uma mocinha doce e injustiçada!
Alice passou a ponta dos dedos mais uma vez em sua orelha e sentiu o pescoço do animal se alongar sob seus dedos, indicando uma nova extensão para seus carinhos.
– Sabe, eu tenho lido bastante literatura brasileira nos meus estudos pro concurso de lá, e esses seus olhos de cigana oblíquos e dissimulados... – O que me diz de Capitu? – inquiriu, recebendo uma lambida no nariz em resposta – Está decidido, é Capitu então! Posso confessar uma coisa? Espero que você tenha traído aquele sonso do Bentinho e que todos os seus filhotes sejam do Escobar – sorriu delicadamente ao vislumbrar um enorme bocejo do belo animal, que parecia realmente exausto.
Deixou-a descansando em sua cama, achando incrível o modo despreocupado com que ela fora capaz de depositar tanta confiança na humana.
Ao retornar ao quarto de Coringa, Alice notou que o Palhaço tentava manter-se o mais distante possível dos adoráveis filhotes, e ainda olhava carrancudo para um em específico.
– O que houve, Libélula? Você não gosta de animais?
– E por que eu deveria gostar de seres inferiores que nem sequer sabem qual é o lugar certo de urinar? — soltou o ar em um bufo irritado e impaciente, quase como se relinchasse.
– E qual é a sensação quando se olha no espelho?
– Muito engraçada... Você deveria adestrar esses estúpidos animais antes de trazê-los para cá! – disse, apontando acusadoramente para a marca úmida amarelada em sua roupa, e em seguida indicando Satanás, que tinha ido para o lado de Alice, como se soubesse que ela o protegeria.
Ela o pegou no colo enquanto balançava a cabeça em negativa.
– Sem essa, se você não aguentou chegar até o banheiro, não vai culpar o pobrezinho do Satanás por se mijar nas calças! Olha só essa carinha de anjo, como você tem coragem de caluniar essa gracinha?
A hippie saiu do quarto ainda resmungando e Coringa se deu conta de que já estava mais do que na hora de dar um ponto final a toda aquela palhaçada que vinha vivendo e, pior, sendo obrigado a não reagir da maneira que gostaria, sempre tendo que camuflar seus verdadeiros e mais profundos instintos. Sim, já era passada a hora de tomar novamente as rédeas. E ele já sabia como o faria...
O telefone tocou e Alice atendeu irritada. Simplesmente detestava ligações... Até mesmo o barulho estridente da chamada dava-lhe arrepios.
– Não tem ninguém! – avisou ao colocar o telefone rente ao ouvido e, sem esperar pela resposta, colocou-o de volta ao gancho, encerrando aquele prematuro contato com o autor da chamada.
Dois segundos e meio depois o telefone volta a tocar, e ela atende novamente, de má vontade.
– Tá, fala...
– Senhorita Alice? – uma voz masculina e dona de um suave e melodioso sotaque britânico respondeu, usando um tom extremamente educado e cordial.
– Depende... Quem é? – a formalidade na voz a preocupou – Se for a respeito da cobrança do imposto de renda, fique sabendo que eu não sou essa tal de Alice, e muito menos conheço alguém com esse nome, apesar de ela parecer ser muito boa gente e merecer ter todas as dívidas perdoadas... – tagarelou, mentindo porcamente.
– Aqui é Alfred Pennyworth, o mordomo do senhor Wayne! – tratou de se apresentar ao testemunhar a confusão da mulher.
– Ah, desculpe... Bom, nesse caso você pode me chamar de Alice, a menos que também trabalhe pra Receita Federal... – disse, fazendo-o rir, e o som assemelhava-se a uma afinada nota musical.
– O meu patrão me pediu para verificar se a senhorita estaria disponível esta tarde.
– E ele mesmo não podia entrar em contato?
– Bom, na verdade ele já está a caminho de sua casa, e apenas pediu que eu a alertasse para não parecer rude de sua parte chegar sem se anunciar! – Alfred avisou, parecendo rir internamente.
Alice entreabriu os lábios, surpresa e ao mesmo tempo divertida com a confiança que o homem tinha em si mesmo.
– Senhorita? – o mordomo chamou ao notar o silêncio prolongado.
– Pode me chamar de Alice. – respondeu, voltando a si – Quer dizer que aparentemente eu não tenho escolha?
– Quando se trata da família Wayne, ninguém tem muita escolha... – Pelo modo com que Alfred disse isso, Alice percebeu que ele sorriu.
– E você tem alguma ideia do que ele pretende? Ou é um sequestro que vai ficar na surdina?
– Sinto muito, nem desconfio...
Alice ouviu o barulho do motor aproximar-se de sua casa, e foi impossível não sorrir.
– Obrigada, Alfred, acho que o Almofadinha chegou. Posso pedir um favor?
– Claro! – Anuiu, a ânsia por se fazer prestativo escancarada em sua voz.
– Se você não tiver mais notícias minhas, entre em contato com a polícia e diga que o culpado foi seu patrão...
Alfred riu do outro lado da linha.
– Espero que partilhem uma tarde maravilhosa! Saiba que meu patrão sempre fala muito bem da senhorita! – despediu-se polidamente.
– E de todas as outras também, imagino... – comentou baixo, sem saber se o gentil mordomo fora capaz de ouvi-la – Boa tarde, Alfred, foi um prazer!
– O prazer foi todo meu.
Eles desligaram o telefone e Alice se adiantou em ir abrir a porta. Bruce já saía do carro, segurando um farto buquê de flores enquanto sorria amplamente para a hippie. Alice disse:
– Pensei que estaria passando mal com o cachorro quente até agora... Tive até receio de ver os noticiários e descobrir que matei o príncipe de Gotham com uma intoxicação alimentar...
Bruce riu, e o som mais parecia uma nota musical elegante, fazendo Alice imaginar por um instante se aquele homem todo alinhado também excretava merda pelo ânus como os meros mortais. Ele entregou as flores para Alice, o semblante sempre transmitindo gentileza ímpar quando as íris negras se direcionavam a si.
– Alfred falou com você? – perguntou, levemente travesso em seu tom.
– Sim, ele me sugeriu que eu fugisse junto com ele para Las Vegas enquanto você não chegasse...
– Me parece que você fez muito mal em não aceitar... E então, pronta para sair?
Alice assumiu um semblante sério, analisando a situação. Sim, ela adorou sair com Bruce, eles haviam se dado muito bem, mas... até quando isso daria certo? Eles não tinham absolutamente nada em comum, e o que mais a preocupava era a condição social dele estrondosamente acima da sua. Bruce era o tipo de homem que poderia, a qualquer hora, ter a mulher que quisesse, e Alice não estava nem um pouco disposta a atribuir mais essa preocupação a seus dias.
– Vai por mim, melhor não – disse por fim, encarando-o com os olhos estreitos.
– Por quê? Você nem sabe o que planejei...
– Acontece que eu realmente preciso... – olhou em volta, procurando algo que a ajudasse a criar uma desculpa “Ah, merda, e agora?” – Preciso... depilar o pé!
– Como? – Bruce simulou uma feição adoravelmente chocada, despertando um sorriso em Alice.
– Pois é, depilar o pé! Sabe como é, né, coisas de garota!
– Você não espera se livrar de mim com uma desculpa desse... porte... Não é?
– Quem disse que é uma desculpa?
Bruce não se deu ao trabalho de responder, apenas arqueou uma sobrancelha em ceticismo.
– Certo, é uma desculpa... – rendeu-se, decidindo pela sinceridade – Eu não acho que seja inteligente me envolver com você, porque sei que vou acabar me dando mal. Eu sou meio otária, me apego fácil. Coração mole, sabe, ainda mais com a sua fortuna... – Brincou, sorrindo tristemente quando voltou a falar – Quando eu começar a gostar de você de verdade, você vai enjoar de mim e vai me dar um pé na bunda sem remorso nenhum, aí a tonta aqui vai ficar se chamando de burra por ter deixado isso acontecer... De novo.
– Você acha mesmo que eu seria capaz disso?
– Só se eu fosse muito ingênua pra não achar. Olha bem pra você, senhor Wayne... Pode ter a garota que quiser assim... – estalou os dedos em demonstração, porém o movimento ocorreu num ângulo errado, e Alice acabou machucando o dedo médio, fazendo uma careta em seguida e massageando a mão – Enfim, deu pra entender, né... Olha pra mim, Bruce. Não tem como você não se cansar disso – apontou para si mesma, como se explicasse o óbvio.
– Tudo o que eu vejo é uma moça encantadora que não sabe estalar os dedos. – Sorriu, segurando a mão que ela recentemente machucara – Por favor, me dê uma chance de mostrar que eu não sou esse aproveitador que você imagina!
– Ah, mas eu não te acho um aproveitador, de forma alguma! – negou a colocação do empresário com afinco – Na verdade eu te acho um bilionário extremamente fora da realidade, que se julga filantropo quando na verdade tem sérias deficiências pra entender que fortunas como a sua são a causa de todas as mazelas dos miseráveis, além de julgar que o universo é Bruceocêntrico. Mas aproveitador, jamais! – deu ênfase, quase como se o defendesse.
– Acho que o seu julgamento a meu respeito é ainda pior do que eu esperava – riu, passando a mão pelo cabelo negro para afastar alguns fios de seus olhos – E por isso mesmo eu faço questão de te mostrar um outro ponto de vista ao meu respeito! – Bruce deslizou a ponta dos dedos pelo cabelo da hippie, fazendo Alice estremecer ao toque inesperado.
Com a mão ainda em sua nuca, olhou fundo em seus olhos.
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– Eu prometo que você não vai se arrepender, e se algum dia eu te decepcionar, você pode me usar como treino para aqueles golpes de Kung Fu! Que tal, temos um acordo?
Alice o encarou, sabendo que cederia, mas incapaz de falar, consciente apenas da proximidade entre os dois e do toque de sua mão fria, que de um jeito estranho e contraditório queimava sua pele.
– E então? Eu mereço essa chance?
– Tudo bem, mas eu quero uma declaração por escrito sobre eu poder te dar golpes de Kung Fu!
Bruce sorriu vitorioso, puxando Alice para perto do carro estacionado bem à porta de sua casa.
– Espera aí, Tio Patinhas, eu nem me arrumei ainda...
– Esquece isso, você está ótima, eu tenho tudo o que você precisa no carro.
– E eu posso saber aonde nós vamos?
– Não, é uma surpresa! – avisou sorridente, arrancando uma expressão intrigada de sua companhia.
Os dois entraram no carro nada discreto de Bruce, e Alice, só de olhá-lo, sabia que esse envolvimento ia terminar mal. Tentou espantar o pensamento, ignorando um pouco o mau pressentimento. O carro começou a tremer assim que o motor foi ligado, e a casa de Alice foi ficando cada vez mais distante conforme a potência do automóvel se traduzia em pura velocidade.
– Deixa de ser besta e me dá uma dica! Ou eu te denuncio por sequestro, senhor Wayne.
– Nós vamos participar de uma competição, é tudo o que posso dizer! – deu a dica, disposto a não deixar escapar nenhuma outra informação que fosse.
– Competição? Vence quem queimar mais dinheiro? – arriscou, imaginando que esse deveria ser um hobbie famoso entre pessoas ricas.
– Você verá! – ele deu uma risada sombria e Alice começou a rir junto. Ela nunca imaginou que ele pudesse ser bizarro daquele jeito...
– OK, agora você está me assustando...
Bruce sorriu e Alice adorou o modo como seu rosto se iluminava quando sorria naqueles termos despretensiosos...
Enquanto os quilômetros eram vencidos com uma estúpida facilidade, Alice continuou tentando descobrir aonde Bruce a estava levando, mas sem sucesso. Depois de várias tentativas frustradas, deu seu último palpite:
– Uma competição de cuspe à distância?
– Mais uma vez, errado.
– Desisto... – bufou, frustrada. – Está além da minha capacidade entender uma mente bilionária atormentada! – brincou com um sorriso inescrupuloso.
– Desistiu cedo demais. Nós já chegamos.
Alice olhou bem em volta para descobrir do que se tratava, mas não tinha nada ali que lhe desse uma dica. Bruce a conduziu para dentro de um prédio enorme e começou a conversar baixinho com a recepcionista, que o encarava sem nem ao menos piscar, parecendo hipnotizada pela presença do Bilionário. Bruce já devia estar mais do que acostumado a esse tipo de assédio silencioso, e apenas continuou falando com a mulher, sem deixar que a hippie ouvisse sequer uma palavra. Quando a recepcionista saiu, após lhe dedicar um demorado sorriso (mais simpático do que o normal), Alice foi até ele, indignada.
– Mas você já está dando em cima de outra?
– Não seja boba – ele riu –, ela vai buscar nossos equipamentos.
– Me fala logo o que é, eu sou alérgica à curiosidade...
– Só mais um pouco e você já vai saber.
Nesse instante a recepcionista voltou, acompanhada de mais dois funcionários que carregavam duas pistolas gigantes e roupas especiais que tinham como função proteger quem a vestisse. Nisso Bruce falou, fitou-a com significância, um meio sorriso travesso brincando pelo seu rosto.
– Já percebeu do que se trata? – o moreno questionou com certa ansiedade.
– Estamos nos preparando para uma possível Terceira Guerra Mundial? – arriscou bestamente, ainda não entendendo.
– Quase. Vamos jogar Paintball! – disse, abrindo o maior sorriso que Alice já viu, realmente esperançoso de que a ideia lhe agradasse.
– Oh, Bruce... – os olhos da hippie ficaram imediatamente marejados, e sua cabeça virou-se para o lado, um pouco desanimada e aflita – Meus pais morreram num... num tiroteio. Eu não consigo sequer olhar pra isso!
Bruce a fitou totalmente sem jeito, murchando em sua empolgação.
– Alice, me perdoe, eu não sabia... – começou, aproximando-se da moça chorosa de modo a acalentá-la pelo seu grosseiro erro, sem saber o que dizer naquela situação, suas reações fugindo completamente de seu corpo.
Alice começou a gargalhar incessantemente da expressão dele, sem conseguir mais resistir. Limpou os olhos que ainda estavam molhados por lágrimas falsas, e o encarou de um jeito divertido.
– Eu não acredito que você caiu nessa, seu tonto! E aí, pronto para perder?
– Ah, é assim? Vai ter volta, espere só! – estreitou os olhos, voltando a sorrir, e o alívio fez o sangue retornar ao seu rosto antes pálido e preocupado.
Os dois gastaram poucos minutos para vestirem as proteções e carregarem as armas. Alice embebeu o dedo com uma quantidade generosa de tinta e passou no rosto, imitando uma pintura de guerra, enquanto dizia:
– Vou te dar uma chance de desistir, Maricas! Renda-se agora e não precisará parecer ridículo quando perder e sair chorando e humilhado daqui.
– Depois desse caçoar às minhas custas? De jeito nenhum, eu vou acabar com você!
– Então é guerra...
Eles foram para suas posições, e pelo que Alice percebeu, Bruce havia pagado um belo extra para que apenas eles jogassem. O lugar estava completamente às moscas, sendo ocupado unicamente pelos dois, e os funcionários que se mantinham ao lado de fora do simulado cenário...
Soou o sinal que indicava o início do jogo, e Alice procurou, atenta, pelo seu adversário. Como ela desconfiava de que ele, cedo ou tarde, ainda se magoaria de alguma forma com aquele convívio, decidiu que começaria a descontar desde já, afinal aqueles tiros de tinta podiam realmente ser bem dolorosos...
Ela sentiu uma forte pressão em suas costas e cambaleou, com tais pensamentos não mais avoando sua mente.
– Filho da mãe! Não vale, eu estava distraída... – protestou, tocando o lugar manchado de tinta vermelha.
– Sinto dizer, mas guerra é guerra!
Bruce corria para algum esconderijo, mas Alice teve tempo de acertar um tiro bem no meio dos seus glúteos, que imediatamente se contraíram ao comando do golpe.
– Toma essa, Riquinho! E mais essa! – ela lançou outra bola de tinta que acertou seu braço, pouco abaixo do ombro esquerdo – Fala sério, eu sou muito boa nisso...
Alice perdeu seu oponente de vista, e movida pela sua alta competitividade, saiu de seu esconderijo seguro e foi procurar pelo belo empresário nos recantos escondidos daquele cenário.
Quando ela finalmente o encontrou era tarde demais, ele foi muito rápido e acertou em cheio sua barriga. Alice sentiu o ar fugir completamente de seus pulmões com o baque rude do tiro, mas nem de longe havia doído. Aproveitando-se do momento, a hippie fingiu que se machucou de verdade, caindo ajoelhada no chão e envolvendo a barriga com os braços numa postura contorcida e doída. Bruce imediatamente largou a arma, começando a correr preocupado em sua direção, sem notar o sorriso maldoso que se formava cada vez mais alto nos lábios da oponente.
Essa foi a deixa para que a hippie levantasse com tudo e começasse a enxurrada de tiros para cima de Bruce, atirando à queima roupa ao som de suas próprias gargalhadas, sentindo-se um tipo sádico e raro de gangster hippie.
– É realmente muito gostoso tirar uma com a sua cara! – disse, deliciada ao vê-lo novamente cair em suas trapaças.
– Eu não preciso da minha arma para te vencer! – Bruce aumentou o ritmo da corrida, diminuindo drasticamente a distância entre os dois.
Alice recomeçou a lançar um tiro atrás do outro enquanto Bruce se aproximava cada vez mais rápido, sendo levemente atrasado pelas pressões que atingiam-lhe o corpo, mas ainda mantendo um ritmo preocupante para perto da mulher.
– Fatality! FATALITY!!!! – Seus tiros contra Bruce pareciam não provocar grandes efeitos sobre ele, que continuou correndo em sua direção, agora ele dono de um sorriso oblíquo – Vai, morre, diabo... –gritou em desespero, percebendo suas chances reduzidas.
A munição de Alice acabou e, no desespero, ela jogou a arma pesada no chão e saiu correndo, sabendo que seria uma fuga inútil.
Bruce tinha uma ótima preparação física, e não demorou nada para alcançá-la.
Ele literalmente se jogou em cima dela e os dois caíram num monte de feno apinhado ao canto do cenário. Bruce ficou por cima, segurando seus pulsos contra o chão e sorrindo.
– Tudo bem, pinico! Você ganhou! – ela rendeu-se, tentando se livrar daquela força estúpida que a prendia ao chão.
– Nada disso, a hora da minha vingança chegou!
– A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.
– Nenhum ensinamento de programas latinos e infantis pode te salvar agora.
– Mesmo?
– Mesmo!
– Vamos fazer um acordo: se eu fizer uma charada desse mesmo e infantil programa e você não souber responder, você me solta.
– Fechado. – sorriu com maldade – E se eu acertar, terei direito a um novo encontro.
– Justo! – anuiu, sorrindo ao notar que ganharia de ambas as formas, perdendo a aposta ou não – Lá vai então: Qual é o animal que come com o rabo?
Bruce fez cara de espanto, e disse de imediato:
– Que come com o rabo? Nenhum...
– Nada disso, todos! – riu, triunfante.
– Todos? – perguntou, seu semblante tão confuso quanto adorável.
– Lógico. Você já viu algum animal tirar o rabo para comer? HÁ, trouxa, na sua cara! Agora pode ir me soltando e eu finjo que ainda tenho algum respeito por você!
– De jeito nenhum. – avisou, traiçoeiramente, voltando o sorriso ao seu rosto.
– O quê? Nós temos um trato...
– Eu menti. No amor e na guerra vale tudo, e no momento nós estamos jogando os dois!
– Ah, é assim? Então sinta meu golpe final!
Alice, mesmo com as mãos presas, conseguiu suspender o corpo para perto de Bruce e levou seus lábios até os dele, sem qualquer dificuldade para abrir caminho até o hálito quente do bilionário. Bruce imediatamente correspondeu ao beijo e soltou os pulsos de Alice, levando a mão à sua cintura ao mesmo tempo que sentiu os pequenos dedos da mulher passearem até a nuca do notório empresário.
Ele a encarou, fingindo indignação assim que se separaram.
– Foi um golpe do mais baixo caráter!
– Cada um usa as armas que tem – disse feliz, exibindo seus pulsos agora livres e dona de um sorriso sagaz e satisfeito.
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