Notas iniciais
Ok, não sei como eu consegui postar esse capítulo hoje, mas enfim, aí está! As minhas mais sinceras boas vindas a mais duas leitoras novas: KateOfSpades - uma figurinha rara! ;D - e Queen, que me surpreendeu demais com sua participação aqui! Obrigada por deixarem seus reviews nessa fic meio estranha, eles são sempre muito animadores! x)

Coringa mantinha-se concentrado ao ferimento que acabara de desferir em Alice, costurando com agilidade a pele rasgada e ensanguentada da hippie. Ela segurava com força o largo ombro do psicopata, e cada vez que a agulha perfurava sua pele, Alice fechava os olhos com força e apertava o paletó roxo de Coringa com intensidade, como uma tentativa de despistar a dor.

– Isso é estúpido! – ela reclamou em meio a mais um ponto que o Palhaço dava – Nós estamos perdendo tempo!

– Você desmaiaria antes de chegar até o seu filho – Coringa respondeu, sem tirar os olhos do ferimento que ele mesmo fez – o corte não é grande, mas é profundo o suficiente para você continuar perdendo sangue...

– Maravilha – Alice bufou de irritação – o meu filho está nas mãos de algum louco, e você insiste em fazer um bordado na minha barriga... – revirou os olhos, inconformada.

Coringa não respondeu, mas havia um sorriso discreto em seu rosto que era difícil de traduzir. Alice concentrou-se naquele sorriso, esperando que fosse uma distração suficiente para fazê-la esquecer da dor, e foi, mais eficiente até do que ela poderia imaginar. Era um sorriso comum... nada doentio ou perverso como a hippie estava acostumada a ver, parecia mais um sorriso bem humorado de alguém normal, alguém... comum!

Alice nunca havia conhecido alguém tão contraditório quanto Coringa! Ele sempre a intrigou, e talvez esse fosse um dos principais motivos que a levou a ficar tão fascinada por ele, tão dependente de qualquer esmola que ele pudesse lhe dar... com aquele sorriso, Alice se perdeu dentro da complexidade que o psicopata transmitia, percebendo que ele ia muito além de sua humilde e falha compreensão.

Coringa deu o último ponto, cortando o pequeno pedaço do fio que restou com os próprios dentes. Alice apertou novamente o ombro do Palhaço ao sentir sua pele ser repuxada dolorosamente. Ela arfou, experimentando uma mistura de sensações contraditórias que uniam a dor ao alívio, por finalmente aquela sessão tortura ter chegado ao fim. Ou não...

– E aí, já podemos ir, ou agora você vai querer fazer crochê também? – Alice disse, ainda fitando o rosto do Palhaço, contemplando o divertimento que fazia com que seus olhos brilhassem daquele jeito intenso.

– Eu não mereço um pouco mais de consideração? – sorriu com malícia, aproximando-se perigosamente ao rosto da hippie, e senti-lo ali, a apenas um palmo de distância, a fazia acreditar que ela nunca ficou tanto tempo longe de seu vício. Ele ainda era capaz de exercer um poder doentio sobre seus sentidos, e as reações do corpo de Alice ainda eram traiçoeiras, como se quisessem boicotá-la com a exagerada fascinação que sempre lhe era imposta na presença do psicopata.

– Deixa de ser besta, Libélula Saltitante – usou o antigo apelido, revivendo o distante passado com aquela mera citação, e ao mesmo tempo afastando-se com rapidez do cheiro forte e entorpecente que exalava da pele de Coringa direto para o olfato de Alice, antes que seu autocontrole se perdesse de vez. Essa não era a melhor hora para se deixar arrastar por aqueles desejos maníacos – quanto antes chegarmos até o centro de Gotham, mais rápido você terá sua recompensa – ela engoliu em seco, lembrando-se da sua parte naquele acordo vil... sentia pesar pelo que estava prestes a fazer, mas de forma alguma arrependia-se. Se o preço para ter Krusty de volta fosse revelar a identidade de Batman, então que assim seja!

– Cobrarei juros então – ele disse de forma extremamente bem-humorada. Alice franziu a testa para si mesma por uns breves segundos de reflexão...

Nunca havia visto Coringa agir desse modo... seu tom descontraído – sem evidências de duplos sentidos maliciosos ou de alguma indireta cruel – aquele sorriso incomum emoldurando seu rosto, os olhos que pareciam mais brincalhões do que sádicos... todo esse conjunto suspeito não passava de uma forma de deixar Alice ainda mais desconfiada e temerosa sobre o quê poderia estar se passando pela mente maquiavélica do Palhaço. Será que todo esse bom humor vinha da perspectiva de conhecer de vez o rosto de seu maior inimigo? Ou havia algo a mais, algo que a hippie não estava sendo capaz de enxergar?

Coringa já dirigia – sem muita cautela – rumo ao centro de Gotham, para aquele maldito galpão abandonado que já havia dado tanta dor de cabeça à Alice... desta vez, porém, ela não foi obrigada a vendar os olhos, o que foi um enorme alívio, pois assim ela poderia ter dimensão da distância que ainda a separava do local em que o misterioso sequestrador a esperava.

A hippie olhou através do vidro fosco – inundado pela chuva intensa e barulhenta que caía sem o menor pudor pela cidade – pensativa sobre suas escolhas, e imediatamente a imagem do Morcego projetou-se em sua mente... naquele instante, pareceu-lhe um tanto hediondo que ela o traísse logo após saber que Batman permaneceu protegendo-a de tudo e todos que ainda queriam atingi-la. Sentiu-se dominada por uma tristeza incalculável ao se dar conta de que estava prestes a cometer a maior infidelidade de sua vida – com aquele que sempre se manteve leal à ela no quesito de protegê-la...

Bruce seria caçado! E por Deus, Alice sabia que o Palhaço ganharia aquela guerra se finalmente conhecesse o rosto por trás da máscara de morcego... seu anonimato era sua maior proteção, e a hippie estava prestes a expor o Bilionário de um modo que sabia que seria fatal, tanto para Batman quanto para Bruce.

Também seria o fim de Gotham. A cidade ficaria à mercê do Psicopata, como nunca antes, e ele finalmente assumiria o controle abertamente, um controle que apenas o Justiceiro Mascarado conseguira impedir até então. Muitas consequências pesadas recairiam sobre os ombros da hippie, e ela sabia que se sentiria culpada por todas elas até o seu último dia de vida.

Alice sentia uma enorme repulsa por si mesma ao se imaginar revelando a verdadeira identidade do Cavaleiro das Trevas, ainda mais sendo Coringa o beneficiário dessa preciosa informação – um Palhaço louco que só queria provar as próprias teorias insanas impondo a anarquia e o caos pela cidade! Ela forçava incessantemente o seu raciocínio a buscar uma saída para não precisar cumprir com o trato e ainda conseguir a ajuda do psicopata, mas quanto mais pensava em uma maneira de tentar se livrar da recompensa que havia prometido pela ajuda de Coringa, mais via o quanto estava presa à sua promessa! Sabia que o Palhaço descontaria a frustração de ser enganado em Krusty, e Alice acabaria perdendo seu filho de qualquer forma... todo o seu esforço não valeria de nada, não passaria de uma tentativa vazia e sem o menor sentido...

Ela suspirou tristemente ao ver-se encurralada em sua própria armadilha, ainda encarando a paisagem, que mais parecia um borrão difuso devido a rapidez com que os grossos pingos de chuva batiam no vidro do automóvel. Coringa, por sua vez, não podia estar mais satisfeito com o rumo que as coisas haviam tomado! Teria Batman nas mãos quando tudo aquilo acabasse, e finalmente a sua Alice já estaria apta a se tornar uma nova Arlequina, como ele planejara há tanto tempo. Bastava apenas mais uma prova de fogo para que ela pudesse se juntar a ele de vez. O Palhaço mal podia esperar para ver como Alice se sairia no que estava por vir...

Coringa passou por uma lombada com estupidez, fazendo a hippie bater a cabeça no teto do carro.

– Uma perguntinha... – ela disse, massageando o local da batida – você e seus capangas tiraram a carteira de motorista aonde? Num parque, brincando de ‘carrinho bate-bate’, ou o quê?

– Eu até posso respeitar os limites de velocidade se você preferir, mas não garanto que a gente chegue a tempo de salvar o Ronald!

– É Krusty – corrigiu, revirando os olhos.

– Tanto faz... – o tom desinteressado do Palhaço não podia ter efeito mais nocivo sobre a hippie. De repente ela percebeu que, por sua culpa, Krusty fora separado do único homem que podia ser uma referência de paternidade para ele. Ela sentiu um aperto no peito ao pensar em Logan... a uma hora dessas, ele com certeza já havia lido a carta que Alice escreveu com pressa antes de partir de vez para Gotham. Era impressionante como a hippie sempre acabava conseguindo afastar as pessoas que realmente valiam a pena manter por perto... Era um dom!

Seus devaneios foram interrompidos pela brusca freada que o psicopata deu, e mais uma vez Alice sentiu as leis da Inércia na própria pele.

– Pelo anel do Poderoso Chefão, da próxima vez eu dirijo – bufou, irritada, vendo que Coringa a encarava entediado – e por que diabos você parou, afinal?

– Porque nós chegamos – disse, com um sorriso irreverente no rosto.

O coração de Alice deu um salto ao reconhecer o galpão – que parecia ainda mais abandonado depois de sua última visitinha ali. Seus olhos assustados rolaram involuntariamente na direção de Coringa, que a observava com um interesse anormal, como se ela fizesse parte de um experimento psicológico, aonde a função do Palhaço era analisar cada comportamento que ela adotasse dali em diante.

– Vamos? – a hippie sentiu a voz falhar e sair mais baixa do que o normal, deixando suas próprias más impressões em relação ao comportamento estranho do Palhaço de lado.

– Primeiro as damas – Coringa apontou para a porta ao lado de Alice, ainda com aquele sorriso zombeteiro repuxando os seus lábios e sua cicatriz.

– Fique à vontade! – a hippie respondeu, esperando que ele saísse do carro enquanto brincava compulsivamente com os próprios dedos, buscando acalmar a tensão abrupta em seu corpo. Coringa bufou, revirando os olhos e batendo a porta com força ao sair do carro. Alice suspirou fundo, de olhos fechados, sentindo o corpo começar a tremer – Não estrague tudo agora, sua hippie desajeitada! – disse a si mesma, respirando profundamente algumas vezes e finalmente saindo de dentro do veículo, sentindo-se pronta para enfrentar quem quer que estivesse com o seu Krusty!

Os dois entraram no lugar sujo e repleto de entulhos espalhados pelo chão, e imediatamente Alice lembrou-se do terrível ataque de asma que teve da primeira vez que esteve lá – por conta da poeira excessiva que cobria o local. A hippie respirou o mínimo possível, temendo que aquele episódio se repetisse e, naquelas condições, eles caminharam apressados pelo corredor apertado devido ao número excessivo de caixas que escondiam boa parte do chão.

O galpão era enorme! Parecia que sempre existia um novo corredor, uma nova entrada estreita para confundi-los sobre qual caminho deveriam tomar... ou talvez a ansiedade de Alice fosse grande o suficiente para fazê-la acreditar que aquilo era um labirinto sem fim, que não levaria a lugar algum.

Eles continuaram caminhando em linha reta, ignorando todas as pequenas entradas e mantendo-se no corredor principal, aquele que era um pouco mais largo. Não havia qualquer iluminação ali, e a penumbra parecia mais uma peça pregada pelo destino, que insistia em dificultar os passos de Alice em meio ao mar de entulhos que envolvia seus pés.

– Malditas caixas – reclamou, chutando com raiva e força um caixote em que acabara de tropeçar, vendo sua silhueta rolar alguns metros adiante e estancar com um baque, ficando imóvel após aquele som. Os olhos da hippie se arregalaram em expectativa ao ver que a caixa havia parado diante do fim daquele corredor em que os dois gastaram vários minutos para atravessar.

Uma porta encoberta de poeira estava localizada no centro da parede, e ela era tão velha e mal cuidada que a madeira estava completamente podre e escura... algumas farpas despontavam do batente, e várias lascas soltas pareciam querer atingir qualquer um que resolvesse passar por ali.

Coringa e Alice se entreolharam por um breve momento, e ela, sem conseguir mais conter a necessidade de ver seu filho, correu até a maçaneta, girando-a com suas mãos trêmulas, e escancarando a porta. O Palhaço estava logo atrás da hippie, balançando negativamente a cabeça – em um sinal claro de reprovação ao modo afobado com que ela entrou no recinto – sem qualquer controle de seus próprios sentimentos.

– Krusty! – Alice exclamou ao vê-lo com uma expressão infantil, entre perdida e assustada.

– Mamãe! – ele foi correndo em sua direção, e imediatamente a hippie ajoelhou-se no chão e abriu bem os braços, para que o filho pudesse finalmente aconchegar-se em seu colo, que há horas estava tão sedento do calor de seu pequeno.

Alice deixou que o corpo relaxasse quando sentiu a respiração de Krusty bem rente ao seu pescoço, apertando-o em um abraço que colocava em dúvida se dois corpos podiam ou não ocupar o mesmo espaço... em meio aos sorrisos e às lágrimas, a hippie beijou compulsivamente as enormes e macias bochechas do filho, arrancando-lhe gargalhadas infantis, que para ela, eram traduzidas em uma doce música aos seus ouvidos.

– Que momento lindo – uma voz familiar veio de um canto escuro, junto com alguns aplausos – a família inteira reunida! A mãe, o filho e o pai – o homem saiu das sombras deixando seu rosto à mostra, e seu olhar demorou-se em Coringa, com uma satisfação inexplicável nos olhos ao ver que o psicopata também estava presente. Era infinitamente melhor do que ele podia imaginar...

– Policial Smith! – A hippie suspirou aliviada ao ver que Krusty já deveria estar a salvo do misterioso sequestrador – o senhor conseguiu capturar o criminoso que roubou o meu filho? Conseguiu prendê-lo? – perguntou, afobada, esperando ansiosa pelas respostas, e de repente estranhando a ausência das fardas do policial.

Coringa apenas observava a cena, levemente interessado pelo decorrer dos acontecimentos. Smith deu um largo sorriso, sentindo um arrepio prazeroso percorrer-lhe a espinha. E com aquele sorriso desprezível, a verdade recaiu sobre Alice, tão hedionda e detestável quanto aquela expressão de contentamento que ainda a fitava.

– Você sequestrou o meu filho? – encarou o policial com perplexidade, sentindo o queixo caído.

– Solte o menino – ele ameaçou, apontando seu revólver diretamente para a cabeça de Krusty – ou os miolos dele vão rolar! – Alice obedeceu à contra gosto, temendo que aquela ameaça se concretizasse – agora eu quero que você ordene que ele venha para perto de mim! – disse, com um brilho psicótico nos olhos. A hippie permaneceu calada, incapaz de acatar à ordem do policial e deixar que o seu filho fosse para perto daquele maldito. Inconscientemente, ela trouxe o menino de feição assustada para mais próximo de seu corpo, como um instinto protetor. Smith apontou a arma para o chão, próximo demais aos pés de Krusty, apertando o gatilho, e fazendo-os estremecer ao som da bala sendo expulsa do revólver, além de arrancar um grito assustado do menino – Faça isso agora! – ameaçou novamente – ou eu serei mais preciso no próximo tiro!

Alice fechou os olhos com força, sentindo o medo atravessar, ponta a ponta, o seu corpo. Agachou-se novamente, acariciando os cachos loiros do filho, arrependendo-se instantaneamente de cada som que saiu de seus lábios, desejando ser muda naquele momento.

– Krusty, vá até o policial Smith! – usou o título de ‘policial’ com um certo nojo, a fim de conter os inúmeros xingamentos que percorriam sua mente à velocidade da luz.

– Mas eu quero ficar com você, mamãe! – disse, com olhos chorosos – ele é mau...

– Vai ficar tudo bem, meu doce menino... – a hippie tentou sorrir, mas teve certeza de que não conseguiu – confie na mamãe, está bem? – sua voz falhou, e ela teve que olhar para cima para espantar as lágrimas e não chorar na frente do filho.

Krusty virou-se na direção de Smith, olhando-o com medo e caminhando devagar até ele. Quando estava próximo o suficiente, o policial pegou bruscamente em seu braço, puxando-o sem a menor paciência de esperar pela boa vontade daquela miniatura de Coringa. Ele segurou o ombro do garoto com uma das mãos – virando-o de modo que Alice e Coringa pudessem encará-lo – e com a outra, posicionou o cano da arma em suas costas.

– Qualquer gracinha, e pode dar adeus ao garoto – avisou, estranhando a apatia de Coringa, que se mantinha encostado à parede, observando tudo com a frieza de um espectador. Quando Smith viu que o Palhaço acompanhava Alice, pensou que ele imediatamente tentaria resgatar o filho, mas ao que parecia, Coringa era tão desprezível que nem mesmo a paternidade podia ser capaz de gerar algum sentimento bom dentro daquele amontoado de carcaça...

– Por quê? – Alice perguntou, trazendo o policial de volta à realidade – por que sequestrar o meu filho? O que você quer?

– O que eu quero? – Smith repetiu a pergunta, estreitando os olhos e assumindo uma postura rígida – eu quero justiça! – cuspiu, começando a gritar – esse palhaço idiota acabou com a vida da minha filha, e ele se vangloria por isso! Harley enlouqueceu e ficou completamente obcecada por esse filho da mãe – disse, apontando o revólver na direção do Palhaço e logo o recolocando em Krusty – eu perdi a minha filha, nada mais justo do que pagar pelo serviço com a mesma moeda.

– Krusty não é...

– Não venha me dizer que ele não é filho desse merda – Smith a interrompeu, rindo da tentativa patética da hippie – eu não sou idiota!

Alice o encarou intensamente, mordendo com força o lábio inferior antes de responder, como se o gesto a ajudasse a escolher as palavras certas. E por que diabos Coringa nem mesmo se manifestava?

– Smith... – ela pronunciou o nome do policial tão baixo que ele quase não foi capaz de ouvir – eu realmente lamento todo o mal que Coringa infligiu a você e à sua filha – disse, dando alguns passos lentos em sua direção.

– Não se aproxime! – ele avisou ameaçadoramente, apertando ainda mais o metal contra a pele de Krusty, que era a própria personificação do medo.

– Tudo bem – a hippie disse, afastando-se imediatamente com as mãos levantadas na altura dos olhos, como se ela se rendesse, e logo retomou o seu discurso, tentando manter a voz suave e ao mesmo tempo firme – você não merecia passar por todo esse processo doloroso com a Harley, não merecia mesmo! Mas Krusty não tem culpa do que aconteceu com a sua filha. Ele nem mesmo tem culpa de ser filho de quem é...

– Eu jurei que um dia me vingaria à altura por todo o mal que esse palhaço fez recair à minha família – Smith disse, e Coringa deu um enorme bocejo – Krusty não tem culpa pelo que aconteceu com Harley, mas o pai dele tem! Nada mais justo do que fazê-lo sentir na pele o que é perder um filho.

– Você realmente acha que ele se importa? – Alice gritou, exaltando-se ao ouvir aquele monte de frases sem sentido – olhe bem para ele, Smith! Acha que Coringa vai chorar pela perda de alguém? A única pessoa que você vai atingir com essa vingança estúpida sou eu.

– Você não entende – ele balançou a cabeça, parecendo abatido e cansado – é o preço justo – ele olhou novamente para a hippie, e seus olhos agora transmitiam uma pontada de loucura – é a compensação de uma guerra antiga, aonde tudo o que eu podia fazer era ver a insanidade tirar a minha filha de mim, e agora eu finalmente posso revidar!

– Me peça o que você quiser! – Alice implorou – mas me devolva o meu filho...

– Sinto muito! – ele arregalou os olhos de forma doentia, fixando o nada, e apertou o gatilho, antes que a hippie pudesse dizer ou fazer qualquer coisa.

Krusty berrou ao sentir a bala penetrar sua pele e atravessar o seu corpo, deixando um orifício rubro em sua barriga ao sair. Ele caiu no chão, chorando com a intensidade da dor, e sem entender por que foi submetido a ela daquela forma tão cruel. Alice correu até ele, sentindo o peito doer como se ela mesma tivesse sido o alvo daquele tiro. O nó em sua garganta dificultava a passagem de ar, mas a feição atormentada de Krusty parecia muito mais importante do que qualquer desconforto físico que a hippie podia sentir naquele momento.

Ela aconchegou o diminuto corpo do filho em seu colo, manchando imediatamente a roupa com o sangue. O mesmo sangue que formou-se em seu ventre, que foi nutrido pelo seu próprio sangue, agora fugia, perdia-se, afastava-se para longe daquela pequena vida que Alice tanto amou. Ouviu um novo tiro, e no segundo seguinte percebeu que o corpo de Smith estava caído no chão, com olhos desfocados e mórbidos. Além de tudo, o covarde havia se suicidado! Livrou a humanidade de sua existência nefasta, mas antes deixou uma marca profunda na hippie. Uma cicatriz que não podia ser vista, mas que permaneceria sempre aberta. Alice voltou a examinar as feições atordoadas de Krusty, sentindo-se completamente impotente ao ver o sofrimento concentrado em seu rosto.

– Meu filhote... – sussurrou baixinho, agoniada ao ver o desespero da dor naquelas feições tão infantis.

– Ainda vai ficar tudo bem, mamãe? – Krusty perguntou, com certa dificuldade em falar, e Alice afundou o rosto no ombro de Krusty, incapaz de conter por mais um segundo a torrente interminável de lágrimas e soluços que finalmente saíram, como um vendaval, de seu peito tão esmagado.

Ela o apertou delicadamente em seus braços, sabendo que em breve não seria mais capaz de sentir o pulsar quente de suas artérias. Buscando forças de um lugar que ela nem sabia que existia dentro de si, Alice conteve a crise de choro, olhando pela primeira vez com atenção para os olhos de seu filho. E o que viu dentro deles, sabia que jamais esqueceria.

Krusty tinha exatamente os mesmos olhos negros e brilhantes de Alice! Aquela era a única evidência física que unia os dois, e que a hippie havia fugido por todos aqueles anos. Somente uma diferença estava destacada naquelas lindas bolas intensas... os olhos de seu filho emanavam uma inocência e uma bondade infinita, tão profundas que somente poderiam ser encontrados em olhos infantis... exatamente o oposto do que Alice temia encontrar!

E agora, nada poderia fazê-la se sentir pior por nunca ter sido capaz de demonstrar completamente o seu amor por Krusty... mas essa era uma lamentação que deveria esperar. Não cabia pensar nisso agora! Krusty ainda esperava por uma resposta à sua pergunta.

– Vai ficar tudo bem – mentiu. Dissimular estava sendo tão rotineiro para Alice, que agora ela finalmente estava ficando boa nisso – daqui a pouco, tudo vai ficar bem de novo – disse, sabendo que a pouca verdade daquelas palavras eram um consolo apenas para Krusty. Para Alice, tornou-se o seu maior tormento.

– Mas está doendo muito – chorou, e era evidente que os soluços fortes faziam a dor piorar.

Shhh... – a hippie o embalou, como se ele fosse uma criança de colo que precisasse daquele gesto para adormecer. Contemplou novamente os olhos de seu filho, percebendo que agora era quase impossível ficar muito tempo sem admirá-los, e começou a cantarolar baixinho uma canção infantil, próximo ao seu ouvido, enquanto acariciava seus cachos molhados pelo suor – Não tenha medo, pare de chorar! Me dê a mão, venha cá. Vou protegê-lo de todo o mal, não há razão pra chorar. Pois no meu coração você vai sempre estar, e o meu amor contigo vai seguir! E no meu coração, aonde quer que eu vá você vai sempre estar! Sempre... – os soluços de Krusty diminuíram gradativamente de frequência, e Alice pôde sentir sua respiração ficar um pouco mais regular, mais controlada e baixa.

Como médica, Alice sabia que nada podia ser feito para salvar o seu filho da gravidade daquele ferimento, mas ainda assim, sentiu uma parte dela – certamente a parte que valia a pena continuar viva – morrer ao perceber o brilho se apagar dos olhos de Krusty. Aquelas duas bolas pretas de repente se tornaram opacas, e era como se o mundo parasse de girar, perdendo completamente o sentido.

A respiração de Alice estava pesada, muito mais pesada do que ela era capaz de suportar, e mais lágrimas incontroláveis desceram pela linha de seu rosto, limpando parcialmente a poeira que havia se impregnado ali. A hippie contemplou uma última vez os olhos de seu filho antes de fechá-los atrás das pequenas pálpebras pálidas, como se ele apenas dormisse...

E se não fosse pela exagerada lividez de seu rosto, aquela expressão serena podia ser confundida com a feição de alguém que dormia profundamente. Mas, mesmo que Alice quisesse acreditar apenas nas aparências, a quentura daquela mancha densa – e cada vez maior – de sangue em seu colo, fazia questão de desmentir a doce ilusão que Alice criara brevemente para confortar a realidade, que seu cérebro teimava em rejeitar.

– Agora está tudo bem! – sussurrou, ainda envolvendo o filho de forma protetora nos braços.

Coringa pigarreou atrás dela, e aquele som não podia ser mais eficiente para despertar o ódio contido dentro da hippie, que quase havia se esquecido da presença totalmente inútil do Palhaço. E foi através daquele ódio, que ela entendeu perfeitamente todas as motivações que levaram Bruce a se tornar o Cavaleiro das Trevas, entendeu toda a rede de engrenagens complexas que o moveu a buscar justiça. A buscar vingança.

– Certo, eu não tenho o dia todo – o Palhaço falou, parecendo enlouquecido pelo tédio daquela cena interminável entre Alice e Krusty. Ou o que restou de Alice e Krusty... – e então, quem é o Batman?

A hippie levantou-se lentamente, largando cuidadosamente o corpo do filho pela primeira vez, e virando-se para encarar o Palhaço, que ainda esperava por uma resposta, tão naturalmente como se houvesse acabado de perguntar as horas. Ela aproximou-se devagar, fazendo o possível para medir e controlar a raiva que a todo custo queria transbordar. Sua voz saiu baixa, pesada.

– O que te faz pensar que eu vou revelar a identidade do Morcego? – perguntou, sentindo que nunca antes sua voz havia saído tão fria e rígida quanto agora.

– Ora, eu a ajudei com o Pennywise!

– É KRUSTY! – Alice gritou, em fúria. Fechou os olhos tentando recobrar o controle, e ao abri-los, eles não pareciam mais tão indomáveis quanto a poucos segundos atrás – e você ainda tem a cara de pau de dizer que me ajudou? – seu tom de voz queria a todo custo subir novamente, e estava tão difícil controlá-lo, que Alice sentiu o corpo inteiro tremer – você não fez absolutamente nada, só ficou olhando tudo acontecer com uma cara enfadonha de dar nos nervos – cuspiu, tentando dominar seus próprios pés, que pareciam ter vontade própria ao levá-la tão próximo do psicopata.

– Eu te trouxe até aqui, não trouxe? – sua voz saiu baixa, porém a ameaça foi amplificada pelo tom cruel que usou.

– Se eu quisesse um motorista, teria chamado um táxi – rangeu os dentes, empurrando com força o peito de Coringa com suas mãos encharcadas de sangue, formando uma silhueta perfeita da forma de seus dedos, e aquele contorno vermelho vivo contrastou de forma bizarra com o roxo do paletó.

Coringa pareceu irritar-se de um jeito seriamente perigoso agora, mas Alice pouco se importava, na verdade, até sentiu-se satisfeita por finalmente ver alguma reação dele que não fosse um bocejo. Seus olhos, de um instante para o outro, passaram de entediados para ameaçadores, e novamente Alice foi capaz de ver aquela mesma faísca – que sempre parecia querer começar um incêndio dentro daquele par de olhos intimidantes.

O Palhaço segurou com firmeza o queixo de Alice, moldando dolorosamente seus dedos à base de seu rosto, e ele exercia uma pressão cada vez maior à medida que aproximava lentamente o rosto da hippie ao seu, fazendo com que os narizes dos dois ficassem tão próximos que chegaram até a se roçar, e um hálito quente envolveu o ar em volta da hippie conforme Coringa falava.

– Você realmente vai querer voltar a medir forças comigo? – fez uma pausa, lambendo o canto da boca de forma compulsiva e apertando ainda mais o rosto da hippie entre a sua mão – você é estúpida o suficiente para esquecer o quanto essa tática deu errado no passado? – ele estreitou os olhos e inclinou a cabeça, esperando por uma resposta.

– Nós... – Alice arfou, percebendo o quanto era difícil falar naquela posição desfavorável e dolorosa – nós tínhamos um acordo, e você não cumpriu a sua parte. Por que espera que eu cumpra a minha? – desafiou, percebendo o quanto estava conseguindo irritá-lo com a sua recusa.

– Essa guerra era sua! – grunhiu – era você quem deveria provar o seu valor ao ser capaz de dobrar aquele policial à sua vontade, mas você é incapaz até mesmo disso – jogou aquelas acusações que a fizeram estremecer por dentro, por saber que novamente ela havia fracassado com seu filho, de tal maneira que jamais seria capaz de consertar...

Ele empurrou o rosto da hippie com força, fazendo com que ela batesse a cabeça na parede que havia logo atrás, próxima o suficiente para provocar um baque sonoro como resposta àquele contato grosseiro e súbito. Coringa deu as costas à Alice – que por um minuto chegou a acreditar que o Palhaço realmente iria embora e a deixaria ali – dando passos apressados e passando a mão pelo cabelo. Repentinamente, o psicopata deu meia volta, aproximando-se novamente de Alice com uma expressão tão doentia quanto os seus olhos insanos. Ao ficar perto o suficiente, envolveu o pescoço da hippie em mais um aperto, levantando-a até que seus pés ficassem a alguns poucos centímetros distante do chão, e foi como se todo o peso de Alice se concentrasse sobre os seus pulmões, sufocando-a instantaneamente. Suas costas estavam encostadas rente à parede, e ela levou as mãos até o pescoço, de modo instintivo a se livrar do aperto que era imposto pelo Palhaço, mas parecia inútil tentar superar sua força bruta.

– Eu sou paciente – disse, ignorando completamente as tentativas frustradas de Alice em diminuir a pressão em sua garganta – por isso, vou te dar mais uma chance... Quem é o Batman? – perguntou novamente, de forma pausada e contida, como se fizesse um enorme esforço para não terminar de vez com aquele serviço.

A hippie abriu a boca, mas nem um único som saiu por ela. Estava cada vez mais difícil puxar o ar, e a sua visão começou a ficar embaçada, porém ainda foi capaz de balançar sutilmente a cabeça, como uma réplica à pergunta de Coringa, negando-se a dar a resposta que ele tanto queria.

– Você é muito mais estúpida do que eu pensei – rosnou repleto de irritação, largando o pescoço da hippie repentinamente, fazendo-a cair no chão. Imediatamente ao se ver livre do aperto, Alice levou a mão ao hematoma certo que se formaria ali, tentando intercalar a necessidade de puxar o ar com as tosses infernais, que arranhavam sua garganta ao passar – Vamos fazer um teste – Coringa sorriu com maldade – vamos ver se Batman terá a mesma consideração por você!

– Do que você está falando? – perguntou, com um leve indício de indiferença, sentindo sua voz sair engasgada.

– Ora, Docinho – ele finalmente havia controlado a raiva que antes entornava nitidamente pela sua boca e pelos seus olhos, porém aquilo só indicava o quanto Alice estava encrencada por não cumprir a sua parte no acordo que fizera com o Palhaço. Ela conseguiu manter-se novamente de pé, sentindo que o equilíbrio enfim voltava a dar o ar de sua graça. Coringa aproximou-se da hippie, encurralando-a à medida em que seus braços a prenderam bem rente à parede fria em contato com suas costas – você decidiu me enfrentar para proteger o Morcego – lambeu os lábios antes de continuar, incidindo um olhar mais do que sombrio em direção à hippie – e digamos que eu esteja curioso para saber se ele faria o mesmo por você – disse, como se aquele fosse um comentário trivial, sorrindo em seguida – será que, sob algumas circunstâncias especiais, ele decidiria salvá-la do próprio destino? – perguntou adotando um timbre misterioso e olhando inquisidoramente para o teto, como se esperasse que a resposta caísse do céu.

Would you know my name

If I saw you in Heaven?

Will you be the same

If I saw you in Heaven?

I must be strong

And carry on

'Cause I know I don't belong

Here in Heaven

Would you hold my hand

If I saw you in Heaven?

Would you help me stand

If I saw you in Heaven?

I'll find my way

Through night and day

'Cause I know I just can't stay

Here in Heaven

Time can bring you down

Time can bend your knees

Time can break your heart

Have you begging please

Begging please

Beyond the door

There's peace

I'm sure

And I know there'll be no more

Tears in Heaven

Would you know my name

If I saw you in Heaven?

Will you be the same

If I saw you in Heaven?

I must be strong

And carry on

'Cause I know I don't belong

Here in Heaven

'Cause I know I don't belong

Here in Heaven

(Tears in Heaven — Eric Clapton)

Notas finais
A história dessa música é incrivelmente emocionante e, além da letra, isso me incentivou a escolhê-la para esse capítulo. Eric Clapton a compôs para o seu filho, Conor, que com 4 anos de idade morreu após cair do 53º andar. Uma pequena homenagem a essa explosão de sentimentos em forma de estrofes.