Notas iniciais
O tal do 'assunto pendente' da riponga! xP

Gotham City...

Quando Alice decidiu prestar o concurso com o intuito de trabalhar na América do Sul, especificamente a Amazônia, pesquisou referências sobre a cidade, sabendo que provavelmente teria que se mudar para facilitar sua vida nos estudos e já ficar por ali quando chegasse o tão temido dia da prova.

As referências mais corriqueiras diziam:

“A cidade de Gotham é famosa por abrigar importantes monumentos nacionais, que podem ser encontrados no amplo espaço do Museu Municipal, localizado próximo ao centro da cidade. Bastante conhecida também pelas empresas Wayne, fundada pela tradicional família Wayne e que hoje conta com a administração do renomado empresário Bruce Wayne, além de movimentar a economia da cidade significativamente e até mesmo contribuir com a do país. A qualidade de vida é relativamente tranquila, apesar de ter passado por um período conturbado, no qual as atividades ilícitas eram intensas. Hoje o índice de criminalidade diminuiu drasticamente, pois a cidade é vigiada por um silencioso guardião da noite, o Cavaleiro das Trevas, que atende pela alcunha de Batman, e luta contra a impunidade fazendo justiça com as próprias mãos.”

Aquelas foram as principais citações que chamaram a atenção de Alice em sua pesquisa. E seu grande erro foi acreditar cegamente nelas, sem sequer questionar se tudo era realmente tão maravilhoso quanto dizia. Mesmo que as referências não fossem de todo boas, Alice se via ligada à cidade de alguma forma... Sabia que morar ali teria suas vantagens, a começar pelas aulas do professor Aldo, que também havia se mudado para Gotham mais ou menos na mesma época, e receber as aulas do renomado professor seria, sem dúvida, uma ajuda e tanto para que ela fosse capaz de atingir o seu objetivo. E foi essencialmente esse tipo de lógica que a convenceu de que Gotham seria um ambiente propício para ela no momento.

Quando finalmente mudou-se, procurou abrigar-se no lugar mais distanciado da bagunça da cidade, acreditando que com isso estaria longe de confusões e rodeada apenas pela tranquilidade da afastada periferia...

Ledo engano!

Tudo o que ela havia conseguido morando em Gotham foi se envolver num tumulto atrás do outro. Alice havia tomado todas as precauções para se manter invisível ao mundo, porém as loucuras do mundo foram atrás dela. Mais uma grande ironia pregada pelo destino...

Cada uma daquelas visões caóticas acerca de suas escolhas passava pela cabeça atormentada da hippie, enquanto ela caminhava pelas ruas impecáveis da cidade, percebendo que toda aquela organização e zelo eram uma grande contradição com a real sujeira que rondava Gotham, a podridão sempre à espreita, tanto por parte dos vilões quanto por parte dos deturpados heróis.

Deixou que sua mente vagasse também pelas lembranças de seu último encontro com o Morcego e em tudo o que arriscou com tal conversa, ao descontar sua fúria e desabafar cada acusação que lhe veio à cabeça, como uma visível demonstração de reprovação pelos seus métodos.

Entretanto, agora que estava inegavelmente mais calma, não podia deixar de imaginar como seria Gotham se o Cavaleiro das Trevas não intercedesse por ela, apesar de continuar discordando da maneira como fazia sua "justiça"...

“Provavelmente Coringa já conseguiria ter se tornado o prefeito – ou ‘Palhaço-Mor’ – e a cidade seria seu circo particular!” – Alice pensou, repleta de humor negro, embora tivesse certeza de que Coringa controlava Gotham à sua maneira, sem precisar ter algum tipo de poder político ou financeiro para isso.

Naquela mesma hora, enquanto Alice ainda caminhava distraidamente por sobre o concreto sem vida e cinza, lembrou-se do que estava prestes a fazer e seu coração deu um pulo desgovernado e inesperado, começando a bater incontrolavelmente e fazendo um barulho tão escandaloso que até mesmo ela podia ouvir seus furiosos protestos...

– Calma, Alice! – tentou tranquilizar-se – Você precisa ser capaz de resolver isso antes de dar uma resposta ao Bruce, não estrague tudo agora!

A hippie dava orientações a si mesma com veemência, e muitas pessoas ao redor a encararam, estranhando tal cena que remetia a um inusitado monólogo. Ela sequer se importou com a incidência dos olhares curiosos que a cercavam, concentrando-se apenas naquela fala ininterrupta — que aos poucos provou-se eficaz no quesito de acalmar de leve as batidas frenéticas dentro de seu peito.

– Fique calma – respirou profundamente algumas vezes –, ele não pode te ver nesse estado deplorável de ansiedade aguda...

Alice já estava perto demais do seu ponto de chegada, e a tensão do momento era tão grande, que dispersou todo o cansaço que a havia debilitado há tão pouco tempo, esquecendo-se totalmente da fraqueza que sentia por falta de comida e descanso. As duas coisas, naquele instante, passaram a ser necessidades de segunda ordem.

Viu-se diante da bela casa e sentiu o próprio corpo estagnar, sem conseguir dar o próximo passo. Levantou a mão na direção da campainha, mas deteve-se no meio do caminho, hesitante, e com o coração batendo forte de novo. Ficou espantada do órgão não perfurar seu peito com a intensidade estúpida de sua frequência...

– Se eu pensar demais, nunca vou arranjar coragem para terminar isso – ao dizê-lo, fechou os olhos e respirou fundo mais algumas vezes. Seguindo seu próprio conselho, interrompeu os pensamentos que a impediam de prosseguir e apertou com força a campainha, arrependendo-se no mesmo instante em que percebeu o som se propagando dentro da casa.

“Fodeu...” – foi a única palavra que veio à sua mente, ora arrependida, ora acovardada.

Já estava virando-se para sair correndo dali e ir embora antes de ser notada, quando a porta se abriu em um suave rangido, e Alice ficou estática – de costas para o homem que a olhava extremamente confuso – e sem conseguir mover um músculo sequer pela repentina dureza que se instalara em cada fibra de seu corpo. Fez uma careta ao ouvir aquela voz aveludada chamando seu nome, reconhecendo-a sem a necessidade de vislumbrar seu rosto.

– Alice? Está tudo bem?

Criou coragem e finalmente girou seu corpo para encarar o homem, odiando-se por ter tido a audácia de tomar a iniciativa de ir até lá...

– Aldinho! – ela o cumprimentou com um sorriso nervoso, a aflição agora marcando suas expressões – Como está?

– Muito bem, obrigado – respondeu, presenteando-a com seu tom sempre cortês e convidativo.

Houve um breve silêncio entre os dois, no qual o professor analisava Alice e a hippie dispunha-se a fazer o mesmo. Em todos os anos que a conhecia, Aldo nunca havia testemunhado uma fisionomia tão cansada no rosto de Alice como hoje, ela parecia simplesmente exausta, e nem soube como sua aluna conseguia manter-se ereta com tamanha firmeza.

Ele, por sua vez, estava muito bem arrumado com sua camisa pólo branca e calça social, o sorriso ainda emoldurado pelo seu rosto mais do que conservado, mesmo com a idade avançada. O professor aparentava ter uns vinte e cinco anos a menos, no mínimo, levando-se em conta apenas a aparência... Somente seu semblante denunciava o quanto era sábio e experiente. Alice sentiu-se fortemente observada por aqueles profundos olhos azuis, e sem pensar direito, disse:

– O que o traz aqui?

Aldo soltou um agradável e melodioso riso com a pergunta, percebendo que Alice estava bem mais desligada do que o normal, talvez por culpa das enormes olheiras que sombreavam seus olhos já escuros...

– Eu moro aqui, Alice – sorriu mais uma vez quando percebeu que ela corou de vergonha ao notar a pequena gafe.

– Ah... caramba, é verdade! Foi mal, eu estou meio aérea hoje – tentou explicar-se, esboçando um sorriso de desculpa.

– Percebi... – disse, com tamanha gentileza que fez as pernas da hippie bambearem – Você gostaria de entrar?

– Sim... Quer dizer, não! – corrigiu, meneando de leve a cabeça – Obrigada, mas eu não vou demorar.

– Então o que eu posso fazer pela minha aluna favorita?

Apesar de o elogio ter causado borboletas em seu estômago, Alice não se desviou do seu objetivo, resolvendo acabar logo com aquilo. Falou tudo num só fôlego, pois sabia que se enrolasse mais, desistiria de cumprir o seu propósito ali. Por mais ridícula que parecesse na situação que ela mesma se colocara, Alice não poderia e tampouco queria morrer com aquela dúvida.

– Aldo Armani, você aceita se casar comigo? – despejou o pedido, surpreendendo-se ao conseguir olhar diretamente dentro de seus olhos, que mudaram de repente do divertimento para um tipo de surpresa misturada com dúvida.

– Eu... Acho que não entendi...

– Entendeu sim, por favor, não me faça repetir...

O professor ficou completamente sem reação, e suas bochechas enrubesceram intensamente ao perceber que Alice falava sério.

– Minha querida, você sabe que eu sou casado... – falou gentilmente, porém totalmente sem jeito, incapaz de discernir a própria vergonha – E sem mencionar que eu tenho idade suficiente para no mínimo ser o seu avô... – ele parecia não encontrar palavras, começando a apresentar leves sinais de desespero.

Alice percebeu que aquela era uma causa perdida, e apesar de sentir uma enorme dor pela recusa, deu um de seus sorrisos radiantes, fingindo rir com um entusiasmo pouco natural para o que ela realmente sentia. Sempre soube que a negação seria certa, mas pareceu-lhe justo dar-se ao luxo de ao menos uma tentativa.

– Epa, te peguei! Primeiro de Abril...

Aldo olhou-a ainda confuso, porém parecendo extremamente aliviado com a possibilidade de que aquela maluquice não passasse de mais uma brincadeira de sua espirituosa aluna.

– Mas hoje é dia treze de dezembro, querida – corrigiu-a, franzindo a testa e rindo musicalmente da situação.

– Não diga? Como o tempo passou rápido, não? – desviou os olhos, brincando nervosamente com os próprios polegares.

– Que susto você me deu... – suspirou aliviado, e logo a tonalidade de sua pele já havia retornado à cor original — Assim vai acabar matando o velhinho do coração – sorriu, eliminando aos poucos a tensão do seu corpo.

– Desculpe, eu não resisti – forçou mais um sorriso falso, porém convincente.

– Então, a que devo a honra da visita já que o casamento foi cancelado? – brincou, fitando-a com olhos cordiais que revelavam interesse.

– Ahh... Bom, eu vim aqui porque... – fez uma pausa, buscando alguma ideia em seu cérebro enferrujado – Não pra te pedir em casamento, claro... – pigarreou, xingando-se por não pensar nem ao menos em uma desculpa – Porque não faria o menor sentido aparecer aqui só pra fazer essa brincadeira, não é mesmo? – sorriu, mas logo parou ao ver que o professor arqueava uma sobrancelha conforme a aluna se mostrava cada vez mais perdida nas próprias explicações – Enfim, eu vim até aqui porque... vou ter que cancelar a aula dessa semana, é isso! – disse, triunfante por encontrar uma desculpa aceitável, e logo em seguida se odiou por não pensar em nada melhor.

“Saco, agora além de tudo vou ter que ficar sem a aula dele...”

– Podia desmarcar nossa aula com uma ligação, não havia necessidade de se deslocar até tão longe de sua casa!

– É... De fato, seria mais inteligente! – franziu a testa, encarando um ponto ao longe – Mas... acabei vindo pessoalmente porque já estava por perto, então... – deu de ombros, querendo encerrar logo aquela conversa.

– Você está bem? – pareceu preocupado.

“Ótima, só estou prestes a morrer pelas mãos de Coringa, e certamente ainda gostar do encontro, de tão insana que estou ultimamente. Sem contar que entrei para a lista negra da polícia de Gotham por acreditarem que eu sou a ‘Palhaço-fêmea’ do meliante, além de provavelmente ainda receber umas pancadas extras do Batman por não conseguir segurar minha língua dentro da boca...”

Essa era a resposta certa, mas Alice apenas sorriu e disse:

– Que nada, só estou um pouco enrolada nesses últimos dias, e acho que preciso muito tirar uma folga de tudo... – aquilo também não deixava de ser uma grande e irrefutável verdade.

– Claro, entendo! Você faz muito bem, descansar também é essencial antes de uma prova que atinja um alto grau de dificuldade. Uma mente bem relaxada faz milagres. Quando é o concurso mesmo?

– Bom, agora que eu descobri que já estamos em dezembro, a prova é daqui a três meses... – ficou abalada ao perceber que estava chegando perto, e ela não havia se dedicado nada aos estudos ultimamente...

Aldo compreendeu sua aflição e segurou a mão da aluna, carinhosamente.

– Eu sempre acreditei em você, Pequeno Gafanhoto – sorriu com enorme gentileza –, e eu nunca me engano quando aposto em alguém.

Alice sorriu de volta, grata pelo apoio que sempre teve do professor, e praguejando por ter nascido na época errada.

“Se eu fosse pelo menos uns trinta anos mais velha, esse homem não me escapava!”

– Obrigada, Aldinho. Sua fé em mim sempre foi um dos motivos de eu querer me superar cada vez mais, desde o dia em que nos conhecemos! – sorriu com a lembrança daquele dia inesquecível – Bom, eu realmente preciso ir. Até mais, Mestre! – disse, fazendo uma pequena reverência e sorrindo ao mirar seus olhos uma última vez.

– Vai com Deus, Alice – deu-lhe um forte abraço –, e não desanime, menina, é uma ordem! – camuflou uma voz autoritária, que até podia convencer no começo, mas que perdeu a credibilidade após o sorriso afável que deu.

– Sim, senhor! – levou a mão à cabeça como um soldado dirigindo-se ao seu superior, e logo em seguida virou-se para ir embora, ainda sentido que era observada pelos penetrantes olhos azuis do homem que significou tudo pra ela desde os seus quinze anos.

Enquanto afastava-se dali, sentiu uma lágrima silenciosa e teimosa percorrer o caminho entre seu olho e seu queixo, e finalmente cair no chão.

Alice secou o rosto com raiva, como se as lágrimas fossem evidências de um crime. “Bom, pelo menos eu posso dar uma resposta ao Bruce agora. Só preciso providenciar mais uma coisinha...”

Bruce já havia retornado à mansão, sem conseguir parar de andar indefinidamente pelo aposento e novamente recriar seus passos na direção oposta quando algum obstáculo o impedia de prosseguir com a sua caminhada pesarosa. Pensava nas palavras de Alice, quando ela anunciou tão reservadamente que precisava resolver sozinha uma pendência antes de lhe dar uma resposta. E como aquela mísera frase o incomodou...

Desde então não conseguiu parar de pensar que esse assunto em particular só podia ter relação com o Palhaço...

– Má hora para servir um chá? – Alfred notou a impaciência do Bilionário, entrando no cômodo com uma bandeja pesada de prata nas mãos e pousando-a sobre a elegante mesa de centro da sala.

– Eu devia tê-la seguido! – praguejou, mais para si mesmo do que para Alfred.

– Seguido a senhorita Alice? Sob que pretexto? – inquiriu, confuso.

– Eu não estou com um bom pressentimento... Ela insistiu que precisava resolver um assunto misterioso antes de me dar uma resposta.

– E... – o Mordomo o incentivou a continuar, ainda sem entender o que afligia Bruce.

– Você estava lá, Alfred! Viu quando eu me ofereci para levá-la e ela preferiu manter segredo... E se ela foi se encontrar com Coringa? E se ela realmente estiver envolvida com ele de alguma forma? – perguntou com uma pontada de desconfiança, e Alfred sorriu, repleto da mais refinada paciência.

– Duvido que a senhorita Alice tenha um segredo maior do que o seu, patrão Bruce. Por isso não se ofenda se ela, assim como o senhor, resolver esconder algumas coisas, aprenda a conviver com isso. E o senhor deve dar um voto de confiança à ela. Precisa decidir se acredita em sua inocência ou não, mas não fique em cima do muro.

– Eu quero confiar nela – disse por fim – Mas eu sinto como se...

– ... Como se suas anteninhas de vinil detectassem a presença do inimigo? – Alice o interrompeu com as pálpebras cerradas, encostada ao batente da porta. Ela segurava uma robusta pasta preta e encarava Bruce, séria – Espero que não se importe por eu não ter sido anunciada...

– De forma alguma! Só não esperava te ver de novo tão depressa...

– Se quiser eu posso voltar outra hora, quando você não estiver mais difamando a minha inocência!

– O que eu posso dizer? — levantou os ombros como se discordasse de cada palavra trocada com o mordomo — Foi o Alfred quem começou...

Alice não resistiu e começou a rir, acompanhada pelo mordomo. Alfred, então, rebateu com uma pergunta:

– Caso eu confirme esse embuste, ganharei um aumento?

– Você está passando tempo demais com a Alice, Alfred! – Bruce comentou, como se fosse uma ofensa à reputação do homem grisalho, porém o tom do Bilionário era divertido.

– Sim, patrão, decidi que já era chagada a hora de melhorar o nível das minhas convivências!

Alice caiu na gargalhada novamente, e Bruce fingiu-se indignado.

– Até tu, Brutus?

– Melhor eu deixar os dois a sós, antes que deturpe de vez a credibilidade de meu patrão – piscou para Alice, que respondeu imediatamente, ainda entre risos:

– Não precisa se preocupar, Alfred, credibilidade é o único luxo que Bruce não possui...

O Mordomo saiu do aposento exalando um riso baixo, enquanto Bruce resmungava, bem humorado.

– Vocês formam mesmo uma bela dupla...

Bruce reparou que Alice continuava parada no mesmo lugar, encarando-o com uma expressão indecifrável. Ele foi o primeiro a quebrar o silêncio.

– Você está aqui há muito tempo? – sondou.

– Há tempo suficiente... – respondeu simplesmente, ainda sem demostrar qualquer expressão mais explicativa.

O Bilionário suspirou, deixando que sua mão direita deslizasse pelos fios de cabelo extremamente arrumados.

– Me desculpe, Alice... Não é que eu não confie em você, na verdade eu...

– Não se preocupe com isso, Almofadinha! – Alice o interrompeu novamente – Eu também não confio em você – falou tranquilamente, sem qualquer sombra de remorso –, exatamente por isso que eu tive que tomar umas providências antes de te dar uma resposta.

A hippie começou a mexer na pasta, tirando um único papel de dentro. Bruce parecia curioso, e esperou até que ela começasse a explicar do que se tratava.

– A não ser que você esteja arrependido... – olhou hesitante para o Bilionário.

– De forma alguma – respondeu prontamente, ainda curioso.

– Certo, então. Eu aceito! – as duas últimas palavras fizeram aquele sorriso de um bilhão de dólares iluminarem o rosto cansado de Bruce, fazendo-o parecer alguns anos mais jovem.

Ele foi de encontro à Alice, pronto para agarrá-la de triunfo, quando a hippie, entre risos, disse:

– Espera aí, não se empolgue ainda! – afastou seu peito musculoso com uma das mãos – Resta saber se você ainda vai manter de pé a proposta após algumas... condições! Antes de tornarmos essa bagaça oficial, quero que você assine esse documento. E Alfred também, o contrato precisa ter a assinatura de uma testemunha!

– Já pretende roubar minha fortuna? – riu.

– Não seja precoce, ô Richie Rich versão morena! Primeiro eu preciso ganhar sua confiança para só então passar a mão no seu dinheiro, é assim que as coisas funcionam.

Alice entregou o contrato ao Bilionário, que imediatamente começou a ler, sem conseguir conter as risadas conforme descia os olhos ágeis pelo papel autenticado.

CONTRATO DE COMPROMISSO

Eu, Bruce Wayne, portador do RG _______________, declaro estar ciente de que assumo, na data em questão, um compromisso sério com Alice Rubídia de Assis Romanov III, portadora do RG _________________.

Por meio desta, esclareço que demais relacionamentos durante o período em que estivermos juntos serão imperdoáveis, e anularão imediatamente a convivência de casal adquirida a partir deste momento.

Caso eu desrespeite esta condição, Alice terá total direito de responder à imprudência de meus atos vingando-se através do auxílio de seus honrosos conhecimentos nas artes marciais, estando imune aos possíveis danos judiciais e completamente isenta de responder por seus atos violentos nessas circunstâncias.

CLÁUSULA 1:

Aniversários são para serem lembrados, e nunca vistos como comemorações frívolas e sem relevância.

CLÁUSULA 2:

O homem da relação sempre terá direito a dar a última palavra em uma discussão, que no caso será sempre: “Sim, senhora!”

Gotham, 13 de Dezembro de 2011.

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Bruce Wayne

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Alice Rubídia de Assis Romanov III

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Testemunha

Alice esperava pacientemente que Bruce terminasse de ler as condições vigentes no contrato, já empunhando uma caneta em suas mãos. Assim que finalmente concluiu a leitura, ele levantou a cabeça e olhou para a hippie, com uma mistura de divertimento e alívio quando perguntou:

– Esse era o misterioso ‘assunto pendente’ que você tinha para resolver?

– Basicamente...

“...um deles!” – completou a frase em seu pensamento, recusando-se a contar sobre a tentativa fracassada com o professor de física – “A rejeição já foi humilhante demais sem torná-la pública!”

Bruce teve um acesso de riso enquanto novamente corria os olhos pelo contrato nada usual... Era a primeira vez que Alice via o homem mais rico de Gotham perder o controle daquele jeito – sem dúvida uma cena digna de ser registrada, que não se vê todo dia! Mal sabia que o Bilionário ria por puro alívio, como uma forma de expulsar toda a preocupação que sentiu nas últimas horas por pensar que Alice se encontraria com Coringa, por pensar que de alguma forma ela realmente estava envolvida de forma mais íntima com o Palhaço...

Alice interpretou o riso exacerbado de Bruce como uma recusa em assinar o contrato, e imediatamente a hippie guardou a caneta na bolsa. No fundo ela sabia que aquela condição a livraria da insistência do empresário.

– Bom, sinto muito! Já que você não vai assinar, nada feito...

– Não! – Bruce rebateu, conseguindo controlar melhor as contrações involuntárias em seu abdômen, causadas pelo riso persistente – Me dá a caneta, Alice! Eu assino.

– Sério? – perguntou, perplexa, incapaz de acreditar na insistência do Bilionário, e ainda mais inapta na arte de prever por quais motivos ele se sujeitaria a tais termos.

– Lógico! Acreditou que seria fácil se livrar de mim? – disse, rabiscando o papel com uma das assinaturas mais importantes do país, e devolvendo a caneta e o contrato para Alice com um sorriso de dar inveja em qualquer garoto propaganda de pasta de dente – Sua vez!

Alice segurou a caneta e o papel, assinando seu nome constrangedor no espaço indicado, logo abaixo das pequenas letras que diziam “Bruce Wayne”.

– Prontinho! Agora só falta a testemunha...

Bruce, com uma satisfação que Alice não compreendia, levou o documento até Alfred, pedindo que o mordomo assinasse no local indicado. Ao ler do que se tratava, soltou uma de suas risadas bem humoradas e olhou para a hippie, ainda sorrindo.

– Ótimas precauções, eu devo ressaltar...

– Quando se trata de Bruce temos que ter tudo por escrito – Alice respondeu, retribuindo o sorriso.

– Eu ainda estou bem aqui, sabia? – o Bilionário avisou, rindo, numa tentativa de acabar com as piadinhas maldosas ao seu respeito.

Alice e Alfred o olharam por um momento e logo em seguida voltaram a falar entre si, como se não houvessem sido interrompidos.

– Não dá pra confiar em qualquer um hoje em dia – a hippie ressaltou.

– A senhorita é de fato uma grande figura, Alice! – Alfred assinou como testemunha daquele acordo improvável, devolvendo a caneta e o documento à dona.

– Só sou precavida... – virou-se para Bruce estendendo a mão para um aperto, esperando selar de vez o acordo com aquele gesto – Então, temos um trato?

Ele segurou a mão estendida da hippie, porém não a apertou, na realidade se aproveitou para puxá-la para perto de si, deixando os seus rostos a apenas centímetros de distância e posicionando uma das mãos em sua cintura, quando disse:

– Já que agora estamos oficialmente comprometidos, acho que podemos deixar as formalidades de lado – deu-lhe um meio sorriso repleto de significado.

Alfred retirou-se de fininho com o momento íntimo dos dois, deixando o cômodo sem que eles nem mesmo percebessem.

– Hum, é mesmo? O que tem em mente, senhor Wayne?

Em resposta, ele passou a mão carinhosamente pelo rosto de Alice, procurando por alguma recusa em seus olhos intensos. Como não a encontrou, diminuiu ainda mais a distância dos dois rostos e sentiu os lábios macios dela nos seus, sentindo a mulher levar uma das mãos à sua nuca.

O beijo foi doce e ritmado, exatamente o oposto do que havia sido com Coringa. Com Bruce ela podia sentir todas as reações de seu corpo e controlá-las, sem a relação de dependência e êxtase irreprimíveis que tanto a aterrorizaram. Algo infinitamente mais saudável tanto para seu corpo quanto para sua mente...

Seus instintos gritavam que aquilo era o certo, porém seu desejo estava em outro lugar, em outro alguém, mas Alice teria que ser capaz de calar a parte insana das suas vontades, e Bruce era sem dúvida o melhor remédio, com toda a gentileza de seus toques e a certeza de que eram seguros.

Os dois se olharam, sem desmanchar o abraço, e ambos reconheceram nos olhos do outro uma possibilidade de recomeço, tanto para Alice que ainda tinha o perigoso e viciante gosto de Coringa gravado, quanto para Bruce que não havia superado totalmente o rompimento com Rachel. Lá estava o destino dando novas esperanças para o casal, prometendo-lhes superações...

Nenhum deles teve coragem de falar por um tempo considerável, pois os dois adquiriram consciência da importância daquele instante sublime que prometia grandes superações no futuro... Afinal, eles poderiam se completar um dia. Poderiam, através da ajuda um do outro, colocar uma pedra naquele passado que deixou tantas marcas. Dessa vez foi Bruce quem falou primeiro.

– Você precisa descansar! – reparou na sombra arroxeada sob seus olhos, sentindo-se inegavelmente culpado por elas.

Alice assentiu.

– Você nem sabe o quanto...

– Aquele quarto de hóspedes ainda está arrumado para você. Não quer mesmo ficar por aqui?

– Muito gentil, mas é melhor não. Só preciso da minha cama.

– Posso te levar para sua casa dessa vez?

– Você está tão cansado quanto eu – Alice notou seu semblante exausto, porém feliz – Vou chamar um táxi, não se preocupe!

– Mas isso não é necessário, eu posso...

– Bruce Wayne, estamos juntos há dez minutos e você já está desrespeitando a Cláusula 2 do contrato... – Alice o interrompeu, agora num tom programado para soar irritadiço.

Ele riu.

– Desculpe, me esqueci. Eu deveria dizer “Sim, senhora”, não?

– Isso, isso, isso – respondeu satisfeita –, finalmente está aprendendo!

O táxi não demorou a chegar e estacionar próximo à elegante entrada da mansão Wayne desde o momento em que requisitaram seus serviços. Alice já esperava do lado de fora, com Bruce lhe fazendo companhia e conversando alegremente sobre assuntos sem importância.

A hippie sorriu ao ver o rosto do jovem Will atrás do vidro do carro, como um cumprimento silencioso. Bruce despediu-se com um toque suave entre seus lábios docemente selados, e ficou observando-a entrar no carro, até que o táxi sumisse completamente de vista.

Alice sorriu para Will, que parecia ter visto o próprio Cavaleiro das Trevas na sua frente, de tão surpreso que estava.

– O que foi? – ela perguntou, rindo daquela expressão embasbacada.

– Nada, só fico um pouco nervoso de carregar a futura senhora Wayne no meu humilde táxi... – olhou para a hippie, ainda parecendo admirado por presenciar o breve momento íntimo dos dois, contudo ela viu a pontada de humor que percorreu seus olhos cor de âmbar.

– Seu besta... – disse, dando um socão em seu braço e rindo.

– Para onde devo levar a senhorita? – ainda adotava uma falsa entonação de subordinação.

– Me chame de senhorita de novo e eu te levo para o raio que o parta! – zombou – E sem gorjeta dessa vez!

– Tudo bem, agora você pegou pesado. Não sabe brincar, não brinca... Mas é sério – tentou parecer menos brincalhão –, quer ir para a entrada da cidade de novo?

– Um pouco mais adiante dessa vez!

Ele assentiu, ouvindo com atenção as referências e recomendações de Alice sobre como chegar em sua casa, e concentrando-se no trânsito, porém logo retomou o assunto.

– Encontrou aquele seu amigo?

– Infelizmente sim... Mas esse assunto não me traz muitas recordações boas – Mentira! –, por que você não me fala dos seus estudos? Está conseguindo conciliar tudo?

– Na verdade não... – Alice viu um repentino desânimo em seu rosto – Acho que vou ter que desistir da faculdade, ao menos por enquanto!

Alice falou mais alto do que o necessário:

– NÃÃO! – o grito surpreendeu William, que perdeu brevemente o controle do carro com o susto – Desculpe por isso, foi mais forte do que eu. – explicou – É que você não pode desistir depois de tanto esforço... O que aconteceu? Duvido que você simplesmente esteja querendo largar tudo porque está difícil! – sem dar tempo do taxista responder, continuou falando, em tom de bronca como se, de algum modo, visse a si mesma no garoto – Só digo uma coisa, eu gostei de você, fui com a sua cara, e vi a mesma determinação que me move quando eu quero muito alguma coisa! Você não pode abandonar seu sonho por razões fúteis, ou porque seus parentes não aprovam e...

– Meu pai está muito doente. – interrompeu, antes que Alice pudesse continuar – Está num estágio avançado de um tipo raro de câncer, e minha mãe precisa da minha ajuda para pagar as contas do hospital, então acho que meu sonho vai ter que esperar até que as razões fúteis estejam novamente resolvidas...

– Ah... – disse, envergonhada – Me desculpe por isso!

– Tudo bem – conseguiu rir apesar de tudo –, você só queria ajudar... apesar de ter um método meio assustador de fazer isso!

– Acho melhor ficar eu calar a boca pelo resto da viagem – foi a coisa mais sensata que disse desde que entrou no táxi.

– Você não tem essa capacidade – debochou, disposto a mostrar que não se zangara.

– Quer apostar, Agostinho Carrara? – perguntou, vendo-o franzir brevemente a testa em sinal de desentendimento com a referência. Desde que Alice se propusera a passar naquele concurso, sentiu-se cada vez mais obcecada por tudo o que pudesse aprender sobre o Brasil, inclusive acerca dos diversos tipos de entretenimentos do país. O pequeno viés era que todos desconheciam suas referências, sempre gerando aquele sentimento de dúvida.

– Vai ter que esperar pela próxima corrida. – o garoto disse por fim, com um meio sorriso no rosto.

Alice ficou perplexa ao se ver diante de sua casa. Era impressionante como o tempo passava rápido quando estava com Will. Era apenas a segunda vez que ela o via, mas já sentia uma enorme afeição por ele, como se fossem ligados de algum modo. Antes de sair do carro, olhou fundo dentro de seus olhos, com compaixão.

– Eu sinto muito pelo o que eu falei, e mais ainda pelo seu pai...

– Sem problemas, Alice! – sorriu — Prometo que não vou desistir de vez da faculdade, está bem?

– Assim que se fala, garoto! – disse carinhosamente, dando-lhe o dinheiro da corrida acrescida de mais uma gorda gorjeta.

– Você está me acostumando mal... – comentou um pouco envergonhado, mas sem recusar pegar o pagamento dessa vez.

Saiu do táxi, sorrindo, e foi em direção à sua casa sem saber se corria primeiro para a geladeira ou para a cama. Decidiu que o cansaço era muito maior do que a fome. Estava cada vez mais angustiante manter-se ereta, e sua visão parecia novamente embaçada pelo sono.

Abriu a porta e os sete cachorros começaram a latir e abanar o rabo, intercalando uma corrida desajeitada com pulos curtos para cumprimentar a dona. Alice acariciou todos rapidamente, quase caindo de sono.

– A mamãe brinca com vocês depois, prometo!

Correu o melhor que podia, esbarrando em alguns móveis e paredes pelo caminho pela própria afobação que a movia, mas chegando finalmente ao seu quarto, e deixando-se cair na cama, aliviada por afinal poder fechar os olhos que já ardiam. Sua última lembrança antes de adormecer de vez foi quando sentiu os sete cachorros pulando, quase que ao mesmo tempo, na sua cama e aconchegando-se ao seu lado. Sorriu para si mesma, e instantaneamente caiu num sono profundo, seu melhor refúgio para esquecer a confusão que era sua vida.

Por quanto tempo Alice adormeceu sem sequer mover-se? Ela não saberia a resposta, apenas tinha a consciência de que poderia ter dormido muito mais se não fossem as batidas frenéticas sobre sua porta.

– Algo realmente conspira contra meu descanso, não é possível – levantou-se totalmente tonta e sonolenta, tentando encontrar equilíbrio para manter-se de pé.

Quando enfim se sentiu segura de que conseguiria caminhar sem cair, começou a andar um pouco cambaleante em direção à porta.

As batidas estavam ainda mais fortes e insistentes agora, e o ruído apressado começou a irritar Alice profundamente.

– JÁ VAI! – gritou com raiva – Será que não se pode nem dormir sem ter a casa arrombada?! – reclamou para si mesma.

Nem se importou ao abrir a porta completamente descabelada e com os olhos ainda semifechados, apenas queria dispensar logo a visita indesejada e voltar a largar-se em sua adorada cama. Olhou para a figura de sobretudo parada na sua frente e perguntou, mal humorada:

– Quem é você?

– Sou o policial Smith, e a senhorita está sendo intimada para depor na delegacia de Gotham sobre seu envolvimento com Coringa. Deve me acompanhar agora!

Notas finais
Gente, sei que a história por enquanto tá muito parada e sem graça, mas.... ... se vocês tiverem um pouco mais de paciência, as coisas vão apimentar em breve, prometo! É isso! Espero que tenham gostado do capítulo.. ;)