Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
21 Lição n° 2: Conheça O Passado, Enfrente O Presente
Notas iniciais
– Quem é você? – Alice perguntou na defensiva, totalmente aflita por não conseguir identificar os traços do rosto do homem que agora dividiria a cela com ela.
Ele não respondeu de imediato, apenas se aproximava ainda com um sorriso exagerado estampado no rosto, e com uma lentidão programada para ser cruel e angustiante. Cada passo para mais perto da hippie a fazia acreditar que seus batimentos cardíacos estavam contados, e que talvez aquelas puxadas de ar angustiantes fossem as suas últimas...
– Me admira sua inabilidade em me reconhecer – balançou a cabeça em sinal de reprovação.
– Ah, vá... – Alice bufou, revirando os olhos e esquecendo seu medo por um breve instante ao reviver aquele filme – Por que todos os criminosos dessa cidade acham que as pessoas têm obrigação de conhecê-los? Vocês não são exatamente celebridades... É só aparecer na página policial que já ficam com mania de grandeza! – resmungou.
O homem riu, e isso realmente surpreendeu a hippie. Ela esperava, no mínimo, ser punida por causa do deboche que havia acabado de dedicar ao misterioso homem à sua frente, mas tudo o que ele fez foi rir, e ainda por cima o fez de um jeito sincero e envolvente. Se a hippie não sentisse cada fibra de seu ser dominada pelo medo e receio, sabia que se deixaria levar por aquele som agradável, rindo também.
Agora Alice já podia distinguir o enigmático rosto que antes estava escondido pelas sombras. Tratava-se de um homem de meia-idade com profundos olhos azuis, marcados por leves rugas – que não lhe davam um aspecto envelhecido, mas sim evidenciavam a aparência de uma pessoa experiente e sábia. Sim, havia muita sabedoria naquele olhar, embora misturada perigosamente com uma ponta de crueldade, que a hippie não se surpreenderia se deixasse até mesmo Coringa de cabelo em pé... Seu rosto também era caracterizado por um cavanhaque comprido e semi grisalho, que Alice até acharia digno de escárnio em outra ocasião.
Todos aqueles traços marcantes e tão específicos daquele rosto faziam o homem parecer um tipo assustador de Ninja Ocidental!
– Eu esperava que, sendo quem você é, Bruce tivesse falado a meu respeito... – ele explicou, fazendo Alice retornar bruscamente de seus devaneios intrigantes. Ela inclinou a cabeça, confusa.
– Por que Bruce me falaria de você? E como assim “sendo quem você é”?! Por acaso sabe quem eu sou? – perguntou, assustada. Ele sorriu mais uma vez, deixando grande parte dos seus dentes brancos à mostra.
– Sei tudo sobre você, Alice – ela pulou de susto ao ouvi-lo pronunciar seu nome –, você é aquela que todos chamam de “A Gata Borralheira de Gotham”, não estou certo? – riu ao ver sua expressão de pânico – E eu esperava o mesmo reconhecimento de sua parte! Mas vejo que Bruce não confiou nem um pouco em você... – provocou.
– As notícias correm rápido por aqui, hein? – pigarreou antes de voltar a falar – E Bruce nunca viu em mim uma pessoa digna de confiança – desabafou mais para si mesma do que para seu colega de cela.
– Isso só prova o quanto eu o treinei bem!
– Treinou? Hoje em dia é comum receber treinamento pra ser galinha?
– Você realmente não sabe nada a respeito de seu parceiro, não é mesmo? – um sorriso dúbio arqueou as maçãs de seu rosto, extraindo uma sombra incômoda no semblante da hippie.
Alice queria protestar, dizer que o conhecia melhor do que ele imaginava, que os dois tinham uma relação de confiança inquebrável e que ela sabia sim muito a seu respeito. Mas as mentiras simplesmente se recusavam a ultrapassar o limite de sua boca.
– Não... – rendeu-se, sentindo um nó doloroso em sua garganta ao pronunciar aquela simples palavra monossilábica – E ele não é mais meu namorado! – explicou, sem saber por que. Aquele homem exalava uma autoridade tão sobrenatural, que Alice sentia-se na obrigação de lhe dar satisfações, por mais ridículo que isso pudesse parecer.
– Vocês brigaram? – seus olhos cor de safira brilharam de prazer, aumentando ainda mais a intensidade dentro deles. Alice o encarou, tentando decifrar aquela sua postura cada vez mais misteriosa, mas sem muito sucesso.
– Quem é você? – perguntou novamente, porém agora com a curiosidade substituindo o medo.
– Costumavam me chamar de Ducard, antes de eu vir parar aqui e ser reconhecido apenas como um número... – falou com desprezo, e logo em seguida mudou de assunto, empolgando-se – Talvez você queira conhecer a história de Bruce!?
– Não mesmo, obrigada! – mentiu rápido demais, um pouco pasma pela oferta repentina – Nós não temos mais nada, e se ele não quis confiar em mim... – fez uma breve pausa, tentando escolher os termos certos a usar – Bom, digamos que isso não interessa agora!
– Eu já entendi por que ele não lhe contou nada... Você não consegue nem enganar a si mesma, que dirá aos outros...
– Ora... eu sei muito bem guardar um segredo! – cruzou os braços sob o peito, num sutil desafio. Ducard viu-se obrigado a rir diante da irritação comedida da hippie. Era evidente que ela ainda sentia medo dele, porém a provocação dançava atrevidamente pelos olhos de Alice, como se ela tentasse, aos poucos, encontrar o limite do presidiário para saber até aonde poderia ir sem se machucar.
– Não – ele disse, convencido –, você não seria capaz de guardar nenhum dos segredos de Bruce... E eu não estou dizendo que você o trairia por meio de palavras! Sua traição viria cedo ou tarde pela sua expressão. Você é o tipo de pessoa que não sabe fingir, a verdade fica estampada em cada músculo retesado de seu rosto...
Ele estava coberto de razão nesse ponto, porém a hippie jamais admitiria isso. A mais pura verdade é que ela nunca foi mestre na arte de dissimular e, talvez por isso mesmo, tantas portas haviam se fechado para ela durante sua vida.
Alice o encarava, desconfiada, e uma épica batalha era travada em seus ombros. No ombro direito, ela ouvia a voz de um diabinho, e até conseguia vê-lo, dando ordens em seu ouvido. No esquerdo estava o anjinho, ainda calado.
“– Pergunta logo o que ele sabe sobre Bruce! Você tá querendo um convite formal ou o quê?” – a miniatura de diabo disse, num tom autoritário e indócil. Automaticamente, Alice olhou rapidamente para seu ombro esquerdo, esperando pela contestação do anjinho, que certamente lhe daria algum conselho altruísta! Porém, o que ouviu rente ao seu ouvido esquerdo a espantou:
“– Tá esperando o quê?” – foi a vez da miniatura de anjo dizer, olhando-a impaciente – “Pergunta logo!” – Quem era a hippie para contestar se o próprio anjinho concordou com o diabinho?! Se aquilo era a consciência de Alice, então estavam fazendo um péssimo trabalho.
– Por que você está se oferecendo para me contar sobre a vida de Bruce? – tentou rondar as verdadeiras intenções de Ducard antes de ceder – E como você sabe os segredos do Cifrão Humano? – perguntou, cada vez mais desconfiada dos intuitos dele.
– Tudo será explicado no seu devido tempo. Você apenas tem que aceitar que eu já fui muito próximo de Bruce, e só estou preso aqui por causa dele – era possível perceber a irritação em suas palavras – Mas por hora isso não vem ao caso! Você quer saber mais sobre ele ou não? – seus olhos faiscaram daquele jeito estranho mais uma vez.
– Sim – a hippie não hesitou em responder, cedendo à própria curiosidade. Cruzou as pernas ao sentar-se no chão para ficar mais confortável, sabendo que provavelmente o monólogo de Ducard seria longo – Pode começar – ela o incentivou, fazendo com que ele sorrisse, porém sem nenhum indício de humor naquele gesto.
– Você sabe alguma coisa sobre a infância de Bruce?
– Bem pouco... – sentiu o rosto corar pela sua ignorância no assunto depois de terem sido tão próximos – Sei que os pais dele foram assassinados quando ele ainda era apenas um amebinha...
– Sim – concordou com a cabeça –, mas essa história fica incompleta se você desconhece todo o processo que a envolve – disse misteriosamente.
– Tá, já entendi, agora conta logo! – Alice não conseguia esconder a repentina curiosidade que tomou conta de si, deixando-a totalmente impaciente aos rodeios que Ducard estava fazendo.
– Bom... – principiou a narração com um discreto sorriso vitorioso, cedendo ao apelo da hippie.
"Bruce tinha por volta dos 7 ou 8 anos, e sua principal preocupação no momento era achar um bom esconderijo no enorme jardim da Mansão Wayne! Ele brincava com Rachel, sua melhor amiga desde... desde que se lembrava! O pequeno Bruce corria feliz, contornando as lindas flores que marcavam e davam vida ao local, até que pensou ter encontrado o refúgio perfeito.
Foi um poço – de proporções exageradas – que chamou a atenção do garoto no mesmo instante em que o viu. Tinha uma enorme abertura e uma beleza um pouco rústica, que contrastava com o alegre jardim colorido, denotando um ar medieval ao lugar.
O ‘Mini-Wayne’ sorriu satisfeito. Rachel jamais o encontraria ali!
Apoiou parte da região torácica em alguns tijolos, inclinando todo o corpo para dentro da abertura – que estava totalmente preenchida pela penumbra – tentando olhar a fundo dentro do poço e calcular a sua real profundidade. E então tudo aconteceu rápido demais... mais rápido do que seria capaz de controlar.
Não mais do que de repente, sentiu o desequilíbrio tomar conta de todo o seu corpo, e a gravidade fez o resto, com uma competência espantosa. Nem sentiu a própria voz para gritar enquanto caía dentro do profundo abismo envolto por tijolos escuros. O baque não demorou a chegar, e a dor muito menos! Sentiu um dos ossos de seu braço direito se romper, arrancando um gemido de dor do pequeno bilionário.
Tudo ali estava mais escuro e úmido do que realmente parecia ser quando olhou de cima, e a parte interna do abismo não possuía nenhum vestígio da beleza e imponência que era observada no exterior do poço. Seus olhos estavam marejados, o que tornava a sua visão ainda mais indefinida.
Olhou em volta, assustado e amparando o braço quebrado com o braço bom, tentando não pensar na dor lancinante que o envolvia. A sua respiração estava ofegante, e cada arfada de ar era pior do que a outra. Mais do que nunca ele queria que Rachel tivesse a ideia de procurá-lo ali... talvez ela o conhecesse tão bem que saberia exatamente aonde poderia encontrá-lo! Era o que Bruce esperava...
Porém a sorte não estava ao seu lado... os minutos arrastavam-se lentamente, parecendo horas, e nem sinal de alguém para socorrê-lo daquele “Poço dos Horrores”. Sentou-se no chão molhado e respirou fundo, tentando se acalmar, mas antes de conseguir esse feito, um som agudo – que parecia vir de todas as direções e potencializado pelo eco — propagou-se por aquela barreira claustrofóbica que o cercava de todos os lados. Bruce pulou de susto. Seus olhos ainda não haviam se ajustado completamente àquela escuridão. Piscou freneticamente, na tentativa de adaptar-se ao breu que engolfava tudo à sua volta, inclusive ele mesmo.
Na mesma hora, sentiu fortes golpes de ar tocando seu rosto infantil, ainda ouvindo o som estridente e impossível de identificar. Foi aí que Bruce percebeu a enxurrada de morcegos que o rodeava e passava por ele, grudando em seu cabelo ou roçando as asas em sua pele desprotegida.
Gritou, o mais alto que pôde, usando cada fiapo de força que ainda lhe restava. O contato com os morcegos era repugnante! Os mamíferos voadores procuravam todos os espaços nus de seu corpo, sem nunca deixar de fazer aquele barulho ensurdecedor, que seria capaz de romper os tímpanos de algum ouvido mais sensível.
Bruce era incapaz de parar de gritar, mesmo com cada corda vocal implorando para que ele cessasse aqueles berros incontroláveis, que rasgavam sua garganta ao sair. Os morcegos ainda sobrevoavam por perto, e o estrondo que faziam agora se mesclava aos grunhidos incoerentes de Bruce.
Rachel passava por perto naquele instante, procurando minuciosamente pelo amigo em cada canto do jardim... Foi quando ela ouviu um som desesperado, que arrepiou até os menores pêlos de sua pele... correu em direção a ele – que a deixou de frente para o poço.
– Bruce? – chamou, espiando hesitante para dentro do poço – Bruce! – levou as mãos à boca, com a surpresa de encontrá-lo caído ali, com os olhos desfocados e parecendo machucado.
Ele não respondeu, parecia um zumbi recém-saído de seu túmulo, todo sujo de terra e com os olhos meio arregalados e sem vida. Rachel correu em direção à Mansão, chamando pelo mordomo o mais alto que podia.
– Senhor Alfred! – tropeçava nos próprios pés com a urgência de encontrá-lo logo.
Enquanto isso, Bruce estava alheio a tudo o que acontecia a sua volta. Não via, não ouvia e muito menos sentia qualquer coisa. Os morcegos não estavam mais voando freneticamente em cima dele – talvez seus gritos ou os passos de Rachel os tenham espantado... ele não sabia dizer – mas ainda assim, o pequeno Wayne sentia como se estivesse fora de seu próprio corpo. Seu estado de inconsciência nada mais era do que um mecanismo de defesa ao acidente que acabara de sofrer, um tipo de defesa que tentava de todas as formas proteger sua mente do trauma.
Não soube calcular o tempo que esteve ali. Minutos, horas, semanas... todas essas unidades de tempo pareciam as mesmas, todas irrelevantes e sem o menor sentido. Pela primeira vez, ouviu um som familiar chamando seu nome, mas ainda não encontrava o controle do próprio corpo para responder, ou dar algum sinal de vida. Porém reconhecer aquela voz já era um grande avanço, levando em conta o seu estado de dormência.
– Bruce... – uma voz muito perto e baixa o chamou, e só uma pessoa seria capaz de falar com tamanha gentileza e zelo, conseguindo tirar uma reação de Bruce, por menor que fosse. Reconheceu imediatamente o homem à sua frente quando virou o rosto para olhá-lo: era seu pai, que agora o colocava entre seus braços com uma delicadeza fora do normal – não se preocupe, vou tirar você daqui – sorriu bondosamente para o filho, que não disse nada, apenas deixou-se aconchegar naquele colo que sempre lhe passou tanta confiança.
Saíram de dentro do poço com muito mais facilidade do que quando entraram, e Bruce precisou fechar os olhos para a claridade do lado de fora, pois todos os seus sentidos já haviam se acostumado com a profunda escuridão que envolvia aquela área circular, delimitada por um tipo único de alvenaria.
Foram para dentro da Mansão em silêncio, sem nem sequer parar para tranquilizar os três pares de olhos aflitos da Senhora Wayne, de Alfred e de Rachel, que ainda estava impressionada com a cena que testemunhou do seu melhor amigo caído dentro do poço, parecendo um morto-vivo – mais morto do que vivo!
Finalmente estavam no quarto de Bruce, e seu pai o colocou suavemente sobre a cama, acariciando seu rosto ao tirar uma mecha de cabelo suada de cima de seus olhos.
– Precisamos ver esse braço – reparou no membro provavelmente quebrado – eu vou chamar o médico, enquanto isso por que você não tenta descansar um pouco? – sorriu.
Bruce fechou os olhos, tentando seguir o conselho de seu pai, mas a imagem de vários morcegos formada atrás de suas pálpebras o fez abri-los no mesmo segundo, em pânico.
– Pai! – gritou, ofegante, sentindo sua voz sair trêmula – fique aqui, por favor... – implorou, com lágrimas nos olhos. Talvez, se pudesse apertar a mão de seu pai enquanto tentava dormir, não seria assombrado por aqueles terríveis mamíferos voadores em seus sonhos... – eu estou com medo! – falou baixinho, como se confessasse um crime.
O pai de Bruce ajoelhou-se ao seu lado na cama, apertando a pequena mão do filho entre as suas e acariciando-a ao mesmo tempo, sem parar de encarar os olhos dele nem por um segundo sequer.
– Bruce, por que caímos? – perguntou gentilmente, esperando pela resposta, que não veio. Bruce apenas o encarava, com uma mistura de medo e curiosidade preenchendo seu rosto de menino assustado – nós caímos para aprendermos como nos levantar! – sorriu mais uma vez ao ver a expressão confusa do filho."
– Espera aí... – Alice disse, quando Ducard fez uma pausa em sua história – Está me dizendo que você fez todo esse suspense para me dizer que o grande segredo que Bruce escondeu de mim é que ele foi tonto o suficiente para cair num poço e ser atacado por morcegos? – franziu a testa para o homem, esperando pela explicação.
– Paciência, Alice! – riu – Esse pedaço da história pode parecer irrelevante agora, mas muitas vezes precisamos saber o princípio de tudo para entendermos o desfecho – disse, misterioso como sempre.
– Eu nunca fui muito boa em esperar pelas respostas que quero ouvir... – reclamou, sentindo um terrível incômodo com aquela história. Aprumou-se na dureza típica do chão, visando esconder o seu descontentamento.
– Tudo no seu devido tempo! A resignação pode se mostrar uma grande aliada se você souber o melhor jeito de explorá-la – a maneira com que Ducard falava, fazia com que Alice se sentisse uma aluna recebendo uma importante lição de seu mentor – E eu já falei demais por hoje! Agora é a sua vez de contar-me...
– O que você quer saber? – perguntou, sem muito ânimo para responder perguntas e possivelmente se expor a um completo estranho.
– Quero saber o que levou ao rompimento do relacionamento de vocês! – naqueles olhos faiscantes havia um verdadeiro furacão de sentimentos: expectativa, curiosidade, despeito... Maldade. Tudo isso, e muito mais, estavam misturados dentro do azul intenso que não parava de encarar Alice por nada. Sem dúvida, aquele era o olhar mais complexo que a hippie já vira... E de tão perturbador, acabava tornando-se fascinante.
– É uma história muito chata – tentou esquivar-se da pergunta, assim como evitou encarar as duas bolas safiras que não lhe deram trégua desde que ela entrou naquela cela, e que pareciam estar sempre a analisando, medindo, pesando... Era realmente sufocante!
– Eu estou confiando em você! Pode fazer o mesmo comigo, Alice. Garanto que não irá arrepender-se – sorriu ambiguamente. Era muito difícil interpretar seus pequenos gestos... Tudo no homem era enigmático, e confiar em alguém tão instável como ele parecia realmente uma idiotice sem precedentes. Por outro lado, porém, a cidade inteira já devia estar ciente da humilhante traição, a hippie não tinha nada a perder, muito pelo contrário! Poderia até descobrir quais eram as intenções e interesses que moviam essa curiosidade particular sobre a vida do casal.
– Ele me traiu – deu de ombros, e por incrível que pareça, desabafar aquilo para alguém era como extrair uma farpa incômoda de dentro da pele. Ela havia guardado essa mágoa há tanto tempo só para ela, que aquilo já estava às vias de tornar-se um tumor maligno, corroendo-a de dentro pra fora... E falar foi tão bom, tão reconfortante, tão fácil, que Alice despejou toda a história do dia desastroso da festa para Ducard, até mesmo a parte que envolvia sua mãe interesseira e a descoberta de seu meio-irmão.
Falou sem freio, quase sem tomar fôlego, e Ducard ouvia tudo pacientemente – sem nunca interrompê-la – apenas acenando com a cabeça nos momentos oportunos. Quando Alice finalmente terminou de contar, ele sorriu, um sorriso maldoso e despido de qualquer indício de condescendência.
– E você sente raiva dele?
– É lógico! – bufou – Pensei até em me vingar de Bruce espalhando para todos os jornais que ele é mal-dotado, se é que me entende!
Ducard gargalhou, certamente adorando o rumo da conversa: vingança.
– Um ódio bem direcionado pode ser uma arma muito poderosa e devastadora – ele diminuiu o tom de voz, dando um ar ainda mais misterioso às próprias palavras – Eu posso te ajudar a extrair cada gota desse sentimento e dobrá-lo a seu favor!
Alice arregalou os olhos diante da estranha proposta, sem saber exatamente o que deveria responder. Talvez ele fosse completamente louco... Talvez uma resposta errada colocasse a hippie em perigo... Quando ela abriu a boca para rejeitar delicadamente a “ajuda”, um policial de poucos amigos interrompeu a conversa, batendo com força na cela e chamando a atenção dos dois.
– Visita para você – olhou para Alice, mal humorado.
– Pra mim? – repetiu, um pouco incrédula – Se for o Brad Pitt, diga que eu não quero mais nada com ele, e que é para ele parar de me procurar! – o guarda nem alterou sua expressão de tédio diante da brincadeira de Alice.
“São todos mal amados mesmo...” – pensou, enquanto ele apertava a algema em seus pulsos e a guiava, sem nenhuma gentileza, para o local reservado de visitas. De certa forma, aquele homem lhe era muito familiar, mas a hippie não conseguia prestar muita atenção no policial, pois o cap ridículo que usava escondia os principais traços de seu rosto.
– Ogro... – resmungou baixinho quando ele a empurrou na direção da visita, fechando a porta com um baque surdo bem atrás de si – Um dia desses eu juro que vou explodir todo o estoque de rosquinhas dessa droga de cidade, aí eu quero só ver se vocês ainda vão andar por aí com esse ar soberbo! – Alice falava sozinha, esquecendo-se de que estava acompanhada pela tal visita.
Bruce Wayne apenas a olhava resmungar, sentindo uma enorme culpa por vê-la naquela situação. Afinal, de certa forma ele sabia que era um pouco responsável pela prisão da hippie... Foi ele quem decidiu contar à polícia a respeito da ajuda que Alice deu ao Palhaço quando tratou seu ferimento, colocando-a direto no topo da lista de principais suspeitos envolvidos com Coringa.
– Você... – exclamou surpresa, finalmente enxergando Bruce sentado a poucos passos dela – Preferia que fosse o Brad Pitt! – reclamou, jogando o peso de seu corpo na cadeira à frente do Bilionário.
– Vejo que a cadeia não tirou seu senso de humor... – Bruce sorriu enviesado para ela, parecendo envergonhado. Era absurdamente estranho vê-lo depois de ouvir a história de Ducard... Vários traumas de infância marcavam a vida da riponga, e perceber que Bruce também havia passado por esses problemas tão comuns, perceber que o Bilionário era alguém de carne e osso, era um tanto esdrúxulo... Mas o que realmente a incomodou foi o sentimento solícito com que o imaginou naquele horripilante episódio da infância de Bruce.
– Diz aí, o que você quer? – Alice reclinou-se de leve sobre a mesa que os separava, apoiando o queixo com o dorso das mãos, o que fez Bruce encarar a algema que a prendia por longos segundos – Veio aqui para admirar pessoalmente a prisão da sua ex? Eu não o culpo, Bruce! Se fosse você na minha situação eu faria a mesma coisa! Mas não pense nem por um minuto que eu estou no fundo do poço – destacou as últimas palavras, usando como referência a história que Ducard acabara de lhe contar, arqueando as sobrancelhas um tanto provocativas.
– Eu preciso me desculpar pelo nosso último encontro... – começou a falar, parecendo não entender a indireta, mantendo o seu tom bem mais cortês e regrado do que o habitual. Certamente desculpar-se não era uma atividade natural para alguém como o Magnífico Empresário Wayne! – Eu não tinha o direito de ir até a sua casa para te acusar, me perdoe!
– Realmente, aliás você não tem o direito de me cobrar absolutamente nada! Mas deixa isso pra lá... Com todo esse sensacionalismo da mídia até eu estou começando a acreditar que sou culpada...
– Eu não sei o que deu em mim... devo admitir que fiquei muito surpreso com aquela foto – Bruce enfatizou a última palavra com desprezo, deixando claro acidentalmente que ele ainda desconfiava dela. Alice suspirou, cansada.
– Chegue logo ao ponto, Bruce. Está estampado na sua testa de um bilhão de dólares que você não acredita nem um pouco na minha inocência. – fitou-o entediada.
– Eu estou tentando digerir essa história ainda, mas não quer dizer que eu não acredite em você!
– Bom, pra mim não faz a menor diferença se você acredita ou não – alfinetou – se era só isso, vou voltar ao conforto da minha cela! – disse, levantando-se.
– Eu não vim aqui só para me desculpar! – Bruce falou com urgência, antes que a hippie pudesse se distanciar.
– Esse horário de visitas não acaba? – Alice sentou-se novamente, olhando irritada para a porta aonde o guarda devia estar parado do outro lado.
– Só queria que você soubesse que eu não blefei quando ofereci os serviços do meu advogado! Ele é o melhor, e tenho certeza de que poderá provar sua inocência – Bruce falava com seu tradicional tom educado, bem diferente do que havia sido no último encontro dos dois – Ele já está a par da situação, e já começou a trabalhar na sua defesa. Não precisa se preocupar com nada, em breve você estará livre...
– Agradecida – respondeu sem ânimo nenhum –, mas eu dispenso sua intervenção, senhor Wayne.
– Tudo o que eu quero é te ajudar... – replicou, como se a hippie fizesse uma enorme desfeita, e a partir daquela expressão quase ofendida Alice entendeu por que ele era tão persuasivo a ponto de sempre conseguir o que queria. Mas não dessa vez! Era Alice quem estava no controle daquela situação, e nenhuma chantagem emocional do Bilionário mudaria isso.
– Por acaso a Rachel sabe que você veio até aqui me fazer essa visita e oferecer ajuda? – perguntou, cruel – Ela pode ficar enciumada!
– Rachel e eu não temos nada... – disse, pela enésima vez – E você sabe disso!
– Sei? – riu, saboreando a própria ironia – Eu só sei o que vi, e eu vi que vocês dois com certeza têm alguma coisa – atacou – mas eu não vou estragar as minhas férias aqui com assuntos tão chatos. Fique longe de mim, Bruce, é sério! Não quero nada que venha de você, nem mesmo sua confiança. Pode acreditar nos jornais!
– Você nunca vai esquecer isso, não é mesmo? – lançou-lhe um olhar triste.
– Sabe, existe uma lei muito interessante na física que se chama 'Ação e Reação'. Basicamente, a reação é uma compensação de uma determinada ação, e as duas juntas equilibram as forças presentes no universo. Dessa teoria sai um belo ditado para a vida: Você colhe o que planta. Resumindo: não, eu não vou esquecer!
– Então você sugere que todas os momentos bons simplesmente serão apagados por conta de um único deslize?
– Não vou dizer que foi ruim, também não foi tão bom assim! Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais...
No mesmo instante que Alice terminou de falar – e antes mesmo que Bruce pudesse responder – o mesmo policial que a havia levado até o precário aposento de visitas entrou no local, com a mesma expressão mal-amada.
– O tempo acabou – o guarda disse, seco.
– Aleluia! – a hippie levantou as mãos ao céu, e virou-se para o homem fardado – Vamos logo, estou atrasada para a minha sessão de massagem!
Ele a olhou parecendo estranhamente conformado com o seu atípico humor, mas não disse nada, apenas a conduziu para fora a passos rápidos, deixando o Bilionário sozinho naquela sala, com cara de tacho. Alice sentiu o olhar dele sobre suas costas, mas não se atreveu a olhar para trás. Apenas acompanhou o ritmo de caminhada do policial, pensando em várias coisas ao mesmo tempo. E a mais importante de todas era:
“Preciso de um advogado!”
E Alice até sabia a quem recorrer! Uma velha amiga de Harvard que cursou a faculdade de Direito na mesma época em que Alice fez Medicina, e certamente a auxiliaria nessa hora. Olhou para o rosto emburrado do policial, e decidiu que aquela não seria uma hora conveniente para pedir que ele a deixasse fazer outra ligação...
– Ei... – a voz de Alice saiu aguda, reconhecendo-o subitamente – eu conheço você! Sheldon? Sheldon Cooper? – pronunciou o nome com nostalgia, na dúvida, mas logo em seguida soube que estava certa quando olhou seu rosto novamente, e na mesma hora sentiu seu coração acelerar dentro do peito – Caramba, é você mesmo, Shelly!!! Não se lembra de mim?
O homem de farda nem pareceu surpreso – apenas encarou-a rapidamente por meio de sua visão periférica – e suspirou.
– Esperava que você não me reconhecesse! – sua voz saiu repleta de decepção.
– Mas por quê? Nós éramos tão amigos... Aliás, eu ainda não entendi a razão de você simplesmente ter se afastado de mim na época da escola, sem me dar motivo nenhum!
– Isso já faz muito tempo, não vale a pena voltar a falar nesse assunto – ele tentou parecer alheio às lembranças do passado, mas Sheldon sempre havia sido um péssimo ator, e Alice percebeu na mesma hora a hesitação porcamente disfarçada do seu antigo melhor amigo.
– De jeito nenhum! – bateu o pé – Eu acho que mereço uma explicação... Você não sabe como eu fiquei confusa com o seu descaso! Você era meu melhor e único amigo.
Ele a olhou com irritação e talvez constrangimento, sem responder. Já estavam de frente à cela de Alice, e os dois ficaram parados por um tempo se encarando, cada um travando uma pequena batalha com o outro – sem romper o contato visual por nenhum momento. Sheldon parecia querer dizer alguma coisa, mas era como se ele tivesse esquecido como se fazia para falar.
Alice reparou como Sheldon parecia resignado, e suas expressões eram delineadas por uma concentração impenetrável, como se ele precisasse realizar um esforço gritante para manter aquela proximidade com a hippie.
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Ducard não afastou os olhos deles naquela cena improvável entre os dois. Era evidente que o policial queria falar alguma coisa – algo que talvez fosse muito difícil pronunciar em voz alta – enquanto a hippie lhe lançava um olhar curioso. Sheldon apenas balançou a cabeça, sem dizer nada tirou a algema dos pulsos de Alice e a trancou novamente na cela fria, dando as costas sem nenhuma explicação.
Um sorriso sutil marcava o rosto de Ducard ao perceber a irritação da hippie, misturada com a confusão que sentia pela atitude estranha do homem que um dia foi seu grande amigo, seu único confidente, e que hoje não passava de seu carcereiro...
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