Notas iniciais
Queria que as leitoras soubessem o quanto me animam com seus comentários, muito obrigada por participarem comigo desse universo totalmente doido e único da Alice *-*

Coringa estava um tanto inclinado para trás em sua cadeira, apoiando os pés deliberadamente sobre a mesa de reuniões e pousando um olhar furtivo sobre a foto que havia levado da casa de Alice.

– Mutilar esse belo rostinho vai ser mesmo um grande desperdício... – ele aproximou a fotografia de seu rosto e aspirou forte, como se através do retrato pudesse sentir o típico perfume de Alice mais uma vez – Mas é um sacrifício que eu estou disposto a acatar, minha querida – sorriu, arrepiando-se de prazer ao imaginar o terror naquele par de íris negras que marcavam intensamente cada feição bem delineada de suas mais diversas expressões. Imaginar que ele seria capaz de despistar a audácia que a movia, que iria substituir a petulância pelo medo ao qual estava tão acostumado em quem quer que ousasse cruzar o seu caminho. Finalmente veria ali o terror que ele sempre adorou presenciar em cada vítima...

...Mas Alice não era uma vítima qualquer!

O Palhaço dobrou novamente a foto e guardou-a em um de seus vários bolsos, decidindo que já era hora de ter seu próximo encontro com a instigante mulher. Coringa umedeceu os lábios demoradamente, quase incapaz de controlar a ansiedade que apossou-se de seus sentidos apenas ao imaginar-se usufruindo do corpo de sua bela hippie da forma que bem entendesse, usando-a movido apenas pelos próprios instintos insanos, ao seu bel prazer!

– Vou matar a saudade que você está sentindo de mim, Docinho – parou para refletir, ampliando ainda mais o sadismo que repousava em seu sorriso – Realmente será um encontro de muitas mortes! – riu sombriamente e levantou-se da cadeira de um único pulo, apressado ao ser movido por tais estímulos.

Ao sair da sala deparou-se com um de seus capangas, e reparou em como eles, de um modo geral, eram fracos. Mantinham o rosto sempre abaixado na sua presença e nunca falavam por iniciativa própria, a não ser aquilo que fosse estritamente necessário, ou se Coringa perguntasse algo. Controlando seu instinto de pegar uma de suas armas e ceder à tentação de destruir de vez aquela mediocridade em forma de pessoa, disse:

– Chegou a hora. Distraiam a polícia e Batman, não importa como. Será que desta vez são capazes?

S-sim... Bem, faremos o possível... Chefe... – o medo tingia e descontrolava sua voz de um jeito patético, fazendo o capanga gaguejar e atropelar as sílabas em seu temor.

Coringa revelou uma afiada faca e notou os olhos do homem se arregalarem. Posicionou a ponta do objeto pontudo embaixo do seu queixo e levantou o seu rosto, obrigando o covarde a encará-lo bem fundo dentro dos seus olhos insanos.

– Resposta errada! – disse pressionando levemente a faca entre o queixo e o pescoço do comparsa, o suficiente para perfurar o local – Não esperem contar com a minha compaixão de novo... Eu não vou aturar mais nenhum erro, entendeu?

Ele, totalmente surpreso pela ação de Coringa, apenas assentiu cuidadosamente, com medo de aprofundar o furo recém aberto, e sem encontrar nenhum vestígio da própria voz para responder. Um líquido quente escorreu pelas suas pernas e Coringa percebeu imediatamente aquele desprezível sintoma de fraqueza ao notar o característico odor de amônia.

O Palhaço gargalhou, olhando para a poça mal cheirosa que se formava perto dos seus pés.

– Você mijou nas calças? Só pode ser piada, eu estou cercado de covardes imprestáveis. – ele enterrou mais um pouco a faca contra a pele já avermelhada, fazendo o criminoso soltar um gemido de dor enquanto um filete de sangue descia tortuoso pela lâmina.

O Palhaço fitou o homem com completa repulsa, afastando a faca de seu pescoço e limpando o líquido vermelho em seguida. O capanga imediatamente colocou a mão no lugar lesionado, dando alguns passos para trás numa tentativa desesperada de afastar-se do fio cortante do gume. Tentou estancar o sangue, que pingava com vigor apesar de não se tratar de um ferimento profundo.

– E é bom você ser menos desagradável se quiser continuar trabalhando comigo. A minha paciência não está das melhores ultimamente, e eu não faço questão de manter um capanga que precisa usar fraldas toda vez que me vê. Limpe isso, não quero chegar aqui e sentir seu cheiro de rato!

Coringa virou-se e saiu do local, divertindo-se em silêncio com aquele ridículo espetáculo que acabara de presenciar.

O Psicopata entrou em seu carro e esperou no banco do motorista, segurando o volante com impaciência, dando tempo para que seus capangas saíssem primeiro. Somente quando percebeu a enorme lataria preta deixando o esconderijo em disparada, ligou o veículo e começou a dirigir pela pacata cidade, que em breve seria assolada por algum crime aleatório.

Começou a realizar o trajeto conhecido até a casa de Alice, ansioso em vê-la novamente. Será que ela saberia a verdade sobre ele agora? Ou ao menos desconfiava de sua súbita partida?

“Duvido... do jeito que é lenta!”

Enquanto dirigia lembrou-se de tudo o que teve que suportar naquela estadia forçada, e não pôde deixar de pensar que Alice era realmente uma pessoa muito azarada! Morreria apenas pelo fato de ter salvo a vida de um desconhecido, um mero estranho que acabou desacordado em suas dependências...

Um homem que era, sem dúvida, o pior criminoso que a desonesta Gotham City já teve, e que jamais admitiria poupar qualquer um que cruzasse seu caminho, ainda mais se tratando de uma pessoa tão atrevida e insolente quanto Alice.

“Veremos se ela vai continuar tão espirituosa quando perceber a enrascada em que se meteu...”

O que na verdade era uma situação muito inusitada... Ela havia se isolado do resto do mundo, se privado de qualquer contato com a realidade além dos limites daquela cabana, para no fim acabar morrendo nas mãos de um psicopata que entrou na sua vida não mais do que de repente...

O Palhaço já estava próximo da casa de sua doutora particular, e um sorriso quase involuntário repuxou suas cicatrizes. Acelerou o carro ainda mais, totalmente impaciente por aquele último encontro que terminaria de vez com aquela situação de risco... Alice já havia vivido mais do que o suficiente depois que entrou na vida de Coringa! Certamente era a primeira pessoa que sobrevivia por tanto tempo depois de cruzar seu caminho – com exceção de Batman, mas isso não vinha ao caso, pois tal figura não poderia apenas ser considerada uma pessoa, mas também um símbolo... E apenas o fato de a hippie respirar por todo esse tempo, já era algo que a destacava das outras pessoas que morreram por suas mãos. Talvez ele até se atrevesse a descrevê-la como sendo... Especial!

Finalmente avistou a casa da ingênua hippie e se apressou em sair do carro, dando uma boa olhada naquilo que havia sido seu próprio manicômio, para enfim, sem esforço algum, arrombar a porta com um chute sonoro e certeiro no meio da madeira, que se escancarou sem qualquer resistência.

O estrondo alto deveria ter alarmado Alice e seus cachorros, mas nenhum deles veio ao seu encontro... Reconsiderou a possibilidade de ela já saber quem ele era. Sorriu, enxergando um enorme potencial para o começo de um jogo. E que jogo delicioso seria encontrar sua hippie já dominada pelo pavor!

– Quer brincar de esconde-esconde, Docinho? – bradou a uma direção incerta, incapaz de evitar o sorriso apenas por saber que a sua hippie estava próxima, novamente ao seu apetitoso alcance.

Ele caminhou vagaroso pela casa, reprimindo o desejo que queria a todo custo apressar seus passos até a médica. Sua expressão era divertida, mas logo passou para irritada quando não conseguia encontrá-la em parte alguma. Dominado pela impaciência, revistou todos os aposentos menos calmamente do que antes, mas não havia qualquer sinal de Alice ou de seus preciosos cachorros... O que era um forte indício de que provavelmente eles estavam morando em outro lugar... Mesmo tendo convivido pouco tempo com a hippie, de alguma forma ele era capaz de prever alguns dos seus atos, e o Palhaço sabia que a riponga jamais abandonaria seus cachorros ali.

Enfurecido, pegou o celular e discou o número de um dos capangas. Estava cansado de ser surpreendido pela incompetência deles, e não via a hora de poder livrar-se de todos – muito em breve. O capanga atendeu, meio contrariado pela interrupção que a chamada gerou.

– Chefe, não podemos falar agora, estamos assaltando o Museu Municipal... – sua voz não ultrapassou um sussurro, e por fim disse, orgulhoso, porém ainda num murmúrio – A polícia e Batman já estão a caminho, eles não vão atrapalhar seus planos dessa vez!

– Eu tenho reparado que quem me atrapalha são vocês! – a raiva era evidente em sua voz – Deixe que os outros capangas terminem o serviço, eu preciso que você saia daí antes que Batman e os policiais cheguem.

– Mas por que...?

– Cale a boca e faça logo o que eu mandei! – disse irritado, e não falou nada até esperar que ele obedecesse seu comando. Depois de um breve instante em silêncio, o capanga respondeu:

– Pronto.

– Eu quero que você descubra onde a Alice está, e que me avise assim que souber!

A ligação ficou muda por dois longos segundos.

– Chefe, isso pode levar dias...

– Eu sugiro que você seja rápido, para seu próprio bem! Você pode começar investigando o Wayne, ele deve ter alguma coisa a ver com essa mudança. – Coringa comentou essa última frase mais para si mesmo do que para o capanga, reconhecendo uma potencial probabilidade naquele raciocínio. Se o Bilionário já estivesse a par de sua breve hospedagem ali, seria natural que tentasse proteger Alice...

– Tudo bem – consentiu em desânimo, fazendo com que o Palhaço retornasse ao presente.

– E faça isso depressa, pra variar um pouco! – desligou antes de esperar por alguma nova resposta.

Coringa começou a praguejar e xingar aquela rapidez inoportuna com que Alice descobriu sua verdadeira identidade, enquanto revistava a casa novamente, pensativo... Mas afinal, o que ele esperava? Com Bruce frequentando a casa e se envolvendo com a hippie, uma hora ou outra ela ia descobrir a verdade ao seu respeito, por mais desligada que fosse...

Mas Coringa sabia que não adiantava se lamentar pelo que havia acontecido. Ele, melhor do que ninguém, conseguia superar obstáculos e encontrar outras saídas quando parecia não haver mais nenhuma, porém sua paciência já havia se esgotado há tempos... E ele queria Alice.

O que mais o irritava era o fato de ser obrigado a adiar o seu encontro tão esperado... Coringa sabia que teria a sua chance mais cedo ou mais tarde, contudo ter que esperar pela sua vingança – e consequentemente ser obrigado a procrastinar a raiva de seu desejo reprimido por Alice – era enfurecedor.

– Como atrai-la, se ela levou os cachorros e pelo jeito não tem família para eu ameaçar? – pensou alto, dando ao comentário um tom levemente intrigado e interessado, como se apenas tentasse solucionar um quebra-cabeça um pouco mais difícil do que o esperado.

Nesse instante, como uma resposta sobrenatural à pergunta que o Palhaço acabara de fazer, seus olhos foram desviados para um canto específico do aposento em que estava, visualizando a possível solução errônea para seu problema, mas, mesmo sendo um pouco absurdo, ele tinha certeza de que funcionaria. Se tratando de Alice, a ideia tortuosa que se formulou em sua mente parecia à prova de erros...

Coringa sorriu satisfeito, e continuou sorrindo logo que ouviu o toque do celular, atendendo-o imediatamente e reconhecendo a voz do capanga com quem falou há pouco.

– Você estava certo, Chefe. – o inescrupuloso homem avisou num tom que beirava a indiferença.

– Isso é óbvio, pensei que tinha dito para me ligar só quando tivesse alguma novidade...

– A garota está na Mansão Wayne, e pelo o que parece, está hospedada lá.

– Bom, muito bom! Até que enfim você me serviu em algo... Agora, eu tenho mais um servicinho para você – disse, sorrindo, e olhando mais uma vez para o mesmo canto do aposento que outrora atraiu sua perspicaz atenção.

– Não mesmo, se ele pensa que eu vou ser mais uma das ninfetas que ele coleciona, está muito enganado, senhor Wayne!

Alice andava de um lado para o outro no quarto em que estava hospedada, simplesmente furiosa consigo mesma depois da conversa com Alfred e pensando nas suas opções, que não pareciam ser muitas.

– Não posso continuar aqui... – concluiu, ouvindo aquela constatação ser entoada com sua voz pela enésima vez – Mas eu preciso proteger os cachorros...

Ela olhou para os labradores, e todos mantinham feições intrigadas pela inquietação da dona, até mesmo Satanás estava estático e com a cabeça ligeiramente tombada para o lado, como se pensasse: “O que deu nessa louca agora?”

Alice se jogou na cama, desanimada.

– E aí? Como eu posso sair daqui e continuar mantendo vocês em segurança? – perguntou para o teto, como se esperasse que a resposta realmente surgisse – Bom, eu também não poderia ficar aqui por muito mais tempo...

Suas preocupações foram interrompidas por batidas apressadas na porta.

– Pode entrar – disse, levantando-se da cama de um salto.

– Com licença, senhorita, espero não atrapalhar... – Alfred hesitou em frente à uma fresta sutilmente aberta por ele mesmo.

– De jeito nenhum, Alfred! O que houve?

– Pediram para que eu lhe entregasse essa carta com urgência... – disse, entrando completamente no quarto com a mão estendida na direção da hippie.

Alice pareceu realmente surpresa, revezando olhares intrigados entre o prestativo mordomo e o envelope fino que ainda tinha em mãos.

– Um pouco tarde para correspondências, não acha? Quem poderia me mandar uma carta?

– Eu tenho um palpite... – Alfred falou, sombrio.

Alice o olhou, preocupada, entendendo exatamente ao que ele se referia.

– Você acha que é do... Coringa? – o codinome tremeu em seus lábios, como se ganhasse um novo significado.

– Espero estar enganado!

Ela abaixou os olhos em direção ao envelope mais uma vez, receando o seu conteúdo, porém aceitando pegá-lo das mãos estendidas de Alfred.

– Isso não pode ser bom... – ela começou a rasgar o papel, notando o fundo do seu estômago mais gélido do que a mais congelante nevasca.

Alfred não tirou os olhos atentos da hippie, e a intensidade dos seus orbes azulados refletiam uma mistura de ansiedade e preocupação, enquanto Alice tirava algo de dentro do envelope que ficou claro que era uma carta de baralho. Levou a carta coringa contra a luz para se certificar, e então procurou pela mensagem que ela sabia que encontraria no verso.

Alice leu em voz alta, para que Alfred pudesse ouvir:

– “Se quiser vê-la de novo, me encontre na sua casa, apenas você, ou ela morre!”. Mas do que essa Libélula maluca está falando, afinal?

Alice percebeu que o envelope ainda não estava vazio, e puxou o resto do conteúdo para fora, olhando com curiosidade.

Era uma foto, que transformou o interesse de Alice em puro desespero e culpa. Um arrepio tomou conta de seu corpo agora abalado, destruindo todas as suas defesas.

– Ah, meu Deus, eu não acredito... – Alice começou a balançar a cabeça negativamente, como se pudesse apagar a realidade que estava bem diante dos seus olhos, e começou a andar, saindo decidida do quarto.

Alfred a seguiu, visivelmente aflito com a mudança repentina de comportamento.

– O que houve, Alice?

– Eu sou uma pessoa horrível... horrível... – Alice não parecia ouvir nada à sua volta, apenas andava em ritmo de corrida na direção da saída da mansão. Alfred colocou-se na sua frente, obrigando-a a parar também, e segurou seus ombros carinhosamente, implorando com os olhos por sua atenção.

– Alice, o que Coringa fez?

Seus olhos estavam desfocados quando ela respondeu:

– Ele sequestrou minha samambaia! – ela mostrou a foto da lustrosa planta para o mordomo, que aparentava-se cada vez mais confuso, como se as explicações tivessem um efeito reverso sobre o seu entendimento – Sim, agora eu acredito em tudo o que vocês me disseram, ele é um psicopata cruel, maníaco e totalmente fora do controle!

Alice começou a chorar como uma criança desolada, escondendo o rosto já encharcado com as mãos enquanto seu peito tremia violentamente, e Alfred ficou totalmente sem reação diante daquela inusitada situação.

Sua voz saiu embargada quando voltou a falar.

– Como eu pude esquecer a Sam lá? Eu cuido dela desde que é um bebê, e agora ela está nas mãos daquele maluco, que provavelmente está maquiando a pobrezinha... – Alice passou nervosamente os dedos molhados e trêmulos pelo cabelo, ainda sentindo porções generosas de lágrimas encharcarem seu rosto aflito – Eu preciso ir até minha casa, preciso buscar minha Sam... – ameaçou começar a andar novamente, mas Alfred a deteve.

– De forma alguma, senhorita! É exatamente isso que ele quer! – reencontrou sua voz, disposto a evitar que uma tragédia se delineasse bem diante de si.

– Eu não tenho escolha... Só existe essa opção, por favor, não me impeça, Alfred.

– Ao menos espere Patrão Bruce retornar, ele saberá como proceder – o mordomo pediu em tom encarecido, com um péssimo pressentimento.

– Ele está muito ocupado se divertindo, eu mesma cuido disso!

Nesse instante, Alfred olhou para algum ponto específico atrás de Alice e pareceu extremamente aliviado e relaxado, como se uma enorme responsabilidade se desfizesse em sua consciência.

– Não se preocupe, Batman irá auxiliá-la!

Ela não conseguiu conter o riso, apesar de ainda escorrer algumas lágrimas pelo seu rosto úmido.

– Acha mesmo que eu vou permitir que a segurança da minha samambaia seja depositada num morcego?

Alice sentiu um cutucão firme em seu ombro.

– Espera aí, eu tô falando! – reclamou sem nem olhar pra trás, apenas batendo sua mão no ombro, como se tentasse espantar um mosquito inconveniente. – Então, como eu dizia, aquele palerma nem deve saber a diferença entre uma planta e uma fruta, imagina só confiar minha samambaia a um cara que se acha um mamífero voador...

Outro cutucão no ombro a interrompeu.

– Caramba, me deixa terminar, seu mal educado! Enfim, é o que eu sempre digo: o Batman é um banana!

Ao sentir o terceiro cutucão, Alice se virou com tudo, pronta para falar um monte para aquele imbecil que a cada segundo interrompia seu desabafo. Porém ficou totalmente sem reação ao ver o próprio Cavaleiro das Trevas parado na sua frente, com a típica expressão de peixe morto que sempre se fazia presente em seu semblante escondido.

Por fim, tudo o que Alice conseguiu fazer foi gritar.

– Pelas ceroulas do Tio Sam! – ela deu passos longos para trás, tentando se afastar – Alfred, rápido, ligue para o Controle de Animais!

Batman aproximou-se de Alice, que começou a andar para trás novamente, tentando a todo custo impedir a aproximação.

– Fique longe de mim! Não quero pegar Raiva!

– Eu tenho uma proposta para você – ele disse com aquela voz rouca que arrepiou até o dedão do pé de Alice.

– Desculpe, mas eu sou comprometida. Vou me casar semana que vem com o Príncipe William, não sabia? Ele se divorciou da Kate por minha causa, mas ainda estamos mantendo segredo...

Uma nova voz se fez presente ao lado de Batman, uma presença que Alice sequer tinha notado.

– Tem certeza de que ela – Alice sentiu o desprezo e dúvida na voz do homem de meia idade – pode nos ajudar?

– Ei, quem você pensa que é pra falar assim de mim, seu bigodudo?

Alfred interveio, prevendo o mal entendido quando viu o homem fuzilar Alice com os olhos.

– Esse é o Comissário Gordon, Alice – apresentou imediatamente, antes que a hippie acabasse presa por desacato.

– Comissário, é? – perguntou preocupada – Ainda assim, não é porque você faz parte da elitezinha da polícia que pode tratar os outros desse jeito! Eu não estou num bom dia, então desembucha logo: o que a dupla dinâmica quer comigo?

– Nós sabemos que você cuidou de Coringa – Batman foi direto ao assunto –, e agora precisamos da sua ajuda para capturá-lo.

Alice o olhou, em choque.

– Como vocês souberam? Foi o tonto do Bruce que deu com a língua nos dentes, não foi? Eu juro que eu não sabia que ele era um criminoso, juro por seus pais mortinhos, Morcegão!

Batman desviou o rosto por um breve segundo, mas Alice pôde perceber uma sombra transpassar seus olhos, e o clima tornou-se absurdamente pesado no ambiente, sufocando. Alfred encarava o chão e Gordon olhava desconfiado para Alice, aparentemente o único que não havia se abalado pelo comentário da riponga.

– Falei algo errado? – perguntou, desconcertada, mas sua dúvida foi ignorada.

Batman já estava com sua expressão normal de “eu não acho graça de nada e odeio viver”, e mais uma vez sua voz forçada preencheu o aposento.

– Nós estamos cientes de que você não sabia sobre o Coringa – o Justiceiro disse de modo a tranquilizá-la, porém Gordon encarou o Morcego de forma significativa, totalmente contrariado com tal teoria. Visivelmente o Comissário não compartilhava da mesma opinião –, mas agora nós precisamos da sua ajuda para capturá-lo!

Alice desviou os olhos para a foto já amassada de sua samambaia, com um aperto infeliz no coração, e sem hesitar mais, assentiu.

– Eu vou ajudar! Faço o que for preciso para ver aquele palhaço filho da mãe atrás das grades!

O Morcego olhou-a, parecendo surpreso por ela ter aceitado tão depressa, sem nem ao menos expressar curiosidade sobre o que teria de fazer.

– Nós não vamos deixar ele te machucar, fique tranquila.

– Não me importa, só quero acabar com esse pesadelo – olhou mais uma vez para a imagem, e permaneceu encarando-a, sem se importar com a confusão dos que estavam presentes.

Batman se deu conta do rosto avermelhado de Alice e de seus olhos fortemente inchados, e foi então que percebeu que várias lágrimas deviam ter precedido a sua visita.

– Aconteceu algo? – sua voz não saiu tão fria quanto de costume, e Alice reparou, ao levantar o rosto em sua direção, que seus olhos transbordavam uma preocupação e solidariedade que ela jamais esperaria encontrar no meio da típica frieza que normalmente os rondava.

Nesse instante ela reparou bem nos olhos do Morcego, e sentiu que eram terrivelmente familiares.

"Não é possível... eu conheço esse olhar sem expressão! Mas de onde? Devo ter enlouquecido de vez, já até me sinto familiarizada com um morcego..."

Ele destruiu seus devaneios ao perguntar novamente:

– Alice? Está tudo bem?

– Não – ela respondeu finalmente, sentindo a voz ainda despontar chorosa – o Palhaço sequestrou minha samambaia!

Os olhos de Alice voltaram a se encher de água num marejar incontrolável, e ela mostrou com pesar a foto da planta e a carta coringa ao Cavaleiro das Trevas.

– Eu faço o que precisar para ajudar vocês, com uma condição! Quero total proteção à minha samambaia, não importa o que aconteça.

Gordon e Batman entreolharam-se, ambos estranhando demais aquela situação bem longe do convencional.

– E então, feito? – Alice perguntou, impaciente.

– Tudo bem... – eles concordaram, totalmente abismados com toda aquela situação.

– Eu preciso tirar um pouco do meu sangue para fazer um pacto com um morcego? – Alice questionou, a dúvida agora presente em seu cenho franzido.

Notas finais
Espero não ter apelado demais com o sequestro da samambaia, mas achei que isso seria simplesmente a cara da Alice...