Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...
18 Assuntos Pendentes
Notas iniciais
Alice estava sentada no chão, em frente à TV, apoiando as costas em seu sofá e com as pernas cruzadas em forma indiana, apoiando uma enorme travessa de pipoca num dos joelhos, e no outro um prato repleto até a boca de brigadeiro. Depois de testemunhar o humilhante episódio que se passou entre Bruce e Rachel, a hippie fechou-se em seu domicílio por alguns dias curtindo sua fossa... Também evitou sair graças à terrível gripe que contraiu ao se expor àquela chuva no dia da festa.
Já fazia três dias que ela sequer colocava os pés para fora de casa. Apenas passava seus dias trajando um de seus pijamas durante todo o tempo, vendo filmes melodramáticos, enquanto atacava as guloseimas que preparava — Nada era mais eficiente do que a Gordura Trans para curar um coração partido! — Era o segundo filme seguido que via naquela tarde friorenta e nublada de inverno. A sessão cinema começou com “Ghost — do outro lado da vida”, uma mistura de assassinato e traição, que relatava a história de um casal apaixonado que tem suas vidas destruídas ao sofrerem um atentado.
Agora Alice assistia ao clássico “Titanic”, fungando e sentindo os olhos lacrimejarem com a cena projetada à sua frente. Rose acabara de ver que Jack havia morrido de hipotermia, afundando e se perdendo para sempre na imensidão do oceano.
– Jack! – a voz de Rose chamava, desesperada, enquanto perdia de vista o corpo do amante.
– Não morra, Jack! – Alice dizia, chorosa, mergulhando uma mão generosa de pipoca dentro da travessa de brigadeiro e enfiando tudo de uma vez na boca, sentindo dificuldade ao tentar mastigar toda aquela quantidade de comida. Reconsiderou por um momento o comentário que acabara de fazer, voltando a conversar com a televisão, com a boca ainda cheia de pipoca e brigadeiro – Pensando bem, morre sim, seu projeto masculino de Barbie! Em algum momento da sua vida você ia trair a Rose, seu bostinha! Óh, minha nossa, se eu continuar assim o próximo filme vai ser 'O Diário de Bridget Jones'...
Continuou largada na mesma posição até que o filme terminasse, com o olhar direcionado para as últimas cenas, porém sem prestar a menor atenção nelas. Sua mente vagueava bem longe dali...
“Eu preciso falar com o Will... Não dá mais pra adiar essa conversa! Talvez ele ainda nem saiba que tem uma irmã.” – Alice sentiu um frio na boca do estômago ao imaginar a reação dele quando estivesse a par da situação.
Nesses três dias que permaneceu em casa, Alice não largou o cartão de taxista que Will havia lhe dado com o número de seu telefone, tentando apenas nutrir a coragem necessária para discá-los. De tanto segurá-lo, já estava completamente amassado em suas mãos, daqui a pouco os números estariam ilegíveis de tão socada que estava a cartolina.
“Quando acabar o filme eu ligo!” – pensou, tentando adiar ao máximo aquele momento.
Surpreendeu-se ao perceber que o filme já tinha acabado há um bom tempo, agora a tela era preenchida somente pelos tradicionais créditos finais, onde eram divulgados os nomes dos participantes diretos e indiretos que contribuíram para a trama.
Suspirou, enquanto pegava o telefone e olhava mais uma vez para o cartão amassado em sua mão trêmula. Discou o número, antes que perdesse a coragem, e logo em seguida escutou que a ligação chamava.
No quarto toque, Alice fez um trato consigo mesma:
“Se ele não atender no próximo, eu desligo!”
Para sua sorte – ou azar – Will atendeu logo em seguida.
– Alô! – a voz jovial soou despreocupada aos ouvidos de Alice, que por alguma razão sentiu-se trêmula.
O coração da hippie disparou, de forma um tanto irregular, e ao escutar a voz de seu irmão, toda a coragem e determinação se esvaiu de dentro dela. Tentou camuflar sua voz o melhor que pôde.
– Ãhn, por favor, é daí que fazem entregas de Nachos?
A voz de Will pareceu confusa ao responder:
– Não... a senhora ligou para o número errado!
– Tudo bem, obrigada! – desligou, sentindo seu coração pular dentro do peito.
“Calma, Alice!” – respirou fundo – “Você só precisa marcar um encontro com ele, não é o fim do mundo.”
A hippie não tinha ideia do porquê de seu nervosismo tão repentino. Certo, ela sabia que não seria nada fácil contar a verdade para Will, mas também não tinha motivo para toda essa apreensão que estava sentindo, afinal, a única culpada daquele segredo era Lilian... Ela teria que se tranquilizar e acabar logo com isso, se não quisesse acabar cúmplice do terrível erro de sua mãe.
– Você consegue, Alice! – encorajou-se – Tudo o que precisa fazer é pedir para conversar com ele, só isso. Não tem segredo nenhum, vai lá, garota!
Discou novamente o número, sentindo-se um pouco mais calma e confiante agora. Dessa vez bastou um único toque para que ele atendesse.
– Alô?! – parecia desconfiado, talvez imaginasse que os dois telefonemas fossem trotes relacionados.
– Will? – a voz de Alice saiu em um sussurro quase inaudível. Ele não a reconheceu.
– Sim... Quem está falando?
“Sua irmã que foi rejeitada pela megera que você chama de mãe!”
– É a garota das gorjetas, Alice! Lembra?
– Claro que lembro! – animou-se – Foram as gorjetas mais gordas que já ganhei – riu, e no mesmo instante sua voz perdeu o tom formal – Como vai, Alice? – mesmo sem ver seu rosto, ela soube que Will estava sorrindo – Como posso servir a mais nova celebridade de Gotham?
– Eu... – hesitou – Bem, eu só queria saber se você poderia me encontrar para tomar um café! Preciso muito conversar com você. É importante – concluiu, sabendo que provavelmente não falara nada com nexo.
– Você parece nervosa! Aconteceu alguma coisa?
– Eu prefiro abordar esse assunto pessoalmente... Tem um tempinho livre hoje?
– Bom... Eu tinha um encontro com a Jennifer Aniston, mas já que minha melhor passageira precisa de mim, posso marcar pra outro dia! – os dois riram com a leve brincadeira, e Alice notou cheia de afeto como era fácil manter uma conversa com ele – Tem uma Dunkin Donuts muito boa perto do Hospital de Gotham. Podemos nos encontrar lá! Sabe onde fica?
“Maravilha, uma lanchonete de rosquinhas... Espero que não tenham muitos policiais por ali!”
– Sei onde fica sim! A que horas você está disponível?
– Hum... Eu só preciso fazer uma última corrida e já fico livre! Que tal em uma hora?
– Perfeito! – Alice fechou os olhos por um segundo, aliviada por conseguir marcar com Will naquele mesmo dia. Não aguentaria adiar esse assunto por muito mais tempo... – Nos vemos lá, então!
– Até mais, garota! – despediu-se, e ambos encerraram a chamada praticamente ao mesmo tempo.
A hippie largou-se no sofá momentaneamente, tentando não imaginar seu irmão tendo as piores reações ao descobrir a verdade através dela. Provavelmente ele preferiria ouvir essa história diretamente da mãe, e não de uma pessoa praticamente estranha. Mas isso agora era o de menos. Se ele tivesse que sentir raiva de alguém, esse alguém não seria Alice, seria Lilian. A mulher que arcasse com as consequências das próprias omissões sozinha!
Lembrou-se das últimas palavras que lançara como despedida à Alice: “Não conte nada para o Will”. Alice bufou com a lembrança, achando de um profundo mal gosto que a mulher ainda se sentisse no direito de lhe pedir algo do tipo... De forma nenhuma ela esconderia um segredo desses do jovem William! Não seria ela a ser a cúmplice das mentiras da própria mãe. Na verdade, aquele pedido apenas a estimulou a fazer exatamente o contrário. Vingança? Talvez...
Alice havia chegado à lanchonete vinte minutos mais cedo do que o combinado, e a agonia da espera parecia querer enlouquecê-la de vez. A cada minuto olhava para seu relógio, surpreendendo-se ao ver como o tempo estava se arrastando lentamente, com um ritmo cada vez mais lento... Parecia que os ponteiros estavam zombando de sua aflição ao prolongarem os milésimos de segundo.
Para tentar extravasar a tensão que sentia, começou a rasgar algumas folhas de guardanapo que estavam sobre a mesa, um ato quase inconsciente de seu nervosismo. Será que todas as pessoas em volta podiam escutar o escândalo que seu coração fazia a cada contração e relaxamento? Esperava que não, mas parecia impossível não perceber aquele barulho insistente que vinha do seu peito e que denunciava o quanto estava aflita...
Um garçom mal humorado e gordo foi atendê-la.
– Você vai querer alguma coisa? – preparou-se para anotar o pedido, olhando feio para os papéis picotados em cima da mesa.
– Ah, claro! Por favor, eu gostaria de um refrigerante de limão e biscoitos!
– Sinto muito, não temos biscoitos...
– Que pena... – disse, decepcionada – Então traga um suco de abacaxi com hortelã, com alguns biscoitos!
O funcionário a olhou incrédulo, e repetiu o que tinha acabado de dizer, só que um pouco mais alto, achando que talvez a mulher fosse meio surda:
– Nós não temos biscoito!
– Caramba, mas não tem nada aqui?! Então pode me trazer um milk-shake com cobertura de chocolate... – o garçom já estava a caminho do balcão quando Alice gritou sobre seus ombros – E não se esqueça dos biscoitos!
O rosto do homem estava escarlate de raiva ao gritar:
– NÃO TEM BISCOITO! – ofegou, encarando a cliente com indignação e chegando a arfar de um modo quase sôfrego.
– Tá bom, já entendi – respondeu, fingindo-se ofendida pela grosseria descabida –, então me traz só os biscoitos e pronto!
Todos os clientes observavam a cena, boquiabertos e confusos. O garçom retirou o avental, bufando de raiva e se demitiu na mesma hora, jogando o caderno de anotações em seu chefe, dizendo que não aguentava mais aquele “serviço medíocre”, como ele mesmo intitulou, e logo em seguida chamou Alice de louca na frente de todos. A discussão durou ainda alguns minutos, mas agora era impossível ouvi-la, pois um homem de terno o conduziu até a cozinha, levando o bate-boca para longe dos ouvidos curiosos dos fregueses.
– Eu falei alguma coisa errada? – a hippie perguntou, fazendo cara de inocente, quando o garçom saiu furioso da lanchonete, batendo o pé e sem nem olhar na direção de sua mesa. Aquilo pareceu realmente o ápice para um homem que já devia estar descontente com o trabalho há tempos.
O gerente do restaurante imediatamente foi até ela, extremamente envergonhado pela cena constrangedora que o garçom havia causado.
– Por favor, senhorita...
– Alice – ela o corrigiu.
– Alice... Por favor, me perdoe pelo constrangimento que nosso funcionário a fez passar. Eu faço questão de oferecer o que a senhorita quiser, por conta da casa! – disse, tentando agradá-la de todas as formas.
– Isso não será necessário! Eu só queria alguns biscoitos, mas parece que ele se ofendeu com o meu pedido... — explicou com inocência, dando de ombros em seguida.
– Não se preocupe com isso, vamos providenciar os biscoitos!
– Ah, mas pensando bem, eu mudei de ideia! Acho que vou esperar meu convidado chegar para comermos juntos... Enquanto isso pode me trazer um suco de laranja?
– Certamente – assentiu, educado, e retirou-se.
– Eu, hein... Que povo mais estressado! Não se pode fazer nem uma brincadeirinha hoje em dia que a pessoa já tem um faniquito em público! – riu baixinho, ainda sentindo os olhares curiosos dos demais clientes sobre si – Espero que aquele moço encontre outro emprego... – falou consigo mesma, encarando os guardanapos rasgados e sentindo um pouco de remorso por ter sido o motivo da demissão do garçom.
“Tecnicamente...” – uma vozinha começou a falar em sua cabeça – “Estava mais do que evidente que ele detestava esse emprego! Pela cara de desânimo que ele tinha trabalhando aqui, você até o ajudou! Agora ele pode procurar um trabalho que realmente goste!”
– Isso mesmo! – Alice disse, feliz – Eu fiz uma boa ação para aquele pobre homem. Obrigada, Consciência!
– Você sempre fala sozinha? – Will perguntou, sorrindo.
Alice quase tinha se esquecido do motivo que a levou até aquela lanchonete, e quando fitou os olhos divertidos de William a encarando, pulou da cadeira, sentindo o mesmo nervosismo de quando ligou para ele marcando o encontro. Tentando controlar seus nervos, fez o possível para retribuir um sorriso convincente, mas não saberia dizer se obteve sucesso.
– Que bom que você chegou, Will! – sentiu um leve tremor percorrer suas mãos enquanto ele se sentava de frente para ela.
– E então, qual é o assunto urgente?
A hippie o encarou por um momento, sem saber por onde começar a contar, e quando abriu a boca para dar início àquela história emaranhada e complicada, o próprio gerente voltou à sua mesa, levando o suco que ela havia pedido há poucos minutos.
– Aqui está seu suco, senhorita! – serviu-lhe o copo prontamente.
– Mas e os biscoitos? – perguntou séria, percebendo que a cor abandonou o rosto do homem no mesmo instante – Há! Te peguei – disse, rindo brevemente, e vendo o homem sorrir de alívio em seguida. Alice e Will pediram uma porção dos famosos Donuts daquele lugar, e logo em seguida o gerente se retirou, dizendo:
– Qualquer coisa que quiserem, estarei à disposição!
– Obrigada – Alice sorriu, vendo-o se afastar. Will parecia intrigado.
– Eu nunca vi esse cara atendendo os clientes antes... Normalmente ele fica rondando as mesas e dando ordens e algumas orientações aos funcionários... – virou-se para Alice dando um sorriso malicioso – Talvez ele tenha gostado de você!
– Que nada – deu um longo gole em seu suco –, acho que ele não vê a hora que eu vá embora. Eu acabei de fazer o garçom se demitir – explicou, ao ver seu olhar de interrogação.
– Sério? – riu – Essa é uma história que eu ainda vou querer ouvir!
– Espero que depois de hoje você ainda queira ouvir minhas histórias – a hippie o encarou com um sorriso triste, que perturbou Will na mesma medida em que o confundiu.
– O que aconteceu?
– Nem sei por onde começar! – deu mais um gole demorado em seu suco, tentando ganhar tempo para organizar as ideias dentro de sua cabeça confusa – Antes de mais nada, preciso saber de uma coisa... O nome da sua mãe é Lilian Thatcher?
Will uniu as sobrancelhas ao franzir a testa, nitidamente surpreso com a pergunta, e seus músculos de repente ficaram tensos.
– Sim... – hesitou – Vocês se conhecem?
– Mais ou menos... – Alice passou a mão pelos cabelos, sem saber muito bem como contar – Eu acho melhor ir direto ao ponto, antes que essa história te confunda ainda mais. Lilian me procurou há uns dias...
– Por quê? – Will a interrompeu, sua voz já começando a soar incomodada.
– Não seja um rapaz precoce, eu vou explicar! – sorriu carinhosamente para ele, enxergando pela primeira vez o irmão caçula dentro de seus belos olhos âmbar – Bom, Will, eu nunca conheci minha família, fui criada em um orfanato... – fez uma pequena pausa, inspirando todo o ar que seus pulmões suportaram – A questão é que Lilian viu o meu nome nas manchetes de jornal, e me reconheceu como sua filha, a filha que ela havia abandonado há cerca de vinte anos.
Alice esperou pela reação inconformada de Will diante daquela revelação, mas ela não veio. O rapaz apenas a encarava de olhos arregalados, sem saber se ouvira certo.
– Eu sou sua irmã, Will! Bom, meia-irmã na verdade – explicou melhor, dessa vez sendo o mais direta possível e esperando que sua ficha caísse logo, para finalmente de eximir-lhe da aflição da espera.
– Isso... Isso não faz sentido! – conseguiu dizer por fim, parecendo abalado com a notícia – Ela teria me contado uma coisa dessas...
A hippie deu um sorriso amargo, preparando-se para a pior parte. Antes de ir se encontrar com Will, Alice havia ponderado se deveria contar toda a conversa que teve com Lilian ou falar apenas o superficial e necessário, e por fim decidiu que seria completamente sincera com ele. William merecia ouvir a verdade. Era o mínimo que podia fazer por seu irmão.
“E seja o que São Longuinho quiser...”
– Ela não te contou por uma simples razão... – naquele instante os Donuts chegaram e Alice fez uma pausa, esperando que o homem saísse para continuar falando. Quando finalmente ficaram a sós na mesa novamente, continuou – Will, eu te conheço há pouco tempo, mas desde o primeiro dia que entrei no seu táxi, percebi que você se parece muito comigo em um aspecto; no orgulho. Você é uma pessoa orgulhosa, estou certa? – arqueou uma sobrancelha e William apenas assentiu – Sim, você é orgulhoso assim como eu. E a sua mãe me procurou para pedir dinheiro. Um dinheiro que nem era meu, por sinal. Certamente ela não quis te contar porque sabia que você não aprovaria, e também porque desenterrar um assunto desses não deve ser lá muito fácil.
– Ela te pediu dinheiro? – levantou-se da cadeira bruscamente, sentindo náuseas com aquela história.
– Por favor, Will, sente... – pediu brandamente, e ele sentou-se de novo, ainda enojado – A última coisa que eu quero é colocar você contra a sua mãe. Mas também não vou mentir sobre o nosso encontro, você merece saber toda a verdade – ele pareceu se controlar, e Alice continuou, também mais calma – Lilian soube do meu envolvimento com Bruce e me procurou pedindo que eu o ajudasse a pagar sua faculdade com o dinheiro do Wayne.
– Ela não tinha o direito de fazer isso – disse, sem saber se o que o irritava mais era a mentira de uma vida inteira que ocultou sua irmã, ou o despeito de sua mãe tê-la procurado com o intuito de pedir dinheiro à filha que, por toda a vida, rejeitara.
– Ela é mãe, Will. Faria qualquer coisa por você! – repetiu as próprias palavras de Lilian, com um sorriso triste.
– Mas e você? Ela te abandonou e depois só te procurou pra pedir dinheiro! – ele falava como se não conseguisse acreditar nas próprias palavras.
– Ei – ela segurou a mão dele sobre a mesa, com força –, você não tem que tomar as minhas dores nessa história. Lilian errou comigo, e não pode pagar por isso com a sua raiva também. – olhou bem para o irmão e deu um sorriso alegre e sincero – Eu fico muito feliz que ela tenha sido uma boa mãe pra você!
– Mas eu não posso simplesmente ignorar tudo de errado que ela fez com você só porque não repetiu os erros comigo...
– Você é realmente um irmão caçula de muito valor – os dois riram, um pouco tímidos com os próprios laços sanguíneos que agora os unia –, mas deixe isso pra lá, Will, por favor. Eu já estou muito irritada com Lilian, e talvez isso seja suficiente como castigo... – Alice duvidava piamente de suas próprias palavras, mas não queria estragar a relação de Will com a mãe – A questão é que eu quero muito te ajudar. Sei que foi errado da parte de sua mãe me pedir uma coisa dessas, mas eu realmente quero.
– De jeito nenhum, Alice... Eu posso conseguir isso sozinho! Vai demorar, mas eu sei que posso.
– Você tem que me obedecer agora, mocinho! – sorriu, adotando um tom brincalhão de autoridade – Sou sua irmã mais velha, esqueceu? – voltou a falar sério, tentando convencê-lo – Eu posso fazer uma carta de recomendação para você em Harvard... Eles costumam levar em conta os pedidos de antigos alunos!
– Você estudou em Harvard? – surpreendeu-se.
– Sim... Por que ninguém acredita? Eu pareço tão burra assim? – os dois riram, e serviram-se dos Donuts.
– Só é difícil imaginar uma hippie nerd! – provocou.
– Se aproveitam de minha nobreza... Enfim, posso te ajudar com as despesas também!
– Eu realmente agradeço por toda a preocupação...
– Mas...? – Alice já previa que Will iria recusar sua ajuda.
– Mas... Olha só pra você. – disse ele apontando para Alice – Conseguiu tudo sozinha, sem depender de ninguém, sem ao menos ter a família ao lado para te apoiar! Eu quero ser capaz de olhar para trás e me orgulhar de ser o responsável pelas minhas próprias conquistas.
– Eu tive ajuda, sim! Não se engane, Will... Devo tudo o que consegui a uma pessoa – “Um verdadeiro herói sem máscara!” – E aceitar as oportunidades não é vergonha nenhuma, e muito menos torna o seu esforço menos válido. Vai por mim, você vai precisar ser uma reencarnação de Einstein, no mínimo, para sobreviver na faculdade. O crédito pelo seu talento continuará sendo somente seu, nenhum auxílio que eu lhe dê por fora pode mudar isso, acredite.
William ainda não parecia estar convencido. Era realmente muito orgulhoso! Totalmente diferente da mãe, ele sim tinha caráter.
– Eu vou pensar! Juro...
– Sabe onde me encontrar – piscou para ele – Mas pense com carinho, por favor! Eu ficaria muito feliz se você aceitasse a minha ajuda! Ah, eu preciso fazer uma pergunta antes de ir embora... Você entende bastante de carros, certo?
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A hippie estava parada à frente da Mansão Wayne, preparando-se para o próximo passo, que seria realmente difícil para ela.
“Por favor, que Bruce não esteja em casa...” – implorou, fazendo uma “figuinha” com os dedos. Poderia resolver tudo com Alfred, sem precisar ter o constrangimento extra de tratar seus assuntos com o dono do imóvel.
Em uma das mãos, segurava a enorme caixa da Chanel com o vestido que Bruce lhe dera para a festa, e na outra mão, um cheque para pagar o valor dos estragos de quando Satanás destruiu o estofamento da Lamborghini. Ainda bem que Will tinha um amplo conhecimento sobre carros, foi ele quem orientou Alice sobre o valor aproximado que um conserto desses custaria.
Enfim criou coragem e apertou o interfone, rezando mentalmente para não precisar falar com Bruce. Imediatamente reconheceu a voz de Alfred saindo do aparelho.
– Pois não?
– Oi, Alfred... Aqui é a Alice, será que eu posso falar com você um instante?
– Alice! Que prazer! Receio dizer que a senhorita perdeu sua viagem... Bruce não está aqui no momento.
Antes de responder ao mordomo, a hippie fez uma pequena dancinha tosca em comemoração, agradecendo em silêncio por finalmente ter um pouco de sorte.
"Tchan, tchan, tchan!!!”
– Sem problemas, Alfred! Eu não preciso falar com ele, só queria entregar algumas coisas...
Em poucos minutos a portaria elegante da mansão já estava aberta, e Alfred a recebeu com um enorme sorriso estampado em seu rosto. Vendo que a hippie continuava parada em frente à entrada, disse:
– A senhorita não vai entrar?
– Por favor, Alfred, não é porque eu terminei com Bruce que você vai voltar a me chamar de senhorita, não é? – sorriu para ele ao retomar aquela antiga e constante discussão, e logo em seguida respondeu a pergunta que fizera – Eu prefiro ficar aqui fora mesmo... Não vou demorar nada, só preciso que você entregue essas coisas para ele...
– Que pena... Tem uma remessa de cookies de chocolate no forno – disse, rindo ao ver a expressão de desejo de Alice –, e eu muito apreciaria ter uma conversa com a senhori... com você!
– Bom, se é assim... Que fique claro que eu só vou entrar porque você implorou, não tem nada a ver com seus dotes culinários invejáveis...
– Precisamente! – riu mais uma vez, dando passagem para ela.
Os dois iam em direção à cozinha em silêncio, Alice com um olhar desfocado mirando a caixa em suas mãos e Alfred prestando atenção a cada movimento da hippie, percebendo sua tristeza. Ela cortou o silêncio:
– Mas eu realmente não posso demorar, Alfred... Não quero correr o risco de Bruce voltar enquanto eu ainda estiver aqui – surpreendeu-se com sua sinceridade. Imaginou que inventaria mil desculpas para se retirar da mansão, mas era fácil demais falar a verdade para Alfred.
– Sem problemas, Alice. Não vou tomar muito de seu tempo – sorriu, com uma mescla de educação e condescendência.
Chegando à cozinha, Alice sentiu o cheiro maravilhoso dos cookies de Alfred preencher o ambiente.
– Você adivinhou que eu viria hoje? – fechou os olhos e deixou que o doce aroma preenchesse todo o seu olfato – Pode admitir, você fez esses biscoitos pra mim, não foi? – brincou.
– Na verdade, sim! – Alice reabriu os olhos, surpresa – Eu não sabia que você viria hoje, mas eu tinha a intenção de visitá-la, e como você adorou os cookies, resolvi fazê-los para levar...
– Alfred... – Alice ficou seriamente comovida com o gesto – Bruce não te merece! O dia em que você se convencer disso, eu estarei pronta pra fugir com você para Las Vegas!
O Mordomo riu enquanto tirava o doce do forno.
– Fico lisonjeado com o convite. Falando em Bruce... – principiou, vacilante.
– Por favor – ela o interrompeu –, eu não quero falar nisso! – serviu-se de um cookie, queimando a língua por causa da temperatura elevada e arrancando mais algumas risadas musicais de Alfred.
– Meu patrão vem sentindo-se péssimo com o que fez...
– Fico feliz! É o mínimo, não acha? – tentou falar enquanto abanava a própria boca com uma das mãos.
– Eu entendo sua revolta – sua voz saiu triste, e a de Alice saiu ainda mais triste ao responder:
– Não entende, Alfred. Eu sempre fui traída, em todos os relacionamentos – falar aquilo em voz alta a deixou vermelha de vergonha e humilhação –, e Bruce conseguiu conquistar minha confiança depois que eu prometi não me envolver com mais ninguém... E na primeira oportunidade, ele se mostra igual a todos os outros, se agarrando com a primeira que encontrou...
– A senhorita Dawes foi uma grande paixão na vida de meu patrão – aquelas palavras doeram mais do que a cicatriz que o Palhaço fez em seu pescoço, mas Alice manteve-se firme, sem demonstrar o quanto estava abalada. Enfiou um cookie inteiro na boca para não gritar de raiva –, desde criança Bruce gostava dela, e eu acredito que o sentimento era recíproco, contudo os dois nunca chegaram a assumir algum relacionamento mais sério...
Alice dedicou um tempo extra para conseguir engolir cada farelo antes de finalmente responder.
– Por que está me contando essas coisas? Eu não tenho mais nada com o seu patrão.
– Só quero fazê-la entender o que de fato aconteceu. Acho que você merece essa explicação, Alice.
– Essa explicação devia ser dada por Bruce...
– Estou de pleno acordo, mas diga-me... Você o escutaria? – Alfred arqueou uma sobrancelha com um sorriso sagaz no rosto.
– Não... – Alice teve que admitir, sorrindo também.
– Eu desconfio que não – disse, simpático –, mas pode acreditar, Alice. Patrão Bruce nunca teve um relacionamento sério na vida, sempre esperou por Rachel, até conhecer você.
– Parece que ele continua esperando... – serviu-se de um novo biscoito na tentativa de domar a vontade que tinha de xingar Bruce. De se xingar, sobretudo – Eu não entendo. Está na cara que os dois se gostam, por que nunca ficaram juntos?
– É complicado... – Alfred esquivou-se, misteriosamente – Mas a questão é que ele mudou completamente quando a conheceu! Não falava mais tanto de sua antiga paixão e pela primeira vez viu uma chance de conseguir se relacionar com outra pessoa que não fosse a senhorita Dawes.
– É impressionante como homens sempre se defendem mesmo quando não existe defesa! Desculpe, Alfred, mas essa história só me faz sentir ainda mais traída. Ele ficou comigo gostando de outra, pensando em outra, e agindo como se eu fosse a mulher da sua vida – disse, propensa ao exagero.
– Bruce não lhe contou nada sobre Rachel justamente porque queria se sentir livre do que sentia por ela. Você foi a chance que ele viu de conseguir ser feliz com outra pessoa, ele jamais estragaria isso levando o assunto da senhorita Dawes até você.
– Mas ele acabou estragando mesmo assim... – disse, mais para si mesma do que para o mordomo – Você realmente o entende melhor do que ninguém, não é? – sorriu diante daquela fidelidade incondicional que Alfred sempre demonstrou pelo patrão.
– Ele é como um filho pra mim... Mas nem por isso eu o defenderia e desconsideraria seus sentimentos se achasse que Bruce a usou. Se eu estou falando por ele, é porque sei que está verdadeiramente arrependido e querendo consertar o erro.
– Sinto muito, mas eu não posso conviver com isso. Nem foi tanto o beijo em si que mais me feriu, Alfred, mas a forma como ele parecia envolvido por... aquela lá. A única coisa que eu não posso perdoar é traição, e Bruce sabia disso. Céus, eu até fiz ele assinar um contrato... Aliás, bem lembrado! Estou devendo uns chutes naquela bunda em forma de cifrão!
Os dois riram, porém não havia nenhum resquício de alegria naquele som.
– Posso te pedir um favor, Alfred?
– Qualquer coisa que eu puder fazer – respondeu prontamente.
– Por favor, devolva essas coisas a ele – apontou para a caixa do vestido – e dentro da caixa tem um cheque como pagamento pelos estragos daquele pestinha do Satanás. Acho que aí tem o suficiente, mas se faltar dinheiro me avise, por favor. Assim eu tenho tempo de dar uma pesquisada no mercado negro de órgãos e tentar conseguir um bom preço pelo meus rins, ou fígado... – sorriu fracamente para o mordomo, que parecia realmente triste – Acho melhor eu ir agora.
– Eu a acompanho – Alfred ofereceu seu braço para Alice como um perfeito cavalheiro à moda antiga.
– Valeu! – sorriu, segurando o braço do mordomo e começando a caminhar, entristecendo-se ao pensar que não o veria mais com frequência, que sua companhia agora seria algo extremamente raro... Talvez aquela tivesse sido sua última conversa com aquela ilustre presença – Me dá um abraço, Alfred? – pediu, sem pensar, com a voz embargada e piscando algumas vezes para expulsar as lágrimas que se formaram de repente.
Os dois já estavam no jardim quando Alfred cessou a caminhada para fitar a hippie. Seu rosto estava bem abatido, aquelas feições tristes não condiziam com a mulher alegre que ele conheceu, não combinavam com Alice. Percebeu naquele instante o mal que o patrão impôs a ela, e lhe deu o abraço mais forte que conseguiu.
– Você não precisa passar por isso, Alice! – acariciou seu cabelo com a mesma doçura de um pai que tenta consolar uma filha – Pode acreditar em mim quando eu digo que Bruce está arrependido.
Alice sorriu com a insistência do mordomo.
– Não se preocupe comigo, Alfred. Vai passar! Sempre passa... Espero ver você de novo algum dia!
– Certamente que sim! Pensou que se livraria de mim apenas por terminar com meu patrão? – Alice riu baixinho – Mas tente considerar o que eu lhe disse hoje. Apenas pense a respeito! – pediu.
– Não sei se eu consigo... Mas vou tentar levar em conta o seu conselho!
– Fico feliz em ouvir isso! – abriu um sorriso sincero.
– Essa não! – Alice disse ao ver quem se aproximava – Eu tenho azar até quando acho que estou com sorte... – praguejou.
Bruce havia acabado de retornar à mansão, e logo que viu a hippie foi imediatamente em sua direção a passos largos e rápidos.
– Alice! – a voz do Bilionário era uma mistura de preocupação e alívio – Você não me atendeu durante esses três dias, eu fiquei preocupado!
Sim, Bruce tentou de todas as formas falar com Alice durante esses três dias em que ela se manteve reclusa, porém tudo o que conseguiu com suas visitas e ligações foi perder tempo. Era como se a casa estivesse abandonada.
– Ah, vá... Até parece – revirou os olhos.
– Nós precisamos conversar – ele disse, e Alfred já não estava mais lá. Saiu de cena, discreto como sempre.
– Nós já discutimos tudo o que devíamos. Não temos mais nada a acrescentar um ao outro – começou a andar em direção à saída, mas Bruce colocou-se na sua frente, impedindo-a de continuar a curta caminhada que a levaria para fora da mansão.
– Então por que veio aqui se não foi para falar comigo?
– O Alfred pode te explicar o motivo da minha visita. Agora sai da frente, antes que eu mude de ideia e cumpra o contrato.
– Você está no seu direito. Mas eu não vou deixar que você saia sem antes ouvir o que eu tenho a dizer.
– Meu Deus – olhou para o céu, fingindo que orava –, dê-me paciência! Eu não peço força, porque se o Senhor me der força eu bato nesse homem até matar! Amém – voltou a encarar Bruce, respirando fundo – Eu não preciso e nem quero ouvir suas explicações, senhor Wayne. Me desculpe por ter vindo até sua mansão sem avisar, agora, por favor, me deixe passar.
Ele continuou parado no mesmo lugar, apenas encarando a hippie com um olhar recluso de culpa.
– Por favor, me perdoe. Foi um momento de fraqueza...
– Ah, sinto muito, Bruce! Mas não seria justo com todos os outros que fizeram a mesma coisa comigo e eu não desculpei... Enfim, acho que você devia procurar a Rachel, ela sim combina com você! Só tome cuidado pra não pegar a doença da Vaca Louca! E não adianta nem me procurar em outros timbres, outros risos. Eu estava aqui o tempo todo só você não viu!
– Eu nunca tive a intenção de te magoar, Alice. Me dê outra chance... – pediu.
– Ehhhh… – olhou para o nada e mordeu seu lábio inferior, fingindo que pensava no assunto e considerava seu pedido – Não! – disse por fim, desviando-se de Bruce e sumindo de vista o mais rápido que pôde, ainda sentindo os olhos negros dele mirando seu corpo que já se distanciava.
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