Tinha Uma Hippie No Meio Do Caminho...

16 A Gata Borralheira De Gotham


Notas iniciais
Queria dar as boas vindas a alguns leitores novos: Lótus e Annye (espero que vocês continuem acompanhando e não se cansem da fic!) e Karina Boo, que criou vergonha na cara e começou a comentar ;D Sejam bem-vindos!!! o/

Alice ainda podia sentir a fina cicatriz avermelhada que se destacava em seu pescoço pálido, no lugar rasgado pela lâmina fria de Coringa, como um aviso que deveria permanecer ali para lembrá-la diariamente com o que de fato estava lidando. A prova de que o tempo curava tudo, mas sempre deixava sua marca. E com isso, talvez, conseguisse livrar-se do estranho poderio que o Palhaço exercia sobre si.

Ela tinha plena consciência de que tirá-lo completamente de suas lembranças não seria possível, porém sentia-se confiante de que a distância e o tempo sufocariam esse desejo injustificável e sombrio que perseguia a hippie. Era esse o plano, por mais que não fosse um dos mais promissores, ainda era o melhor que ela poderia fazer por si mesma, além de tentar a todo o custo manter-se longe de tumultos e de circos...

O mais difícil de toda aquela confusão foi, sem dúvida, explicar o ferimento e as marcas de violência ao Bruce...

"– O que houve, Alice? – perguntou com olhos preocupados enquanto passava o dedo levemente pelo corte, provocando um estremecimento na hippie mesmo ao toque suave.

– Eu... – “Pensa, Alice!” Tropecei e caí com o pescoço numa faca afiada... – tentou, sabendo plenamente que era uma das desculpas mais terríveis que já havia inventado, e que Bruce jamais se contentaria com uma explicação tão porca de sua parte. O Bilionário arqueou com desdém uma sobrancelha, esboçando um meio sorriso que beirava o deboche.

– Eu conheço seu dom de atrair desastres anormais, mas nem mesmo você seria capaz de tal feito...

“Ah, Bruce, você não conhece nem um terço desse dom...”– pensou, amargurada.

– Tá, tudo bem! Só não queria te preocupar...

– O que aconteceu? – repetiu a pergunta com um olhar gentil.

Não, Alice jamais contaria que foi sequestrada por Coringa, que quase morreu duas vezes no mesmo dia, e pior: afrontou o Papai Noel! A verdade naquelas circunstâncias estava fora de cogitação... Conseguiu, dessa vez, formular uma desculpa mais convincente, tentando evitar o remorso pela mentira.

– Eu estava tranquilamente na minha casa, depois de ter ido à delegacia responder o questionário interminável do Senhor Cabeça de Batata, quando um homem encapuzado invadiu o conforto do meu lar querendo me assaltar...

Bruce fez menção de que ia interrompê-la, mas Alice levou o indicador até os lábios do Bilionário, impedindo que ele falasse.

– Espere eu terminar de contar, depois você fala... – ele pareceu conformado e aguardou que Alice concluísse a sua versão, esperando que o Bilionário não reconhecesse as inverdades que acabara de inventar – Enfim, o trombadinha ficou irritado por eu não ter nada de valor comigo, e talvez tenha ficado levemente aborrecido pelas minhas frases feitas do Dalai Lama. Então ele amarrou meus pulsos e me amordaçou. E antes de ir embora me deu esse presentinho, talvez como uma punição por eu não calar a boca mesmo sob o aperto da mordaça, sei lá... – apontou para a ferida do próprio pescoço.

A hippie ficou esperando pela reação de Bruce, mas este apenas a fitava com preocupação, analisando cada machucado e demorando-se mais nas marcas de sua boca, que de um jeito desconfortável lhe lembraram muito um sorriso...

– Pode falar agora... – Alice disse, estalando os dedos na frente de seu rosto e trazendo-o de volta à realidade.

– Você já deu queixa disso?

– Não, obrigada... Passei tempo suficiente a uma vida inteira naquela delegacia, e não pretendo voltar!

– Alice, isso é sério! Pode ter sido um dos capangas do Coringa, senão o próprio...

'Bingo!'

– Lógico que não... Todos nessa cidade parecem muito neuróticos a respeito desse Palhaço! O Coringa não é o único criminoso de Gotham! – tentou desviar as atenções do circense – E além do mais, eu reconheceria aquela Libélula com ou sem disfarce.

– Mas eu não vejo por que alguém se daria ao trabalho de se deslocar até sua casa para assaltar.

– Ofendeu agora! Minha casa não é tão ruim assim... – defendeu-se, desviando sua atenção para o curativo que começara a fazer em seu pescoço com o auxílio de um espelho – Eu não sou um cifrão humano feito você, mas também não precisa humilhar...

– Você deveria ir a um médico... – retomou o assunto, chegando mais perto de Alice e encarando as marcas em sua pele através do reflexo do espelho, vislumbrando seu próprio semblante endurecido ao lado do rosto jovial de Alice.

– Eu sou médica, esqueceu? – deu um sorrisinho metido – E esse corte não é nada grave, eu posso cuidar dele sozinha...

– Eu não estou gostando disso. – meneou de leve a cabeça, como que para comprovar a sua desaprovação – Assim que você terminar esse curativo nós vamos até a delegacia. Mesmo que tenha sido um criminoso sem relação alguma com Coringa, precisamos informar a polícia.

Todos os argumentos que a hippie usou para evitar o novo encontro com “As Rosquinhas de Plantão” foram de imediato rebatidos e desconsiderados por Bruce, que parecia irredutível nessa decisão. Cansada de discutir, Alice tentou sua última arma:

– Pelo amor de Charlie Chaplin, não foi nada sério! E tem mais, você está desrespeitando a Cláusula 2 do contrato mais uma vez! – fez um biquinho, na tentativa de convencê-lo a desistir daquela ideia estúpida.

– Eu pago uma multa se for preciso... – sorriu, pela primeira vez no dia.

Alice terminou o curativo no pescoço, resmungando raivosamente para si mesma:

– Do que adianta assinar um contrato se acha que pode desrespeitá-lo a hora que bem entender e simplesmente pagar uma multa...

– Eu juro que te compenso por isso depois. – beijou o canto de seu lábio, sem interromper em nenhum momento o contato visual, como se quisesse analisar cada pequena reação da hippie – Agora vamos.

Alice não tinha escolha... Realmente viu-se obrigada a dar queixa de um crime que nunca aconteceu, tudo para manter a realidade bem segura e inatingível... Bruce poderia desconfiar se a hippie continuasse recusando-se a denunciar o suposto “assalto”. Mas, apesar de se ver obrigada a ceder, tudo o que ela menos queria no momento era voltar à delegacia... Já podia até imaginar os olhares agressivos que esperavam por ela novamente. Pelo menos dessa vez, Bruce estaria ao seu lado e seria seu porto seguro.

O trajeto até lá pareceu bem mais longo do que de costume, Alice estava apreensiva e irritada ao mesmo tempo, esperando que fosse capaz de manter sua invenção até o fim. Se a polícia sequer desconfiasse de que ela havia se encontrado com Coringa, certamente tudo estaria perdido para a hippie. Ninguém se daria ao trabalho de acreditar no sequestro e muito menos em sua inocência, disso ela tinha certeza. Era muito mais cômodo para as autoridades continuar culpando Alice, pois isso de certa forma os eximia de encarar o verdadeiro problema...

Bruce parou o carro em frente à delegacia e Alice o encarou com a melhor feição chorosa que conseguiu interpretar.

– Ainda temos tempo de desistir! Eu não estou preparada psicologicamente para falar nesse assalto traumatizante agora, ainda mais com a polícia...

Bruce sorriu ao responder.

– Você não vai conseguir me chantagear com essa carinha adorável. Eu te conheço muito bem, sei que isso é um truque!

A hippie cerrou os olhos e cruzou os braços, bufando de fúria.

– Pra que serve um namorado se ele não acredita na inocência da virtuosa companheira?

– Serve para muitas coisas, e de inocente e virtuosa você não tem nada – ele sorriu de um jeito metido e mal-intencionado, quebrando na mesma hora a raiva de Alice, que não segurou o riso diante daquela expressão maliciosa atípica de Bruce.

Ele lhe deu um beijo rápido e gentil, sentindo a tensão nos lábios da hippie.

– Por que está tão nervosa? Não tem motivo pra isso...

– Não mesmo? Tenta convencer o Senhor Cabeça de Batata de que eu sou inocente, então!

O Bilionário saiu do carro, rindo, e Alice o imitou, sem ânimo algum. Olhou para o local, que havia estado há pouco tempo e suspirou, entrelaçando sua mão na de Bruce e indo ao encontro do novo interrogatório.

Gordon pareceu muito surpreso ao ver o casal diante dele, ela com um olhar entediado e distante, e ele com o rosto sério, parecendo um tanto preocupado. O Comissário levantou uma única sobrancelha, encarando Alice.

– Resolveu acrescentar algo ao seu depoimento? – perguntou, esperançoso, e logo em seguida reparou no curativo destacado em seu pescoço.

– Na verdade ela veio fazer uma queixa contra um assalto domiciliar e agressão física...

– Deixa que eu cuido disso, Bruce – Alice o interrompeu, como se ele tivesse falado uma grande besteira, e se dirigiu em seguida a Gordon – Na verdade eu vim fazer uma queixa contra um assalto domiciliar e agressão física.

– E isso teria alguma relação com Coringa? – desviou a atenção do ferimento em direção aos olhos da hippie.

– Não – respondeu mais rápido do que pretendia, pigarreando logo em seguida.

– E como tem tanta certeza disso? – o Comissário estreitou os olhos, e a intensidade daquele brilho em sua íris a fez pensar se ele seria capaz de acreditar naquela farsa. Espantou aquele receio quase no mesmo instante em que a dúvida apareceu, esforçando-se para manter a sua postura o mais convicta possível.

– Porque estava na cara que ele era amador! O trombadinha não parava de tremer, e nem conseguiu esconder o rosto direito...

– É mesmo? – Gordon pareceu interessado – Então talvez você possa descrevê-lo para o policial responsável pelos retratos falados. Me acompanhem, por favor – fez um gesto com a mão para que os dois o seguissem.

“Ah, merda! Como é que pode caber tanta estupidez em uma única pessoa?” – praguejou com a própria tolice, seguindo Gordon à contragosto.

O Comissário guiou o casal até uma sala próxima, onde havia um policial cochilando em cima de sua prancheta de desenhos, roncando sonoramente e com uma avidez espantosa.

– Teógenes! – Gordon gritou, irritado. O policial deu um pulo na cadeira que estava, e olhou em volta com um dos olhos arregalado e o outro parcialmente fechado, parecendo assustado.

– Não fui eu! – disse, com um sotaque extremamente carregado e difícil de compreender.

O Comissário balançou a cabeça em sinal de reprovação, suspirando e passando a mão pelos cabelos ao tentar controlar a raiva.

– A senhorita Alice veio aqui para descrever um assaltante que entrou na casa dela, faça um retrato falado, está bem?

Dando um enorme bocejo, o policial acenou um “joinha” com o polegar, dizendo em seguida:

– Pode deixar, chefia!

Gordon já estava fechando a porta atrás de si, quando voltou a olhar Teógenes no único olho bom, e adotando um tom ameaçador, disse:

– E se eu pegar você dormindo no horário de expediente de novo, te transfiro para a unidade da faxina! – bateu a porta com tudo, sem esperar pela resposta.

– Também adoro trabalhar para o senhor, chefe! – Teógenes disse olhando em direção à porta fechada. Alice riu, chamando a atenção do policial, que parecia ter esquecido que não estava sozinho. Ele foi o único dali que sorriu pra ela sem nenhuma maldade ou ironia – Pode começar a falar como era o bandido, senhorita.

Preparou o lápis próprio para desenho e posicionou-o em cima da folha sobre a mesa, esperando que a hippie começasse a sua descrição. Por um décimo de segundo ela olhou para Bruce, hesitante, e começou a inventar.

– Bom, o rosto não dava para ver direito, porque usava um capuz, mas ele tinha três piercings no lábio inferior e um bigodinho loiro que lembrava Hitler...

O plano era: dar características absurdas para que eles nunca encontrassem algum suspeito. Na hora realmente parecia ser uma ideia genial, e isso motivou a hippie a continuar descrevendo as mais inimagináveis características, com o intuito de que elas não fossem atribuídas a ninguém. Alice continuou a inventar, falando tudo o que vinha na sua cabeça sem nem mesmo se dar ao luxo de pensar antes:

– Ele tinha uma tatuagem de um crânio com dois ossos cruzados embaixo e escrito: PRERIGO!

– Prerigo? – Bruce perguntou, intrigado, e Teógenes apenas focava-se no desenho, totalmente habilidoso em seus traços, desviando o olhar da folha apenas para mirar Alice algumas vezes, parecendo um pouco chocado com seu relato sobre os traços do bandido.

– Isso mesmo – Alice encarou Bruce, tentando não rir – PRE-RI-GO! – anunciou, destacando cada sílaba com cuidado Acho que ele devia processar o tatuador...

Teógenes interveio, pela primeira vez:

– Me fale sobre características mais gerais, como a altura, a cor, o tipo físico...

– Ah, tudo bem... – a riponga tinha que se esforçar muito para conseguir entender o que o policial falava em meio àquele sotaque tão característico do Texas e forçadamente carregado – Ele parecia ser albino... Sim, com certeza era albino! E bem alto, muito alto mesmo, talvez chegasse a 1,95m. Já seu tipo físico era de dar dó, tadinho... Lembrava uma minhoca desnutrida de tão fracote que aparentava ser... E ele tremia bastante, não devia ser normal! Seu rosto era fino como o resto do corpo, e pelo molde que o capuz formava acima de sua cabeça, parecia que ele usava um moicano.

Teógenes permaneceu em silêncio enquanto terminava seu desenho, porém sua fisionomia denunciava o quanto estava intrigado. As sobrancelhas praticamente se uniam em uma só, graças à intensidade com que franzia sua testa. Bruce observava Alice, desconfiado, mas ela fingiu não perceber a intensidade de seu olhar inquisidor, aparentando estar atenta ao trabalho do policial, que ainda rabiscava com agilidade e precisão.

Ele olhou indeciso para a caricatura e virou a prancheta para que Bruce e Alice pudessem vislumbrar o resultado final. A pergunta que fez em seguida foi destinada à hippie.

– Você é capaz de identificar o criminoso nesse desenho?

– Claro, está perfeito – ela respondeu, sem nem prestar muita atenção ao retrato, visando apenas sair da delegacia o quanto antes."

Algumas semanas haviam se passado após o incidente com o Palhaço, e para sua total surpresa, ele não havia dado nenhum sinal de vida nesse meio tempo. Ou isso era um ótimo sinal, ou prenunciava uma catástrofe das grandes. Ela estava mais inclinada a considerar a segunda opção...

A única coisa que havia mudado sua rotina naqueles dias foram as diversas matérias que saíram em vários jornais, na primeira página, revelando seu relacionamento com Bruce Wayne... realmente foi muito estranho ver-se no destaque de inúmeras revistas e noticiários de grande circulação, ser parada o tempo todo nas ruas, ou então ouvir cochichos a seu respeito e dedos indiscretos que a apontavam. Logo ela, que sempre acostumou-se a ser invisível aos olhos do mundo, agora via-se obrigada a lidar com o conhecimento público.

A hippie estava em evidência, vivendo seus quinze minutos de fama, porém tal situação nem de longe a agradava. Apesar de se irritar com os assédios, ela sorriu ao recordar-se do que sentiu quando viu a foto do casal no jornal pela primeira vez, um sentimento que agora era até banalizado pela repetição da notícia.

"Já era finzinho de tarde em Gotham, e Alice caminhava distraidamente pelas ruas, mais uma vez pensando em como estava se atolando cada vez mais irremediavelmente naquela areia movediça que sua vida havia se transformado. Quanto mais ela se mexia e tentava desvencilhar-se daquele terreno, mais se notava imergir.

Foi em meio a esses pensamentos típicos de Novela Mexicana, que Alice viu pela primeira vez sua foto estampada numa barraca de jornal. Não compreendeu de imediato que a matéria era sobre ela, e continuou andando como se não tivesse visto nada de errado. Não mais do que de repente, Alice percebeu que ver-se estampada na primeira página não era normal, e deu alguns passos para trás em direção à banca, totalmente perplexa.

– Mas o quê? – disse, olhando fixamente para o jornal em direção às letras garrafais que introduziam a manchete e diziam: “A GATA BORRALHEIRA DE GOTHAM”. Estava boquiaberta quando viu sua própria imagem, de mãos dadas com Bruce e rindo, num passeio que fizeram recentemente. A imagem do casal tão nítida e próxima como se o fotógrafo estivesse ao lado dos dois...

Ficou um tempo sem esboçar reação nenhuma, apenas vislumbrando a disposição da notícia, porém sem se atrever a conferir o conteúdo. Quando voltou a si, começou a correr os olhos pela manchete, totalmente interessada no que dizia. Pegou uma amostra que estava disponível no pequeno mostruário da banca, ouvindo a voz aborrecida do jornaleiro:

– São três dólares! – avisou num tom pragmático, e a hippie jogou o dinheiro por cima do balcão sem desviar os olhos da primeira página. O dono da banca pareceu prestou mais atenção em Alice e a reconheceu imediatamente, mudando o tom irritado na mesma hora – Ei, espera! Você é ela, não é? – apontou para a foto do jornal.

Alice encobriu o rosto com o próprio cabelo e fingiu-se de desentendida.

– Não sei do que o senhor está falando.

– É sim – ele insistiu –, você é a mulher da foto!

– Deve ser a minha irmã gêmea! – saiu dali apressada, ainda sentindo o olhar curioso do homem nas suas costas, e se dedicou a ler a manchete que conquistou a primeira página daquele jornaleco.

A GATA BORRALHEIRA DE GOTHAM.

Bruce Wayne – um dos solteiros mais cobiçados do país – é famoso por sempre estar acompanhado de mulheres elegantes e famosas, condizentes com seu próprio padrão luxuoso de vida, mas sem nunca assumir um compromisso duradouro com nenhuma delas.

No entanto, o belo empresário foi flagrado recentemente com uma mulher comum, invisível aos olhos da imprensa e que contradiz a fama de “Caçador de Estrelas” do Sr. Wayne, que até o momento só tinha sido visto com celebridades, dentre elas grandes nomes de Hollywood e bailarinas consagradas do universo do ballet e da música clássica.

A Gata Borralheira de Gotham ainda está no anonimato, tudo o que sabemos é que não deixa nada a desejar em sua aparência, e parece ter fisgado o coração do multibilionário, acabando com a esperança de todas as solteiras do país.

Agora só nos resta esperar para ver se A Gata Borralheira se torna Cinderela no palco urbano desse conto de fadas moderno."

Aquela havia sido a primeira de muitas reportagens que viriam a seguir. Os jornalistas – que adoravam uma bela fofoca, pelo jeito – já haviam publicado tudo sobre a hippie, desde o seu nome constrangedor – Alice preferia que continuassem a chamá-la de Gata Borralheira a revelar seu nome ao país inteiro – até mesmo seus hobbies. Como eles conseguiram descobrir tanto a seu respeito, ela realmente não sabia dizer, pois nada saía de sua boca... Apesar de publicarem algumas besteiras, grande parte do que lia era verdade. Já estava cansativo ver seu nome em destaque nas revistas e jornais. Parecia que os jornalistas não se conformavam que Bruce namorasse alguém comum, fazendo de tudo para colocar Alice na mídia e transformá-la em uma mulher “digna de Wayne”.

– Palhaçada, viu... – resmungou a si mesma, jogando mais um jornal no lixo, que perguntava maliciosamente se Bruce teria coragem de levá-la à festa elitizada direcionada ao promotor Harvey Dent, que seria em sua cobertura.

A hippie estava na Mansão Wayne, entretida com Alfred enquanto Bruce não voltava da rápida e inesperada viagem de negócios que tinha feito com Lucius Fox, seu braço direito na empresa.

– Não dê importância a esses comentários maldosos... – o Mordomo entrou na sala carregando uma bandeja que continha um bule com um líquido flamejante, o famoso e delicioso chá de Alfred, acompanhado de um prato repleto de...

– Oh, Deus! Cookie de chocolate... – sorriu ao sentir o cheiro invadindo a sala Eu te amo, Alfred. Tem certeza que você não quer se casar comigo? Eu até lavo suas cuecas!

O Mordomo riu, um pouco sem jeito com o rubor em sua face, servindo uma xícara de chá para Alice.

– Quem sabe daqui a uns trinta anos?

– É só você falar que eu largo o Bruce na hora! – Alice sorriu para ele antes de dar um longo gole no seu chá e se servir de um cookie – Está simplesmente delicioso! – disse ainda com farelos na boca.

– Fico feliz que tenha gostado! – riu de Alice, que estava com o rosto cheio de migalhas, parecendo uma criança que se lambuza com o doce favorito.

– Você tem algum defeito, Alfred? – ela perguntou parecendo séria.

Ele adotou um semblante profundamente pensativo, como se considerasse a pergunta extremamente difícil.

– Bom, eu trabalho para o senhor Wayne...

Os dois riram, e a voz de Bruce soou indignada da porta:

– Quer dizer que vocês se juntam para falar mal de mim na minha ausência?!

– Que nada, falamos mal quando você está por perto também! – a hippie disse, servindo-se de mais um biscoito.

– Bom saber que minha falta foi sentida – revirou os olhos, fazendo charme.

– Sem drama, Bruce. Você ficou fora apenas por algumas horas!

– Agora que os dois já estão em boa companhia posso me retirar Alfred disse, depois de servir uma xícara de chá para o patrão.

– Boa companhia? – Alice alterou o tom de voz, indignada – Está brincando, não é, Alfred?

O Mordomo saiu da sala rindo, e deixou o casal a sós. Bruce foi até ela e sentou-se ao seu lado no enorme sofá, passando a mão em torno de sua cintura. Seus dedos passearam pelo rosto da namorada, trazendo-o para perto em um dos seus doces beijos. Ela deixou-se inclinar para mais perto do Empresário, sendo levada pela maciez de seus lábios. Bruce desceu a mão que se pousava em sua cintura, puxando as coxas da mulher para o seu colo.

– E você veio até aqui porque não suportou a saudade? – sorriu, ainda sobre os lábios da mulher e de modo convencido, desviando alguns fios de cabelo que estavam à frente do rosto da hippie.

– Éhhh....... Não! Vim falar com você a respeito dessa festa que você vai dar na sua humilde cobertura de luxo, e da agonia que isso vai ser para a sua pobre namorada... – piscou compulsivamente, esperando que ele se sensibilizasse.

– Vai ser só uma festa, Alice!

– Não vai não! Vai ser uma câmara de tortura. Eu me sinto muito deslocada nesses eventos de gente rica! Elas não fazem parte do meu mundo, e eu nem sei o que devo vestir!

– Você vai se sair muito bem! – sussurrou, visivelmente tirando proveito do próprio charme para convencê-la – E quanto à roupa, não se preocupe, eu lhe trouxe um presentinho! – sorriu, orgulhoso.

– Eu não acredito – falou, irritada, reparando na caixa da Chanel ao lado de Bruce somente agora –, você não tem jeito mesmo!

– Era o mínimo que eu podia fazer, já que eu insisti tanto para você me acompanhar nessa festa.

– Agora sim eu estou te devendo uma pequena fortuna! – olhou preocupada para a caixa, sem ter a mínima noção de como calcular o valor.

– Foi um presente! Vai me ofender se quiser pagar por ele...

– Então eu não tenho escolha nenhuma, não é? – o desânimo tingia sua voz – Vou ter que ir mesmo?!

– Vai ter doce! – murmurou com ternura junto ao seu ouvido, beijando-o logo em seguida.

A expressão de Alice mudou na mesma hora.

– Ah, por que não me avisou antes?

Alice estava em seu quarto encarando o vestido esticado sobre sua cama. Era realmente lindo, Bruce teve muito bom gosto! A perfeição do modelo longo e frente única certamente tornava a roupa apropriada para qualquer festa elegante à noite, sem mencionar o corte suave que deixaria parte de suas costas à mostra. Seu tecido era mais macio do que qualquer outro que a hippie já havia provado, e ele era todo roxo, um roxo suave de uma tonalidade majestosa.

– Tinha que ser roxo? – lembrou-se da cor do paletó de Coringa – Vou começar a acreditar em destino... – riu, sem humor nenhum.

Porém, se o destino realmente existia, ele havia tratado de separar completamente os caminhos de Alice e Coringa. Depois daquele último encontro, o Palhaço nunca mais apareceu em sua vida, nem mesmo para tentar se vingar pelo ocorrido.

“Melhor assim!” – tentou convencer-se – “Pelo menos isso mostra que a Libélula parou de me perseguir...”

Bruce realmente estava sendo muito importante para Alice superar essa doença que tinha pelo Palhaço, e ele era a última pessoa que ela queria magoar por ainda sentir-se ligada ao Coringa de alguma forma. Sim, a distância entre eles era algo bom. Alice estava realmente grata por ela!

Começou a arrumar-se para a festa que Bruce daria em homenagem ao tal Promotor, sem muito ânimo de dividir o ambiente com riquinhos arrogantes que se dizem filantropos... Tentou não refletir muito no assunto para não desistir.

– Eu nem conheço esse tal de Harvey Dent – reclamou.

Mirou sua imagem no espelho, olhando cada ângulo do vestido em seu corpo. Tinha um caimento muito bom, e valorizava todas as suas curvas. Olhou para seu cabelo solto e pensou por um instante no melhor jeito de prendê-lo, até que decidiu que faria um coque tradicional, que nunca deixava de ser apropriado para ocasiões como aquela, além de prático. Começou a fazer o penteado, prendendo pacientemente cada mecha em seu devido lugar, até sentir-se satisfeita com o resultado.

Pelo menos com o cabelo e a maquiagem ela sabia se virar, apenas esperava não pecar pela falta ou pelo excesso... Tudo o que não precisava no momento era ser vítima de mais uma manchete criticando sua falta de elegância para aquele evento.

Suspirou e pôs-se a trabalhar na produção, optando por uma maquiagem leve, com um pouco mais de destaque nos olhos. Levou apenas alguns minutos para que ela terminasse de pintar o próprio rosto e analisasse o resultado final, mordendo o lábio inferior com a dúvida.

– Bom, de qualquer modo eles vão encontrar um motivo para me criticar – conformou-se com aquela realidade e deixou a preocupação de lado.

Por fim pegou o salto alto que veio junto com o vestido e calçou-o, totalmente incomodada com o desnível provocado e com a falta de equilíbrio que proporcionava. Agora só lhe restava esperar que Alfred chegasse para buscá-la enquanto Bruce recebia os convidados, conforme o combinado.

E, como a hippie previra, sua espera não se alongou além do horário marcado.

O Mordomo foi extremamente pontual, fazendo jus a todos os aspectos de sua descendência britânica. Assim que Alice ouviu o ronco do motor foi ao encontro do elegante Lamborghini preto estacionado em sua porta. Mesmo através do vidro fumê, a hippie foi capaz de perceber um discreto sorriso marcando o rosto de Alfred enquanto a observava entrar no carro.

– Estou parecendo o Barney com esse vestido roxo, pode falar... – disse, fechando a porta do automóvel e fazendo o mordomo rir.

– A senhorita está ótima! – começou a dirigir, e era incrível como até mesmo naquele gesto ele mantinha a sua elegância britânica.

– Ow, não é porque eu estou vestida para concorrer ao Oscar que você vai voltar a me chamar de senhorita, não é? Ainda sou eu aqui, a mesma hippie desajeitada de sempre!

– Sim, eu sei... – sorriu como se pedisse desculpa – Mas não é fácil perder costumes antigos.

– Tá perdoado só dessa vez! Na próxima eu só desculpo com um daqueles cookies!

– É justo! – riu.

Alice encarou por alguns minutos a paisagem escurecida do lado de fora do carro e suspirou. A cobertura Wayne era relativamente perto de sua casa, e não tardariam nada a atingir aquele destino.

– Alfred, ainda dá tempo de me largar por aqui! Ninguém nos viu chegar mesmo. Você pode dizer que eu não estava em casa... – tentou convencê-lo, como uma última esperança de se livrar da festa.

– Sinto muito, Alice, mas meu patrão precisa de você para passar por essa festa – sua voz saiu misteriosamente perturbadora e Alice o encarou, franzindo a testa.

– Alguma ex-namorada que eu deva me preocupar? – arriscou.

O Mordomo não respondeu, apenas sorriu para a hippie, estacionando o veículo.

– Chegamos.

– Que sorte a minha! – olhou para Alfred uma última vez antes de sair do carro, desconfiada com suas palavras.

Quando afinal entraram no apartamento, todos os presentes encararam a hippie de cima a baixo, demonstrando surpresa, como se não esperassem vê-la arrumada apropriadamente para o evento... Alice percebeu que havia se tornado a atração da festa, atraindo todos os olhares curiosos e indesejáveis enquanto caminhava, e odiou-se por isso. Cadê o tal de Harvey Dent, que deveria ser o centro das atenções? Alfred sentiu a aflição da hippie e, gentilmente, ofereceu seu próprio braço para que ela segurasse. Alice aceitou o gesto, agradecida.

– Posso me esconder na cozinha com você e fingir que eu sou a faxineira? – cochichou somente para que Alfred pudesse ouvi-la.

– Suponho que seja um pouco tarde demais para esse tipo de providência – riu, mantendo o mesmo tom de sussurro – E creio que ninguém se convenceria de que uma funcionária se vestisse assim!

– Claro que sim... Era só falar o quanto Bruce é um bilionário excêntrico que gosta que seus funcionários se vistam melhor do que a Primeira Dama...

Alfred riu baixinho, conduzindo Alice até seu patrão, que estava conversando animadamente com um dos convidados e nem sequer tinha percebido que os dois entraram.

Enquanto caminhavam até ele, Alice reparou em como estava lindo com seu terno preto e aquele sorriso que ela tanto adorava e que seria capaz de fazer qualquer um perder o fôlego. Pararam diante dele, e Alfred disse, chamando sua atenção para os dois.

– Patrão Bruce, a senhorita Alice está entregue, como o prometido.

Ela olhou triunfante para o Mordomo.

– Me deve um cookie agora!

Sorriu uma última vez para a hippie, retirando-se do local com uma sutil piscadela.

“Nãããão... Fica aqui! Não me deixe sozinha com essa gente estranha...” – pensou enquanto via Alfred se afastar.

– Você está maravilhosa, Alice! – os olhos de Bruce brilharam ao vê-la ali, na sua frente. Antes que ela pudesse responder, o homem que conversava com Wayne sorriu para a hippie, dizendo:

– Então esta é a famosa Alice? Estava ansioso para conhecê-la pessoalmente! – disse, tão simpático quanto o seu sorriso agradável Prazer, meu nome é Lucius Fox – estendeu a mão para um cumprimento.

Alice apertou a mão do homem na mesma hora, sorrindo também.

– Bruce me fala tão bem do seu trabalho naquela empresa que eu acho que a Wayne Enterprises iria à falência sem os seus serviços – os três riram, e Alice observou bem o homem, sem conseguir evitar a pergunta – Já te disseram que o senhor é a cara do Morgan Freeman?

Se não fosse a tonalidade escura de sua pele, a hippie tinha certeza de que o homem teria corado intensamente.

– Pois é – riu timidamente –, muitas pessoas comentam isso mesmo...

– Com licença, Lucius – Bruce segurou a mão de Alice – Tenho que apresentá-la a vários curiosos que estavam impacientes por conhecê-la.

– Sinta-se em casa, Bruce! – o homem sorriu, levantando a taça de champagne que segurava num cumprimento espirituoso.

Eles foram caminhando pela multidão e a cada olhar curioso, o Bilionário a apresentava como se fosse um valioso troféu, fazendo Alice sentir-se ainda mais ruborizada naquele ambiente quase hostil aos seus olhos.

– Jura que você vai me apresentar para cada um deles? – sussurrou, olhando com desânimo para os múltiplos rostos que a encaravam, como se esperassem por sua vez.

– Só para os mais importantes, prometo – beijou de leve seus lábios, como se pudesse transferir a coragem dele para ela com o gesto.

Mais alguns sorrisos e apertos de mão, e Bruce finalmente a apresentou ao homenageado da festa: Harvey Dent, que estava acompanhado de uma mulher levemente ruiva que parecia analisar Alice de todas as formas, o que era bem incômodo. Percebeu que Bruce evitava olhar para ela, concentrando-se apenas em Harvey.

– Harvey, esta é... minha namorada, Alice – pela primeira vez ele hesitou em chamá-la de namorada, e a hippie franziu a testa para ele, sem entender por que de repente Bruce parecia tão tenso.

O Promotor era loiro e tinha olhos extremamente azuis, que transmitiam simpatia.

– É um grande prazer, Alice! – estendeu a mão para um cumprimento, sorrindo.

– O prazer é todo meu – retribuiu ao sorriso e ao aperto de mão, já entediada por sempre repetir a mesma cortesia.

– Eu sou Rachel – a mulher ao lado dele se apresentou, bruscamente, e ainda encarando Alice com uma intensidade constrangedora –, a noiva de Harvey. – o Promotor ficou visivelmente radiante com as palavras da ruiva, sorrindo para ela meio abobalhado, parecendo até descrente de que aquela notícia fosse mesmo real.

Ao ouvir aquelas últimas palavras, Bruce apertou a mão de Alice com tamanha intensidade, que a fez soltar um gemido de dor, totalmente pega de surpresa pela força inesperada. Ele pareceu nem perceber o que havia feito, dirigindo-se à Rachel pela primeira vez, dono de um olhar intenso que Alice não soube interpretar.

– Então vocês vão se casar? – Alice pensou ter ouvido uma pontada de tristeza em sua voz, mas foi tão sutil que a hippie não tinha certeza...

– Sim – ela respondeu, encarando-o com a mesma intensidade – Harvey acabou de me pedir, e eu aceitei.

– Espero que sejam muito felizes!

– Igualmente – Alice disse, desvencilhando-se do aperto de Bruce e massageando cada articulação da própria mão, ainda totalmente confusa com o que estava acontecendo ali.

– Obrigado/a – os dois responderam ao mesmo tempo, porém com entonações totalmente distintas. Ele, extremamente empolgado e feliz, ela parecendo quase desanimada e conformada.

Só Alice percebia que havia alguma coisa muito errada ali? Não teve muito tempo para pensar no assunto, pois nesse exato momento, um tiro foi disparado em algum lugar da sala, chamando a atenção de todos e criando um enorme alvoroço.

A voz insana de Coringa preencheu o recinto, em meio às suas próprias gargalhadas. Andou pela sala, seguido por vários capangas.

– Que bela festa... A nata da sociedade todinha aqui dentro, e nem me convidaram! – o Palhaço pegou uma taça de champagne de uma das convidadas, derramando mais da metade da bebida no chão e tomando o resto de um único gole – Infelizmente eu não vou poder ficar muito tempo, estou com um pouco de pressa! Então, alguém aí viu Harvey Dent? Harvey Dent, você viu? Coringa dirigiu-se a um homem extremamente empalidecido pelo medo, virando o queixo do convidado como se tentasse comprovar que não se tratava do Promotor.

Alice instintivamente olhou para o lugar em que Dent estava, surpreendendo-se ao perceber que ele não se encontrava mais lá, e Bruce também havia sumido do seu lado. Rachel agora estava a vários passos de distância, olhando para um ponto fixo, parecendo preocupada.

– Mas que covardes – Alice resmungou para si mesma, indignada, referindo-se aos “fugitivos”.

O Palhaço olhou diretamente para onde Alice estava, e sorriu de um jeito que arrepiou todos os pelos de sua nuca. Tentou abaixar o rosto para não ser reconhecida, mas era tarde demais. Ele já caminhava em sua direção.

– Quem temos aqui... – cantarolou – A Gata Borralheira de Gotham!

– Não sei do que está falando, senhor Palhaço... – começou a dar alguns passos para trás, tentando inutilmente retomar a distância perdida.

– Vai negar a nossa relação em público, Docinho?

– De jeito nenhum, Ronald. Me vê um McLanche Feliz, por favor!

Coringa alcançou Alice e posicionou a faca rente à sua boca.

– Cansei das suas piadinhas horríveis, Alice! – pressionou o gume com um pouco mais força e olhou para seu pescoço, vendo a fina marca avermelhada que ele mesmo fez – Bela cicatriz! – sorriu – Quer saber como eu ganhei a minha? – apontou para o “sorriso” em seu rosto com a ponta da faca, e logo em seguida voltou a comprimi-la sobre a face da hippie.

– Na verdade não, mas eu acho que você vai me contar mesmo assim... – falou tranquilamente.

– Garota esperta! – riu, com o rosto próximo demais ao dela, e começou sua história – Eu tinha uma garota, minha noiva na época...

– Sério? – ela o interrompeu, transparecendo toda a surpresa que sentiu ao ouvir aquilo, achando difícil acreditar que alguém já havia se interessado pelo Palhaço. Ele continuou contando como se a hippie sequer houvesse se manifestado.

– ...ela era muito bonita, assim como você! – acariciou sua bochecha com o polegar livre, mas ainda mantendo a faca na mesma posição de ameaça – O único defeito dela era ser viciada, e um dia arranjou uma confusão séria com um traficante por não pagar a dívida das drogas que consumia. – todos observavam os dois, evitando até mesmo respirar para não chamar atenção para si próprio – Como pagamento da enorme dívida que não podíamos pagar, o traficante desfigurou o rosto dela e deixou uma cicatriz do tamanho do seu antebraço, começando na extremidade da testa, passando pelo nariz e terminando próximo ao ombro – ele fez o trajeto com a ponta de sua faca no rosto de Alice, fazendo-a tremer de leve.

– Que dó, que dó, que dó!

– Eu ainda não terminei – o Palhaço disse, ríspido, e continuou – Ela foi se afundando numa depressão cada vez mais profunda. Nós não tínhamos dinheiro para uma cirurgia plástica, e ela começou a ter nojo de si mesma. Eu queria mostrar pra ela que as cicatrizes não faziam a menor diferença pra mim, eu não aguentava mais vê-la quebrando espelhos e arranhando o próprio rosto durante suas crises de raiva. Foi então que eu fiz isso em mim. Coloquei um sorriso no meu próprio rosto para mostrá-la que não ligava para a imagem desfigurada dela... E agora vem a parte irônica – fez uma pausa dramática, umedecendo os lábios – Ela não suportou ver as cicatrizes em meu rosto e me abandonou. E agora eu estou sempre sorrindo.

Aquela história era cômica demais para Alice, e ela simplesmente não conseguiu evitar a sonora gargalhada que explodiu pela sua garganta, deixando todos à sua volta perplexos por ela desafiar o psicopata daquele jeito. Ainda em meio às risadas, a hippie disse, com o rosto vermelho pela falta de ar que a crise de riso proporcionou:

– Ai, que burro! Dá zero pra ele...

Antes que Coringa pudesse responder ou reagir à mais aquela insolência, Batman apareceu, vindo de algum lugar das sombras do apartamento, tirando o Palhaço de cima de Alice — que ainda ria incontrolavelmente — e recomeçando aquela luta épica. A perseguição de “Gato e Rato” dos dois parecia nunca ter fim.

Notas finais
Espero que esse capítulo não esteja confuso demais... Acho que eu me empolguei com o número de flashbacks... 0_0