Timshel
1 Capítulo I
Notas iniciais
Era um domingo qualquer. O sol pintava a cidade de laranja enquanto descia no horizonte. O infinito de arranha-céus poderia fazer qualquer um se sentir o ser mais solitário do planeta. Menos eu. Eu o observava de trás da minha revista, assistindo ao jogo de futebol, concentrado, sem dar atenção aos meus pés em seu colo. Olhei em volta para as guitarras apoiadas na parede, para o conhecido sofá de couro marrom e para as latinhas vazias sobre a mesa de centro; e me dei por conta de que jamais queria sair dali. Por um momento, quis ser tudo que ele era, desejei existir apenas dentro dele. Coloquei minha revista de lado e fui me aconchegar ao lado dele, incapaz de por em palavras o que eu sentia, limitei-me a esconder-me sob seu abraço. A verdade era que eu não sabia o que seria de mim se chegasse a perdê-lo. Ainda que nada fosse tão sólido entre nós para que eu pudesse ter a certeza de que jamais o perderia, eu me entregava, completamente. E quem não se entregaria a felicidade? Afinal de contas, eu sou apenas humana.
O jogo terminou, ele desligou a TV e sorriu pra mim, fazendo me sentir a garota mais sortuda do mundo. Dentre todas as mulheres ao alcance dele, por que eu? Era o que eu me perguntava, cada vez que ele segurava meu rosto entre suas mãos e me beijava daquele jeito. Suas mãos corriam pelas minhas pernas e o sangue em minhas veias corria desenfreado. As vezes eu achava que não poderia suportar, o desejo que tomava conta de mim era grande demais para ser saciado pelo meu corpo. A beira do desespero, como se prestes a derreter sob o calor do corpo dele, eu afundava os dedos em seus braços, enquanto ele me invadia e eu desejava que não houvesse fim.
-
- Sophie-san, tem um homem lá fora, pediu pela senhorita.
Estranhei o que Egawa acabara de me dizer, mas mesmo assim coloquei os guardanapos de lado e fui encontrar o tal homem. Era uma noite de domingo, o restaurante começava a esvaziar aos poucos, enquanto o mar brilhava sob a luz da lua no céu negro. Fui até o pátio e o vi. Quis desacreditar meus olhos, mas era verdade.
- Akira? – engoli em seco, aproximando-me do homem sentado perto da fonte.
-Sophie? – se levantou, com um sorriso hesitante estampado no rosto.
- Ah, meu Deus! Akira! – me permiti sorrir finalmente, andando na direção dele, sem poder resistir ao abraço que ele me oferecia.
- Quanto tempo, Sophie! – suspirou – Como você tá?
- E-eu... Eu to bem. – ainda não podia crer no que via – Mas e você? O que tá fazendo em Okinawa?
- Eu vim ver você, é claro! – sorriu exatamente como lembrava que ele sorria.
-Sophie-san! – Egawa apareceu vindo de dentro do restaurante – Estamos com um problema na registradora, pode vir aqui um instante?
- Claro. – respondi, antes de me voltar a Akira mais uma vez – Pode esperar um minuto?
- Ah, sim. Claro. – ele concordou, voltando a sentar-se perto da fonte, enquanto eu corria para dentro.
Resolvi o problema o mais rápido possível e então dispensei Egawa e o resto da equipe. Fui chamar Akira para sentar dentro do restaurante, fechando as portas quando passamos.
- O restaurante... É lindo. – comentou o Suzuki, olhando em volta, enquanto eu lhe servia uma taça de vinho. – Parabéns, Sophie.
- Espere para me dar os parabéns depois que tiver provado a comida. – brinquei.
- Não precisa se incomodar, Sophie. Eu sei que você já fechou a cozinha por hoje, não quero atrapalhar.
- Não é incomodo nenhum. Eu já pedi pra deixarem alguma coisa no forno pra gente.
- Se realmente não é incomodo nenhum, eu vou aceitar, porque o cheiro tá delicioso. – riu um pouco.
- Você vai adorar. – toquei-lhe a mão sobre a mesa – Então me conta... Como estão as coisas?
- Bem, dentro do possível, eu diria... – suspirou fundo – A banda entrou em hiatus.
- Eu ouvi falar. – a tristeza na voz dele era evidente. – Sinto muito. Tenho certeza que tudo vai voltar aos eixos, eventualmente.
- Eu espero. Acho que precisávamos mesmo de um tempo. Ele precisava de um tempo. – a ênfase na palavra dispensava qualquer explicação.
- Como ele tá? – engoli em seco, não sabia o que esperava ouvir.
- “Bem” seria a última palavra que eu usaria para descrever. – esboçou um sorriso triste.
Fale com o autor