Timelines vs. Pets
1 Capítulo Um — Ink vs. Phantom (+Cross)
Notas iniciais
Timelines vs. Pets
Ink vs. Phantom (+ Cross)
. . .
Com um movimento rápido e preciso, seu pincel molhado de tinta cortou o ar, abrindo a sua frente uma fenda dimensional.
— Você já vai embora? — Ele ouviu Blue perguntar em tom amuado.
Ink virou-se para sua versão na linha do tempo Underswap e sorriu sem graça.
— Desculpe — falou, coçando a nuca. — A festa em comemoração ao aniversário de fundação de New Home está muito boa, mas já é hora de ir. Preciso fazer algumas rondas por aí e ver se os outros universos estão indo tão bem quanto aqui. Você entende, não é?
A expressão que Blue fez parecia a de uma criança que perdeu seu brinquedo favorito enquanto brincava no playground, e isso quase fez Ink desistir de ir embora, mas então o pequeno lhe sorriu com sinceridade.
— Tudo bem. Isso é importante, para você e para todo mundo, certo? — Ele fez um gesto largo com os braços, como se quisesse mostrar todas as linhas do tempo que existiam. — E não seria legal impedir nossos outros amigos de ter sua ajuda.
— Obrigado por entender — Ink colocou a mão sobre seu ombro de forma gentil. — E obrigado também por me convidar para a festa. Nem dá pra acreditar que a cidade que fundaram depois de saírem do Underground já tem dois anos!
— Mwehehe... Nós todos é que agradecemos por sua visita! É divertido tê-lo por perto! Você sempre tem histórias legais para nos contar.
— Assim você me deixa sem graça — também riu sem graça, sentindo um suave rubor colorido tomar conta de seu rosto. — Bem, está na hora. Até qualquer dia, Blue.
— Até! Boa viagem!
Acenando, Ink entrou na fenda, deixando para trás aquela linha do tempo e caindo em outra. O corte que fizera mostrou Blue do outro lado lhe dando adeus por alguns segundos depois de passar e então se fechou. Estava sozinho em outro mundo agora.
Vejamos..., seu olhos heterocromáticos percorreram tudo o que o rodeava, recolhendo o máximo possível de informações que estavam ao seu alcance.
— Horrortale — pensou alto. — Parece estar como sempre... Mas é bom dar uma olhada por aí.
Com os sapatos afundando na grossa camada de neve, Ink percorreu a mórbida e silenciosa Snowdin Forest. Parecia a mesma que havia em todos os universos alternativos, mas bastava observar com mais atenção para notar seus detalhes horripilantes. Em especial as incontáveis marcas de sangue e punhados de poeira espalhados por aí; nos troncos e folhas das árvores, na neve onde pisava, sobre pedras e bancos... Era um pouco assustador e podia até lhe causar arrepios, mas Ink não odiava aquele universo, muito mesmo evitava visitá-lo. Muito pelo contrário, realmente esperava que, assim como Underswap havia encontrado sua paz e felicidade, o mesmo acontecesse ali.
Mas parece que vai demorar um pouco..., pensou desanimado.
Vendo o posto de vigia alguns metros a sua frente, procurou por Sans, outra versão sua, só que um pouco mais desequilibrada.
— Alguém por aqui? — Chamou alto, olhando ao redor. — Sans? Papyrus? Aliza?
Silêncio.
Oookay..., pensou, meio desconfortável. Hora de pegar um atalho e ver se encontro alguém.
Ink estava pronto para ir mais fundo no Underground, até que ouviu um choro estranho. Ele parou no mesmo instante o que ia fazer e semicerrou os olhos, procurando de onde vinha o barulho.
Esquerda, direita, atrás... Esquerda de novo... Nada.
Mais um choro, porém agora ele podia discerni-lo melhor. Era o ganido.
— Oh, não! — Exclamou ao ver, debaixo de um pinheiro, o corpo ferido de um filhote de cachorro.
Correndo até a criaturinha, ele ajoelhou-se a sua frente, resistindo a necessidade de aninhá-lo contra seu corpo, pois poderia piorar seu estado no processo.
O pelo do filhotinho devia ser branco, mas naquele instante estava repleto de sangue e poeira. Havia um corte sobre as costelas e sua respiração era errática.
Coberto de preocupação e pena, Ink tirou o casaco amarrado em sua cintura e, com muito cuidado, pegou o corpo d animal e o envolveu nele.
A ronda vai ter que ficar para depois, pensou, enquanto um braço segurava com delicadeza o animal ferido e a outra empunhava seu pincel.
Mais um corte no ar, alguns passos e ele estava de volta a Underswap.
. . .
Blue estava na fila para comprar o cachorro-quente, quando viu a silhueta de Ink caminhando por entre pessoas e monstros que comemoravam o aniversário de New Home. A festa na praça principal da cidade estava longe de acabar e ele ficou feliz por ter seu amigo de volta.
— Ei, Ink, aqui! — Acenou, mas sem sucesso em capturar sua atenção.
Fazendo uma careta emburrada, Blue saiu de fila e foi atrás dele.
— Ink! Ink! — O chamou por entre os foliões.
Quando enfim o notou, a expressão que havia no rosto era a de alguém muito preocupado.
— Que bom que eu te encontrei, Blue... Eu preciso muito da sua ajuda.
. . .
A comemoração havia ficado para trás e agora quatro monstros e uma humana se encontravam amontoados na casa meio bagunçada da doutora Undyne, todos um tanto preocupados com a condição do filhotinho ferido nos braços do visitante daquele universo.
— Onde exatamente o achou? — A cientista perguntou, procurando desajeitadamente e com pressa pelo kit de primeiros socorros que guardava no armário de sua sala de estar. — Havia outros com ele?
— Eu o achei em outra timeline... Em uma onde os monstros ainda estavam presos no subsolo. E, não, ele estava sozinho — Ink respondeu com a voz carregada de preocupação.
Sentindo a manga de sua blusa ser puxada, ele notou a humana Chara ao seu lado segurando uma caixa de papelão. Ela lhe estendeu o objeto, o rostinho infantil um tanto triste pelo animalzinho. Ink tentou lhe dar um sorriso tranquilizador e passou a mão em sua cabeça.
— Obrigado, Chara — falou. — Nosso amiguinho com certeza vai se sentir um pouco melhor agora que tem uma boa cama para descansar.
A humana colocou a caixa sobre o sofá da sala e Ink o pós lá dentro, ainda enrolado em seu casaco. Papyrus se aproximou, com a mão no queixo e olhos cerrados, observando-o com atenção.
— Pode ser um cachorro “normal”, mas também pode ser um cachorro “monstro”... Tem poeira e sangue aqui, mas não dá pra saber qual é dele e qual não é — ponderou. — Vamos ter que tentar os dois tratamentos.
— Ataduras e remédios para o cachorro normal — falou Undyne, chegando com seu kit de primeiros socorros. — E apenas comida caso seja um monstro. Mas mesmo que pareça a opção mais simples, nesse estado não vai ser fácil fazê-lo comer algo.
Blue apareceu com um pratinho vermelho, onde havia um pedaço de bife cozido em água fervente picado em vários pedaços pequenos.
— O que vamos fazer primeiro? — Ele perguntou.
— Se for um animal normal, se não fizermos nada rápido, ele vai morrer por perda de sangue. Vamos cuidar dos machucados primeiro — disse Ink. — Vou segurá-lo e você limpa os ferimentos, pode ser, doutora Undyne?
— P-pode ser — ela engoliu em seco, sentindo um pouco de ansiedade pela grande responsabilidade colocada sobre si.
— Eu posso fazer isso, se quiser — Papyrus colocou a mão em seu ombro.
— Está tudo b-bem! Eu c-cuidava de muitos monstros no subsolo.
Assim que Ink colocou o cachorrinho em seu colo e tirou o casaco que o enrolava, ela ajoelhou a sua frente, pronta para limpar as feridas.
Enquanto ia progredindo com seus cuidados, Undyne chamou por Blue.
— Acho que pode começar a tentar um pouco de comida para ele. Dê pedaços bem pequenos e tenha certeza que ele está mastigando bem antes de dar outro.
— Certo!
— Ele? — Perguntou Chara, agarrada ao moletom laranja de Papyrus.
Undyne se deixou sorrir um pouco, mesmo que meio nervosa.
— É um cãozinho macho — explicou, olhando rapidamente para cima, para Ink. — Já vai pensando em um bom nome para ele, porque eu não pretendo deixar o pior acontecer.
Por um momento ele sentiu-se um pouco aliviado e coçou com carinho a cabeça do filhote.
— Não desiste, amigão, você está rodeado de gente que quer te ajudar a ficar melhor.
Foi um trabalho longo e vagaroso, mas duas horas depois de trazê-lo ali, o filhote se encontrava bem melhor de como chegara. Mas era um tanto estranho como tudo havia transcorrido. Tanto a comida de monstros, conhecida por aumentar instantaneamente o HP de quem a ingeria, quanto a as ataduras e remédios, havia surtido igual efeito no animal. Não fazia bem sentido aquilo, mas após todo aquele esforço e preocupação, Ink estava pouco preocupado com a lógica da situação.
No momento, então, todos os cinco ainda se encontrava na sala de estar da doutora Undyne, cada uma ocupando um espaço diferente. A dona da casa e Papyrus estavam sentados na mesa de jantar, um de frente para o outro, Chara estava ajoelhada no chão, espiando com curiosidade dentro da caixa que havia trazido, enquanto Blue se encontrava sentado ao lado de Ink, que segurava no colo a cama improvisada que a humana trouxera cheia de boas intenções.
— E então, que nome daremos a ele? — Blue perguntou.
Ink fitou o animal resgatado, se demorando nas ataduras que cobriam o profundo corte sobre as costelas que quase havia lhe roubado a vida. Depois de tanto sofrer, ele agora dormia envolto em uma manta azul dada pelo esqueleto sentado ao seu lado; a respiração estava lenta a profunda.
— Snow? — Ink sugeriu, ainda não muito satisfeito. — O que acha, Chara?
A humana corou de leve ao ter sua atenção sobre ela, mas considerou sua pergunta.
— Sr. Fofinho? — propôs, inclinando a cabeça de leve para o lado.
— Mas e se ele for grande e feroz? — Brincou Ink, fazendo-a rir.
O cão bocejou em sua caixa e começou a se mexer.
— Oh, isso é um bom sinal — comentou Papyrus, se aproximando com doutora Undyne.
Cinco pares de olhos agora o observavam, curiosos para saber qual seria o próximo movimento daquele animal que tanto se esforçaram para salvar a vida.
Um gemido preguiçoso de quem acabara de acordar de um longo e confortável sono, um leve abanar de causa e então... Ele abriu os olhos.
— Oooh, isso é tão legal! — Comentou Blue.
Esquerdo vermelho, direito um castanho tão escuro que parecia negro, o filhote possuía heterocromia.
Um nome formou-se na boca de Ink.
— Ele vai se chamar Phantom — falou.
Todos o encararam.
— Isso é humor negro? — Perguntou Papyrus, divertido. — Acho melhor voltar para os trocadilhos, combina mais com a sua cara.
Todo mundo riu.
— Mas ainda é um bom nome — Undyne disse.
— Totalmente legal! — Concordou Blue, sendo acompanhado por um aceno de cabeça de Chara.
— Então é isso, vai ser Phantom — declarou Ink. — Pessoal... Obrigado mesmo por terem me ajudado. Sem vocês, não sei o que seria dele.
Phantom abanou o rabo com mais vigor, como se aprovasse o nome. Ink pode apenas sorrir com alívio e felicidade.
Em seu peito, algo pareceu acontecer. Um sexto sentido que tentava lhe avisar que algo bom se aproximava.
Vamos nos divertir tanto...
. . .
UNDERFELL AU — Subsolo
— NÃO, PHANTOM, NÃO!
Ink corria até seus ossos doerem e se teletransportava o máximo que seu estoque de magia permitia, mas nada disso era suficiente para parar o lobo.
Sim, lobo. O filhote que havia trazido de Horrortale, quase morto para seus amigos em Underswap, oito meses depois, na medida em que crescia, logo se revelou algo bem mais “grandioso” que apenas um simples cãozinho.
— Um lobo — Papyrus observou, com uma mão no queixo e o cigarro entre os dentes. — E dos bem grandes.
Brincando com Alphys e Blue, Ink observava o animal, que provavelmente não devia ter completado um ano de idade, mas que já era suficientemente grande para uma criança montar nele como se fosse um cavalo.
— E ele ainda vai crescer mais... — acrescentou doutora Undyne, assombrada e admirada ao mesmo tempo.
Papyrus lhe deu um cutucão amigável com o cotovelo.
— Meus parabéns, Ink. Ganhou um companheiro e tanto para suas viagens.
— Sim... — respondeu, admirado e cheio de expectativa. — Vai ser demais.
Bem, estava realmente sendo demais para Ink viajar com Phantom, e para todos aqueles com que cruzava pelo caminho. Só não sabia se era um “demais” positivo.
Pelo caminho, enquanto o lobo desgovernado corria levantando neve para todos os lados, os habitantes de Snowdin corriam desesperados para fora de seu alcance, com medo de serem vítimas de suas brincadeiras pouco delicadas. Exatamente, os supostos monstros violentos que habitavam Underfell estavam com medo daquela bola de pelos.
Já sei, pensou Ink.
Se teletransportar devia ser a maneira mais prática e eficaz de conseguir parar seu lobo, mas Phantom parecia ter os sentidos aguçados, pois toda vez que Ink aparecia de repente a sua frente, ele conseguia o feito de se desviar dele no último segundo e mudar a rota.
Porém Ink teve uma ideia melhor.
Usando o resto de magia que lhe sobrara e muitos cálculos imprecisos, ele se transportou para bem atrás de Phantom e, flexionando os joelhos, se jogou para frente e agarrou seu lombo com todas as forças.
Esqueleto e lobo rolaram pela neve, numa confusão de ossos, patas, pelos e tintas, que para quem observava não era possível distinguir dono de animal.
Quando enfim aquela massa caótica conseguiu parar, Phantom estava com as quatro patas no ar, caído sobre Ink, que ainda o envolvia com os braços.
— Agora você não me escapa! — Proclamou vitorioso.
— Aí estão vocês! — Ouviu uma voz rude gritar.
Virando a cabeça para o lado, Ink viu Red se aproximar. Seu crânio trazia uma expressão de puro ódio e raiva sanguinários.
— Oh, olá... — conseguiu dizer apenas, ficando sentado na neve e ainda fortemente abraçado a Phantom, agora sentado entre suas pernas.
— Olá? OLÁ?! — Ele esbravejou, lhe apontando o dedo. — Olá é o caramba, seu bastardo colorido!
Vindo ao encontro dos dois, Frisk se agarrou a cintura de Red, tentando contê-lo.
— Você tem noção do que esse... Esse animal selvagem fez comigo?! — Continuou, sem notar a pequena humana. — Ele teve a maldita coragem de polar sobre mim e mastigar o osso da minha perna como se eu fosse os restos de um churrasco gorduroso!
— Por favor, Red, eu tenho certeza que foi sem querer... — Tentou Ink. — Phantom só queria brincar com você.
— BRINCAR?!
Ink achava que se Frisk não o estivesse segurando, exatamente como estava fazendo com o seu lobo, Red já teria voado em direção ao seu pescoço tentando esganá-lo.
— Por acaso arrastar um monstro por aí, como fez comigo, por dois quilômetros é brincar?! E, como se não bastasse, ele ainda mijou no meu Gaster Blaster quando tentei aniquilá-lo!
— Ah, Red, você precisa concordar comigo que nesse caso foi autodefesa.
Ele arregalou os olhos, incrédulo.
— AUTODEFESA?! COMO OUSAR ME DIZER ISSO?! — Esbravejou. — AGORA JÁ CHEGA, EU VOU FAZER VOCÊS DOIS VIRAREM POEIRA E DEPOIS VOU MIJAR SOBRE ELAS!
Porém, antes que Ink sofresse uma morte dolorosa, uma silhueta alta e delgada começou a se aproximar deles a passos impiedosos. Red calou-se no mesmo segundo e Ink engoliu em seco.
— B-Boss...
Papyrus apontou o dedo em garra para Phantom.
— Em consideração a minúscula humana, as execuções em praça pública foram banidas do Underground — falou em tom baixo, porém transbordando de ódio e vingança. — Mas usar o jardim da sala do trono como banheiro foi a gota d’água, copia colorida. Ou você some daqui com essa abominação peluda, ou vocês dois vão se tornar as primeiras exceções à regra.
— É compreensivo — Ink soltou, suando frio. — Vamos, Phantom, vou levá-lo para dar um passeio.
Cortando o ar com seu pincel, ele abriu uma fenda nos códigos do jogo. Empurrando seu lobo para o outro lado, Ink olhou uma última vez para os três ali.
— Hm... Desculpa — e jogou-se em outro AU.
Quando a fenda se fechou, ele soltou um suspiro aliviado, olhando para Phantom com uma expressão brava.
— Você foi um lobo muito, muito mal. Sem petiscos por uma semana!
Phantom abanou o rabo e latiu. Parecia se divertir.
Outro suspiro, dessa vez cansado.
— Você precisa se comportar, amigão. Assim não vai conseguir fazer novos amigos para poder brincar.
— Ora, ora, o que temos aqui?
De supetão, Ink virou-se para trás, cobrindo a figura de Phantom com o próprio corpo. A passos lentos e despreocupados, Murder vinha em sua direção. Os olhos de cores desiguais e sorriso afetado o acompanhavam, dando arrepios a qualquer um que ousasse encará-lo por muito tempo — se, por ventura, sobrevivesse para fazer isso.
Ink não estava totalmente surpreso com sua presença, havia de fato escolhido vir para Dusttale, afinal, só havia um monstro naquele subsolo, o que tornava o AU perfeito para levar Phantom. Mas em um lugar tão grande quanto o subsolo, era realmente muita falta de sorte cair justo perto de onde Sans estava.
— Vê-lo aqui me faz tão feliz — disse Murder com sua voz arrastada e calma. — Eu e Papyrus estávamos começando a ficar entediados por aqui. Você sabe, um Underground vazio pode ser bem solitário.
— Oh, desculpe decepcioná-lo, Murder... Mas eu estou aqui só de passagem, por isso...
Mas ele continuou a seguir em sua direção, sempre sorrindo, enquanto ossos com extremidades pontiagudas começavam a se materializar ao seu redor.
Até que ele parou de repente. Os ossos desapareceram no ar e Murder estancou no lugar. Ele olhava para algo acima dos ombros de Ink.
— Saia da frente — ordenou.
— O que?
— Saia da frente, Ink.
Mas ele não se moveu.
— É apenas meu lobo, Murder... Por favor, não lhe faça m...
— Saia daqui agora — disparou.
— Desculpe? — Ink piscou, incrédulo.
— Por acaso não fala a minha língua, seu tarado por tintas? — Ele levantou a voz pela primeira vez, muito irritado. — Eu mandei você ir embora. AGORA.
— Okay, okay, eu entendi!
Chamando Phantom com um assovio, Ink abriu outra fenda com seu pincel e pulou para o universo seguinte, deixando Murder para trás.
Com um suspiro absurdamente cansado, ele olhou para seu lobo.
— O que vamos fazer, ein? Desse jeito fica difícil para nós dois viajarmos.
— Olha quem encontramos aqui — Ink ouviu as suas costas, seguindo de um tapinha amistoso no ombro. — Como vai, colega?
Ele se virou, encontrando sua versão original junto de sua companheira humana, agora com seus 14 anos.
— Olá, Sans. Olá, Frisk — tentou sorrir, cortês, mas também preocupado com o possível comportamento que seu amigo peludo poderia adotar a qualquer instante.
— Phantom! — Exclamou a humana, jogando os braços ao redor dele e lhe dando um grande abraço.
Felizmente para Ink, seu animal de estimação adorava humanos, ou melhor, crianças humanas. Então talvez não devesse se preocupar tanto assim.
— Você não parece muito bem, cara — comentou Sans. — Está com algum problema?
— Mais ou menos — Ink suspirou pela... Centésima vez? — Acho que você já deve estar sabendo, creio eu.
— Ah, eu não ia comentar sobre isso, mas já que tocou no assunto... Sim, a notícia de que seu lobo é uma calamidade pública ambulante já se espalhou pelo multiverso.
— Não estou surpreso.
Ink olhou em volta, percebendo que havia ido para no meio de um parque arborizado na superfície. Ao encontrar um banco de madeira caminhou até ele e se jogou sentado ali, muito cansado. Sans o seguiu, ficando ao seu lado.
— Sabe, eu adoro o Phantom — começou. Precisava muito desabafar. — Ou melhor, eu o amo incondicionalmente. É um grande amigo e eu estou feliz por tê-lo como companhia ao longo de minhas viagens... Mas não posso simplesmente deixá-lo causar estragos na vida de outras pessoas. Se fosse só de vez em quando... Mas por todos os lugares que passamos ele deixa um rastro de destruição.
— Lamento muito por isso — Sans deu-lhe alguns tapinhas nas costas, de forma reconfortante. — Você disse que o encontrou filhote no universo de Horrortale, certo? Por que não tenta voltar para lá e encontrar a família dele? Sei que vai ser difícil para você, mas tenho certeza que Phantom vai ficar bem feliz em rever a própria família.
Ink ia respondê-lo, mas Frisk correu até eles, com a roupa toda suja de baba e terra, mas também com um grande sorriso no rosto.
— Vou procurar algum pauzinho para brincar com o Phantom, tudo bem? — Pediu.
— Claro, pirralha — disse Sans, passando a mão em sua cabeça. — Mas não vá muito longe, okay?
— Ceeeerto!
A humana saiu correndo parque afora, a procura de algum graveto e deixado Phantom sozinho alguns metros do banco, cavando um imenso buraco no bem aparado gramado que cobria a área.
— Como eu ia dizendo — retomou Ink. — Eu já pensei nessa possibilidade, mas percebi que eventualmente perderia o efeito.
— Por que?
— Ah, como devo explicar... Sabe o que são “fendas dimensionais”?
— Tenho uma pequena noção do que seja, mas como nunca vi uma, não sei bem se consigo imaginar como funcionam exatamente.
— De forma bem resumida, são fendas nos códigos que sustentam cada universo. É tipo um buraco que abre aleatoriamente dentro de um universo, criando momentaneamente uma passagem rápida para outra linha temporal. Mas, como eu disse, embora possa ser algo bem comum de acontecer, esses buracos costumam aparecer em locais aleatórios e não ficam muito tempo abertos. Por isso, em geral, quase ninguém vê ou percebe isso acontecendo. Mas por algum motivo Phantom tem a estranha capacidade de farejar essas fendas. Aí quando as encontra, ele simplesmente passa por elas e cai em outro universo alternativo.
— Ei, Ink.
— Por isso não dá para deixá-lo vivendo em outra timeline, porque uma hora ou outra alguma fenda vai se abrir e ele vai encontrá-la... E escapar para outro universo.
— Ink, cara...
— O que eu preciso mesmo é de alguém que transpareça autoridade e consiga domá-lo.
— INK, me escuta! — Sans o chacoalhou. — Acho que ele está fazendo isso agora mesmo!
— O que?
Ink olhou para onde Phantom estava cavando seu buraco, bem no instante em que ele pulou sem cerimônias para dentro de uma fenda dimensional que havia se aberto na frente deles.
— NÃÃÃÃÃÃOOOOOO!
Ele até tentou correr, mas já era tarde demais, o lobo junto da fenda haviam sumido completamente, fazendo Ink cair de cara na terra.
— Não, não, não, não, não!
Sans apressou-se até ele, o ajudando a ficar de pé.
— O que eu faço agora?! O que eu faço agora?! — Gritava desesperado.
— Ei, se acalme! — Sans o segurou pelos ombros. — Você vive viajando pelas linhas do tempo, vai ser fácil capturá-lo de volta.
— FÁCIL?! Você sabe quantos universos alternativos existem?! Milhares! E Phantom vai destruir cada um deles! Ah, não... Eu já posso até imaginar os cartazes de procurado e as manchetes nos jornais “LOBO ENSANDECIDO SEMEIA O CAOS”. É o fim! É o fim! E tudo porque não fui um dono bom o suficiente para adestr...
Sans lhe deu um tapa no rosto.
— Cara, sério, você precisa se controlar. Especialmente antes que...
Ink levou as mãos à boca, mas não foi suficiente, ele acabou vomitando um jorro de tinta preta nas roupas de Sans.
— Antes que isso aconteça...
— Desculpe — falou Ink, limpando os lábios com as costas da mão.
— Não se preocupe.
Sans respirou fundo, então encarando sua versão alternativa.
— Minha sugestão: comece pelos universos que você tem conhecidos, pois vai ser mais fácil obter informações caso Phantom tenha passado por ali. E também tente contatar outros amigos que também tenho costume de viajar pelas linhas temporais. Quanto mais gente procurando, melhor. Você me entendeu?
— Sim, sim, viajar, achar amigos... — repetiu Ink, meio desorientado. — Eu entendi.
— E eu sei que estou sendo repetitivo, mas você precisa mesmo se acalmar. Não é a toa que o lobo não para quieto, ele é igualzinho a você.
— É TUDO MINHA CULPA, EU SABIA!
— Merda... — praguejou Sans.
. . .
O barulho oco voltou a se repetir no instante em que Ink bateu pela trigésima vez sua testa contra a mesa de madeira. Sentando ambos ao seu lado, os irmãos Underswap tentavam consolá-lo de alguma forma.
— Eu não sei mais o que fazer... — Ink suspirou, levantando a cabeça. Sobre encontrar Phantom e sobre como adestrá-lo. Sabe, ele pode até ser muito bagunceiro, mas é uma ótima mascote. Fora Red, ele nunca tentou realmente machucar ou fazer mal á alguém. Sem falar que ele adora crianças! Phantom consegue se dar bem bom qualquer Frisk e Chara que encontra. Até a Aliza, que tem medo de quase tudo, gosta dele.
— Você vai encontrá-lo, Ink, tenho certeza — Blue o abraçou. — E também vai conseguir arranjar um jeito de fazê-lo se comportar melhor. Você sempre consegue uma solução criativa para os problemas.
— Ah, obrigado — Ink sorriu para ele, feliz por ter um bom amigo. — Sendo sincero, é bem solitário ficar sem ele por perto. É bom ter companhia enquanto viajo, sabe? Fazer esse tipo de coisa sempre sozinho, como eu vinha fazendo, às vezes pode ser bem difícil.
Blue lhe deu outro abraço, dessa vez mais apertado.
— E é por isso que eu acredito que em algum momento vocês dois vão se encontrar novamente! Phantom deve apenas estar achando que estão brincando de esconde-esconde.
Ink se deixou rir.
— Espero que sim.
Após tomar um pouco de café com biscoitos oferecidos por Papyrus, Ink lhes agradeceu e deixou a casa dos irmãos, pronto para mais uma viagem em busca de seu lobo.
Ele andava pelo gramado, já se preparando para pegar o pincel que carregava nas costas e abrir um portal, quando sentiu algo se enrolar em seus pulsos e tornozelos e puxá-lo de repente.
A imagem do universo de Underswap foi rapidamente se afastando diante de seus olhos, enquanto ele sentia-se ser arrastado por uma fenda dimensional, e então cair com tudo contra o chão.
Atordoado, Ink se sentou. Estava em outro universo, embora não soubesse qual. Mas como havia ido parar ali?
Ele então olhou para a direita, vendo Error de pé ao seu lado.
— ERROR! — Ink exclamou, levantando-se e se jogando sobre ele com os braços estendidos. — Eu preciso da sua ajuda!
O destruidor de universos, no entanto, se moveu para o lado com uma cara de puro desgosto, desviando-se de Ink e sua euforia irritante.
— Sem. Me. Tocar. — Sibilou.
— Oh, Error, eu preciso tanto da sua ajuda. Meu lobo desapareceu!
— Acho que já não sei disso? Por todo o multiverso só se fala nele e no rastro de caos que deixa para trás.
— Nem me fala disso... — Ink colocou a mão sobre o rosto, fechando os olhos com força. — Eu não sei mais o que fazer. Phantom é gentil e corajoso, além de sempre me fazer companhia, mas assim não dá mais pra continuar... E eu acho que o real culpado pelo comportamento dele sou eu, pois às vezes sinto que estar sempre viajando de universo para universo o estressa e ele precisa arranjar um jeito de se acalmar. Mas eu preciso continuar seguindo de uma linha do tempo para outra, por isso não sei o que posso fazer para ajudá-lo... Oh, Error, queria tanto encontrar uma solução para esse dilema.
Ink respirou bem, bem fundo, finalmente o encarando.
— Estou simplesmente perdido.
Error, que até então o escutava com impaciência e de braços cruzados, revirou os olhos, também suspirando.
— Acabou?
— Sim — respondeu Ink. — Obrigado por me ouvir.
— Disponha — respondeu com ironia. — Agora que terminou o chilique, pode me responder uma coisa?
— Claro.
— Se for para o bem desse seu lobo lunático, você aceitaria deixar as coisas como estão?
— Tudo o que mais quero é que Phantom fique bem, Error. Mas, sendo sincero, não entendi bem o que quis dizer.
— Me segue — disse ríspido, lhe dando as costas e começando a caminhar.
Ink o acompanhou, andando bem ao seu lado.
— Perto demais — Error reclamou, colocando um passo de distância entre os dois.
— Desculpe.
Mais tranquilo, Ink parou pela primeira vez para observar em qual Universo Alternativo estava. Como não havia sido ele a abrir o portal, não tinha certeza qual era, mas pelo céu azul de verão acima de suas cabeças e o mar a sua esquerda, acreditava que estavam em um mundo onde monstros e humanos haviam voltado a viver lado a lado.
— Error, onde nós...
Parou de falar, surpreso com a imagem que chegou aos seus olhos.
Ambos estavam caminhando por uma praia aparentemente vazia, porém muitos metros a frente, ele viu Cross sentado na areia observando as ondas e... Com Phantom deitado tranquilamente em seu colo. O vento suave do mar balançava seu pelo branco e Cross lhe fazia um carinho na cabeça.
E Phantom parecia absolutamente em paz.
Estava tranquilo, confortável e quieto, desfrutando daquele clima agradável que os rodeava.
— Como isso é possível...? — Ink não acreditava no que via.
— Eu o achei há uma semana — contou Error. — Ao que parece em seu primeiro encontro com Cross ele roubou seu cachecol e o enterrou por aí, mas sabe-se lá como, pouco tempo depois começaram a se dar muito bem.
— Oh — foi a única coisa que conseguiu dizer.
Phantom enfim o notou, ou sentiu seu cheiro, e se levantou, abanando o rabo. Cross olhou em sua direção no instante em que o lobo começou a correr até Ink.
Ele se ajoelhou para recebê-lo e o abraçou quando dono e animal de estimação finalmente se reencontraram.
— Quanto tempo, meu amigão — falou, melancólico e feliz em partes iguais.
— Olá para vocês dois — Cross cumprimentou com seu jeito sério ao alcançá-los. — É seu?
Error não deu sinal de se importar em dizer algo.
— Ah, mais ou menos — Ink mentiu, ficando de pé. — Eu o achei ferido em outro universo e estava tentando achar um bom dono para ele. Você sabe, viver sempre viajando não é fácil, então creio que não posso mantê-lo. Quer ficar com ele?
Cross o estudou com cuidado, franzindo o cenho.
— Eu sei que você também costuma viajar, mas é com bem menos frequência do que eu. Acho que essa rotina mais calma combina com ele. Phantom gosta de viajar, mas precisa de um pouco de sossego... E foi esse tipo de coisa que vi quando cheguei aqui e o vi deitado com a cabeça no seu colo.
— Hm, admito que ele é um bom lutador — Ponderou Cross. — Além de ser corajoso.
— E você tem pulso forte — acrescentou Ink. — Aposto que ele te respeita muito.
Ele pensou mais alguns instantes, até se decidir.
— Por mim tudo bem. Mas e pra você?
Ink tentou ao máximo fingir um sorriso despreocupado.
— Isso ia me deixar muito feliz e aliviado. Já estava na hora desse grandão aqui ganhar um bom companheiro.
Voltando a se ajoelhar na areia, ele deu um último, grande e apertado abraço em Phantom, afundando o rosto em seu pelo macio. Os fios brancos faziam cócegas em seu crânio e o calor daquele grande lobo esquentava sua roupa e ossos. Realmente, iria sentir muito falta do conforto que Phantom trazia aos seus dias.
Enfim soltando-o, Ink ficou de pé.
— Obrigado — conseguiu dizer apenas. Podia ser para Cross, ou para o lobo... Não sabia dizer. E não importava.
— Eu estava esperando o sol se por — Cross quebrou o silêncio desconfortável que estava começando a se formar no grupo. — Dizendo que nesse universo ele é especialmente bonito. Querem nos acompanhar.
— Passo — Error respondeu sem rodeias, antes mesmo de pensar sobre a proposta.
— Desculpe — Ink disse também, meio sem graça. — Preciso resolver algumas pendências por aí que não podem ser deixadas para depois. Mas obrigado.
— Entendo — Cross não insistiu.
— Bem... É isso... Foi bom nosso tempo juntos, Phantom. Espero que fique bem. Esse cara aí pode ser bem legal quando quer. E se comporte, viu?
O lobo latiu e abanou o rabo.
— Certo, me cansei, estou indo embora — sem cerimônias, Error deu as costas para eles e começou a caminhar para longe dali.
Ink deu um sorriso meio desconfortável.
— Acho que vou pegar uma carona com ele — disse, coçando a nuca. — A gente se encontra por aí.
Enquanto Cross dava um aceno se despedindo, ele correu para alcançar Error, fazendo de tudo para não olhar para trás.
— Ah, credo, você não vai chorar, né? — Falou com desgosto quando Ink o alcançou.
— Hahahaha, claro que não! — Riu, limpando o rosto rapidamente com a manga da blusa.
— Molenga.
Error então parou, estendendo o braço para abrir um novo portal. Quando Ink olhou para dentro viu algo os esperando.
— Isso é um gato? — Perguntou, apontando para a figura felina de olhos de âmbar.
— Não te interessa — cortou. — Entra logo ou abra seu próprio portal.
— Certo, certo.
Ambos passaram pelo portal, porém antes que Error o fechasse, Ink olhou uma última vez para trás, observando Cross e Phantom caminharem lado a lado pela praia. De fato, observando de longe, parecia se completar muito bem.
Tal constatação o fez sorrir.
— Adeus amigão — falou baixinho. — Vou sentir sua falta.
E então o portal se fechou.
Notas finais
Fanfic sendo postada no SPIRIT sob o mesmo pseudônimo.
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