Time Reversal/Reversão do Tempo
2 Capítulo 2- Iserlohn
Elizabeth decidiu levar por enquanto apenas a nave capitânia Vali de Zimmermann. Depois de uma viagem longa chegaram a zona estelar de Tiamat e logo avistam a Fortaleza Iserlohn, era bela e ao mesmo assustadora. Eles não tinham ideia ainda de como reativariam a Fortaleza, mas iriam descobrir. Ela havia escutado que ali tinham canhões que poderiam causar um bom estrago numa frota e foi usado tanto pelo Império quanto Aliança. Iserlohn foi o santuário sagrado de Yang Wen-Li, mesmo depois que ex-combatentes da Aliança saíram, o império manteve um local especial dentro da fortaleza em respeito a Yang. A nave solitária desceu atravessando o metal líquido, apenas mostrando seu reflexo. Eles desceram pelo pólo norte, só havia escuridão quebrada pelas luzes da nave, o cenário era apenas o deserto e uma paisagem melancólica e escura. A espaçonave atracou e quando desembarcarem da nave, usavam roupas espaciais, certamente o suporte de vida estava desligado. Elizabeth, Richard, Nathan e Zimmermman usaram as luzes que seus capacetes emitiam para se guiarem para a entrada da fortaleza. Eles andaram um longo caminho até chegarem a porta principal de entrada. Estava fechada, tentaram movê-la, mas nada, então Richard apontou para o único local com uma pequena luz azul acesa. Ele examinou e após um tempo comunicou aos outros.
— É um leitor, teremos ou eu ou Liz de colocarmos a mão ali dentro para ele fazer o reconhecimento de DNA.- Richard começou a tirar a luva do equipamento espacial.
— Você vai morrer Richard se fizer isso — disse Zimmermann parando-o.
— Se acalme, mesmo sem estar funcionando a fortaleza possui uma atmosfera que não foi liberada pela camada de metal líquido que a recobre totalmente. Ela funciona como uma capa isolante. A atmosfera tornou-se apenas irrespirável para nós e nada mais. — ele continuou tirando a luva e finalmente sua mão direita é liberada. Ele mexeu num botão perto daquela luz azul e imediatamente o compartimento se abriu. Richard inseriu sua mão lá e sentiu uma pequena agulha atingir seu dedo indicador.
— Vamos ver se sou realmente um Lohengramm. — e no instante seguinte as engrenagens começaram a funcionar. A porta vagarosamente abriu diante deles e todas as luzes começaram a acender na parte interna da estrutura. Eles adentraram e acionaram os suportes de vida pelo caminho. Finalmente chegaram a sala do controle central. Os quatro se espalharam para ligar tudo e algum tempo depois, após a checagem no aparelho que trouxeram, viram que já havia oxigênio. Eles tiraram finalmente os capacetes para respirar.
— É...teremos trabalho de reativar toda a fortaleza — disse Elizabeth.
Os dias se seguiram com toda a tripulação ajudando e finalmente conseguiram ativar a atmosfera. Richard trabalhava tentando arrumar um dos reatores secundários, o suor escorria por sua face, trabalhar pesado o ajudava a esquecer um pouco os problemas. Ainda se sentia responsável por tudo, o peso que carregava o fazia muitas e muitas vezes chorar quando parava e ia descansar. Nestes momentos ele rabiscava fórmulas e equações para resolver os problemas de estabilidade no portal espaço-tempo. Elizabeth vinha muitas vezes e o confortava.
— Não foi sua culpa, o usaram meu irmão. Aproveitaram de sua genialidade para conseguirem o que queriam. Mas vamos resolver isso você vai ver. Temos algo que eles não têm, você para nos levar e trazer em segurança.
Ele colocava a cabeça no colo dela, lembrando quantas e quantas vezes fazia isso com sua avó. Sua mãe morrera no parto quando o teve e desde então quem cuidou dele foi seu pai e sua avó, além claro de sua irmã.
Já haviam passado mais ou menos duas semanas e ainda não tinham achado sequer uma pista sobre o que Hilda avisara que tinha deixado na fortaleza. No final do dia Nathan apareceu com duas cervejas e entregou uma a Richard. Os dois cresceram praticamente juntos, Nathan era uns três anos mais velho do que ele. Richard se lembrou quando crianças que ele, sua irmã e Nathan viviam correndo pelo palácio imperial Rubenburg, e acabavam sempre caindo dentro da fonte do leão. Os criados ficavam malucos. O palácio imperial demorou anos para ser construído, sua avó levou a cabo o projeto após a morte de seu avô. Num dos cômodos havia um local em que estava um quadro enorme com a imagem do seu avô imponente, com os cabelos compridos. Ele sempre parava defronte aquele quadro imaginando como ele seria de verdade. Conforme foi crescendo sua semelhança espantosa com o avô era cada vez mais evidente. Ele muitas vezes brincava com Elizabeth tentando imitar como deveria ser seu avô, o que acabava gerando boas gargalhadas. Hilda observava às vezes e baixava a cabeça com ar de tristeza, a saudade era grande demais. Quando a Imperatriz descobriu o que realmente sentia pelo Kaiser Reinhard e decidiu ficar ao lado dele já não havia mais tempo para os dois. Sua alegria foi o legado deixado através de Alec e seus netos.
Perdido em meio a lembranças Richard escutou uma chamada em seu aparelho pessoal. Nem imaginava quem poderia ser, ele atendeu e uma imagem apareceu a sua frente.
— Lena — ele disse surpreso.
— Richard, finalmente te achei.
— Estou feliz que tenha escapado de Odin. Onde você está?
— Numa das naves refugiadas rumo a Heinessen. Você já chegou ao planeta?
— Não estamos em Heinessen Lena. Estamos no corredor de Iserlohn.
Lena fez uma cara de espanto, conhecia Richard o suficiente para saber que ele escondia algo. Mas preferia não questionar.
— Richard eu soube sobre sua família, sinto muito.
— Obrigado Lena.
— Richard, eu...- ela meio se engasgou pra falar — eu vi aquele horror em Odin e não consigo deixar de esquecer — os olhos dela se entristeceram. — Queria poder ter feito algo, mas não consegui, não houve tempo.
Lena era uma velha amiga da universidade, uma das únicas pessoas que nunca ligou para o sobrenome que ele carregava. Apesar dele ser mais novo uns dois anos isso nunca impediu deles serem grandes companheiros. Cada um aceitava a loucura do outro. Ele sentiu muito quando ela partiu de Phezzan para Odin. Perdido em pensamentos, por um momento ele parou e pensou que ela poderia ajudá-los e muito, ninguém que ele conheceu tinha a capacidade dela quando se tratava de redes e computadores. Entrar, manipular, reescrever qualquer sistema era trivial para ela. Eles iam precisar de ajuda, as coisas em Iserlohn não estavam caminhando como desejado e eles não tinham tempo. Se alguém poderia desvendar o mistério ali era Lena. Sem pensar na opinião de Elizabeth, mas já prevendo, Richard falou:
— Lena você gostaria de me ajudar? Há uma chance de consertarmos as coisas.
— Como?
— Você acredita em mim?
— Sempre.
— Então venha para a fortaleza de Iserlohn, explicarei tudo aqui. Pedirei que a coloquem na nave que está vindo pra cá.
— Iserlohn, mas ela não está desativada?
— Estamos reativando-a, vamos precisar da sua ajuda.
O rosto dela se iluminou. Estava sem rumo, perdida em meio aquele caos. Ele disse que veria com sua irmã e lhe repassaria as informações, falaram mais um pouco e se despediram com a promessa de se encontrarem em breve. Nathan virou mais um gole de cerveja estava sentado junto a um dos controles da ponte de comando.
— Alguma namorada?
— Não uma velha amiga, nos conhecemos na universidade.
— Liz está sabendo?
— Minha irmã vai gostar de termos ela aqui. Ela é capaz de invadir e modificar qualquer rede. Foi ela quem destruiu o banco de dados da Universidade de Phezzan — ele lembrou disso e acabou rindo, apesar da gravidade. — Precisei pedir para meu pai intervir senão ela iria presa.
— Já gostei — disse Nathan. — É bonita?
— Nathan você não tem jeito — eles riram virando mais um gole de cerveja.
Nathan tinha os cabelos castanhos claros e olhos castanhos. Era mais alto que Richard e tinha o corpo mais bem definido por causa de seus constantes treinamentos na guarda imperial. Dentro do império ele estava na elite dos atiradores, era um dos melhores. Apesar de ter seguido a carreira militar, assim como seu pai e avô, as habilidades dele se davam em solo e não no espaço. Assim, ele foi designado para ser da guarda imperial. Em outros tempos, não haveria status em pertencer a guarda imperial, mas no tempo atual era a maior honraria, as decisões para manter a família real segura superava até mesmo os dos Almirantes de Frota.
Lena chegou após uma semana. Parecia surreal estar ali, era tudo artificial naquela fortaleza, mas o céu parecia tão realista. Na nave em que veio ela apenas sabia que havia alguns cientistas, algo haver com Richard.
“O que será que Richard pretende?”.
Logo ela reconheceu aquela cabeleira loira ali acenando em sua direção e correu, dando um abraço enorme nele. Ela vestia uma calça colada preta, uma camiseta preta e botas também negras. Também tinha tatuagens pelos braços e usava um piercing no nariz. Os olhos verdes e os cabelos castanhos ondulados até a altura dos ombros completavam o visual. Richard sabia que era bem o estilo dela, mas não ligava.
— Venha Lena vou te apresentar para todo mundo e te explicar tudo.
Elizabeth decidira que como iriam todos para o passado, seria estranho trabalhar com patentes, então ela ordenou terminantemente o não uso delas enquanto estavam se preparando e na execução da missão, assim não geraria nenhum tipo de controvérsia com alguém do passado. E foi assim que Lena conheceu Elizabeth e Nathan.
— Lena Attenborough prazer conhecê-la Majestade.
— Agora meu nome será apenas Elizabeth. Meu irmão falou muito bem de você.
Na nave ainda vieram outros soldados que iriam acompanhá-los na jornada, Alana von Hass e Elias Schulze, ambos faziam parte da frota do Almirante Krastner. Os cientistas foram conduzidos por Richard para um laboratório montado em Iserlohn.
Foram longas horas explicando tudo a todos que chegaram, a surpresa estava estampada em seus rostos. A cada um foram passadas tarefas para serem executadas dentro da Fortaleza. Todavia Richard estava ciente de não repassar tudo, não cometeria o mesmo erro outra vez.
Lena tinha como experiência militar apenas um ano em que serviu na frota imperial, mas preferia ficar em terra, sempre se saia melhor nas lutas corporais. Nathan analisando o perfil, decidiu aprimorar isso nela com treinos diários. Mas o principal trabalho de Lena era descobrir o que ainda não tinham achado. No dia seguinte, Lena com uma xícara de café se sentou cadeira junto aos painéis de comando, esticou os braços para cima e começou a digitar rapidamente e usar as mãos para realizar diversas ações. Quem a visse não acreditaria na incrível velocidade de execução.
— Hum, isso parece promissor — ela falou consigo mesma, após umas duas horas finalmente ela chegou a um ponto onde achou um arquivo chamado EVL . Ela apertou sobre o arquivo e várias imagens apareceram na sua tela.
— Elizabeth — Lena chamou com urgência. — Elizabeth acho que achei algo. — Nathan e Richard correram para a tela também e o que viram foram esquemas de três naves. Uma delas Richard e Elizabeth reconheceram na hora e a outra Nathan também reconheceu.
— Beowolf — disse Nathan.
— Brunhild — falou Richard — e esta outra?
— Aqui diz Barbarossa — respondeu Lena. — E mais, elas estão aqui na Fortaleza.
— Como? Olhamos tudo e não vimos nada — falou Elizabeth.
Lena começou a mexer nos diversos arquivos que foram descompactados e encontrou um único em formato vídeo. Ela projetou na tela. Uma imagem bem conhecida surgiu, era o Imperador Alexander.
— Fico feliz que conseguiram chegar a esta Fortaleza que vem sendo preparada para vocês Elizabeth e Richard, desde que o governo republicano de Iserlohn se dissolveu e deixou este local, a minha mãe mandou preparar esta estrutura para o futuro. Duas naves foram imediatamente trazidas para cá, Brunhild do meu pai e Barbarossa de Siegfried Kircheis. Alguns anos mais tarde, Beowolf também foi trazida. Desde então secretamente um grupo restrito do império de cientistas, engenheiros e outros passaram a trabalhar para reconfigurar as naves para modernizá-las e deixar com um poderio acima de qualquer outra nave existente no império. Essa modernização acontece todo ano. O acesso interno para a Fortaleza fora deste período de trabalho só pode ser feito única e exclusivamente por um membro da família Lohengramm. Isso para evitar que nossos inimigos possam ter qualquer tipo de acesso a estas informações. Recomendo que todas as chamadas dentro e fora desta Fortaleza passem por um rígido sistema de segurança. Temos algo preparado, para a pessoa que achou este arquivo, será fácil achar todo o resto. As três naves se encontram no deque de pouso no polo sul que está totalmente fechado para pouso. Elas estão invisíveis, esta é última tecnologia que começamos a desenvolver para combater os piratas espaciais. A camuflagem foi uma técnica criada graças ao avanço da ciência com o uso de metamateriais capazes de tornar um objeto invisível, apenas manipulando as ondas eletromagnéticas de forma que ao atravessarem um objeto não reflitam ou refratem a luz — os olhos de Richard brilharam com aquela notícia. — Vocês poderão descamuflar utilizando os dados explicativo contidos neste arquivo — ele explicou exatamente tudo o que Hilda já havia explicado. — Dentro das naves tem materiais que precisarão, uniformes, roupas, barras de ouro para trocarem por dinheiro da época. Todo o material de estudo daquele período. Arquivos do Império, Aliança dos Planetas Livres e Phezzan que era independente estão nos sistemas das naves. Vocês precisarão estudar tudo em detalhes para não cometerem erros. O futuro e o passado estão nas mãos de vocês. Se eu não estiver mais vivo, deixo meu legado a vocês Elizabeth e Richard — os dois irmãos se olharam e deram as mãos. — Seja uma Kaiserina justa para nosso povo Elizabeth — após uma pausa se via que o Kaiser estava visivelmente emocionado. — Vocês terão a chance de conhecer meu pai, aproveitem isso pois não me foi dada esta oportunidade. Só não chegue com esta aparência por lá Richard senão vai causar uma grande confusão — o Imperador riu. — Boa sorte na missão e espero que nos encontremos de novo. Acredito em vocês — ele prestou continência e o vídeo parou.
Os quatro ficaram sem palavras, olhando para a tela que ficou negra, aos poucos começaram a olhar uns para os outros.
— Temos que abrir a passagem para o polo Sul — disse Elizabeth. — Lena procure os dados para descamuflar as naves e ver as questões de segurança. Vamos Richard e Nathan achar estas naves.
— Vou avisar Zimmermann -disse Nathan — vá na frente com Richard.
Elizabeth e Richard rumaram pela torre central de Iserlohn em direção ao polo sul. Richard começou a mexer em diversos sistemas eletrônicos para abrir os compartimentos que davam acesso ao elevador. Finalmente conseguiram abrir o elevador, mas ele estava travado sem funcionar.
— Não anda — disse Elizabeth.
Richard abriu o painel e após algumas conexões o elevador começou a se movimentar. Finalmente chegaram ao deque do pólo sul, Elizabeth ajudou Richard a restabelecer a energia naquela área. A imagem que observaram foi a mesma do pólo norte, não havia nenhuma nave atracada. Nathan, Zimmermman e Lena chegaram logo em seguida.
—Não há nada — falou Zimmermann.
Lena acionou o sistema de dados em conexão com o sistema central e com alguns toques nas mãos ela falou:
— Vamos ver a mágica.
Diante dos olhos deles três naves começaram a surgir, a surpresa tomou conta de todos os presentes.
— Vamos chamar os outros teremos muita coisa para fazer aqui — disse Elizabeth, ainda boquiaberta com tudo aquilo. Ela olhou a nave branca e pensou:
“Esta nave fez história e agora está aqui para novamente cumprir um papel importante.”
Eles exploraram o interior das naves, acharam tudo que o Imperador Alexander havia dito que teria. Lena acessou o banco de dados e falou:
— Uau, o banco de dados confidenciais do Império, Aliança e Phezzan de cerca de 60/50 anos atrás estão aqui. Toda a história das batalhas, relatórios, tudo.
Nathan a bordo da nave Beowolf olhou sem acreditar que estava dentro daquela nave que pertencera ao seu avô.
“Lobo rajada de vento, o mais rápido do império. Sua velocidade pegava os inimigos de surpresa.” — Nathan sorriu lembrando das histórias que seu avô contava pra ele. Várias vezes ele acabava adormecendo com Wolfgang empolgado descrevendo as batalhas. Ele foi criado muito próximo aos avós. Quando seu pai Felix morreu numa das batalhas contra Erwin Josef II protegendo o Kaiser, o mundo do avô desabou. Ele foi definhando até morrer alguns meses depois. Ficou apenas sua avó e sua mãe, ele já era uma adolescente com 16 anos.
Nathan se dirigiu onde seria a cabine de Wolfgang e encontrou uma carta muito antiga dentro de uma das gavetas da cabeceira da cama. Estava bastante amarelada, ao abrir viu a carta endereçada a Wolfgang Mittermeyer. Com tristeza ele reconheceu ser de Oskar von Reuenthal em seu momento de morte.
“Meu Imperador, Mittermeyer, Glória a morte”.
Nathan sabia da história toda, que na verdade seu pai era biologicamente filho de Reuenthal. Wolfgang sempre lamentou não ter chegado a tempo para se despedir do amigo.
“Uma pena que sua ambição e orgulho acabaram não apenas com você Reuenthal, isso foi um duro golpe em meu avô também e até mesmo no Kaiser Reinhard.”
Ele guardou a carta e a colocou na gaveta de volta e preferiu retornar a sua rotina de afazes.
Os dias se seguiram descobrindo e analisando cada ponto daquelas naves, na cabine principal da Brunhild, Elizabeth encontrou um cofre.
— Ótimo e a senha agora? — ela chamou Lena pelos comunicadores. Algum tempo depois ela surgiu com um aparelho nas mãos.
— É este o cofre?
— Sim. — Lena colocou o aparelho em cima e começou a decodificação, finalmente apareceram os números 1403.
— Droga era a data de aniversário do meu avô. Obrigada Lena.
— Tudo bem Elizabeth.- Lena saiu deixando-a sozinha.
Ao abrir ela pegou um medalhão, ela conhecia das fotos e quadros aquele objeto, pertencia ao seu avô. Ao abrir visualizou a imagem de uma foto bem antiga e amarelada de duas crianças e uma adolescente. Ela reconheceu ser Reinhard, Siegfried e Annerose. Do lado havia uma mecha de cabelos que haviam já perdido a cor, mas ainda mostravam um leve tom avermelhado e que pertenciam a Kircheis. Ela fechou o medalhão e o colocou no pescoço o usaria até o início da missão.
Todavia o que a deixou mais desconcertada não foi isso e sim uma outra caixa lacrada, e ao lado um dispositivo que ela apertou e logo surgiu a imagem de sua avó falando. A cada frase dita na projeção a deixava mais surpresa e atordoada. Ao término ela murmurou:
— Por que me deixaram uma decisão tão difícil? — ela teria que conversar com Richard sobre isso em algum momento. Mas sabia que caberia a ela uma definição no final e isso a atormentaria todos os dias.
Todos trabalhavam com afinco nos meses que se seguiram, Richard no laboratório tinha conseguido construir um portal para a viagem temporal, mas ainda brigava com o problema de estabilidade.
— Se eu não resolver isso, não vai adiantar nada, quando retornarmos vamos voltar a estaca zero. Será como dar um “reboot” começando tudo de novo dentro da linha temporal — explicou Richard para os companheiros, ele desenhou uma linha reta e depois um círculo fazendo voltas e voltas- ficaremos presos no looping temporal, viveremos sempre a mesma coisa, precisamos sair — ele desenhou a linha reta após o círculo — assim garantimos que o que fizermos permanecerá.
— E nossos inimigos conseguiram esta estabilidade? -questionou Nathan.
— Não sei responder. Quando eu resolver o problema de estabilidade vou descobrir.
Richard se debatia dia e noite, quase sem dormir ou comer. Várias vezes Elizabeth ia com uma bandeja de comida entregar ao irmão. Aquilo o consumia.
Lena treinava arduamente com Nathan e depois com Dieter, Alana e Elias. Mas boa parte do tempo era gasto com Nathan, que via o desempenho dela crescer muito além do esperado, era uma soldado nata. Num dos dias de treinamento ela o derrubou com uma fúria descomunal.
— Lena... — disse Nathan preso nos braços dela no chão — Lena....pare....- ela parecia não escutar, Nathan teve que se virar e derrubá-la com força no chão.
— Desculpe Nathan.
— Lena o que aconteceu? — Nathan se aproximou e estendeu o braço para ela se levantar.
— Os gritos, eles me acompanham, desde aquele dia em Odin — Lena tremia as mãos, Nathan se aproximou e a abraçou para acalmá-la.
— Por hoje chega Lena, amanhã continuamos.
Em seu quarto Lena foi até suas coisas e tirou uma velha chave enferrujada, a apertou contra o peito.
“Saudades de você.”
Zimmermann montava toda a estratégia que deveriam usar no passado, mas muitas coisas dependeriam ainda do sucesso de Richard. Parte da equipe de Richard desenvolveu três drones camuflados, isso poderia ser usado com sucesso se alguma nave inimiga chegasse em Odin. Phezzan ou Heinessen para implantar as bombas.
Lena configurou todo o sistema de segurança, nada saia ou entrava de Iserlohn sem passar por ela. A única coisa que ela não tinha controle eram as naves de abastecimento que surgiam, pois o sistema autossuficiente de Iserlohn precisaria de um certo tempo para funcionar, já que ficou parada muito tempo e eles não achavam que valia a pena no fim das contas. Para checar as naves de abastecimento sempre havia a equipe de Nathan, com Alana e Elias.
Após exatos cinco meses, Richard finalmente conseguiu resolver o problema de estabilidade do portal. A notícia se espalhou por Iserlohn com uma grande comemoração. Elizabeth foi até o irmão e o abraçou:
— Sabia que ia conseguir.
— Sim vou começar a projetar o portal em uma escala maior para podermos ir Liz. Mas agora será mais fácil.
Apesar de tudo Richard estava preocupado com um detalhe que o atormentava estes meses e só agora poderia conferir.
No dia seguinte ele preparou a mesa do laboratório com um aparato, deixou um laser pronto num determinado ponto. Em outro colocou um espelho refletor. Ele abriria o portal e emitiria o raio laser mandando para o futuro 5 minutos a frente, usando várias técnicas ele faria o raio retornar em 3 minutos, tudo feito a partir de um referencial único de tempo. Neste caso, o raio que retornasse dentro dos 3 minutos seria o passado. Dados foram colhidos e estava absolutamente dentro do esperado. Exceto que o raio que retornou ao passado, não foi apenas um, mas sim vários. O aparato contabilizou 65 raios.
— Estamos em looping temporal, Pieter você não resolveu o problema. Preferiu vender uma ideia errada.
Pela previsão de Richard eles voltariam ao passado dentro de um mês sendo assim Lena não chamou mais as naves de suprimentos, não seria necessário. Ao mesmo tempo apertou o cerco com a segurança para que nada escapasse ou entrasse em Iserlohn.
“Estamos em um momento crítico.” – ela pensou.
Richard foi até Elizabeth conversar sobre os resultados.
— Temos um problema Liz, como eu suspeitava, estamos em um looping temporal, toda vez que as naves do passado retornam para o futuro, começa tudo de novo do ponto de quando elas partiram.
— Como podemos parar o looping?
— Temos que destruir toda e qualquer nave que saia daqui e não volte pelo portal de forma correta.
— Como faremos isso? Só temos 3 naves, sim elas equivalem a uma frota do passado pelo poderio que têm. Mas vai ser difícil todas.
— Se estamos num looping temporal sem mudanças na história só pode significar uma coisa: acredito que conseguimos vencer as naves no passado, mas não todas e acredito que abrimos o jogo com nossa avó. Isso explicaria por que ela sabia de tudo e principalmente porque nós dois temos que ir, somos os únicos que podemos provar tudo. Eu suponho também que foram poucas naves inimigas para o passado, não havia necessidade de muitas. As frotas imperiais sofreram baixas com as sucessivas batalhas contra a aliança, contra os ex-combatentes da aliança, principalmente Yang We-Li, contra Reuenthal e por fim contra Julian Mintz. Nosso avô estava à beira da morte com a doença – Richard parou por um momento. –Pelos experimentos que fiz fizemos 65 loopings e pelo jeito fracassamos em todos, já que o looping persiste e Odin e Phezzan continuam destruídos. Temos que fazer diferente agora Liz, teremos que alterar a linha do tempo.
— Mas se alterarmos podemos mudar o destino do nosso avô e de toda a galáxia- disse Elizabeth.
— Não exatamente, desde que façamos as coisas acontecerem como devam acontecer.
— Não estou entendendo.
— Imagina aquele copo com vinho, para nós dois é vinho, mas o conteúdo pode ser outra coisa que se assemelhe a vinho. Faremos que a linha temporal siga rigorosamente como deve ser, para a maioria será isso, para um número muito restrito de pessoas não ocorrerá assim.
— Mas o que você quer dizer com isso?
— Acho que vamos precisar de ajuda para destruir todas as bombas, aparentemente só conseguimos sucesso em Heinessen, além disso teremos que resolver a questão do looping. Apenas nosso avô e o que restou dos Almirantes não será suficiente. Precisamos de pessoas que não apareçam nas batalhas finais, ao mesmo tempo precisamos de pessoas que ajudem a não mudar o contexto político, ao contrário que ajudem. Nosso avô não aceitará qualquer coisa que lhe for imposta, se não fizermos da maneira certa tudo pode cair no abismo e os cultistas e Goldenbaums vencerem.
— E o que sugere?
— Dos que morreram na história teremos que salvar duas pessoas e mantê-las longe do desenrolar de tudo. Fiz diversas análises, coloquei várias variáveis e apenas estes dois surgiram — quando o irmão mencionou os nomes Elizabeth se deixou derrubar na cadeira, surpresa com a ousadia dele.
— Vai comprometer tudo Richard até mesmo nossa existência.
— Não se tirarmos ambos de cena.
— E como sugere isso? Vovô, por exemplo, irá até o Valhala nos caçar e não irá prosseguir seu plano de invasão a Phezzan e Heinessen.
— Nosso avô era um homem de extrema inteligência, sugiro que sejamos francos com ele. Ou ele aceita nossas condições ou ele perde tudo. A história precisa se manter constante neste ponto.
— Vamos nos revelar é isso?
— Não temos outra saída, se não fizermos algo diferente desta vez não iremos ter a chance de mudar as coisas.
— E a política construída naquele momento entre Julian Mintz e nosso avô, posteriormente, como fica?
— Será feita e acredito de forma mais suave.
— Você é completamente louco.
— Não Liz, temos que tomar medidas mais arrojadas. Não sairemos deste looping temporal nunca, e vez após vez será sempre no fim com Odin e Phezzan destruídos. Eles são os únicos que podemos contar. Já analisei todos os almirantes mortos, pessoas proeminentes, não há solução. Fiz todas as simulações com vários cenários. Reuenthal não tem como salvá-lo, seu próprio orgulho e ambição o destruíram, além de ser uma pessoa perigosa demais para viver, pode gerar o caos depois. Também sabemos que Felix deve ser criado por Wolfgang Mittermeyer.
Elizabeth segurou o medalhão com as mãos.
— Nathan...
— Ele mais do que ninguém deve entender isso. Pode deixar que conversarei com Nathan.
Ela analisou e disse:
— Então iremos bem antes no tempo previsto?
— Sim Liz.
— Nossa primeira parada será Odin então. Preciso falar com os outros.
Na zona estelar de Amritsar, uma nave capitânia com símbolo dos Goldenbaums e sua frota estava estrategicamente parada aguardando instruções de seu líder. Um homem corpulento de cabelos vermelhos estava sentando num trono, era Erwin Josef von Goldenbaum II. Um dos seus oficiais chegou até ele com notícias.
— Excelência, recebemos informações sobre Iserlohn.
— E o que seria?
— Eles foram instruídos para fazer a viagem temporal e interceptar nossas naves no passado. Deixaram tudo preparado, incluindo três naves ultramodernas com tecnologia de invisibilidade.
— Invisibilidade?
— Sim. Estamos tentando pegar esta tecnologia para implantar nas nossas tropas. Mas há algo preocupante senhor que descobrimos.
— O que é ?
— O portal construído por nós pode estar com problemas de estabilidade, Richard von Lohengramm conseguiu achar a solução. Não temos acesso a isso ainda.
— Como assim problemas de estabilidade? Aquele miserável do Pieter Hawking disse estar tudo funcionando perfeitamente. Chamem aquele inútil agora – ordenou Erwin a um dos guardas. Pouco tempo depois o guarda retornou com um homem de meia idade, já calvo. Ele prestou reverência.
— Excelência me chamou?
— Sim, fiquei sabendo que seu pupilo descobriu uma instabilidade no portal, o que você sabe a respeito?
— Excelência eu sabia deste problema, mas eu disse que foi resolvido. Podemos enviar as naves e retornar sem maiores problemas. – Pieter respondeu com a voz meia trêmula.
Erwin Josef II levantou-se do trono e com uma arma apontou e atirou em Pieter que caiu morto instantaneamente.
— Excelência ele era o cientista chefe – disse o oficial.
— Ele estava mentindo este verme, nos enganou. Já mandamos as três naves com as bombas para o passado. Vamos agora resolver as coisas de vez no passado. Mandaremos uma frota com 15.000 naves, o suficiente para enfrentar aqueles insetos.
O oficial se espantou.
— Aqueles cultistas malditos não sabem resolver as coisas, vamos redefinir a guerra no passado e acabar com aquele usurpador, o pivete loiro. Em que época eles vão?
— A princípio próximo a época de nascimento do Imperador Alexander.
— Excelente, o pivete loiro vai acabar com os inimigos mais poderosos da época e ficaremos livres de Yang Wen-Li, Oskar von Reuenthal, Adrian Rubinsky e outros. Pegaremos a frota imperial bem defasada e os ex-combatentes da Aliança derrotados. Precisamos pegar esta tecnologia de estabilidade do portal.
— Será mais difícil agora Excelência, Iserlohn não está recebendo mais naves de suprimentos, eles decidiram realizar a viagem temporal em pouco tempo.
Erwin Joseff II bateu as mãos no trono com toda força.
— Inúteis, estou cercado apenas por inúteis. – o oficial se afastou assustado. – Chame Sebastian – ele ordenou.
Sebastian von Goldebaum era filho de Erwin Josef II, era um homem por volta dos 30 anos, alto, esguio de olhos verdes e cabelos castanhos bem claro compridos e amarrados num belo laço. Completamente diferente do pai.
— Pai – ele reverenciou – em que posso ajudar?
— Aquele imprestável do Hawking nos enganou, o portal tem um problema de instabilidade, o pivete loiro tem a solução, mas eles estão para ir ao passado. Preciso que pegue a qualquer custo isso. Você viajará para o passado, na época do casamento de Reinhard von Lohengramm. Prepare o terreno para quando eles chegarem, certamente eles ficarão perto de Reinhard e neste momento aja. Mandarei uma frota com 15.000 naves para aniquilar de vez a frota imperial, Reinhard estará à beira da morte e seus Almirantes perdidos.
— Sim meu pai, cumprirei sua ordem – ele reverenciou novamente – irei fazer os preparativos.
Elizabeth marcou uma reunião com todos e expôs todas as colocações de Richard. Por incrível que pareça Zimmermann que ela pensava que ficaria contra foi o primeiro a aceitar a ideia.
—Richard realmente tem a ousadia característica dos Lohengramms – ele riu – seu pai era igual. Temos que resolver este problema de uma vez por todas.
Após várias discussões entre prós e contras, Lena trouxe uma notícia que definiu o rumo das coisas.
—Mandaram uma mensagem hoje, fontes da nossa frota disseram ter havido uma movimentação na zona estelar de Amritsar. Quinze mil naves da frota de Erwin Goldenbaum II simplesmente desapareceram.
Elizabeth arregalou os olhos, sabendo o que aquilo significava.
—Mandaram as naves para o passado, com o poderio de hoje, no passado seria como se eles lutassem contra 75.000 naves. Não temos alternativa, precisaremos de todas as forças do passado juntas. Agora não temos outra saída.
Todos acabaram concordando.
—Partiremos em três semanas, será o tempo para terminarmos os preparativos finais e Richard terminar o portal.
Todos saíram do local apenas Nathan, Elizabeth e Richard ficaram, havia outro assunto a ser esclarecido.
—Nathan, não podemos salvá-lo – disse Richard – fiz as simulações, ia ser uma mudança muito drástica na linha temporal.
— Eu tenho ciência disso, meu avô biológico era autodestrutivo. Mesmo sabendo que ele foi induzido a isso, ele foi orgulhoso e ambicioso demais e isso o levou a ruína. Meu pai herdou isso, mas soube dosar o lado negro dele. Meu único desejo que peço a vocês é permitir que meus avôs possam se despedir. Meu avô Mittermeyer se lamentou por nunca ter chegado a tempo. Isso não vai mudar em nada a linha temporal.
— Isso pode ser feito Nathan, Mittermeyer, seu avô foi um grande homem e serviu a minha família com grande lealdade – disse Elizabeth, Richard concordou também.
— Obrigado. Vamos nos preparar então.
Richard e Elizabeth ficaram a sós e então Richard confessou a ela:
— Tem algo diferente Elizabeth.
— O quer dizer?
— Esta quantidade de naves absurdas, não faz sentido. Há algo errado. Desconfio que ao termos a intenção de mudar, já provocamos uma alteração nos acontecimentos.
— Como assim?
— O que chamo de lapso temporal, algum fato que não era para acontecer, ocorreu. Pode ser qualquer coisa, algo que não devíamos ver, alguém que não era para estar aqui, uma decisão diferente, enfim pode ser qualquer coisa Liz. Significa que desta vez estamos fazendo diferente e isso já está causando mudanças na linha temporal.
— Você quer dizer que teríamos menos naves no passado e que o fato de decidirmos salvar a vida daquelas duas pessoas já causou a ida de 15.000 naves para o passado?
— Exatamente. Precisaremos das forças do passado.
Lena chamou Richard e Nathan para estudarem alguns fatos históricos. Ela sabia que a chance dela ser incorporada na Aliança seria grande, ela tinha um passado ligado a eles. Mas não estava sendo fácil pra ela encarar as imagens do seu avô, isso a lembrava dos meses de sofrimento dele no hospital até sua morte. Doía muito relembrar, ela cresceu sem pai, e seu avô era seu mundo. Richard e Nathan a entendiam e eles trocaram experiências.
—Não será fácil para nenhum de nós – disse Nathan – mas temos que aproveitar ao máximo os momentos ao lado deles e principalmente fazer nosso trabalho. Será uma honra eles saberem que testemunharemos os maiores feitos que eles realizaram.
Elizabeth chegara onde os três estavam e com ela havia cervejas, deu uma cada um.
— Aos nossos avôs que foram grandes — disse Nathan levantando a garrafa de cerveja e todos juntos brindando.
— Eu quero a cabeça daquele pivete loiro — imitava Lena — este era meu avô falando — ela ria.
— Vamos acabar com os rebeldes — disse Richard com uma voz bem parecida a de Reinhard.
— Deu medo agora — Lena falou — parece que incorporou ele — ela riu e todos os outros também.
— Façamos um pacto aqui, haja o que houver iremos convencer nossos avôs a fazerem a coisa certa sem alterar a história — disse Lena.
— Estamos fritos Richard, com a personalidade de Reinhard — ela riu.
Elizabeth pegou o tablet e na página havia os nomes dos vários almirantes do Império, ela passou e olhou um em especial, Siegfried Kircheis. Ela abriu o arquivo começou a ler.
“Uma pena ter morrido tão jovem, tão bonito” — ela olhou fixamente a foto. Lembrava de sua avó lhe contando a triste história de amor entre Siegfried e Annerose.
— Depois de amanhã estaremos rumando ao passado. Iremos para Odin e traçaremos um plano sobre o que fazer. Então por hoje apenas brindemos.
No dia seguinte Richard passou defronte a sala do controle central da Fortaleza, num canto havia uma estátua quase da sua altura, pouca coisa mais baixa. Ele se aproximou e olhou, era de Reinhard. O desejo do Imperador era que todas as estátuas dele só poderiam serem construídas dez anos após sua morte e não ultrapassar sua altura real.
“Breve nos encontraremos” — ele pensou olhando a estátua.
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