Notas iniciais
Era para eu ter postado essa fic no Dia dos Namorados, mas cursinho vem, cursinho vai e não deu... mas antes tarde do que nunca. Espero que gostem!

Time after time, I’ll tell myself that I’m so lucky to be loving you

E mais uma vez eu me virava na cama e dava de cara com ela. Incrivelmente interessante como uma criatura tão vívida pode parecer tão indefesa quando está dormindo, mesmo a minha senhora Holmes. De fato, naquele dia completaríamos quatro anos de casamento. Não deve ser muito tempo na opinião da maioria dos casais londrinos, mas, no caso de uma célebre mente que nunca imaginara passar por tal transformação, quatro anos são o mesmo que quatro séculos.

Tanto tempo... Por St.George já se passaram tantos anos e pelo que me consta, já estivemos envolvidos em tantas aventuras juntos que nem mesmo séculos seriam suficientes para cronometrar o período que tenho ao lado de minha valorosa senhora. Muitos maridos de Londres não podem se considerar afortunados ao pensarem a respeito, pois com o passar do tempo, suas esposas tendem a piorar seus temperamentos. Anne, no entanto, mantinha sempre o mesmo tom sarcástico, ousado e brincalhão de quando nos conhecemos.

_ Sabia que às vezes chega a ser angustiante quando você acorda e fica me encarando dormir? – o espírito agourento despertara, mas ainda mantinha seus olhos fechados.

_ E eu não sabia que agora a senhora era capaz de ver mesmo com os olhos fechados, minha cara. – retruquei me sentando mais confortavelmente na cama.

_ Eu não preciso ver para sentir você me secando, senhor Holmes. – ela rebateu finalmente abrindo suas portas para mim.

Os olhos dela sempre foram seu fator mais chamativo. Incomuns a sua própria maneira, os olhos de Anne Bergerac possuíam uma característica que me fazia ser capaz de fitá-los por horas a fio. Eram castanhos, claro, mas não seriam mais bonitos se fossem de outra cor, afinal, olhos azuis não poderiam ser tão misteriosos quanto corredores escuros e ao mesmo tão reveladores quando sob a luz de velas.

Ela também se ajeitou para se sentar na cama e após de jogar a trança para seu ombro direito, colou seus lábios contra os meus, ao passo que eu retribuí com toda a delicadeza dela.

_ Bom dia, Sherlock. – disse ao conseguir se soltar de mim.

_ Bom dia, Anne. – respondi fingindo neutralidade, o que a fez rir.

Aquele poderia ser apenas mais um dia corriqueiro em Baker Street, recebendo estranhos e aceitando trabalhar em seus casos. Contudo, visto a data tão especial, era normal que minha companheira esperasse alguma surpresa de minha parte; Sempre reclamava por volta e meia eu não demonstrar ser tão atencioso com relação à importância do nosso casamento. Portanto, fui bastante claro com a senhora Hudson e pedi para que permitisse a entrada de todos na casa até às duas horas. Anne fingiu muito bem não estar desapontada.

Ao soar do relógio informando que meu horário de atendimento chegara ao fim, apressei-me em vestir meu casaco para sair. A senhora Holmes estava ocupada cuidando de um assunto matemático – contas – com a nossa senhoria, então não notaria minha saída... Ao menos até voltar para o andar de cima e perceber o silêncio na casa. Apressei meus passos, então, enquanto passava pelo quarteirão em busca de um cabriolé. Encontrando-o, pedi ao cocheiro que me levasse até o Opera House.

_ Senhor Holmes! – cumprimentou-me Henry Burgley. – Não o vemos por aqui já faz um bom tempo. A que devemos a honra?

_ Realmente um bom tempo, Henry. – concordei apertando a mão que ele estendera para mim. – Escute, preciso de um favor.

_ Ora, senhor Holmes, ajudou minha mulher a encontrar seu passaporte roubado, é só me dizer o que precisa e será seu! – respondeu Burgley enlevado.

_ Eu gostaria que me reservasse um de seus camarotes privados para esta noite, e que me garantisse que não serei incomodado durante os intervalos da apresentação. – informei de forma séria, contudo, nada impediu Henry de sorrir maliciosamente para mim.

_ Uma noite especial para o casal Holmes, estou vendo. – ele deixou escapar.

_ Por certo que sim. – concordei sem revelar maiores detalhes.

_ Então também separarei uma garrafa de champagne para os senhores, com os cumprimentos da casa, é claro. – disse Henry piscando marotamente para mim. – Combinado, senhor Holmes.

So lucky to be the one you run to see in the evening, when the day is through

Quando cheguei em casa, após tratar de arranjar outros preparativos para a noite, deparei-me com Anne sentada na sala de estar segurando uma carta que parecia tê-la deixado bastante satisfeita. Ouvindo meus passos em sua direção, ela se virou na poltrona e me entregou o pedaço de papel com a caligrafia de Mycroft. Ele nos cumprimentava pelos quatro anos completos de brigas, ameaças e felicidade, sendo que esta palavra estava grifada com aspas, o que me fez rir. Anne, no entanto, estava séria.

_ Ele mandou uma garrafa de Merlot que, segundo ele, veio de sua própria adega. Watson e Mary também mandaram parabéns para nós e isso. – ela disse apontando para uma caixa em cima da mesa de centro contendo duas miniaturas com as sombras de nossas feições. – Uma pena que não estivesse aqui para recebê-las comigo... tive que dizer ao John que você tinha saído num compromisso urgente.

_ E estava absolutamente certa, minha querida. – disse deixando a carta de lado. – Creio que não poderemos desfrutar do presente de Mycroft esta noite, pois quero que suba imediatamente e se arrume.

_ Me arrumar? Para que?!

_ Para sairmos, é claro, por que mais eu pediria para que se vestisse? – retruquei tomando as mãos dela nas minhas.

_ Sherlock Holmes... o que está tramando?

_ Apenas fiquei com vontade de ir até à Opera. Vá logo! – ordenei guiando-a até as escadas.

Assim que ela retornou eu já a esperava, pronto para sairmos, na sala. Ela usava um modelo que com certeza havia sido escolhido pela senhora Hudson. Anne jamais vestiria um modelo tão apertado por conta própria, e ainda por cima tão vermelho, contudo, estava à la mode. Sim, a minha senhora Holmes estava magnífica e eu teria que tomar cuidado com os olhares de cobiça naquela noite.

_ Elegante, muito elegante. – disse tomando-lhe a mão para beijá-la.

_ Eu mal consigo respirar. – ela reclamou ao aceitar o braço que eu estava estendendo. – Contudo, devo dizer que espero vê-lo mais vezes usando essa gravata, querido.

Eu ri frente à malícia dela. Caminhamos até o cabriolé e subimos pelas escadas que levavam até a entrada da Opera House. Henry já nos esperava acompanhado da esposa e nos guiou até o camarote que eu havia reservado. Anne, para minha diversão, ficou abismada e começou a questionar quanto dinheiro eu achava que nós tínhamos, ao passo que eu retruquei que o suficiente para ocasiões especiais. Nisso, ela corou, provavelmente com vergonha de ter achado que eu havia esquecido aquela data.

Não nos falamos até que chegou o intervalo para o segundo ato de La Traviatta. Ainda nervosa, minha esposa limitou-se a encarar o movimento das outras pessoas. Eu tinha um presente para entregar a ela, mas queria esperar até que seu nervosismo escapasse de seus olhos e não fosse mais capaz de segurar sua língua. Então, no meio do segundo ato, quando me deparei com ela rasgando metade do cronograma da peça, decidi que era o momento oportuno. Retirei uma pequena caixinha de veludo vermelho de dentro do paletó e puxei a mão dela, o que a fez me fitar.

_ Acho que isso é melhor do que uma garrafa de vinho e duas miniaturas de nós. – comentei abrindo a caixinha e revelando uma fina corrente de ouro que segurava um relicário de formato oval com a letra H inscrita na parte de cima. Dentro, nossa única foto de casamento.

_ Sherlock... – ela suspirou com as mãos no peito. – Como...?

_ Cortesia do Mycroft, eu só não esperava que ele fosse tão generoso a ponto de também oferecer aquele vinho. Falando nisso, aceita uma taça de champagne? Essa foi cortesia do senhor Burgley. – ofereci me levantando para servir duas taças.

_ Eu não...

Quando me virei com as duas taças já cheias, percebi que ela ainda fitava o presente com adoração e carinho. Sem conter um sorriso, deixei a bebida de lado numa mesa e me dirigi por trás dela, tomando o relicário da caixa para colocá-lo em seu devido lugar, no pescoço da senhora Holmes. Anne posicionou-o no centro do decote e virou-se para mim com um enorme sorriso. Sem me conter, tomei-a pelos ombros e beijei-a intensivamente.

_ Feliz aniversário, senhora Holmes. – eu sussurrei em seu ouvido enquanto a ouvia rir.

_ Feliz aniversário, senhor Holmes. – ela respondeu permitindo-se ser puxada até o meu colo, onde permaneceu até o final da ópera. Em casa terminaríamos aquela conversa...

I only know what I know, the passing years will show, you’ve kept my love so young, so new... And time after time you’ll hear me say that I’m so lucky to be loving you

Notas finais
Eu ameeeeeeeeeeei essa one shot... acho sempre meigo quando Holmes dá seu ponto de vista. Anne merece! Ah, a música se chama Time After Time e a usada aqui é a gravação do Frank Sinatra... espero que gostem! Bjiiinhos! Reviews sempre fazem bem para qualquer autor!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!