Time After Time

2 Capítulo 2: Luz


Notas iniciais
Feliz Natal :)

– Aqui é o celular de Mail Jeevas _disse ela num tom ameno.

– Onde ele está e quem é você? _respondeu seco, ou algo estava errado ou algo não estava certo, sacou?

– Você é parente do senhor Jeevas?

– Responda as minhas perguntas!

- Não posso ajudar se não responder as minhas primeiras, sua identificação aqui é apenas M.E.L.

– Sou o esposo dele _começou a ficar preocupado com a situação, era melhor se acalmar do que por tudo a perder _Mihael Keehl... Jeevas _acrescentou.

– Ele sofreu um acidente na rua das Camélias, estava em posse de uma moto ano 2010 preta. Seu estado é grave, está indo para o hospital Santa Helena.

“Hospital Santa o que?” Mello repetia nervoso enquanto tentava dirigir no transito da noite do dia 24. “Santa Helena, Santa Helena!”. Xingou como nunca havia xingado na vida até conseguir estacionar de qualquer jeito na entrada do prédio.

– Mail Jeevas! _gritou o nome na recepção, o que sobrou de seu autocontrole tinha ficado no carro.

– Ele está na sala de cirurgia senhor...? _respondeu calmamente a recepcionista de cabelos alvos.- Mihael _disse com um nó na garganta.

– Ah sim, a policial Mikoto deseja falar com o senhor _apontou para uma japonesa alta que estava encostada perto da saída.

– Obrigado _sussurrou, sua voz quase não saia mais devido ao nervosismo.

A policial explicou que devido ao asfalto molhado, a moto escorregou e bateu em outro carro que vinha em alta velocidade. O motorista do carro estava bêbado e fora levado ao mesmo hospital, pois teve alguns ferimentos leves; Matt por sua vez quebrou alguns ossos e um deles talvez tenha perfurado um dos pulmões.

Disse ainda que sua lista de contatos do celular não ajudara em nada já que havia apenas um N e um Mel como contato – e ambos caíram na caixa postal.

Era difícil dizer o que sentia naquele momento, remorso, culpa, raiva, tristeza e ao mesmo tempo não podia explicar com certeza nenhum deles. Fechou os olhos, cansado depois da descarga de adrenalina, queria apenas entrar na sala de cirurgia e dizer que sentia muito... Recusara tão friamente o pedido de Matt que sentiu seu rosto queimar, um pouco de vergonha, um pouco de remorso. O outro sabia que podia tentar mudar seu semblante ranzinza se fizesse um jantar ou coisa assim, então ele saíra para comprar algo que esquecera... agora tudo fazia sentido na cabeça do loiro; então sem aviso ele começou a chorar indignado. Era noite de Natal.

A luz vermelha que representava sala de cirurgia ocupada parecia que nunca ia mudar, ficou por horas a fio sentado no banco cor de carne, sem se mexer, sem ao menos ter certeza que estaria respirando.

– Matt... _repetia sem perceber, sua mão apertando o rosário escondido sob a roupa _eu sinto muito.

As enfermeiras que davam plantão, assim como os médicos que eventualmente passavam por lá, assistiam de longe o sofrimento do garoto, cada um fazia o pequeno desejo de “ficará tudo bem” quando passavam por ele. A luz apagou sem aviso e as portas abriam assustando o quase adormecido Mello.

– Matt! _disse num tom mais alto do que deveria _ei como ele está? Como ele... _os enfermeiros arrastavam a cama corredor à frente sem dar atenção ao garoto _me respondam!!

– Acalme-se, senhor Keehl _ um senhor alto segurou seu ombro com força o obrigando a parar de seguir o grupo.

– ME SOLTE! _se virou raivoso.

– Ele está bem _disse rapidamente tentando controlar a situação _vai ficar em observação por 12 horas, reze para que sobreviva.- ... _as palavras duras o chocaram a ponto de perder a fala.

– Me desculpe _abriu um sorriso gentil _agora que parou, vamos tomar um café.

Sentaram-se na lanchonete do hospital, Mello ainda apavorado, mas se controlando e o mais velho com o mesmo sorriso no rosto. Não haviam lá muitas pessoas, apenas um casal comendo um lanche e uma jovem folhando uma revista de moda.

– Matt teve perfurações aqui e aqui _mostrou em seu próprio peito com gestos pequenos _está respirando com a ajuda de aparelhos, vai ficar algum tempo aqui. Mas por essa noite, terá que se recuperar ou então poderá vir a entrar em coma já que bateu com força a cabeça, temos mais ou menos 12 horas para que isso aconteça. As chances são de 85%, então fique tranquilo... ou pelo menos não tão nervoso senão vai ter que entrar no soro _deu um tapinha gentil em seu ombro _ sinto muito, na noite de Natal isso parece ser bem mais melancólico.

– ...eu disse que não queria comemorar nada... _resmungou mais para si mesmo do que para a pessoa a sua frente.

– Ah sim, eu entendo... ocupado demais para essas coisas, jovem? _bebericou seu café já frio.

– Achei que sim.

– O tempo é algo bem precioso _olhou para suas mãos enrugadas _mas o vemos de formas diferentes e isso muda tudo.

– Eu tinha que trabalhar, eu não queria ficar acordado, eu precisava descansar... _bateu com força no balcão _ele não quis me escutar! Por que ele nunca me escuta?!

– ...frustração é algo que dói imensamente _divagou em seus próprios pensamentos, não mais dando atenção ao loiro, sorriu mais uma vez para a jovem que agora fazia uma careta diante o barulho que fazia o mais novo.

– Por que EU não o escutei? Por que o meu tempo foi mais precioso do que o dele?... por que...?

O ruído dos fogos de artifício encheu o local, era exatamente meia noite. O brilho colorido agora refletia nas janelas da pequena lanchonete, alguns funcionários desejaram feliz natal entre si e foram até a janela prestigiar o espetáculo.

– Feliz Natal meu jovem _disse o médico a sua frente estendendo a mão.

– ... _por um momento ficou sem foco apenas ouvindo as exaltações de alegria dos outros a sua volta, só voltou a si quando viu a mão estendida _ah...feliz... Natal para o senhor também.

Mello saiu da lanchonete, transtornado, a conversa só tinha o deixado ainda mais perturbado com aquilo tudo. Feliz? Por que tanta gente estava feliz enquanto Matt estava deitado numa cama de hospital por SUA culpa?

–---- + -------------

O dia estava clareando lentamente, sentado na cadeira da recepção só percebeu que cochilara quando uma criança passou gritando atrás de si – estava tudo extremamente solitário apesar da presença das pessoas.

Teve permissão de entrar na UTI depois do almoço, suas olheiras e a falta de energia para se quer andar descentemente entre um espaço e outro denunciava seu cansaço. Seguiu a enfermeira, nervoso, ela tinha dito para não se assustar com a cena, pois a UTI era um lugar bem diferente de um quarto normal, disse ainda que ele estava com todos os aparelhos ligados a si. Seu coração pareceu querer sair pela boca quando deu o primeiro passo.

– Matt? _entrou cauteloso na sala semiescura, o ruivo estava adormecido, seu rosto com alguns cortes, braços enfaixados.

Tocou seu rosto sem ter certeza do que podia ou não fazer, assim que seu dedo gelado tocou a pele quente Matt acordou.

– Ei está acordado? _disse abrindo um sorriso bobo _seu imbecil, quase me matou de susto!

– ...casa _balbuciou com a voz rouca por falta de uso.

–O que? Ah casa? Vamos assim que você melhorar! São 85% de chances, não espera, agora deve ter subido por que as 12 horas já passarameusintomuito, desculpas... desculpas... _começou a chorar feito uma criança tropeçando nas próprias palavras_ eu sou um imbecil! _falou entre soluços.

Matt abriu um pequeno sorriso e balançou a cabeça negativamente, tentou apertar sua mão, mas descobriu que estava sem forças. Tentou falar, mas sua garganta doida imensamente com qualquer esforço.

– Eu... prometo que... vamos comemorar o Natal todos os dias... tá, eu prometo!

- BA-KA _mexeu os lábios e voltou a sorrir.

– Eu te amo... _disse baixinho, ficou mais um tempo segurando a mão do ruivo, mas logo teve que sair.

–----------- + --------

Mello voltou ao apartamento para pegar roupas e descansar um pouco, seu corpo estava no limite. Entrou no silencio, afagou os pelos do gato, tomou um banho demorado e fez uma pequena mala; na cozinha encontrou um bolo decorado e partiu um pedaço – não era um dos melhores, mas o carinho de seu companheiro para com ele o fez se sentir na melhor das confeitarias – ainda sentado na pequena mesa reparou em duas sacolas fechadas sobre o balcão.

Presentes, ele abriu curioso e encontrou duas barras de seu chocolate preferido e duas que ele nunca havia experimentado, havia também um embrulho azul. Abriu com cuidado, sabia que não deveria ser curioso e esperar que o próprio Matt entregasse o presente, mas... soltou uma exclamação de admiração quando abriu a caixinha, o relógio reluzente o agradou muito. Colocou-o de imediato no pulso e finalmente estava pronto para voltar.

Uma semana se passou, Matt ainda estava no hospital, mas já podia falar normalmente e ficava pouco tempo sedado. Alívio. Virou também o queridinho das enfermeiras, chegou até a ganhar algumas flores por causa do Natal. Ok, nem tanto alívio assim.

– ...então eu acabei caindo de cabeça! Você tem noção de quanto o senhor Roger ficou bravo?! _Matt ria de sua própria história _aquela época do Wammy’s foi legal demais... ai ai _reclamou ao sentir uma pontada no local da cirurgia, não podia se exaltar demais.

– Uhum _concordou admirando cada centímetro do seu amado, quase não ouviu o que o outro disse.

- Para com isso, estou ficando sem jeito _deu um tapinha na cabeleira loira de Mello.

– Cala boca, eu quase te perdi agora eu fico olhando o quanto eu quiser. Aliás, foi culpa sua acordar e de repente começar a contar uma história sem sentido da sua infância, não me deu nem um beijo _cruzou os braços e fingiu estar bravo.

– ...imbecil _fez um bico.

- Eu te amo... _desfez a expressão emburrada dando lugar a um sorriso gentil.

– Mello para, eu sei que está se culpando _olhou para o relógio que dera de presente _mas tem que aceitar que foi apenas uma fatalidade.

– O meu tempo agora também será o seu tempo, sinto muito por não ter prestado mais atenção nas coisas que queria...

– “Cuide do seu precioso tempo” _Matt repetiu duas vezes sem deixar Mello rebater, sorriu divertido ao ver a cara de perdido do amado _cuide bem do Mel ein, ele gosta mais de você do que de mim.

– Hn... _resmungou.- Eu te amo... feliz Natal atrasado, meu amor.

– Eu também te amo, nunca mais me abandone.

Tempo, tempo! Não tenho tempo, meu tempo está tomado pelas coisas que tenho que fazer, o seu tempo não é o meu... não tome o meu tempo, estou atrasado, estou cansado.

PARE

E olhe mais cuidadosamente a sua volta, sem querer podemos acabar ficando sem tempo.

END.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!