Time
1 Único.
Notas iniciais
365 250 dias, a deusa contou em sua mente, ao mesmo tempo em que a sentença era decretada. Um número tão extenso quanto o tempo que representava, o peso de tudo aquilo recaía sobre ela, e a noção do quanto lhe custaria.
12 000 meses, e Atena sentia as lágrimas se acumulando em seus olhos, assim como a vontade de gritar que lhe feria a garganta, mas não se permitiu fazer isso. O descontrole em nada adiantaria, não podia perder um único segundo, havia desperdiçado tempo demais, e agora ele escorria entre seus dedos, sem volta.
10 séculos, os deuses se erguiam de seus tronos, resignados. O que poderiam fazer? O que mais poderia ser dito? Cada um ali havia tentado, de alguma maneira, mas no fim ninguém poderia intervir além dela. Ela sabia dos riscos, e mesmo assim não tinha impedido aquilo de acontecer.
100 décadas. E mesmo o rei dos céus evitou seu olhar, livrando a deusa da constatação de sua vergonha e decepção. Ela, aquela que fora prometida como seu orgulho, era motivo de desonra para os imortais.
E mesmo depois de tudo o que ouvira, ela não se arrependia. Valera a pena cada segundo, somente lamentava o peso de sua punição, por não recair apenas em seus ombros. Quando as portas do grande salão foram fechadas, uma pessoa permanecera ali, junto a deusa da sabedoria, a única pessoa com quem ela queria estar.
Poseidon.
Nenhuma palavra foi dita, elas quase sempre se faziam desnecessárias depois que entenderam, não precisavam falar para entender o que necessitavam. Sem qualquer hesitação ela caminhou até o deus, sendo recebida em um abraço, aconchegou-se naquele corpo que ela chamava de lar.
Fora naquele abraço que ela tinha despertado, horas antes de tudo se tornar caos. Tinha permanecido em meio aos lençóis, aninhada ao corpo do deus dos mares, apreciando aquele momento, desejando fazer o tempo parar.
Era de se esperar que as parcas lhes fossem cruéis, sua breve calmaria logo se tornou tempestade. Pelas mãos de Zeus foi arrancada daquele abraço, os gritos ainda ecoavam em sua mente, toda a raiva, todas as acusações.
Desonra. Era isso que trazia uma deusa que quebrava seu juramento, pura desonra.
Os deuses não a trataram com o desprezo que deviam, ela sabia, via isso enquanto o pai gritava, enlouquecido, por aquela traição. Zeus não sabia, mas Atena acreditava que traição maior seria renegar novamente seu coração. Fora arrastada para o grande salão, exposta aos olhares de todos, e enfrentara com suas íris tempestuosas qualquer um que ousasse lhe acusar em silêncio.
Poseidon tinha se colocado entre ela e o rei dos deuses, um gesto de proteção que a faria sorrir, se a situação não fosse tão ruim. Mas ele permanecera ali, diante dela, deixando claro a qualquer um que teria de passar por ele para toca-la mais uma vez.
Contudo, Zeus não necessitava tocar para ferir. Ele sabia das leis, e elas estavam a seu favor, o castigo pelo qual ela nunca imaginara passar estava finalmente por vir.
― Mil anos. ― ela murmurou, o rosto escondido no peito do deus, o cheiro dele lhe lembrava liberdade, e desejou poder guardar aquilo para si. ― Tanto tempo.
― Passaremos por isso. ― Poseidon garantiu, mas havia em sua voz uma tristeza tão semelhante a dela, que a deusa não pode evitar estremecer. ― Cumprirei minha punição, você cumprirá a sua. E quando eu voltar, ninguém mais poderá tira-la de mim. Nunca mais.
Era exatamente o que ela desejava, mas entre o momento presente e o futuro tão desejado havia mil longos anos. Atena sabia que não poderia vê-lo, sabia que teria de lidar apenas com as lembranças dos poucos momentos que tiveram juntos. Se eles ao menos tivessem mais tempo...
― Ainda temos essa noite, partirei pela manhã.
Ele partiria, e ela teria de permanecer ali. Ainda tinham uma noite, e Atena não queria passar suas últimas horas ao lado dele lamentando. Eles sabiam dos riscos, tinham de lidar com as consequências.
― Uma última noite? ― talvez aquilo pudesse soar como provocação em outro momento, mas não daquela vez. O medo estava em sua voz, assim como a dor pela solidão, ele ainda estava ali, mas Atena já sentia tanta saudade.
― Nunca será a última.
Uma breve promessa, e aquilo bastava. Quando se afastou, segurou a mão do deus dos mares, e arrumou sobre os ombros o xale que Héstia lhe oferecera, tão gentilmente, horas atrás. Ela não a considerava uma desonra, mas Atena não falou disso enquanto seguia para seu palácio, seus dedos entrelaçados aos de Poseidon, seus passos lentos, mas seu corpo cheio de ansiedade.
Poderia te acreditado que a primeira vez fora a mais importante, mas naquela noite tudo foi mais significativo. A forma como ele a livrou gentilmente das roupas, as carícias em sua pele pálida, os sussurros que a deixavam arrepiada. Ele não a tomou para si, sentia que Poseidon dava um pouco do que era para ela, a cada beijo, a cada som de satisfação. Permitiu que Atena desvendasse seu corpo, seus gostos, saciando aquela curiosidade tão típica dela.
As mãos suaves e trêmulas percorriam a pele bronzeada, mas havia firmeza em seu toque, e desejo em seu olhar. Eles se beijavam a todo momento, como se respirar fosse uma necessidade banal, e aquele contato não fosse o suficiente. Não era, nunca era. Os lábios dele estavam sobre sua pele, seu rosto, seu corpo. As mãos dela brincavam com os fios escuros de seus cabelos, e mesmo quando as carícias lhe provocavam aquele prazer urgente, não era tempo de parar.
Naquela noite amaram um ao outro, seus corpos, suas reações, seu prazer. Algo tão único que os unia por completo. Tentaram curar uma ausência ainda não concretizada, murmuraram promessas, planos para quando pudessem voltar.
Eles esperariam um pelo outro. O que eram mil anos para quem ama? Enquanto estava junto dela, Poseidon sabia que valia a pena qualquer punição, tudo por ela valeria. Tinha a deusa em seu colo, e observava a imagem de seu corpo iluminado pela luz pálida do luar. Ele amou de forma verdadeira, e por vezes até desesperada. Adorou seu corpo, essência, e sentiu que ela se fundia com a sua, tal como deveria ser.
As horas passaram rápido demais, e quando a luz do sol começava a invadir o quarto, eles ainda estavam nos braços um do outro, deitados lado a lado, muito aconchegados. Ele lhe contou histórias, ela contou segredos. Ele poderia ouvi-la falar para sempre, ela apreciava algo em silêncio. Foi apenas pela manhã que a dor da realidade retornou, e com ela as lágrimas da despedida. Atena foi incapaz de vê-lo partir. Permaneceu ali, em seu quarto, em sua cama. Com o último beijo, que ele prometera não ser o último.
E quando a porta se fechou, ela chorou. Daquela maneira quebrada de quando se perde alguém. Chorou por encontrar o amor. Chorou por perde-lo de tal forma. Por mil anos serem tempo demais, por não conseguir ter mais tempo.
A contagem começava naquele dia.
365 249 dias.
12 000 meses
10 séculos
100 décadas.
Uma pequena eternidade. E ela iria esperar.
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