Time
2 II - Atenas
Notas iniciais
[Somebody That I Used To Know — Gotye]
Depois de alguns anos, lá estavam eles novamente. Os quatorze deuses Olimpianos sentados cada qual em seu trono, para decidir dessa vez quem seria o patrono da nova cidade fundada no coração da Grécia.
Poseidon se sentia muito inclinado a tomar a cidade como sua, e sabia que quase nenhum olimpiano iria querer competir contra ele, porém, mal sabia ele que a jovem loira dos olhos tempestuosos estava mais que inclinada a competir pelo direito da cidade.
— Irmãos, filhos e demais deuses, o rei Cécrope I, fundou hoje a nova capital da Grécia, mesmo ele ainda não sabendo a importância de sua cidade — disse Zeus, com sua alta voz. — Quero saber, qual dos deuses presentes nessa sala gostariam de ser patronos de tal cidade, com tamanha importância?
Por uns momentos, ninguém disse nada. O silêncio reinava no reino dos deuses. E todos se entreolhavam, procurando qual deus gostaria de tomar para si uma tarefa tão, no mínimo, ocupante.
Poseidon finalmente levantou-se de seu trono e disse, em alta voz:
— Eu, caro irmão, pretendo ser o patrono desta cidade. — Todos os deuses bateram palmas educadas, até mesmo Zeus, embora este não estivesse nada satisfeito.
Atena botou-se em pé alguns segundos depois, ela tinha um olhar duro e firme.
— Pai, eu também desejo ser patrona desta cidade — ela disse, sem olhar para Poseidon, embora este, claramente ofendido, lhe lançou um olhar de choque.
Nem Atena, nem Poseidon, eram próximos um do outro, porém os dois se respeitavam e Poseidon jamais teria imaginado a jovem deusa querendo medir forças com ele.
— Como iremos resolver isso... — ponderou Zeus, olhando levemente para Hera, que tinha uma expressão de espanto no rosto. Hera jamais imaginou Atena, a tão querida filha de Zeus, medindo forças com qualquer um, até porque, sendo a deusa da guerra, jamais faria sentido.
— Deixe que o povo vote — respondeu Héstia, tentando resolver a questão, antes que Poseidon e Atena partissem para uma disputa. — Cada um dos dois deuses presenteia a cidade com alguma coisa nova. O povo vota e veremos quem será o escolhido. Dessa forma evitamos brigas Olimpianas e também... Mantemos a paz para o Olimpo — e que se dane a Terra, pensou Atena, querendo mais que tudo não ter se levantado.
— Ótima ideia, Héstia — parabenizou Zeus, e depois virou-se para Poseidon — Irmão, o que ira mandar para os mortais, como prova de seu poder e direito a cidade?
Poseidon pensou. Haviam-no pegado de surpresa, ele não conseguia pensar em absolutamente nada. Porém, não iria recuar agora e deixar sua sobrinha vencer. Não... Não permitiria que a tão orgulhosa Atena ganhasse dele.
— Lhes darei uma fonte, coberta de ouro e cristais. Dela saíra água constantemente, e matará a sede de todos os habitantes da região — disse o senhor dos mares, obviamente orgulhoso do que acabara de criar.
A fonte coberta de ouro e pedras preciosas apareceu no centro do salão, deixando a todos muito impressionados. Até mesmo Atena, demonstrou uma cara de espanto, mas que logo deu lugar a sua face fria e calculista.
Poseidon não pode deixar de ficar feliz, e pensava que a vitoria já estava no papo, quando verem a fonte, pensou ele, não vão hesitar em escolhê-la, já que além da água é enfeitada com todas essas inúmeras riquezas.
— E você, filha, o que pretende dar aos mortais? — perguntou Zeus para a deusa dos olhos tempestuosos.
— Senhor meu pai — disse Atena, sorrindo levemente e dando alguns passos para frente. Atena havia pensado muito, e decidira fazer algo que agradasse a todos, inclusive as mulheres, que naquela época tinham direito a voto. — Depois de pensar brevemente e de ver o tão magnífico presente Poseidon irá dar para os mortais — ela disse, lançando a Poseidon um olhar gentil, mas seus olhos não mentiam. Por mais mansas que fossem suas palavras, Atena odiaria perder. — Vou presentear os mortais com uma planta. A oliva — e ao lado da fonte de Poseidon, surgiu um vaso com a planta em questão. — Com ela, poderão fazer oliveiras e azeite de oliva, e serão muito ricos vendendo-as para os outros povos.
Poseidon não acreditou. Até ele votaria na oliva se pudesse, e sabia que os mortais nela votariam, porém não deixou de ficar irritado com Atena. Como ela ousava? Tentar combater ele? E ainda ser melhor?
Os presentes foram mandados a Terra e Poseidon e Atena desceram lá, disfarçados de meros mortais, para ver a tão esperada votação.
O rei convidou todo o povo para a praça, e dize-lhes que os dois presentes haviam chegado do Olimpo, e segundo o Oráculo de Delfos eles deveriam escolher um dos dois deuses para serem patronos da cidade.
— A fonte, carregada de ouro e pedras preciosas é um presente de Poseidon, senhor dos mares, e a oliva, esta planta que possivelmente gera azeite, o que sinceramente eu ainda não sei o que é, mas segundo o Oráculo pode nos deixar ricos, foi presente de Atena, senhora da sabedoria. Votem agora em um dos dois presentes, para vermos qual deus será patrono da nossa tão humilde cidade. — Que de humilde não tem nada, pensou Poseidon ao notar as casas, e ruas, todas enfeitadas e acarretadas de ouro. Atena, que estava ao seu lado, sorria ao ver a cidade.
— O que lhe faz sorrir tanto, ô deusa? — perguntou-lhe Poseidon, estranhando a animação da mesma, e se sentindo ofendido ao pensar que o sorriso era porque ela acreditava que já havia ganhado.
— A arquitetura deste lugar — disse a deusa, com os olhos cinzas sonhadores — É incrível... Espero, perdoe-me caro tio, ganhar para poder guardar os portões dessa magnífica cidade! Já que a mesma será uma potência!
Poseidon novamente se sentiu mal, como poderia querer ganhar dessa jovem doce? Atena era simplesmente sonhadora. Uma nova deusa, deusa da razão, sonhadora. Não fazia sentido.
Ao olhar para a menina novamente Poseidon viu todo o seu medo e anseio. Ela era nova naquilo, não sabia bem o que fazer. Só estava tentando ser notada, ser amada.
Atena por sua vez sabia que Poseidon poderia ganhar, ele era um deus muito respeitado em toda a Grécia, ainda mais pelo fato de representar a masculinidade, enquanto ela, a feminilidade.
— Lorde Poseidon — disse ela, docemente — Sinto muito por esse confronto, eu não pensei ao levantar-me da minha cadeira, só queria... Ah, por Zeus, desculpe-me — Poseidon viu pequenas gotas no canto dos seus olhos, e incrédulo, abraçou a jovem dama. Esta que surpresa, simplesmente retribuiu o abraço.
— Oh Atena, minha querida sobrinha, a senhorita só estava tentando ser uma deusa cultuada — ele disse, fazendo carinho sobre o longo cabelo da menina. Era macio. E dela saia o melhor cheiro do pecado já existente no mundo. Poseidon a achava linda.
Do alto, no Olimpo. Apenas uma deusa observava a cena. Seu nome, todos sabem, todos conhecem e todos desejam. Afrodite. Deusa do amor. E vendo aquela cena, seu coração desmanchou, e Afrodite jurou que algum dia, ainda iria ao casamento de Atena e Poseidon.
Voltando a Terra, após algumas infinitas horas a votação havia finalmente terminado.
Atena e Poseidon entraram, ainda disfarçados na praça, e observaram alguns homens terminando de contar os votos, estes se levantaram e entregaram um pedaço de papel, bem rústico, para o rei.
— Meu povo — disse o rei Cécrope I disse, observando levemente o olhar de cada cidadão. — Eu vim aqui lhes dizer qual o nome da nossa pequena e modesta cidade — Mais mentiras, pensou Poseidon, novamente. — E o nome dela é... — ele fez aquele suspense clássico, tão clássico como a Grécia, enquanto lia o nome no bilhete — Atenas, cidade de Atena!
Atena ao lado de Poseidon pulou, sorrindo enquanto batia palmas. Poseidon se sentiu mal, mas lembrou-se do que a jovem havia lhe dito anteriormente e ficou um pouquinho feliz por ela. Atena abraçou ele e sorriu, alegre. Poseidon não pode deixar de notar como ela ficava linda sorrindo.
— Meus parabéns, Milady — ele disse, tentando parecer o mais amigável possível. Atena sorria, e enquanto agradecia, jogou um leve encanto sobre a oliva, fazendo-a crescer para dar a primeira plantação de oliva. Poseidon olhou admirado enquanto ela fazia isso.
Porém, dentro do pequeno coração de Poseidon nasceu um ódio, o povo de Atenas iria pagar por isso, principalmente as mulheres.
Depois de voltarem para o Olimpo, e Atena ir comemorar em seu quarto, Poseidon avisou para o Oráculo o que ele deveria falar para o rei fazer, ou se não iria sofrer sua ira.
Alguns dias depois as duas consequências chegaram.
As mulheres perderam o direito a voto, e nenhuma criança poderia herdar o nome da mãe.
Atena, furiosa com os acontecimentos, e após receber várias preces para que isso mudasse entrou como um furacão na salas do Trono. Todos estavam presentes ali e ela começou a falar enquanto andava:
— Eu quero saber, quem, em santa consciência ordenou que as mulheres de Atenas perdessem tantos privilégios? — perguntou ela, indignada.
— Como assim, Atena? — perguntou Ártemis, a irmã da deusa. Ártemis é vista como defensora das mulheres, não só porque, igual à Atena, era uma deusa guerreira, mas também, por suas caçadoras. As caçadoras de Ártemis eram jovens virgens que renunciavam ao mundo mortal e se juntavam a deusa, embora esta mesma ainda não tivesse feito o juramento de castidade.
— As mulheres de Atenas têm me mandado inúmeras preces, me implorando para mudar essa situação. Algum deus ordenou para o rei que todas as mulheres perdessem o direito de voto e que nenhuma criança poderia herdar o nome das mães! — Bradou Atena, fazendo Poseidon ficar um pouco arrependido, todavia, Poseidon ainda era tomado pela vontade de fazer Atena pagar.
— Fui eu que fiz isso — ele disse em alto e bom som, fazendo até mesmo Afrodite querer matá-lo, mas diferente das outras duas deusas, o motivo de Afrodite é que seria difícil uni-los depois disto. — E não irei retirar.
— Você... — Atena disse, tomada pela ira. — Desrespeitou minha cidade, e ofendeu minhas mulheres! Eu deveria...
— Atena! – a voz de Zeus suou alta e forte, como sempre —Basta!
Atena recuou alguns passos, mas ainda com o olhar assassino na face, Poseidon quase se sentiu mal, mas depois daquilo, ele queria humilhar a deusa. Quem ela pensava que era?
— Poseidon não tinha o direito de fazer isso em Atenas, mas fez — disse Zeus — E não só fez, como esta feito. Nada podemos fazer Atena, sinto muito.
Atena o fuzilou com os olhos, e se não fosse Zeus, senhor dos deuses, ele teria retirado suas palavras e dado permissão para a filha matar Poseidon, mas isso não aconteceu. Pois era Zeus. Senhor dos deuses, e sua filha jamais iria investir contra ele.
— Se é guerra que você quer peixe — disse Atena, olhando-o com nojo — É guerra que terá!
Fale com o autor