Timbres
2 I'm In Love
Notas iniciais
A primeira coisa que registrou foi o canto animado dos pássaros, junto com o som melódico e gentil do sino de vento, orquestrado pela brisa suave. E então o cheiro leve e cítrico do shampoo de Toshinori. Ainda de olhos fechados, virou-se de lado, buscando. Não o encontrou, e isso fez com que finalmente abrisse os olhos, piscando algumas vezes contra a luz do sol e o peso do sono. O lugar ao seu lado estava vazio, embora houvessem evidências de que ele dormira ao seu lado. Os lençois emaranhados, um ou outro fio dourado refletindo o bilho do sol, e o cheiro dele no travesseiro. Respirou fundo, mais do que alegre em permitir que a fragrância abraçasse seus pulmões, inundando seu coração.
Podia sentir suas têmporas latejando, persistentes, lançando vibrações na sua cabeça e fazendo-a franzir os cenhos em resistência. O gosto da cerveja e fumaça ainda se manifestavam no fundo de sua garganta, meras memórias das atividades da noite anterior. Mas seu corpo estava descansado, apenas lento por ter recém acordado. Espreguiçou-se lânguidamente na cama, alongando todo seu corpo. Braços e pernas esticados, mexendo o quadril, girando a cabeça no eixo do seu pescoço sem pressa, e sendo recompensada com estalos satisfatórios de suas juntas, desacostumadas com o movimento.
Sentou-se sem pressa, ainda se alongando de forma preguiçosa. Perguntou-se onde ele teria ido. Talvez a agência o tivesse chamado e ele tivera que lidar com algum vilão. Sentiu o coração se apertar diante do pensamento, como sempre acontecia ao imaginá-lo se pondo em perigo para o bem das pessoas. Era uma das qualidades de Toshinori que mais a assustavam: sua absurda capacidade de arriscar a vida por todos e qualquer um, de forma indiscriminada, com um sinceridade que a deixava estupefata.
Mas de nada adiantava se preocupar. Ele era forte. Muito forte. E não podia competir com o que ele entendia ser seu destino, sua missão de vida. Sim, tinha plena consciência disso. Com um suspiro, levantou-se, seguindo para a sala com passos leves, com a ideia de fazer uma xícara de chá acompanhada por um punhado de aspirinas.
O cheiro do omelete alcançou seu nariz, e seu estômago roncou em resposta. A figura alta de Toshinori estava em frente ao fogão, assoviando alegremente enquanto mexia os ovos na frigideira, sem que a tivesse notado. Podia ver que a pequena mesa da cozinha estava posta, de forma quase elegante, as cores da louça combinando em harmonia com os copos e talheres. No centro, uma pequena garrafa de vidro segurava uma linda rosa branca. Era bonito, e aconchegante, e só de imaginar o cuidado que aquele homem desajeitado tivera que ter com os objetos, encheu-a de um carinho inexplicável.
Muito de leve, com cuidado para não alertá-lo de sua presença, ela se aproximou por trás e envolveu sua cintura com os braços, em seguida pousando um beijo amoroso entre suas omoplatas. Toshinori se sobressaltou, quase deixando cair a panela no processo. Mas [Nome] não o soltou, seu riso abafado contra a camiseta que ele usava.
— Con-confortável aí? – Ouviu-o dizer, gaguejando de leve. Olhou para cima, notando a vermelhidão que se espalhava pelo pescoço dele e sorriu, sentindo um pequeno rubor também esquentar a própria face. Ele gostava dela, meu deus.
— Uhum. – Murmurou contra a camiseta, em um tom sonhador e relaxado. Ele riu, meio divertido, meio nervoso. – O cheiro está muito bom.
— Desculpa, eu te acordei? Eu tentei ter tanto cuidado! – Ele bateu a mão contra a testa, como se não pudesse acreditar no seu deslize. Como quem não quer nada, ela começou a vasculhar o corpo dele com as mãos, de forma preguiçosa. Subindo-as em direção ao seu toráx, sentindo a firmeza dos muscúlos mesmo através do tecido da camiseta e avental. – E você estava dormindo t-tão bem, e parecia t-tão linda! E-eu não t-tive coragem... – a voz dele ficava mais agitada a cada segundo, tropeçando nas palavras conforme as mãos dela acharam um espaço por baixo dos tecidos e entraram em contato com a pele do seu peito, numa carícia íntima e confortável. – Oh god.
— Hmmm? Cuidado pra não queimar os ovos. – [Nome] falou, com forçada inocência, seus dedos vasculhando o corpo dele, entrando em contato com as áreas sensíveis, sentindo as curvas e ângulos. A mão aproximou-se perigosamente da linha de seu samba-canção, o dedo insinuando-se apenas um pouco por baixo do elástico.
— Que ovos? – A voz estrangulada de Toshinori respondeu, um toque de angústia mortificada em seu tom, e ela riu com gosto, jogando a cebeça para trás. Afim de evitar qualquer acidente infortúnio com o café da manhã, ela afastou-se dele, retirando os braços e dando a volta para poder vê-lo de frente.
Já estavam namorando há alguns meses, e Toshinori ainda corava com facilidade durante beijos e demonstrações de afeto. Mas tudo bem, porque mesmo desse tempo, ela às vezes também sentia-se fraca nos joelhos quando ele a abraçava, e achava-o fofo quando notava suas bochechas vermelhas em reação a algo que ela fazia. Seu coração sempre palpitava quando o via assim, a convencendo sem sombras de dúvidas de que tinha algo extremamente errado com seu conceito do que a agradava e achava atraente. Tinha algo estranho com ela, sim, mas estava feliz, e era o que importava. Não dava bola de fazer o papel de boba apaixonada.
Como anunciado, ao dar a volta pelo corpo ereto do namorado, ela viu-o com as bochechas coradas, os olhos azuis enevoados. Riu, divertida. Tentou ficar nas pontas dos pés para beijar-lhe a bochecha e, ao falhar, ergueu um braço na sua direção. Ele soltou uma risada e amigavelmente levantou-a pela cintura, pousando-a sentada no balcão. Voltando então a se concentrar no que estava cozinhando, com aparente dificuldade.
— Você está de ressaca? – ele perguntou, num tom que pretendia soar casual, mas acabou por soar um tanto tímido. – Se estiver, eu preparei o remédio milagroso do all might! – concluiu, em absoluto entusiasmo, levantando seu dedão para cima e lhe lançando o melhor sorriso heróico que tinha em seu repertório. Ela gemeu de forma dramática, levando as mãos à cabeça.
— Não aquilo de novo. – Falou, mas ele já havia posto em sua mão um grande copo, contendo uma bebida verde de textura densa, o cheiro pungente. Que ela sabia, por infeliz experiência pessoal, que era uma mistura ilógica das mais diversas verduras e folhagens. E tudo que poderia ser dito sobre o gosto é que este estava ao menos dois degraus acima de mijo.
Ela olhou para o copo em suas mãos, e então para Toshinori, invocando uma expressão da mais profunda traição. – Eu achei que você me amava.
Os olhos azuis brilharam na sua direção, divertidos. Com energia, ele retirou os ovos da frigideira, distribuindo-os igualmente em dois pratos. Largando a panela de volta no fogão, ele se aproximou, segurando o rosto de [Nome] entre as mãos com carinho. Inclinou-se e botou os lábios sob os dela, a princípio apenas de leve, mas aprofundando-se de forma gradativa. Ela sentiu como se levitasse nas nuvens, o gosto de laranja e sol preenchendo-a. Era doce e perfeito. Só notou que o puxava pela frente da camisa quando se separaram, ele sorria para ela, o rosto perfeito. – É claro que eu amo. – ouviu-o dizer, beijando sua bochecha, e depois a outra. – Por isso mesmo que preparei o suco. – continuou, encostando o nariz no dela e mexendo a cabeça, num beijinho de esquimó. – Vai fazer bem para o seu estômago. – Completou, dando-lhe um último beijo na testa, antes de se afastar e retornar à sua missão do café da manhã.
Sentindo-se corada por fora e derretida por dentro, ela soltou um suspiro, acumulando coragem. – Okay, okay. — Inspirou fundo e, tapando o nariz com os dedos, virou o copo. De imediato, percebeu que estava errada e que o gosto era apenas um degrau acima de mijo. Bravamente, conseguiu tomar todo o conteúdo de uma só vez, mas não com pouco sofrimento. Abaixou o copo agora vazio, com uma careta de desgosto, e Toshinori riu.
— Você vai se sentir melhor logo e vai poder apreciar toda a maravilha dessas panquecas! – Falou com entusiasmo, jogando uma das ditas cujas para cima, e a pegando de volta na frigideira, com habilidade exemplar.
— Exibido. – Murmurou, com um muxoxo, mas sem conseguir conter o pequeno sorriso que se abriu nos seus lábios. Notando que ele já estava perto de terminar, se virou para tentar descer. Todo companheiro, ele a ajudou, segurando-a pela cintura. Ela o enlaçou pelo pescoço, aproveitando o momento antes de seus pés encostarem no chão para beijar o seu pescoço, que nem sempre era de fácil acesso. Animada, começou a preparar os chás. O cheiro delicado de camomila levitou no ar, quando a água quente tocou nas ervas soltas, fazendo-as dançar na chaleira. Inspirou fundo, satisfeita. Tomou um assento na mesa posta, cuidadosamente servindo o chá pronto nas xícaras. O cheiro da comida permeava o ambiente de forma deliciosa, e sentiu seu estômago roncar, ansioso. A contragosto, tinha que admitir que sua indisposição de fato havia melhorado após tomar o maldito suco.
Ele trazia os pratos para a mesa agora, um sorriso largo nos lábios, seus passos refletindo sua alegria, quase serelepes. Só então notou que tipo de avental ele usava, e não pôde acreditar que não havia percebido antes. Achou provável que fosse parte dos produtos do herói, pois era das cores do seu traje, e na frente estava escrito: “For I am here! The All Mightiest cooker!”. [Nome] começou a rir, incapaz de se conter, dobrando-se ao meio. Ele notou a direção do seu olhar e sorriu descaradamente, sem qualquer indício de vergonha.
— Não é perfeito? Foi a minha ideia, tive que brigar com a minha agência pra aprovarem o design. – Informou, estufando o peito de orgulho. Ela limpou as lágrimas do canto dos olhos, ainda recuperando o fôlego.
— Sim, é a sua cara. – Respondeu, enquanto ele se sentava na sua frente. Olhou para o prato então e, se já não estivesse apaixonada por aquele homem, teria passado a estar naquele exato momento. Ele havia feito ovos mexidos com verduras, e no centro uma pequena pilha de panquecas com gotas de chocolate, arrumados com uma apresentação linda. No topo, em calda de chocolate, estava desenhado um pequeno e fofo All Might sorrindo na sua direção, com corações no lugar dos olhos e em volta de sua cabeça.
[Nome] Pousou uma mão na boca, e a outra no coração, sentindo-se tocada por algo que sabia ser a coisa mais clichê e piegas do mundo. Mas, de alguma forma, lhe parecia ser também uma das coisas mais lindas e adoráveis que já vira na vida. E essa percepção a fez aceitar que, de fato, não tinha mais salvação. Estava perdidamente apaixonada, por um maravilhoso herói sentimental.
Olhou para Toshinori, notando que ele a observava em expectativa. Respirando fundo, assumiu uma expressão impassível, olhando-o de forma séria. Isso fez com que ele mudasse a expressão para uma de preocupação.
— Toshi... – começou, em um tom impassível. – Eu acho que te amo mais do que o Cookie Monster ama cookies. – Completou, abrindo um sorriso conforme falava. Satisfeita ao vê-lo ficar vermelho, pegou o garfo e preparou-se para atacar a comida.
Ele apenas a encarou por um longo tempo, os cenhos franzidos, parecendo estar decidindo algo. Olhou-o com curiosidade, levantando uma sobrancelha. Viu-o respirar fundo, pegando o próprio garfo afinal, de forma quase distraída.
— Sabe, eu te amo tanto às vezes eu só quero te segurar e te esmagar tão apertado que você poderia morrer no meu abraço apaixonado. – Falou, cortando um pedaço da panqueca à sua frente. Parecendo convencido de que estavam em uma competição de declarações. – Mas eu realmente gosto de você, então não vou fazer isso. – concluiu, sério e com decisão, levando o garfo à boca. [Nome] riu, pega de surpresa.
Talvez ser um casal idiota não fosse tão ruim assim.
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