Notas iniciais
Postado no Spirit tb

O quarteto aproveitou a noite de lua clara para seguir caminho pela estrada amarela. O leão ia à frente, Dorothy controlava a velocidade do animal pela coleira de ferro grosso. Em circunstâncias normais ela jamais chegaria perto da besta domesticada nos circos, mas Oz não era normal há tempos. Ela ia ao centro do grupo, tendo os outros de escolta.

O ciborgue segurava o machado firmemente com as mãos mecânicas enferrujadas cobertas de sangue negro. Estava velho e se recusava a morrer nas mãos das criaturas nojentas que infestaram Oz. A falta de um coração de carne o deixava forte para matar qualquer um, estava preparado para aniquilar seu próprio bando se fosse preciso.

A ideia de viajar com um dos zumbis transformados incomodava ele, que mantinha distância da criatura fedorenta. O monstro ziguezagueava pela esquerda, conforme a bruxa boa puxava-o com a corda. Na cabeça do ciborgue fazia mais sentido o zumbi ser o acorrentado, não o leão de orelhas caídas e jeito moribundo.

De qualquer jeito, sondava a criatura com seu olho bom esperando o ataque iminente.

— Quer parar? Está ficando desconfortável – disse a bruxa branca para ele

— Desconfortável é essa coisa caminhando conosco. Ele está morto, deixe que meu machado dê um fim nisso antes que ele dê um fim na gente.

A mulher de roupas brancas levantou o dedo médio.

— Ele ainda tem jeito. Quando chegarmos ao mago, ele saberá o que fazer e vai trazer ele de volta. – replicou aflita.

— Sabe tão bem quanto eu que isso não tem lógica, bruxa. Seu marido se foi, se livre logo do corpo andante.

— Se a menina estiver falando a verdade, ele consegue. Os alquimistas sabem das coisas.

Dorothy escutava a conversa calada. Prometeu que o mago resolveria esse problema, era o único jeito dela, uma criança, entrar para o grupo deles.

A doutora, que o ciborgue chamava de bruxa boa, era uma das pesquisadoras da doença. Junto de seu marido, eles estudavam como reverter a situação, contudo o marido dela foi infectado e agora não passava de um zumbi vagando por aí. Para disfarçar a decomposição, a doutora o vestiu com mangas compridas e um saco de pano na cabeça, um espantalho humano. Dorothy tinha medo dele.

Os tênis manchados de sangue seco quase não saiam do chão dourado. As criaturas se locomoviam conforme o som, quanto menos barulhos fizessem, melhor. O milharal por onde passavam assustava com suas grandes sombras e quando o leão parou ela apurou os ouvidos e desceu a mão para dentro da saia azul, onde escondia a faca.

Do escuro saiu uma criatura pequena de quatro patas, o cachorro negro latia para Dorothy e brincava pulando nas pernas da menina. Ela pegou o animal nos braços e o ergueu na altura do roto; era mesmo Totó.

— Cale a boca dele logo, vamos! – disse o homem de lata, ainda com o machado em riste.

— Será que alguma daquelas coisas ouviu? – perguntou a doutora ajeitando os óculos, tique que fazia quando ficava nervosa.

Uma ventania forte tomou conta do milharal perto deles, o grupo sequer respirava. Do meio das plantas um pequeno redemoinho tão rápido surgiu e se desfez, revelando o homem de túnica pretas. Era o alquimista vindo buscar suas novas cobaias de experimentos.

— Pois bem, são esses que me prometestes menina? – a voz potente mostrava confiança, os olhos azuis que cintilavam na luz pálida não tinham um pingo de compaixão.

— Sim, mago Oscar – disse Dorothy – esse é o grupo peculiar que lhe contei.

— Bom. Que menina boazinha você é, merece sua recompensa.

Com um estalo de dedos a mochila de Dorothy que estava vazia pesou. Lá dentro estavam frutas, pães e vinhos para dividir com seus tios, seu pagamento pela venda.

— Sua miserável!

O machado do ciborgue acertou o ombro da menina que caiu de joelhos. O leão de olhos pesados virou a cara no momento em que o homem deu a segunda machadada, dessa vez arrancando fora um dos pés dela.

— Mago Oscar! Ajude-me! – esgoelou entre a dor lancinante

O alquimista olhou-a de cima, implacável.

— Já não lhe paguei? Não tenho mais assuntos contigo menina. Homem de lata, termine logo com isso. – ordenou conciso. – Tenho planos para vocês no meu laboratório, vamos levar o cadáver dela também.

Ao olhar para cima, metade da cabeça do ciborgue refletia, assim como o sorriso sinistro dele. A lâmina desceu com velocidade sobre o pescoço dela duas vezes. A última memória de Dorothy era a de seu grito desesperado ao sentir a cabeça se desprendendo do corpo.

— Quer parar? Está ficando desconfortável! – a bruxa boa disse

— Desconfortável é essa coisa caminhando conosco. Ele está morto, deixe que meu machado dê um fim nisso antes que ele dê um fim na gente.

Dorothy largou a corrente de ferro e rodeou o pescoço freneticamente com as mãos trêmulas. A doutora e o homem de lata a encararam.

— Tudo bem menininha? – perguntou a mulher

A menina semicerrou os olhos. Não existem coincidências em Oz e ela acreditava em premonições.

Ela esfregou as mãos e olhou para o homem de lata.

— Minhas mãos estão doendo com essas correntes. Vamos trocar, eu fico com o machado?

Os dedos robóticos se apertaram mais na arma, rangendo.

— Não. Troque com a bruxa e seu zumbi. – respondeu sério.

— Ela vai trocar seis por meia dúzia. Troque logo, está com medo da menina machadar o que sobrou dessa sua cara feia? Não vou controlar meu marido e um leão. Anda!

De má vontade ele entregou a arma para ela e pegou a corrente. Pelo olhar mortífero e decepcionado dele, Dorothy poderia jurar que ele também sabia do futuro no qual ela os vendia para o mago.

Os tijolos amarelos da estrada se manchariam de vermelho, mas ela estava pouco ligando. Porque era Dorothy quem tinha a arma agora, e o sangue a ser derramado não seria o dela.

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