Tigers
22 Xanferhion - A Alegria Roubada - Parte Final
Notas iniciais
Esgueirando-se por entre as tendas, Xanfer e Maita chegam diante a tenda dos escravos.
Maita – Tome cuidado.
Xanfer – Você também.
Como Xanfer havia previsto, todos do clã estavam bêbados e caídos por vários lugares. Os gritos que escutava de escravas, provavelmente sendo estupradas, o fizeram se preocupar com a segurança de Maita. Chegando a sua tenda, Xanfer tenta fazer o mínimo de barulho possível para evitar que seu pai acorde.
– Onde esteve?
Xanfer – O-oi pai.
Aparecendo por de trás de panos que serviam como uma porta, Rutterhion encara friamente o filho.
Rutterhion – Eu acho que te fiz uma pergunta.
Xanfer – Eu estava… deitado no bosque e… acabei dormindo.
Rutterhion – Isso foi antes ou depois de Hidan e seu grupo atacarem?
Xanfer – Foi… depois.
Olhando cruelmente para o filho que mantinha a cabeça baixa, Rutterhion não conseguia parar de tremer.
Rutterhion – Sua mãe morreu ao te dar à luz.
Xanfer – Ah?
Rutterhion – Tentamos muitas vezes. Ela tinha uma doença que a impedia de continuar a gravidez. Você foi seu primeiro e único filho.
Xanfer – Eu não sabia disso.
Rutterhion – Ela quis que eu prometesse que te protegeria de qualquer coisa. E eu sempre cumpro minhas promessas.
Xanfer – Pai.
Rutterhion – Para minha sorte eu não fiz a besteira de prometer isso.
Xanfer – Ah?
Um soco. Com apenas um soco desferido em seu estômago, Xanfer foi arremessado para fora de sua tenda, atravessando diversas tendas em seu caminho. Muitos obstáculos amenizaram o impacto do golpe, mas ele foi arremessado a uma distância de 500 metros. Ele estava paralisado. Não conseguia se mexer. Seu corpo estava dormente pela aparente dor latejante que sentia no local atingido. Vários membros do clã apareceram assustados com a euforia. Alguns revoltados pela destruição de suas barracas, outros espantados pelo ocorrido. Muitos abriram espaço enquanto Rutterhion lentamente se aproximava.
– Mestre Rutterhion.
Rutterhion – O que quer Sui?
Sui – Um detalhe que descobrimos. Acredito que gostaria de saber.
Xanfer é erguido por dois amigos de Hidan e este, com uma faixa ensanguentada no lugar de sua mão esquerda, está diante dele.
Hidan – Olá, príncipe. Eu quero te agradecer por decepar minha mão.
Enquanto seus amigos o seguram, Hidan começa a socar o rosto de Xanfer. Socos monstruosamente fortes que faziam seus amigos tremerem a cada impacto que seu punho fazia em Xanfer.
– Chega!
Obedecendo a ordem do líder, Hidan e os outros se afastam deixando Xanfer de joelhos. Ainda paralisado pelos golpes recebidos, Xanfer não se move quando a sombra de Rutterhion o cobre.
Rutterhion – Soube que você derrubou esses quatro e esmigalhou a mão desse jovem. Muitos dizem que é mentira, mas se for verdade eu quero que me mostre.
Xanfer – (não se mexe)
Rutterhion – Muito do que acontecerá hoje pode ser evitado. Só depende de você.
Xanfer – (mexe os lábios, mas nenhum som é ouvido)
Rutterhion – O que disse?
Aproximando-se de Xanfer, Rutterhion se atenta em suas palavras. Seus olhos começam a tremer e seu punho se fecha. Rutterhion se levanta, joga seu punho para trás e desfere um soco no rosto de Xanfer, enterrando-o parcialmente no solo.
– Hey! Isso é sério? Ele não deve ter sobrevivido depois dessa. Mas o que está acontecendo? – comentavam algumas pessoas do clã.
Sui – ‘Realmente a força dele é assustadora. Eu tive sorte de sobreviver quando nos enfrentamos, mas não sei se posso dizer o mesmo sobre Xanfer'.
Rutterhion – Hum. Ainda respira.
– C-como? Ainda está vivo? Depois de um soco do mestre? Como é possível?
Rutterhion – Quero que todos escutem isso! Depois de oito anos eu fui desafiado. Para liderar este clã eu fui desafiado por Xanfer!
– Xanfer? Como assim? É alguma brincadeira?
Rutterhion – Sua ousadia é tão incrível quanto sua fraqueza! Mas como um líder bom e justo, dei a ele a chance de tentar, mas não sei se ele é capaz de continuar com essa tolice. Levantem-no. Ele vai querer ver isso.
Os dois amigos de Hidan retiram Xanfer dos escombros e o seguram enquanto mais dois membros do clã chegam trazendo uma mulher encapuzada e com as mãos amarradas pela frente. Xanfer arregala os olhos no momento em que ela é colocada de joelhos, tem o capuz é retirado e o rosto revelado. Ele sempre gostou de estar perto dela, mas nesse específico momento, Xanfer desejou não estar vendo o rosto de Maita diante dele.
Hidan – O que ela faz aqui, irmã Sui?
Sui – Planejaram uma fuga.
Hidan – Fuga?
Sui – Sim. Ela e todos os escravos, mas alguém nos avisou.
Os outros dois seguidores de Hidan escoltam uma mulher na casa dos 40 anos e de cabelos castanhos.
Hidan – Quem é essa?
Sui – São irmãs. Foi ela quem me contou sobre esse plano.
Os olhos de Xanfer exibem tristeza enquanto Maita permanece de cabeça baixa.
Rutterhion – Seu nome.
– Me chamo Lamita, meu senhor.
Rutterhion – Aproxime-se.
Observada por todos, a estranha Lamita se aproxima e se ajoelha perante o líder.
Rutterhion – Você é apenas uma escrava que se beneficiaria mais fugindo. Você nunca terá voz, nunca terá poder e nunca será temida aqui. Por que fez isso?
Lamita – Lealdade.
Rutterhion – Hum?
Lamita – Acredito que poderia mostrar minha lealdade ao senhor lhe entregando algo. Esse é o meu presente de lealdade.
Rutterhion – Lealdade, não é?
Lamita – Sim. Não tenho medo do senhor. Pelo contrário. Sempre tive admiração pelo senhor. Sempre o desejei e-
Rutterhion – Já ouvi o suficiente (se vira).
Lamita – Meu se-
Rutterhion – Viram? Mais uma lição que aprendemos hoje! Aprendemos lealdade! Vimos que a lealdade é forte e nos faz entregar nossa própria família ao inimigo! Eu vou mostrar a esta mulher a minha gratidão.
Lamita – Obrigada! Obrigada, mestre Rutterhion! Obriga-
Todos se espantam quando Rutterhion encosta o indicador direito sobre a testa de Lamita.
Rutterhion – O presente que qualquer traidor merece.
Lamita – Mestre-
Rutterhion – Se você traiu sua família, quem garante que não fará o mesmo comigo?
Maita – LAMITA!
Uma pequena ferida é feita na testa de Lamita. Não conseguindo falar, ela leva as trêmulas mãos até a cabeça e, ao olha-las, percebe que elas estão ficando finas. Não somente suas mãos, como o resto de seu corpo também estava emagrecendo e uma dor latejante começara em sua cabeça. Seus olhos, nariz, boca e orelhas começaram a vazar sangue. Um agudo grito acompanhado de feridas que surgiam de sua cabeça transbordando rios de sangue começou, horrorizando muitos. Tão logo começou e logo acabou com o corpo de Lamita caído no chão. Os encharcados olhos de Maita pareciam lâminas que cortavam o coração de Xanfer.
Rutterhion – Está triste pela traição dela? Ou pela morte dela?
Maita – (não responde)
Rutterhion – Tanto faz. Alguém inventou este seu plano de fuga, mas não tenho certeza de que foi você. Quem foi?
Maita – (não responde)
Rutterhion – Respondendo ou não (ergue o rosto dela) você já sabe o seu destino, não-
– AFASTE-SE DELA!
Virando apenas o rosto, Rutterhion olha a origem do grito e vê Xanfer encarando-o furiosamente.
Rutterhion – O que?
Xanfer – AFASTE-SE… DELA!
Rutterhion – Acontecerá alguma coisa se eu não me afastar? AH?!
O sangue de Xanfer ferve quando Maita tem o rosto estapeado por Rutterhion. Mesmo um tapa de leve foi o suficiente para a pequena cuspir uma grande quantia de sangue.
Rutterhion – O que houve? Está com raiva? Quer me impedir? Anda! Faça alguma coisa!
Com mais um tapa acertando o rosto da loira, Xanfer sente seu corpo tremer.
Rutterhion – Quem planejou essa fuga?
Após o terceiro tapa, o ódio transbordava do rosto de Xanfer enquanto os amigos de Hidan se esforçavam para segura-lo.
Rutterhion — Conte-me quem planejou isso ou eu arrancarei mais do que o seu sangue.
Xanfer – EU VOU MATA-LO! DESGRAÇADO! POR TUDO O QUE FEZ! EU VOU-
– FUI EU!
Rutterhion – Ah?
Xanfer – Maita!
Maita – Eu bolei o plano. Eu tentei convencer os outros, mas não me deram atenção.
Xanfer – FICA QUIETA!
Maita – Quis aproveitar esta chance que sempre aparece. Após uma vitória vocês comem, bebem e dormem muito. Sabendo disso eu bolei este plano para fugir com todos os escravos.
Rutterhion – E temos uma confissão. Uma corajosa confissão. As vezes o caminho errado nos fornece o melhor dos benefícios (abaixa na altura dela e sussurra)! Você não sentirá nada.
Virando-se para Xanfer, Rutterhion ergue Maita pelos cabelos e a coloca entre eles. Olhando a expressão de dor da loira, Xanfer começa a se descontrolar. A raiva se esvai de seu corpo ao ver as mãos de Maita direcionadas a ele em sinal de "pare".
Xanfer – Não faça…
Rutterhion — Xontorian Jihi (Misericórdia dos Xontorianos)
Xanfer — NÃO FAÇA-
Um forte impacto ocorre quando Rutterhion encosta sua mão esquerda nas costas da loira. A carne e os ossos de Maita são estraçalhados e espalhados num raio de cinco metros. Permaneceram apenas seu sangue que inundou o chão e os fios de cabelo presos na mão direita de Rutterhion que logo são soltos e levados pelo vento.
Sui — 'Jogar pressão em todo o oxigênio de seu corpo e expandi-lo instantaneamente. Ela não sentiu nada, mas... (observa os restos espalhados e leva a mão até a boca) meu deus. O que você espera conseguir com isso?'
Não aguentando ver a cena, algumas pessoas vomitam. Com satisfação estampada em seu rosto, Rutterhion observava o filho que estava paralisado.
Rutterhion — O que foi? Vamos! Faça algo! Não disse que iria me matar? Por tudo o que eu fiz? Hã!
Xanfer, agora liberto daqueles que o seguravam, não sabe o que responder. Seu corpo apenas não se movia. Rutterhion se aproxima e uma densa pressão o envolve.
Rutterhion — A sua inutilidade realmente me irrita.
Paralisado, Xanfer apenas olhava o sangue espalhado pelo chão enquanto lembrava do sorriso que Maita manteve antes do golpe de Rutterhion. O líder de Xontor teve sua caminhada interrompida quando algo estranho acontece: Xanfer começa a rir.
Rutterhion — Huhuhuh! Enlouqueceu?
Xanfer — Quer ouvir algo bom, pai?
Levantando-se do chão e encarando Rutterhion, Xanfer exibia um insano sorriso.
Xanfer — Eu também sempre cumpro minhas promessas.
Rutterhion — ?
Xanfer — Pelo o menos algo eu puxei de você. Está feliz?
Rutterhion — O que pretende? Quer me comover para que eu não o mate?
Xanfer — Não. É bem diferente.
Rutterhion — Hã?
Xanfer — Muitos não estão acreditando, então deixarei oficial (aponta o indicador). RUTTERHION! EU TE DESAFIO!
Rutterhion — O que?
Xanfer — PELA LIDERANÇA DO CLÃ DE XONTOR!
– Ele o desafiou. É sério? Ele desafiou o mestre?
As mãos trêmulas e os olhos vermelhos exibiam claramente o ódio que Rutterhion sentia.
Rutterhion – Como ousa? Me humilhando mais depois de tudo?
Xanfer — Você aceita?
Rutterhion – EU VOU TE MATAR SEU FILHO INÚTIL!
Uma grande pressão rodeia o corpo de Rutterhion. Com velocidade e força descomunais, ele avançava mais e Xanfer apenas o observa. O sorriso em seu rosto desaparece e um semblante triste domina sua face.
Xanfer — 'Ódio. Isso é tudo? Você não sente mais nada por mim?'
O punho repleto de fúria de Rutterhion se aproxima do rosto de Xanfer.
Xanfer — 'Se ódio é tudo o que sente por mim (o sorriso louco volta ao rosto)... não me arrependerei nenhum pouco do que farei.'
O golpe é desferido, uma grande nuvem de poeira se forma acompanhada de tremores e rachaduras. Um estranho objeto fora jogado a uma distância assustadora.
Hidan — Isso foi fascinante! Irmã Sui! Isso foi- Irmã Sui?
Sui — Tem algo errado.
No centro do impasse, Rutterhion observa sorrindo o local onde seu punho deveria estar enterrado.
Rutterhion — Desapareça junto com sua inutilidade.
A poeira baixa e Rutterhion vê o filho em pé diante dele.
Rutterhion — COMO?!
A poeira começa a baixar e alguns membros do clã que assistiam a luta começaram a gritar e isto chamou a atenção de Rutterhion. Olhando para os lados ele percebeu que todos estavam olhando para ele. Eram expressões de espanto e pavor e que também estavam no rosto de Sui.
Rutterhion — O QUE É QUE ESTÃO OLHANDO?! EU APENAS ERREI O GOLPE! EU O MATAREI AGO-
Ao erguer seu braço direito e apontar para Xanfer, Rutterhion percebe que seu braço não estava lá.
Rutterhion — Mas o que... (trêmulo, leva a mão esquerda até o ferimento)
Meio cambaleante devido a grande perda de sangue, o líder de Xontor não aparentava sentir a dor de seu membro arrancado. Em nenhum momento o estranho sorriso sumiu da face de Xanfer.
Xanfer — Qual é a sensação?
Rutterhion — O que?
Xanfer — A sensação de ter a morte diante de você?
Rutterhion — O que acha que eu já vivi garoto? Acha que um braço arrancado vai me derrubar? HÃ!
Mais um violento soco é desferido por Rutterhion. Repetindo o gesto, Xanfer desfere um soco no punho de seu pai. Um violento choque ocorre, mas a força superior que Xanfer possuía terminou por esmigalhar o punho de Rutterhion.
Hidan — O QUE DIABOS TÁ ACONTECENDO?!
Sui — ...
Hidan — (ameaça avançar para impedir a luta, mas é detido por Sui) Por quê?
Sui — Interrompa esta luta e eu mesma te mato.
Hidan — Por quê?
Sui — O desafio feito fora aceito. Ninguém deve interferir até a luta acabar.
Hidan — QUE LUTA SUI?! É DO MESTRE RUTTERHION QUE ESTAMOS-
A atenção deles é novamente ganha quando Rutterhion recebe um soco em seu estômago. Perdendo forças e sem ar, ele se apoia em um dos joelhos.
Xanfer — Inútil. Fraco.
Rutterhion — ?
Xanfer — Esmague uma raiz de Teela e conte os pedaços. Esse é o teste para medir a força de um Xontoriano, não é?
Rutterhion — E o… que tem isso?
Xanfer — Eu esmaguei dez raízes e cada uma delas deu 30. Essa é a minha força. A cada dia eu fico 30% mais forte.
Sem mudar sua expressão, Rutterhion, incrédulo, apenas escuta o filho. Muitos residentes não acreditavam no que Xanfer dizia, mas as evidências mais do que claras diante deles não deixavam nenhuma dúvida. Xanfer se abaixa e sussurra apenas para que seu pai ouça.
Xanfer — Pense em como eu me senti sabendo que em meu sétimo aniversário eu já era mais forte do que você. Aquele considerado o mais forte dos Xontorianos. Consegue imaginar o susto que tive?
Rutterhion — Por que se escondeu?
Xanfer — Você saberia se soubesse escutar (olha ao redor). Todos tem medo de você. Até ouvi planos que envolviam sua morte enquanto dormia.
Alguns membros do clã, quando encarados por Rutterhion, não conseguem disfarçar a alegria de vê-lo naquele estado.
Rutterhion — Você também queria isso, não é?
Xanfer — Eu não queria nada de você. O que eu queria… (rindo loucamente) a única coisa que eu queria… você tirou de mim.
Rutterhion — E o que vai fazer? Me matar?
Xanfer — (se levanta)
Rutterhion — (ri) Você pode ten-
Recebendo um soco no lado direito de seu tórax, Rutterhion vai ao chão e sente algo lentamente se quebrando em seu peito. Uma dor agonizante percorre o local atingido fazendo-o gritar desesperadamente. Todos, inclusive aqueles satisfeitos com o estado de seu líder, se abismaram com a intensidade do grito.
Rutterhion — O QUE É ISSO?! O QUE… O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?!
Xanfer — Apenas direcionei a pressão do soco para seus ossos. Qual é a sensação de ter seus ossos se quebrando e perfurando seus órgãos?
Rutterhion — MALDITO!
Xanfer se aproxima e soca seu rosto na altura do olho. Os ossos de seu crânio se quebram e perfuram seu olho direito. Outro grito assustador surgiu de Rutterhion.
Xanfer — O quer foi? Seu olho está doendo? Deixa que eu tiro ele daí.
Segurando seu queixo e Impedindo-o de se mexer, Xanfer tenta retirar o olho que fora perfurado e Rutterhion urra de dor. Seu olho esquerdo arregalado e sua tentativa de fuga fizeram com que Xanfer esmigalhasse parte de seu maxilar com a força de sua mão direita.
Hidan — Irmã. O que está acontecendo?
Sui acaricia uma cicatriz abaixo do seio direito e relembra o dia em que Rutterhion arrancara uma de suas costelas e mutilou o próprio rosto.
Sui — O mesmo que ocorreu comigo, Hidan. O clã está prestes a ter um novo líder.
Vendo seu pai se afogando no próprio sangue, Xanfer não encontra mais razões para continuar e se afasta. Tentando respirar, Rutterhion junta o restante de sua força e se vira fazendo com que o sangue que estava sendo acumulado em sua garganta escorresse, permitindo sua respiração. Olhares de pena e satisfação eram dirigidos à Rutterhion, mas o fato mais estranho fora sua reação: ele começou a rir. Com os restos de sua mão esquerda, ele começa a escrever algo no chão. Xanfer se aproxima e derruba lágrimas ao ler o que havia sido escrito.
Xanfer — Por quê?
Uma suposta gargalhada é iniciada por Rutterhion, mas ela é interrompida quando Xanfer desfere um soco no rosto de seu pai, arrancando-lhe a cabeça.
Hidan — Não (se ajoelha). Isso não pode…
O corpo de Rutterhion lentamente vai ao chão e um silêncio doentio iniciou-se por todo o clã. Aproximando-se do cadáver, Xanfer perfura com ambas as mãos o tórax do corpo e rasga sua carne. Arrancando o primeiro osso que surgiu e este formando uma ponta cortante, Xanfer inicia a marcação de um "X" em sua testa.
–------------------------------------------------------------------------
– Que bagunça. O que está acontece...
Entrando na tenda dos anciões, Xanfer vê claramente a expressão de susto deles. Com a recente marca em sua testa e com sangue por todo o seu corpo, ele se aproxima dos anciões e arrasta consigo o corpo de seu pai.
– O que isso significa? — indagava o segundo
Xanfer — Alurhion.
– Como sabe o meu nome? — perguntou o do meio.
Xanfer – Uma vez bêbado ele balbuciou esse nome.
Estendendo sua mão direita ele deixa algo cair: os restos da cabeça de Rutterhion.
Xanfer – Agora ele não balbuciará mais nada.
Alurhion – Entendo.
Xanfer – O que você disse a ele?
Alurhion — Nós previmos que um líder do clã seria morto por seu filho.
Xanfer — Disseram que eu o mataria?
Alurhion — Apenas feixes nos são revelados. Nunca dissemos que você iria matá-lo. Ele simplesmente adotou essa ideia e o medo começou a segui-lo.
Xanfer — Por que fizeram isso?
Alurhion — Nossas visões devem guiar o líder do clã.
Xanfer — Ele sempre me odiou por causa dessas visões.
Alurhion — Ele te odiou por que era seu destino ser odiado.
Xanfer — VOCÊS SÃO OS CULPADOS POR TUDO O QUE ELE FEZ!
Alurhion — Nós somos os anciões de Xontor. Durante eras nossos antepassados guiaram este clã. Por mais de cinco mil anos nossas palavras fizeram com que prosperássemos e que tivéssemos um novo amanhã. Sem nossas verbalizações o que acha que aconteceria com o clã de Xontor?
Xanfer — O que eu acho não te interessa.
O olhar gélido de Xanfer exibia claramente suas intenções.
Xanfer — Por que este clã está saturado de visões vindas de velhos decrépitos.
Alurhion — Então muito bem. Tome cuidado com suas decisões para que elas não se tornem arrependimentos. Nós saudamos o novo líder do clã de Xontor e lhe desejamos sorte.
–------------------------------------------------------------------------
Saindo da tenda dos anciões e recebendo diversos olhares dos membros do clã, Xanfer encara todos seriamente enquanto carrega a cabeça de seu pai. O silêncio perpetuou por inacabáveis segundos, mas logo chegou ao fim.
Xanfer — Rutterhion não existe mais. Eu o desafiei. Eu o matei. De hoje em diante eu serei seu líder.
– (cochichos se iniciam)
Xanfer — Ajoelhem-se.
– O QUE? NOS AJOELHAR? QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
Xanfer — Eu sou o líder do clã de Xontor. Aquele que não aceitar minhas ordens, que venha aqui e me desafie.
O medo era visível em muitos do clã e, pelo provável resultado, ninguém se pronunciou de imediato.
Hidan — Que se dane! (tomando a frente)
Sui — Hidan!
Hidan — Eu o matarei e irei provar que sua vitória foi uma farsa!
Com um sorriso no rosto, Xanfer joga a cabeça de seu pai nos pés de Hidan.
Xanfer — Acha que isso é uma farsa?
Hidan — Tsc!
Xanfer — Pela sua coragem eu o matarei rápido.
A mão trêmula de Hidan deixava bem visível sua hesitação, mas isso não o impediu de iniciar seu ataque. O impasse cessou antes dos primeiros golpes serem trocados devido a um grito vindo da entrada do clã: várias flechas com suas pontas incandescentes começaram a cair, acertar e incendiar tendas e pessoas. Uma flecha de ponta vermelha acerta o olho esquerdo de Hidan e este cai se contorcendo de dor. O rugido de uma conhecida fera fez alguns membros do clã se assustarem.
– UM TELAKIR ALFA!
Sui — Não pode ser.
Muitos ali estavam apreensivos, mas Xanfer agia calmamente enquanto os campos em volta do vilarejo eram cobertos por centenas de homens e mulheres de diferentes estaturas e munidos de porretes, martelos, espadas e machados. Mas a aparição de um robusto homem de cabelos brancos e lisos, trajando uma roupa feita de pele e ossos e cavalgando um enorme lobo negro fez com que os mais velhos do clã, principalmente Sui demonstrarem um grande pavor.
Sui — BAERY!
– O-o-o líder dos Bárbaros do Norte?
Sui — Por quê? Por que ele está aqui?
Baery — RUTTERHION!
A voz daquele ser era tão forte que lembrava o som de um trovão ecoando pelos céus.
Baery — Onde está seu líder?
Alguns tímidos olhares são direcionados para Xanfer que encarava Baery paralisado, mas nenhuma resposta fora dada.
Baery — A morte espera por vocês para onde quer que corram. Digam-me onde está Rutterhion.
Ninguém se manifesta.
Baery — Estou oferecendo a chance que nenhum de vocês merece: a de lutarem por suas vidas. Apenas me entreguem Rutterhion.
Sui — Não podemos fazer isso.
Baery — Não? Sua lealdade é tão forte assim?
Sui — É impossível agora.
Baery — Então todos irão morrer.
Os gritos de pavor de alguns membros do clã, os de dor Hidan, e os de intimidação originários do exército de Baery fizeram com que Xanfer perdesse a calma. Puxando Hidan pelos cabelos e arrancando a flecha, junto com seu olho, ele a ergue e aponta para o inimigo.
Xanfer — BAERY!
O silêncio é geral quando o grito de Xanfer ecoou.
Xanfer — EU SOU O 18° LÍDER DO CLÃ DE XONTOR!
Baery — Isso é alguma piada?
Xanfer — Pelas minhas mãos a vida de Rutterhion foi tirada.
Baery — Como é?
Xanfer — E pelas minhas mãos a vida de todo o seu clã e principalmente a sua também será tirada!
Baery — HA! Você tem a audácia que não condiz com seu físico, garoto! Lembrarei de arrancar suas tripas antes de mata-lo.
O grande lobo se vira e se retira do vilarejo. Baery logo chega ao topo da colina, onde seu exército o aguardava. Erguendo uma lança de três pontas, Baery a direciona para o vilarejo.
Baery — O inimigo escolheu o caminho fácil! Façam o que quiserem com eles!
A alegria de sua armada era facilmente visível pela ferocidade de seus passos em direção ao vilarejo.
– Nós vamos morrer! NÓS VAMOS MORRER! AAAAHHHH! MESTRE RUTTERHION, NOS AJUDE! Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Eu não quero morrer.
Xanfer — CALEM A BOCA!
A passos lentos e determinados, Xanfer caminha em direção a entrada do clã.
– O que ele vai fazer? Quer se matar?!
Sui — O que?
Dentre todos ali, Sui foi a única que sentiu uma terrível vibração vinda de Xanfer que está diante de mais de cem guerreiros armados e com golpes iniciados e direcionados para ele.
Xanfer — NAESHI!
Esta única palavra junto com o fechar de seus punhos fizeram com que uma gigantesca redoma de energia se iniciasse diante de Xanfer. Alguns segundos se passam e os guerreiros diante do jovem caem imóveis. O espanto da armada de Baery e dos próprios Xontorianos era notável.
– O que foi isso? Ele fez isso só com a pressão do Naeshi?
Xanfer — Hey! Vocês estão tremendo e chorando. Estão com medo deles. Estão com medo de morrer. Vocês realmente se consideram Xontorianos?
– Do que ele…
Xanfer — Tudo o que um Xontoriano deve fazer em sua patética existência é viver o suficiente para matar seus inimigos! Uma tarefa simples! Nem pra isso vocês servem?
– MALDITO! O QUE PENSA QUE ESTÁ FALANDO?
Xanfer — Meu pai tentou me matar, mas ele não conseguiu. Eles (apontando para os corpos) tentaram me matar, mas não conseguiram!
Sui — 'Xanfer.'
Xanfer — Eu não vou morrer! Eu vou matar todos! Todos que entrarem em meu caminho. Todos que tentarem me matar! POR QUE EU SOU UM XONTORIANO!
Alguns membros que estavam ajoelhados de pavor, novamente se erguem com seus espíritos renovados.
Xanfer — Vocês são Xontorianos?
– RUH! — todos erguem suas armas euforicamente.
Xanfer — Xontorianos não morrem!
– RUH!
Xanfer — Xontorianos não temem!
– RUH!
Xanfer — Xontorianos matam!
– RUH!
A moral de todos aumenta e o rugido deles deixa claro sua vontade: eles não querem morrer.
Xanfer — Vão lá e façam o que os Xontorianos fazem de melhor!
– RUH!
Xanfer — Só não fiquem no meu caminho, pois estou muito puto agora!
Sui — O que?
Xanfer — Xontorian Gaeshi!
A pressão que fora iniciada após as palavras de Xanfer fizeram com que Sui e muitos membros do clã se ajoelhassem apavorados. O sorriso estampado no rosto do jovem xontoriano era assustador.
Hidan — Irmã Sui!
Sui — Tão jovem e com tanto poder.
Xanfer — Se vocês realmente são Xontorianos…
Sui — É imensurável.
Xanfer — MATEM TODOS!
–------------------------------------------------------------------------
A história da morte de Rutterhion, da ascensão de Xanfer na liderança do clã de Xontor, da queda do líder dos Bárbaros do Norte na mesma noite e das quase 4000 vidas que ele levou em sua primeira batalha se espalhou com o vento. Reconhecido por todos como líder, Xanfer, agora chamado Xanferhion, tornou-se o maior dominador na história de Xontor e símbolo de terror pela simples menção de seu nome. Nos 15 anos seguintes, o clã de Xontor prosperou e nunca fora tão poderoso e ameaçador, mas mesmo assim havia um inimigo que ele ainda não teve a chance de enfrentar.
E esse momento enfim havia chegado…
–------------------------------------------------------------------------
Uma extensa e desértica clareira era vista sendo ocupada por centenas de guerreiros. Alguns andando, outros montados em Gauris e um montado em um Telakir Alfa. Um dos guerreiros vê algo se aproximando, pega uma luneta e tenta focar o desconhecido objeto.
– Senhor. Tem algo vindo em nossa direção.
– É só eliminar. – responde sem virar o rosto.
Tendo a imagem mais nítida do que estava vindo, o observador começa a suar frio e sua face demonstra pavor.
– É… V-Venks Dregon! VENKS DREGON ESTÁ VINDO!
Muitos se espantaram e começaram a se apavorar. O líder se vira revelando sua cicatriz com a forma de “X” em sua testa e o sorriso diabólico.
Xanferhion – Finalmente!
Nos dias atuais…
Toni – Sua alma… será selada para sempre… no coração gélido de… Ann Yria.
Xanferhion – O que?
Toni – SEIKA –TAMASHII NO CHOOEKI (Canção Sagrado – Aprisionamento da Alma)
Ao receber o golpe de Toni, Xanferhion relembra de seu encontro com Venks Dregon. O guerreiro de Xontor era claramente maior e mais ameaçador que seu inimigo.
Venks — O seu clã é formidável. Muito formidável. Seria uma grande tristeza se ele fosse eliminado.
Xanferhion – Você não é o primeiro que disse isso. Imagino qual frase será dita pelo próximo que matarei depois de você.
Atualmente…
Xanferhion – ‘Por quê estou me lembrando disso?’ O que- O que foi isso? Frio. Foi o mesmo que Barok tentou fazer. Como você-
Suas memórias voltam a incomoda-lo e, desta vez, Xanferhion está de joelhos diante de seu exterminado exército.
Xanferhion — O que- O que foi isso?
Venks – Esse foi todo o seu ódio? É tão patético assim ou só está assustado?
Xanferhion – Você acha que me assusta? Há! Há! NÃO ME ASSUSTA!
No presente, Xanferhion golpeia o chão com o braço congelado, mas este acaba se partindo em vários pedaços. Suas memórias voltam e, desta vez, Xanferhion está caído, totalmente imóvel e apavorado.
Venks – Você é fraco. E a vida que está em sua carne é inútil.
Xanferhion – Não é… possível.
Venks – Você morrerá, mas não hoje.
Se afastando de Xanferhion, Venks Dregon fica de costas, pega a lança de três pontas e a joga ao lado de Xanferhion.
Venks – Você viverá.
Xanferhion – O que?
Venks – Continuará fazendo exatamente o que fez até hoje, mas é o meu nome que você levará.
Xanferhion – Prefiro morrer a segui-lo.
Venks – A paciência é uma virtude que eu realmente não tenho.
Uma densa aura sombria começa a se erguer do solo acompanhando o virar de Venks.
Venks – Existem diferentes formas de força neste universo. A sua aumenta através do descanso. A minha aumenta através do medo.
Xanferhion – Medo? Há! Eu não estou com medo de você.
Venks – É o que você diz, mas e o seu exército?
Xanferhion – Ah?
Venks – Mesmo suas almas estão transbordando pavor pela minha simples presença aqui. Apenas feche seus olhos e ouça a lamentação deles.
A aura maligna aumenta e, mesmo sem fechar os olhos como o ordenado, Xanferhion enxerga seus companheiros mortos se lamentando de medo. O pavor nos olhos do xontoriano era facilmente visível.
Venks – Todo esse medo não é nada comparado ao que eu já espalhei por esse mundo. Ao pavor que muitos sentem em apenas achar que sonharam comigo. O que eu estou tentando dizer, guerreiro de Xontor, é que…
Neste momento Venks Dregon pega uma das almas pela nuca e esta começa a se debater.
Venks – …mesmo após a morte você estará condenado ao sofrimento imposto por mim.
Os gritos da alma aterrorizaram o guerreiro de Xontor.
Xanferhion – Eu aceito! Acatarei suas ordens!
Venks – Esperto.
No que Venks Dregon aparentava estar mais calmo, as almas começam a desaparecer junto com a aura densa.
Venks – De hoje em diante, não importa o que você faça neste mundo, eu saberei. Pise em falso e sua alma estará condenada.
Xanferhion – Maldito!
Ao ritmo que Venks Dregon se afastava de Xanferhion, este se levanta com dificuldade e alerta seu inimigo.
Xanferhion – Eu vou mata-lo! Você irá implorar para que eu o mate rapidamente! Mata-lo e recriar meu clã! EU TE GARANTO ISSO! EU O MATAREI! VENKS DREGON! AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH-
Atualmente, o gelo cobre seu rosto e, devido seu braço destruído, todo seu corpo começa a trincar e logo se desfaz em vários pedaços.
Xanferhion – ‘Minha vingança. Eu preciso mata-lo. Preciso mata-lo. Preciso-‘
…
Fale com o autor