Tiger Soul
2 Capítulo 2 - Espada
Notas iniciais
Daichi está na sua cama dormindo e sonhando com o que ocorreu na noite anterior. Vê cenas dele segurando a espada, do demônio vindo em sua direção, do desembainhar e da transformação, quase como em câmera lenta: ao mesmo tempo em que a lâmina vai saindo da bainha, há um brilho contornando a arma e é como se a parte de pedra apenas envolvesse o metal. Fragmentos vão caindo. O brilho metálico e polido de sua katana vai aparecendo. O sonho vai terminando com ele vendo a criatura sendo dividida ao meio por suas mãos. A cena o faz acordar, ainda está longe do horário de se levantar para a aula.
Levanta permanecendo sentado na cama. Olha para o lado e vê na sua mesinha de estudo a espada que usara no sonho. Saiu da cama e a segurou com tamanha firmeza esperando que o ocorrido tivesse sido apenas um pesadelo. O leve desembainhar já mostra a lâmina metálica da arma.
Daichi: não foi um sonho. – olhando sério para a espada.
Abre mais um pouco, olha por um segundo e fecha com rispidez. Deixa-a de volta na mesa e volta para a cama pensando no que fazer no dia seguinte. Novamente cai no sono.
***
Já no dia seguinte, em sala de aula, na mesma carteira, fica olhando para a janela pensando se deve procurar Raed de novo. Seus pensamentos são interrompidos pelas mãos de Aika revirando o seu cabelo.
Aika: Bom dia Daichi. Como você está hoje? Mais animado?
Daichi: Talvez se você não me embaraçasse todo eu poderia estar mais animado. – ajeitando o cabelo.
Aika: Ai credo que azedo. Hã... — olhando para a espada no chão – mas o que é isso que você trouxe?
Daichi: Uma espada, o que mais poderia ser?
Aika: Você comprou uma? Pra que? Nem é bom na esgrima.
Daichi: Eu encontrei ela ontem. É uma longa história.
Aika: Sei... E o que você pretende fazer com ela?
Daichi: Não sei ainda.
Cris: Devolve ela. – aparecendo do nada como de costume.
Aika: Aaai. De onde você saiu? Como você não toma susto dele?
Daichi: Costume. O que você estava falando?
Cris: Essa espada é igualzinha a uma que foi roubada de um carregamento a dois dias para uma exposição no museu da cidade. O que os cientistas acham mais curioso nela é sua lâmina que era composta de uma rocha bastante resistente que não esfarela. Estavam levando junto com o resto do material para datação. – enquanto isso Aika grita palavras de não me ignorem.
Daichi: Como você sabe de tudo isso?
Cris: Minha mãe me obriga a ler o jornal todo santo dia. Diz que é pra eu criar habito para depois quando eu for prestar vestibular. Eu to na sexta série ainda caramba, não to a fim de me preocupar com vestibular agora.
Daichi: Já sei o que fazer depois da aula.
Aika: Que bom, vou com você.
Daichi: o quê? – Berrando de leve.
Aika: Vou sim
Daichi: Vai não, não te chamei.
Aika: Tudo bem, te sigo depois da aula.
Daichi: (com cara de bunda) Ok, pode ir.
Aika: Ai obrigada Daichi, como você é gentil em me chamar. – saltitando até o seu lugar de sentar — Obaa vamos ao museu.
Daichi: (ainda com cara de bunda) Ela ainda tira sarro.
Cris: É irmãozinho, temos companhia pra hoje.
Daichi: AAAAh, você vai também?
Cris: Se ela vai, eu também vou, afinal de contas você não sabe com quem falar no museu huahuahua. – tirando sarro.
Daichi: (caindo com a cara na mesa e com lágrimas nos olhos) Eu não mereço.
***
Daichi: Chegamos.
Estão parados em frente a uma construção de quase três andares, não muito largo, mas bastante comprido em seu interior o que não aparenta pelo lado de fora. Uma escrita grosseira ao lado dos quatro portões de entrada diz: Museu de História Natural. As paredes do lado de fora possuem um tom marrom escuro, passando a impressão de ser feito de madeira. Possui grandes janelas de vidro fosco na entrada na altura do segundo andar, mostrando apenas vultos das pessoas que circulam por ali. Os três entram no museu. Lá vêem três recepcionistas sentados do outro lado de uma mesa de mármore um tanto alta mostrando praticamente o busto dos atendentes. Perto da mesa, faixas divisórias para formação de fila da compra das entradas do recinto. A recepção fica no centro tendo uma divisória de vidro mais atrás indo de uma lateral da parede a outra. No lado esquerdo da recepção tem-se escrito na parte de cima de uma porta com um leitor digital na parede: entrada funcionários. E do lado direito, com catraca: entrada visitantes. A diferença está que a porta da esquerda se encontra fechada e a da direita aberta. Para a sorte deles o museu aparentemente está sem movimento.
Os três caminham até a recepcionista ao centro.
Daichi: Boa tarde.
Recepcionista: Boa tarde. São três “meias”?
Daichi: Não exatamente.
Cris: Estamos procurando o professor Misri.
Recepcionista: Musrir. Sei de quem fala. Aqui a gente o chama pelo primeiro nome. O sobrenome dele é difícil de pronunciar. O que seria?
Cris: Meu amigo aqui achou algo que ele procura.
Recepcionista: Outra espada.
Daichi: Como outra?
Recepcionista: Já perdi a conta de quantas pessoas já apareceram com falsas espadas querendo a recompensa.
Aika: Recompensa?! – com os olhos brilhando – de quanto?
Daichi: Aika, por favor. – tirando ela da frente – A senhorita, por favor, poderia ligar para ele para examinar a espada. Se realmente não for a que ele procura iremos embora sem insistir.
Recepcionista: (suspiro) Ta bom. – ligando.
Cris: Com relação à recompensa...
Daichi: Depois a gente conversa.
Recepcionista: Podem subir pela entrada de funcionários. Eu libero pra vocês. Depois da porta tem uma escada que desce a esquerda. Descendo ela no final do corredor é a sala do professor.
Os Três: Obrigado.
Eles passaram pela porta já acharam a escada e desceram com pressa. Passando por todas as salinhas de escritório com os nomes dos responsáveis pelo museu. Chegando então na última porta onde se lê: Professor Misrῑ, R.
Cris é o primeiro a abrir a porta, seguido por Aika, e por último Daichi.
Professor: Boa tarde crianças, em que posso ajudá-los?
Antes de atravessar a porta Daichi parou um instante e reconheceu a voz que falava com eles. Assim que Aika saiu de sua frente ele viu um homem alto, forte, de cabelos curtos e escuros, olhos também escuros, vestindo uma roupa social com gravata e seu paletó estava pendurado atrás da porta. Mesmo de roupas diferentes Daichi reconheceu a voz e o rosto daquela pessoa. O professor era Raed.
Aika: Boa tarde professor. Gostaríamos de te mostrar uma espada que meu amigo encontrou ontem. Daichi, que que você está fazendo parado aí na porta? Entra logo.
Daichi está de boca aberta apontando para Raed.
Daichi: Eeeu... Eu te conheço. – entrando de maneira energética na sala e apontando em direção ao rosto do professor – Seu nome é Raed. Nos conhecemos ontem na escola.
Raed: Realmente conversamos ontem na escola.
Daichi: E no episódio de ontem de noite. Aquilo aconteceu né? Responda-me.
Raed: Pra que responder uma pergunta que você já sabe a resposta. Alias você já sabe a resposta de duas perguntas.
Cris: o que está acontecendo aqui?
Aika: Também quero saber.
Daichi: Cris saia com a Aika, quero falar em particular com o professor. É sobre aquele assunto que você sabe qual é.
Cris: (com certa cara de surpresa) Certo Aika, vamos embora. – empurrando a garota.
Aika: Como assim? Eu quero ficar aqui. – sendo arrastada para fora da sala.
Enquanto seu amigo arrasta a garota para fora do escritório, Daichi os segue com os olhos. Assim que a porta é fechada ele se vira de aparência séria para o homem a sua frente. Finalmente estavam a sós e o silencio paira. Ele deixa sua mochila no chão. Pega a espada e deixa-a na mesa.
Daichi: Não sei por que você quer que eu fique com ela, mas eu não a quero. Estou devolvendo.
Raed faz uma cara um tanto de surpreso com a reação do garoto. Ele a pega e se aproxima do rapaz.
Raed: Infelizmente... Mesmo que eu quisesse... Esta espada nunca pertenceu a mim e nunca pertencerá. Ela é sua Daichi e você precisa aceitá-la. – aproximando a arma para perto do menino.
Daichi: Por que essa insistência comigo? Já tenho que me virar com o monte de almas penadas que aparecem. Por que mais esse problema pra mim? Eu não pedi isso. – se virando com a alça da mochila na mão para ir embora.
Raed: — segurando o braço do rapaz – Ninguém pede por isso. Eu mesmo não pedi, mas a gente aprende a lidar com isso. Você aprendeu sozinho a lidar com seu dom. Agora eu te ofereço a oportunidade de treinar comigo e aprender a controlar e entender tudo de estranho que irá acontecer com você a partir de agora.
Daichi: Estranho? Do que você está falando?
Raed: Você viu um demônio ontem Daichi e o mandou de volta para o inferno. Você realmente acha que outros não aparecerão? A partir de agora terá que aprender a se defender, pois mesmo que não queira, você, seus amigos e sua mãe estão em perigo.
Daichi: O que? Por que eles estão em perigo?
Raed: Pois a partir de ontem você acaba de se tornar oficialmente um Cavaleiro Espiritual. Você continuará a ver demônios e espíritos perturbados incomodando as pessoas, se alimentando de suas raivas, ódios e desavenças. Alimentando-se de suas energias espirituais e engolindo almas de pessoas mortas que não conseguem atravessar.
Daichi mostra uma cara de espanto e de horror enquanto ouve o que Raed fala. Ele não consegue pronunciar uma palavra.
Raed: Eu sei... E tenho certeza que você não agüentará vê-los sem fazer nada a respeito. Você não é assim. Mesmo você sabendo o quanto ainda é fraco sabe o quanto no fundo é forte e fará algo para ajudar os outros. Você já fez isso na sua escola. Apanhou dos encrenqueiros para salvar outros mais fracos que você.
Daichi: Você anda me espionando? A quanto tem...
Raed: Não é essa a questão. A questão é que eu acredito em você. E eu sei que no fundo você queria que algo desse tipo acontecesse, que você queria essa oportunidade. Daichi... Não a desperdice. Por favor – pondo a arma contra o corpo do garoto – você nasceu para isso. Leve-a. Amanhã conversaremos mais.
Daichi fica sem ter o que fazer. Na hora permaneceu olhando a espada e aos poucos seu braço movimentou-se e a pegou das mãos de Raed. Vários pensamentos começaram a passar pela sua cabeça. Permaneceu olhando para a arma e enquanto pensava. O professor voltou a sentar a trás da sua mesa. Ele ficou parado olhando para o garoto. O rapaz olha para Raed e ele o sorri.
Daichi: Conversamos amanhã?
Raed: Com certeza.
Daichi sai da sala e fecha a porta. Está cabisbaixo e com a espada presa na mochila.
Aika: O que foi que houve?
Daichi: Depois eu conto... — A amiga faz uma cara de quem não gostou – prometo.
Cris: Vamos então.
Eles deixam o museu e continuam andando calados por um tempo.
Aika: (sussurrando para Cris) O que você acha que aconteceu hein?
Cris: Aika, sinceramente, eu não sei. Acho melhor você esperar que ele conte, vai ser melhor.
Aika: Mas eu não agüento. Essa curiosidade está me matando.
Daichi: Gente. – os três param – Me perdoem por não contar o que está acontecendo de fato. É muita coisa para mim. Eu mesmo não entendo imagina vocês.
Aika: Daichi, somos seus amigos, pode contar o que quiser pra gente.
Daichi: Acho que sim. Amanhã nos falamos.
Ele sai correndo pela rua em direção a sua casa deixando os amigos para trás. Enquanto corria pensava nas palavras que o homem havia falado. Chegou até uma praça e sentou no primeiro banco que viu. Estava cansado e ainda faltava algumas quadras até chegar em casa. Começou a olhar para os lados. Ao longe viu um grupo com quatro jovens conversando e dando risada. Deviam ter entre 15 e 17 anos. Mesmo de longe ele viu alguma coisa estranha ao redor deles. Duas garotas passeando tranquilamente passam perto dos jovens que começam a mexer com elas. As coisas estranhas em volta começam a ganhar forma. Ele se espanta e permanece olhando a cena. Começa uma confusão. Um deles agarra uma das garotas pelo braço e ela o enfia um tapa no rosto. As criaturas ganham forma e se posicionam sentadas nos ombros de dois dos jovens. Aquele que segura a garota puxa uma faca e aponta para ela e o outro agarra a amiga. Os outros dois só ficam olhando. Daichi não se segura e agarra a espada e vai de encontro a eles.
Jovem com a faca: Você acha mesmo que alguém me dá um tapa e fica impune. Quem você pensa que é? E não adianta gritar que ninguém vai ouvir vocês.
Garota: Por favor me solte, só quero ir pra casa.
Jovem com a faca: Ainda não boneca, agora a gente vai ter uma conversinha de adulto.
Daichi: (gritando) Larguem elas.
A atenção de todos se volta para o rapazinho segurando a espada do lado esquerdo e feição fechada.
Rapaz segurando a outra moça: Aí Gui olha o moleque pagando de machão. – todos os rapazes começam gargalhar.
Gui: hahaha — empurrando a garota para um dos rapazes que só olhavam — O garoto some daqui antes que sobre pra você hein. E olhe lá de contar para alguém. – falando e apontando a faca para o rapazinho.
O jovem se vira e neste momento ele ouve o som do desembainhar de espada e se vira. Quando olha para trás vê o garoto no ar com a espada nas mãos com a lâmina apontada para ele. No susto ele tropeça e cai e Daichi finca a espada no chão passando a milímetros do rosto de Gui. O demônio que estava montado em seus ombros e que apenas Daichi podia ver foi perfurado e começa a se dissolver. O garoto no chão para assustado olhando para a lâmina. Daichi chuta a faca e o rapaz que segurava a outra garota e com o demônio em seus ombros a joga de lado e corre para cima do menino. O jovem tenta acertar um soco nele e ele esquiva para a esquerda girando levantando a espada na altura do pescoço do atacante tirando fios de cabelo. No movimento ele tropeça e cai sozinho, mas o garoto sabe que ele perdeu o equilíbrio, pois acertara o demônio em suas costas e isso deve ter lhe dado algo diferente.
Daichi: — pondo a espada no pescoço do rapaz – acho melhor vocês sumirem daqui ou vou chamar a policia.
Jovem: Quem é você?
Daichi: Eu disse, saiam daqui. Agora (berrando).
O jovem ajoelhado pega Gui pelos braços que está em estado de choque e sai carregando-o. Os outros dois soltam as garotas e ajudam o colega a ir embora. As meninas se ajudam a levantar.
Garota: Tudo bem? Como está?
Amiga: Ta tudo bem.
Garota: Ei menino – virando-se para olhar onde ele estava – obr...
Amiga: Cadê ele?
O menino havia sumido.
No museu Raed está saindo do museu tranquilamente quando vê um garoto o encarando todo suado e de aparência séria. Ele se aproxima do rapaz.
Raed: Voltou?
Daichi: Você disse um monte de coisas para mim. Uma dessas coisas é que você iria me treinar. Eu vim para isso.
Raed: Pois bem. Vamos começar.
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