Ticket To Ride
6 Oh gods, no
Notas iniciais
Harry ajudou Katie a pegar sua mala na esteira.
Ele ficou com ela, esperando até mesmo depois de já ter pego sua bagagem. Ele puxou a pesada mala preta e sorriu gentilmente para seus agradecimentos. Juntos, passaram pelas portas de vidro que separavam a ala do desembarque do restante do aeroporto.
– Para onde você vai? — Harry perguntou, colocando a mão muito levemente na base da coluna de Katie. Ela correu os olhos pela pequena multidão que esperava passageiros, segurando placas com dizeres em diversas línguas.
– Não sei. — admitiu um pouco nervosa. — a agencia disse que alguem da minha host family iria me buscar no aeroporto, mas não vejo quem poderia ser.
– Vamos sentar ali. — Harry sugeriu indicando uns bancos vazios com a cabeça. — Eles não devem demorar muito.
– Vai ver eles não sabem que eu vim. — ela resmungou se ajeitando no banco duro e colocando o casaco de couro novamente. Pelo menos no aeroporto, Londres estava muito mais fria do que Washington.
– Como assim?
– Eu só confirmei com a agência ontem de manhã. — Katie corou. — Eles devem me achar uma abusada.
– Ah, nem devem — Harry sorriu sem graça. — Tudo bem. Eu espero com você.
– Não precisa. — Kay disse, praticamente por reflexo. Na verdade, a ideia de ficar sozinha no aeroporto de um país estranho não lhe era nem um pouco tentadora. — Sua família deve estar te esperando. Acho que eu posso me virar sozinha.
Harry riu levemente.
– Não vou te deixar aqui sozinha. — disse decidido, para o alívio de Katie. — Você sabe pelo menos o endereço?
Katie enfiou a mão na bolsa bagunçada, procurando seu celular para olhar os e-mails que recebera sobre a sua família anfitriã. Só quando já estava com o aparelho na mão que se lembrou do pequeno encontro com Ares. Irritadiça, jogou o smartphone no fundo da bolsa e cruzou os braços, se reencostando na cadeira.
– Na verdade, não sei. — disse para Harry, que a olhava confuso. Ele levantou as sombrancelhas, mas não disse nada. Os dois ficaram em silêncio alguns minutos.
Katie olhou para as famílias de turistas, os homens de terno com suas maletas, as escoteiras mirins, e aquela senhora tomando café sozinha — cenas típicas de um aeroporto. Pensava em Travis. Achava, mesmo sem nunca ter o perguntado a respeito, que Travis amava aeroportos. Como não amaria, sendo filho do deus das viagens? Ela tinha certeza que ele diria alguma coisa sobre a espectativa do lugar, a sensação boa que dava. Ela tinha certeza que ele amava aeroportos por todos os motivos que ela odiava.
Um toque estridente fez com que ela se sobressaltasse de susto. Harry puxou seu celular do bolso, com cara de quem pede desculpas. Desbloqueou a tela e atendendeu. Katie sentiu uma saudade imediata do seu celular, invejosa.
– Heeeeeey Chay.... Tudo bem comigo, fico feliz que você não seja o tipo de amigo que me liga só para pedir favores... — Katie desviou os olhos, tentando prestar atenção em outra coisa. Não queria se intrometer, mas era inevitável. — Não eu ainda estou no aeroporto..... Acho que de taxi..... Hm, claro.... Qual terminal?..... Ah, sim..... Não, eu lembro..... Qual o nome?..... O que?! Tem certeza?....... Americana?...... Acho que de taxi..... Claro que não.... Uns 50min.... Não, tudo bem.... Te encontra lá..... Okay.... Okay, okay.... É, eu sei. Tchaaau Charles.
Quando desligou, Harry se virou para Kay com uma expressão estranha. Ela levantou uma sombrancelha para ele, questionadora.
– O quão incomodada você ficaria se aquela história de um estranho para desabafar no avião fosse por água abaixo?
No taxi, Katie aprendeu muitas coisas sobre Harry Cardon-Mienville Rosseau Edgware e os Lewis.
Primeiro, ela aprendeu que os Lewis eram sua nova host family. Aí ela aprendeu que Harry não era só vizinho dos Lewis, como também melhor amigo de infância de Charles Lewis, filho primogênito da família Lewis. Como se não fosse o suficiente, Katie aprendeu que frequentaria a mesma escola que Charles, e consequentemente a mesma escola que Harry.
Para cada coisa que ela aprendia sobre os Lewis e Harry, Katie sentia seu rosto subir um tom de vermelho. Ela não podia acreditar. Não sabia o que tinha feito para se castigada pelos deuses daquele jeito. Harry devia achar que ela era uma psicótica completa, que conta sua vida inteira nos minimos detalhes para qualquer um.
Quando o taxi estacionou numa rua calma, residencial, com as casas de dois andares de tijolinho vermelhos típicas da Inglaterra, Kay estava bem certa de que seu rosto era uma mancha vermelho-pimentão.
Harrya tirou a mala de Katie do porta malas e a carregou pelo jardim com uma fina camada de neve. Começava a escurecer, e a tarde era fria. Tocaram a campainha.
– Katie Gardner! — uma mulher de meia idade em um vestido longo muito elegante exclamou com um sorriso ao abrir a porta. Ela estava descalça, e segurava um de seus brincos na mão. Olívia Lewis, Harry lhe contara no taxi.
Olívia deu um abraço apertado na semideusa sem graça. Por coma do ombro dela, Katie viu um homem descer a escada com uma garotinha pequena, de no máximo quatro anos no colo. Ele usava um smoking sem gravata. A garotinha estava de pijama.
– George Lewis — ele se apresentou dando lhe um abraço desajeitado pela criança extra.
– Muito prazer — Kay disse dando o melhor de seus sorrisos.
– Mil desculpas por não termos ido te buscar no aeroporto! Estávamos no casamento da minha prima no outro lado da cidade... O melhor que conseguimos fazer foi chegar aqui a tempo. — Olívia disse muito educadamente após complementar Harry. — Ainda bem que Harry estava no aeroporto e conseguiu te encontrar.
– Nossa, não se preocupe. Não foi problema nenhum. Eu que peço desculpas pelo incomodo! — Katie riu nervosamente, corando ainda mais. Do seu lado, Harry deu um sorrisinho cúmplice.
– Hey! — um garoto exclamou entrando no pequeno hall lotado. Ele era mais ou menos da altura de Katie, talvez um pouco mais baixo. Tinha cabelo castanho claro como a mãe e a irmã. Diferente dos pais, preferiu comprimenta-la com um beijo na bochecha. — Charles Lewis, porque é isso que acontece quando seus pais são professores de literatura que se conheceram numa palestra sobre Charles Dickens.
– Charles — Olívia censurou.
– Sua outra filha chama Elizabeth, meu deus — Charles respondeu impaciente, como se isso fosse todo argumento necessário, antes de comprimentar Harry.
– Bom, é melhor eu ir. — Harry disse, despedindo-se de Katie com um beijo na bochecha e acenando para os Lewis ao entrar no taxi novamente.
Charles pegou a mala de Kay e subiu as escadas, sem muita cerimônia. Olívia a conduziu pelo braço pela cozinha, oferecendo-lhe uma xicara de chá que foi aceita de prontidão.
Enquanto sentia a bebiba quente descer por sua garganta de uma forma reconfortante, Katie respondeu algumas perguntas de Olívia. Onde morava. O que seu pai fazia. O que sua mã- ah, você não a conhece. Se tinha irmãos ou irmãs. Se tinha namorado. Onde estudava. Um pouco zonza pelo cansaço, as respostas foram mecânicas. Quando achou que ia desmaiar de exaustão, George entrou na cozinha falando para a esposa que o interrogatório ficaria para o dia seguinte.
No andar de cima, ele conduziu Katie até o quarto mais da esquerda no corredor. Falou que ficasse a vontade e pediu desculpas pela bagunça, prometendo que arrumaria tudo no dia seguinte. A única coisa que Katie via era a cama de casal no centro do cômodo.
Quando ele saiu do quarto, Kay caiu na cama mesmo de roupas. Dormiu em um quarto estranho, numa casa estranha, num país estranho, sem nem notar a cor da paredes.
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