Ticket To Ride
9 Could Be Worse
Notas iniciais
– Eu não acredito que você realmente está fazendo isso. – Olívia disse para Katie, levemente indignada.
Katie sorriu, levando mais uma colherada do sorvete de limão aos lábios. Olívia era ruiva e cheia de sardas, além de ter o mesmo nome da mãe de Charles e um rosto muito expressivo. Era fácil dizer o que ela estava pensando. Os garotos a chamavam de Liv.
– Está ótimo. – Katie disse. Liv fez uma careta para ela.
– É sorvete. E está congelando aqui fora. – argumentou. – Você vai ficar resfriada.
Katie deu de ombros, e cutucou a neve do chão do píer com a ponta de sua bota. Ela tinha uma resistência para frio ridícula, mas ficar resfriada era a última de suas preocupações – imunidade alta sempre fez parte do pacote genético semideus.
Já estava escuro como tarde da noite, e a iluminação pública não era nada genial. Grande parte da luz vinha das pequenas lojas no centro do píer, com seus letreiros luminosos e chamativos. Um cruzeiro enorme estava ancorado bem próximo a terra, tocando uma música instrumental abafada pela distância. Ao sul, ela conseguia ver a roda gigante London Eye, e o recorte dos prédios históricos do centro da cidade.
– Não, cara. – Harry discutia com Charles, mais à frente. – Esse é o pior álbum deles de toda a história. Você está deliberadamente desconsiderando tudo o que a banda fez de bom e olhando para a única coisa meio merda deles.
– Claro que não! – Charles disse. – Comedown Machine é um ótimo álbum. Mil vezes melhor que Is This It ou First Impressions of Earth.
– E quem tá falando de Is This It? Room on Fire é com certeza o melhor álbum.
– Sem chance. – Charles balançou a cabeça. – Qualquer música de Comedown Machine é melhor que o Rom on Fire inteiro.
– Qual por exemplo? – Harry riu ironicamente. – One Way Tigger?
– É. Por exemplo.
– Chay. One Way Tigger é tão ruim que eu não tenho nem certeza se é mesmo Strokes. Na verdade, One Way Tigger é tão ruim que eu não consegui escutar inteira até hoje. One Way Tigger machuca.
– É, cara. One Way Tigger é uma bosta. – James comentou muito categoricamente.
Katie balançou a cabeça. De todas as bandas do mundo, eles tinham que falar sobre aquela. A banda que Jake apresentara para ela na última semana do acampamento. O segundo CD deles, Room on Fire, tinha morada permanente no som que ficava no quarto de Travis. Porque, maldito seja, toda lembrança dela acabava levando-a de volta para Stoll.
Ela concordava com Harry parcialmente. Comedown Machine era péssimo, mas Room on Fire estava longe de ser um dos melhores álbuns de Strokes. Seu favorito era, sem sombra de dúvida, First Impressions of Earth. Parte dela queria denunciar que conhecia a banda e se unir a discussão, mas se sentia cansada e tímida demais para fazê-lo. Além disso, seu sorvete de limão demandava uma atenção quase exaustiva.
Resolveu parar de prestar atenção no que falavam um pouco, se concentrando em observar os reflexos coloridos que as luzes faziam nos montes de neve da calçada. Com a última colherada, se livrou do pote de plástico e colocou as luvas pretas de novo. Seguia levemente mais atrás do grupo, distraída.
Eram seis no total. Charles, Harry, James (que eles chamavam de Cook, por algum motivo que Kay ainda não compreendera), Olívia (Liv), Francesca (Frances), e ela mesma. Pelo que tinha entendido, Charles namorava Liv (ou quase). Isso fez Katie se perguntar se confusões com o nome Olívia eram comuns entre os Lewis. Cook, Frances e Harry não namoravam ninguém. Nem ela, precisou se lembrar.
– O que você acha, Katie? – Harry perguntou, pegando-a de surpresa.
– O que eu acho, o que? – Katie repetiu confusa, e deu um dos seus típicos sorrisos gentis. – Desculpa. Eu não estava prestando atenção.
– Cook e Frances querem ir para um pub a algumas quadras daqui. Eu e Charles queremos ir naquele café do outro lado da rua. Liv diz que não quer votar. Qual você prefere?
– Hãn.... É.... Eu posso preferir não votar também? – ela perguntou sem graça, e eles riram.
– O pub então? – Cook perguntou, passando o braço pelos ombros de Katie. Ela cambaleou meio surpresa pela súbita intimidade.
– Hey! – Frances interveio. – Você está modificando os resultados do nosso critério de desempate!
Cook sorriu de lado para Katie.
– Estou, é? – perguntou convencido. Kay riu, envergonhada, e se afastou levemente dele.
Eles voltaram a discutir, falando todos praticamente ao mesmo tempo. Katie não conseguiu entender muito bem o que decorreu, mas por fim decidiram que iriam ao café (uma vez que só Cook, Liv e Frances tinham identidades falsas).
Quando entraram, Harry ajudou Katie a tirar seu pesado casaco de neve, e pendurou-o ao lado da porta. Ela sorriu para ele e foi se sentar com Chay e Frances.
– Certo. – Liv disse, se curvando sobre a mesa, assim que os garotos se levantaram para ir ao balcão fazer os pedidos. – Chay está enchendo meu saco a noite toda. Você tem aproximadamente cinco minutos para me contar sua história de vida.
– Nós precisamos de informações. – Francesca justificou, afastando uma mecha de seu cabelo loiro escuro do rosto.
Katie riu, encolhendo os ombros.
– E o que vocês querem saber? – perguntou. Liv e Frances se entreolharam.
– Namorado? – Liv perguntou, sem rodeios.
– Hã, não.
–Irmãos?
– Uma irmã. Mais nova. Ela mora com meu pai na Georgia e tem sete anos.
– Onde você mora?
– Em Washington.
– Com sua mãe?
– Não, com minha meia-irmã. Quer dizer, desculpa. Eu tenho duas meias-irmãs, na verdade. Uma por parte de pai, outra por parte de mãe. A que tem sete anos mora com meu pai em Georgia. A outra tem dezesseis, e mora comigo em Washington.
O interrogatório foi longo, e prosseguiu por vários minutos depois que os garotos voltaram para a mesa. As perguntas iam desde seu desempenho acadêmico a seu diretor de cinema preferido. Harry quis saber o que ela ia fazer na faculdade (pergunta que ela precisou responder com um “não sei”). Quando se esgotaram praticamente todos os temas de conversação viáveis, Cook e Frances começaram a avacalhar (“mas você coloca primeiro o leite ou o cereal?” “qual é a sua opinião sobre o aborto?” “dormir com a janela aberta ou com a janela fechada?” “você prefere a primeira ou a segunda fase dos Beatles?” “humanas ou exatas?”).
– Okay, okay. Vamos focar no que interessa, senhores: quais são os planos para amanhã? – Charles mudou de assunto, quando Katie se recusou a responder a pergunta de Cook (ela não se atreveria a repetir as exatas palavras, mas o contexto geral envolvia o uso de bolo como uma metáfora para sexo).
– Arh, isso de novo não. – Liv reclamou. – Vocês só falam sobre isso.
– O que tem amanhã? – Katie perguntou grata pelo novo tópico e igualmente feliz pelo fim do interrogatório.
– Harry é o capitão do time de lacrosse – Frances explicou. – e quarta, no primeiro dia de aula, é o aniversário do treinador. Eles têm essa tradição idiota de pregar uma peça nele.
– Não é idiota! – Cook se apressou em defender. – É genial.
– Enfim – Frances revirou os olhos para ele. – eles precisam organizar tudo amanhã à noite.
– Ano passado, o antigo capitão levou metade do time pra escola na véspera, e eles espalharam a sala do treinador. – Cook contou.
– Como assim espelharam?
– Tudo que estava no lado esquerdo da sala foi para o lado esquerdo, e vice versa. Eles até inverteram a ordem dos objetos nas estantes, e trocaram os quadros de lugar.
– Uau. – Katie comentou, ao imaginar a cena. Deve ter sido muito difícil.
– No ano retrasado – Chay lembrou. – eles pintaram o carro dele de um amarelo horrível. Cara, nós temos que ser melhor do que isso.
– Um amigo meu, do acampamento de verão, é muito bom com pegadinhas. – Katie disse, sem conseguir se conter. – Uma vez ele trocou todas as roupas da minha meia-irmã por outras idênticas, só que azul-turquesa. Ela odeia azul-turquesa.
Frances levantou uma sobrancelha para ela.
– Amigo, é?
– Mais pra ex-namorado. – Katie admitiu corando.
– Vocês ainda não têm um plano? – Liv perguntou.
– Nós temos um plano incrível. – Charles resmungou, cruzando os braços. – Mas Harry não concorda com ele.
– É perigoso demais. – Harry disse, dando um gole no seu café. – Nós nunca íamos conseguir. É sério, nunca que isso ia dar certo.
– Isso é o que você diz.
– Isso é o que as leis da física dizem. – Harry balançou a cabeça.
– Alguma ideia melhor?
– Sim, na verdade. – Ele sorriu. –A incrível pegadinha do treinador esse ano será: a inexistência de uma pegadinha do treinador.
– Como assim? – Frances perguntou franzindo o cenho.
– Nós não fazemos nada. Genial, certo? Ele está esperando por alguma coisa horrível, mas nada acontece. Bam.
–
Juliet subiu e desceu o vidro do carro, brincando com o botão entediada.
– Dá pra parar com isso? – Connor pediu irritado, apertando as mãos no volante. – Está nevando dentro do carro.
Ela fez uma careta para ele, mas desistiu. Eles estavam parados há quase duas horas. Não se movendo muito lentamente num engarrafamento, não se movendo de vez em quando. Parados. Desde o começo do dia, tinham andado apenas alguns quilômetros na auto-estrada que saía de Washington.
– Vocês que não querem jogar comigo. – Julie reclamou. Cruzou os braços, e afundou no assento do passageiro.
Deitado no banco de trás com a mão sob os olhos, Travis grunhiu.
– Isso de novo não, Juliet. Por favor.
– Estou só falando! O tempo ia passar mais rápido.
– Seu jogo idiota não vai alterar os cosmos e fazer o tempo dobrar sobre si mesmo para as horas passarem mais rápido enquanto nós estamos presos nesse engarrafamento. — Travis resmungou em resposta.
– Idiota é você. – Juliet rebateu infantil. – E qualquer coisa é melhor do que esse maldito silêncio.
– Eu não estou nem olhando pela janela, mas eu tenho certeza que você só está vendo esse coisa que começa com N, chamada neve. Nós estamos no meio da porra do nada, Juliet. Só dá pra ver neve. Seu jogo é inútil.
– E você é míope, se só consegue ver neve. – ela resmungou.
Juliet estava considerando fortemente abrir a porta e correr por entre os carros. Qualquer coisa era melhor do que passar mais um segundo sequer sentada ali, com os Stoll. A hiperatividade coçava em sua nuca, tornando o ato de ficar parada extremamente complicado.
– Argh! Chega dessa música! – ela explodiu, fazendo menção de esticar sua mão em direção ao rádio do carro para desliga-lo.
– Não! – Travis exclamou, sentando-se no banco e subitamente de volta a vida. Deu um tapa na mão dela. – Ninguém toca na minha música!
– O carro é meu!
– A viagem é minha. Ninguém. Toca. Na. Minha. Música.
Julier cruzou os braços.
– Você só trouxe um CD! – reclamou. – Nós estamos ouvindo isso desde que saímos. Já deve ter tocado todas as músicas no mínimos umas três vezes.
– Na-ah! – ele afastou a mão dela de novo. – Ninguém toca na minha música, Juliet. Não brinca com isso.
– Deuses, vocês nunca calam a boca?! – Connor disse irritado.
Ela bufou, e olhou pela janela.
– Hey – se sentou direito, encostando o rosto no vidro e semicerrando os olhos para ver melhor. –Vocês viram isso?
– Isso o que? – Connor perguntou, diminuindo o volume da música. Travis pulou para o outro lado do banco de trás, olhando pela janela. A neve caía do lado de fora, e era difícil ver muito além do acostamento da estrada.
– Ali. Bem ali! – Juliet apontou. – Dez metros atrás daquele poste.
Os dois Stoll se curvaram mais, tentando enxergar o que ela indicava.
– Juliet, não tem nada ali. – Connor disse.
– Você é cego, por acaso? Olha direito, idiota.
Ele passou a mão pelos cabelos tipicamente bagunçados. Foi então que o ar pareceu tremer por um instante, e a névoa deu trégua. Ali, dez metros atrás daquele poste, estava uma figura enorme, parada na neve. Parecia olhar diretamente para os três semideuses.
– É um cão infernal? – Travis especulou.
– Não, não. – Juliet respondeu franzindo o cenho. – Acho que tem escamas.
– Um grifo? – Connor tentou. Os outros dois se viraram para encará-lo, indignados.
– Grifos não têm escamas, mané. – Trav disse. – Pode ser uma hidra.
– Hã, acho que só tem uma cabeça, mané. – Connor rebateu. – Um basilisco?
– Ou isso, ou um Drakon. – Juliet parecia se contorcer no banco de tão animada. Ela soltou seu cinto e passou o corpo entre os dois bancos, pulando para trás desajeitadamente.
– Ai! O que você está fazendo? – Travis perguntou incomodado, quando o cotovelo dela se chocou contra seu ombro no processo. Ela levantou a tampa do porta malas e jogou o corpo entre os encostos de cabeça, remexendo na mochilas.
– Está em algum lugar aqui-..... Ahá! – Juliet exclamou triunfante, erguendo sua espada no ar.
– Hey, cuidado com essa coisa! – Connor pediu, abaixando a cabeça quando ela brandiu a arma em sua direção acidentalmente.
– Desculpa. – Juliet disse, e então destravou a porta esquerda de trás.
– Juliet, aonde você- Travis começou a perguntar, mas a garota já tinha saído do carro e começado a correr em direção a besta.
Os dois irmão se entreolharam.
– Alguém precisa ficar no carro. – Connor ressaltou o óbvio. Travis suspirou, olhando pela janela. Se demorassem demais, Juliet ficaria com toda a diversão.
– Par ou impar?
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