Tic-Tac

6 Capítulo 5


Gabriel

Gabriel se encontrava sentado em modo alerta no chão, com o peito subindo e descendo rapidamente e olhos em estado primitivo, arregalados como se quisessem fugir das órbitas e sair correndo em desespero.

Parecia até um buldogue bonitinho.

"Ah, não... Aconteceu de novo" constatou infeliz.

Os sons apavorantes daquela selva davam pistas de onde e quando ele deveria estar. Quem sabe tenha dado sorte e estivesse naquela floresta bizarra do Amazonas, embora não acreditava com certeza se lá no estado brasileiro existiam centopeias do tamanho de fêmures andando por aí ou pássaros carnívoros que viu de relance.

Reparando mais em volta, pôde concluir; nunca tinha visto árvores tão grandes e abundantes daquele jeito, com mais ou menos vinte metros. Nem quando foi para a casa de sua tia, nos Estados Unidos e visitou um parque com árvores idosas e enormes.

Folhas de um verde e roxo exótico, bichinhos e insetos aos montes, mas não via nenhum macaco ou outro animal esperado em uma floresta/selva/quediabosfosseaquiloondeseencontrava.
Também não via seus amigos, o que era o que mais o preocupava.

Apesar de tudo — por seu cóccix doer por ter caído de bunda, o cheiro de merda por todo lado — Biel se sentia muito bem, obrigado. Renovado. Suas células eram de um recém-criado pronto para uma maratona. Tamanha adrenalina fazia um mal sério ao seu corpo.

Mas tá bom. Hora de se organizar e sobreviver perante a confusão. Mais um pouco daquilo e ficaria louco.

"Você é ou não macho, Gabriel?" se perguntou e ouviu uma espécie de risada de hiena surgir do nada. Olhou em volta desconfiado e até ofendido.

Biel se levantou com um pulo, ativando o mecanismo do cérebro de GPS e noção. Atento aos fechos de luz que entravam por espaços vagos entre as folhas das grandes árvores, Gabriel teve seu caminho suavemente iluminado enquanto andava pela mata, empurrando galhada ou outra para liberar espaço e ir atrás de mais luz. Lá poderia arriscar subir em uma árvore e ver a imagem completa do lugar. Quem sabe encontraria a cabeça gigante do Guga.

Quem sabe, se fizesse barulho, pudesse encontrar alguém.
Arrancou um dos galhos e bateu contra o nada, quebrando as barreiras de som para sua própria diversão, já que teria que ter uma longa caminhada.

"Será que existe alguma garota por aqui?!" perguntou-se como quem, hum, não quer... nada.

– GENTE! — gritou entediado, mas totalmente atento.

Porém, não obteve resposta em momento algum. Quase bufou de irritação. Ele era o tipo de cara que D E T E S T A V A, com todas as letras não entender a situação ou ficar tendo que correr atrás de respostas o tempo todo.

Fora que aquela maldita ampulheta estava brincando com ele e seus amigos como palhaços, mandando-os em missões secretas e confusas para fazer sabe-se lá o quê. Com tudo que havia acontecido, ele já havia perdido as esperanças que fosse algum carinha colocando-a nos lugares misteriosos. Tudo era irreal demais. E extremamente irritante.

"E mesmo se fosse um carinha que fizesse as pegadinhas", pensou ele, "esse alguém teria que ter uma capa da invisibilidade."

Uma raiva tomou conta de Biel enquanto ele quase que marchava com força sobre o chão cheio de folhas e galhos mortos.

Pensou tanto em maneiras de destruir o objeto que até se confundiu, quando olhou para cima e em um dos galhos a abençoada estava encostada.

A raiva borbulhou em suas veias e ele se sentiu puto com a situação.

Ele não ia saltar contra como um louco, mas manteve os olhos encarando-a enquanto subia lentamente na grossa árvore.

– Desta vez você não escapa — rosnou e foi agarrar a mesma, que por incrível que pareça, não "fugiu" ou se materializou em outro lugar.

Ele não contava com isso, então não soube muito bem o que sentiu na hora.

– Foi mais fácil que eu imaginava — admitiu em voz alta, franzindo a testa.

Teve finalmente a oportunidade de admirar de perto aquele negócio que agora era frequente em sua vida. A ampulheta de cristal tinha detalhes de madeira bem resistente, mas sua aparência não era nada antiga; era como se tivesse acabado de ser criada. Embora duvidasse disto, Gabriel continuou a analisando atentamente. Provavelmente não devem fabricar mais dessas coisas e o único lugar onde é possível encontrar deve ser em lojas de colecionador.

Ao que parece, a parte de cima ainda estava bem cheia de areia, caindo aos poucos — quase que um grão a cada três segundos — e enchendo o montinho insignificante lá embaixo. Fora isso, o rapaz não encontrou nada demais.

Girou para analisar em melhores ângulos, como se tivesse alguma marca de fabricação ou qualquer dica necessária que ele e seus desaparecidos amigos fossem precisar.

Na verdade, era o que eles mais precisavam. Andar por aí tentando adivinhar o que o Tempo — com T maiúsculo — quisesse com eles não era nada fácil. Ainda mais quando o tempo era mudo, surdo e incapaz de mandar um sinal de fumaça. Ou pistas. Ou mais garotas.

Mas ele cometeu um grave erro ao deixar o artefato cair, mesmo quando jurava que segurava até forte demais.

Merda, Mitchell. Merda, merda, merda.

Mas o que mais o chocou não foi de longe isso ou o possível fato de ter quebrado o único objeto que os ligava de volta para sua casa, mas sim quando desceu e viu uma minhoca gigante e verde.

Apavorado com o que parecia uma cobra enorme e grossa, Gabriel passou os olhos pela extensão e concluiu que ainda tinha mais de dois metros deitados, onde sequer podia ver o início e o fim do ser, cobertos pela mata e as folhas maiores que o normal da selva quente.

Com toda certeza, o animal não estava ali antes do garoto subir.
E também não sabia onde estava a maldita ampulheta, já que caíra mais ou menos por aquela área. Sua ideia foi a seguinte e óbvia: procurar pelas redondezas o objeto.

E foi o que ele fez. Usando o pescoção como ponto de partida, ele foi seguindo em linha reta à esquerda onde possivelmente encontraria a cabeça da cobrona. Hesitou em se aproximar muito para sofrer um possível golpe, mas continuou sempre por perto para não se perder entre as várias árvores e folhagens que havia no caminho entre ele e o animal.

Muitos passos e passos depois, esmagando folhas caídas e mortas, franziu a testa impressionado ao reparar que já havia se passado quase quatro metros e nada da cabeça nem do contador de tempo. Gabriel se perguntou se não estaria debaixo daquela sucuri.

Sucuri... Era um sinal que ele poderia estar mesmo no Amazonas, certo? Pelo que se recordava, era uma cobra que chegava há vários metros de distância, bem comum no Brasil e até fazia parte do filme Anaconda. Ele não sabia que aquele monstro poderia existir de verdade daquele tamanho, mas não era o que encontrava ao seu lado?

Se estivesse certo, o mais sensato — segundo seus genes primitivos e evolutivos — seria fugir o mais rápido que pudesse antes que acordasse o bicho sem querer. Ou até mesmo que ele estivesse prestes a dar o bote.

Aquele bicho daquele tamanho provavelmente deverá dar uma boa grana.

Ainda seguindo caminho, entretanto de maneira mais silenciosa o possível, começou a tentar lembrar todos os artigos de biologia que a vaca da professora passava sobre repteis e a turma tinha que decorar. Ser do fundão tinha lá suas desvantagens, mas ele não poderia saber que algum dia iria ficar nesta situação. "Um dia, irás encontrar-se em uma floresta sozinho com animais estranhos; poderás sobreviver se souber como é o sistema digestivo de fulaninho de tal..." É, não era relevante de qualquer modo.

Tinha os contras que martelava contra a sua cabeça, que o impedia (talvez por ora) de fugir amedrontado para as montanhas. A primeira de todas era o fato que ele precisava saber se a infeliz ampulheta estava inteira, para livrar sua consciência e saber se teriam todos como voltar para casa. Se fosse esperar ela aparecer do nada em momentos inapropriados como ela costuma fazer, iria morrer ali.

A segunda coisa era que a pele daquele ser não parecia ser lisa e bonita como uma cobra. Ok, ele não sabia exatamente se a pele de uma cobra era lisinha e careca, mas aparentemente e como conhecera quando fora ao zoológico mais novo, elas pareciam ser lisas.

Já a do pescoçudo sem fim... Era grosso demais para ser uma cobra. Era muito largo. E sua textura algo aparentemente mais áspero. Poderia jurar que via um couro firme de lagarto, com curvas e relevos. Sua cor era de vários tons de verdes, também. Assim como a maior parte da floresta/selva/sei-lá-onde-estava era. Ele não pôde enxergar perfeitamente os detalhes para concluir se havia uma cobra ou não ali, pelo fato que não estava utilizando seus óculos. Astigmatismo, a doença ocular que Gabriel sofria que fazia tudo de longe ficar embaçado era irritante. Principalmente em um caso extremo daquele, onde se aproximar poderia ser perigoso demais.

Interrompendo seus pensamentos, o rapaz acabou tropeçando no que parecia ser o animal e se desesperou. O que viu não foi uma boca de sucuri, mas poderia dizer em todas as palavras que foi pior. Aquela cabeça gigante e longa era a metade da altura dele, adormecida de boca aberta que nem um jacaré esperando para enganar sua presa.

Céus, o que é isso?

Seus instintos gritaram: sobreviva! Mas tinha muita coisa em jogo.

Andando mais na frente, perto das gigantes narinas pôde perder sua atenção em dentes tão grandes e afiados quanto garras, que o dilaceraria em segundos, perfurando e triturando seu corpo. As ondas de pânico correram por suas veias. Ou neurotransmissores?

Arrepiado só de imaginar, já estava se preparando para dar passos silenciosos para o mais longe dali e depois fugir loucamente com os bracinhos agitados, avisando dos perigos daquele lugar para qualquer um que o olhasse.
Era impressão ou era o segundo animal daquele tipo que via só nessa semana?

Mas antes que fizesse isso, seus olhos desceram preguiçosamente e distraídos até a língua do dinossauro desmaiado, vendo então o que ele menos queria ver.

Ele fervia de ódio e podia jurar que ouvira uma hiena dando uma risada novamente. Ou então que todo o Cosmos estivesse gargalhando na sua cara.

Naquele momento, até a ampulheta de cristal encaixada na língua do dinossauro parecia rir dele.

Derek

A primeira coisa que o garoto fez ao despertar foi conferir se estava com roupa. Depois de sentir o tecido na ponta dos dedos, percorreu todo corpo para conferir se estava devidamente vestido.
Aí ele pôde respirar aliviado.

Olhou em volta e notou que não tinha ninguém por perto, apenas uma praia, com um mar extremamente bonito, terra por todo lado e uma espécie de entrada para o que seria uma selva. Mesmo seus amigos podendo correr perigo, seu olhar pousou rápida e discretamente sob a paisagem e sorriu relaxado. Era diferente do que estava acostumado, definitivamente. Parecia até que tudo tinha acabado de ser criado, mas antigo...

E foi então que ele começou a ligar as peças do quebra-cabeça. Desde pequeno Derek sonhara em fazer faculdade de História, onde poderia ensinar o mundo para seus alunos; o mesmo mundo fantástico que via nos livros e filmes, que agora era provado real. Muitas vezes ele fez os trabalhos aprofundados sobre épocas passadas, Idade Média, Idade da Pedra; período Triássico, Jurássico e Cretáceo. Era um fã de carteirinha. Enquanto as outras pessoas se apaixonavam pelo Universo e as estrelas, ele estava aqui estudando sobre a realidade fantástica e animais já vividos.

E foi exatamente por isso que soube reconhecer o que estava para acontecer. Primeiro fitou o céu, e quando aves gigantes sobrevoavam por cima do grande mar, teve certeza da sua hipótese.

E ela não era apenas que não era um mar, e sim uma grande lagoa; não era a primeira vez que via um dinossauro no curto período de tempo e provavelmente estaria longe de ser.
Lembrou-se do pequeno dinossauro que estava no quartinho do hospital e sentiu-se aliviado. Por sorte, teriam trazido o Dino com eles na viagem — se, por acaso, seus amigos estivessem por aí na mesma época e lugar que ele -, e o pequeno estaria de volta a casa. Missão cumprida, então? Entretanto, na linha de raciocínio, algo a mais o preocupou. Se ele estivesse aqui, e provável que seus amigos também estivessem, capaz que a ampulheta teria trazido o Dino para sua época de volta, em sinal de missão cumprida. Já que, afinal, Gustavo teria tido um último "contato" com o animal, o que deveria ter puxado uma força gravitacional ou algo do tipo.

Se ele estivesse, Marilyn também estaria. E o outro cara também. E então, os meninos estariam em uma grande encrenca e uma bagunça maior ainda.

Decidiu agir. Desde criança era escoteiro, não seria agora que ia parar. Tinha que achar um modo de sobreviver e depois e ir encontrar seus amigos e os avulsos.

Primeiro, deu uma volta pelas redondezas e pegou algumas galhas soltas, folhas e qualquer material que parecia ser útil. Marcou uma área bem localizada onde não seria longe demais da água, mas dentro do início da selva, aproximadamente das rochas. Um bom lugar estratégico.

Depois das idas e voltas, Derek parou para recuperar o fôlego, tirando o suor da testa.

Olhando em volta e corando só por seus pensamentos, Dery tirou a camisa por conta do calor e se encolheu, como se alguém pudesse vê-lo ali, naquelas circunstâncias.

"Bom, não tem nada de errado... Né? É apenas meu calor humano que está facilmente me desidratando, diminuindo minhas chances de sobrevivência... Certo?" perguntou a si mesmo mentalmente, ainda constrangido pela falta de costume.

Aos poucos, Derek foi montando sua cabana e organizando tudo, preparando o fogo e possíveis maneiras de caçar que fosse precisar mais tarde.

E assim o sol caiu, dando um espetáculo de vista para Derek enquanto ele garantia sua moradia provisória. Se agisse logo, poderia encontrá-los e tentar, juntos, resolver tudo aquilo. E, quem sabe, voltar para casa.

Pensou nisso e sentiu seu coração pesar.

– QUE MERDA É ESSA? — berrou, se afastando do dinossauro de tantos metros que estava acima de sua cabeça.

O que mais o assustou, no entanto, foi a cena seguinte quando um homem alto e forte pulou em cima do animal, atacando-lhe o crânio com força total.

O mesmo arrastou-se e desceu o corpo para a face do bicho de grandes dentes. Suas lâminas dividiam a atenção entre fincar um olho e rasgar a superfície — "a pele".

O dinossauro de nome desconhecido não aprovava nada o fato de que tinha um intruso o machucando, possivelmente tentando matá-lo, então fez questão de bater sua própria cabeça contra os troncos grossos das árvores, acertando vez ou outra o ser humano que lhe montava.

Thiago correu rápido para trás da árvore, observando de longe.
"Eu tenho que achar um jeito de ajudá-lo", pensou. "Ele está praticamente salvando minha vida. Não posso me esconder. Mesmo não tendo ideia de como sobreviver aqui."

Apesar de que o suposto homem não parecia precisar de ajuda com nada. Ele sorria selvagem como se tudo fosse uma grande farra, o que fez rapidamente Thiago gostar dele. Só não era morto pelo lugar estratégico que impedia de: a) o dinossauro devorar ele em uma bocada, b) o dinossauro bater com força a parte que ele estava sem se machucar c) não ser ágil o bastante.
Seria um homem das cavernas? E será que, vendo alguém de aparência tão estranha quanto Iago, iria confundi-lo com um ser inferior ou... pela higiene... uma mulher?

Ignorou os pensamentos e decidiu se dedicar ao atual momento onde tinha um ser humano atacando um dinossauro e vice-versa. A lâmina era jogada de um lado para o outro, enquanto o monstro rugia e bufava com mais raiva ainda. Entretanto não ficava para trás.

Thiago decidiu então que ia usar a tática do menor que ganha do maior: distração. Os dois trabalhando juntos daria certo.
Até pensou em pegar um osso e jogar por aí, gritando "aqui, tiozinho!" mas era capaz de não funcionar — e ainda por cima, quem pegasse fosse o homem que lutava. Sem contar que, onde encontraria um osso dando sopa?

Uma ideia cortou seus pensamentos e ele sorriu com isso. Se Buda não vai à montanha... A montanha vai até Buda.