Tic-Tac
4 Capítulo 4
A primeira coisa que fizeram foi se entreolhar discretamente, planejando algo em silêncio. O plano B seria o óbvio: achar um jeito de fugir e encontrar a ampulheta no caminho. Não exatamente nesta ordem. Não exatamente nesta maneira.
– Que ampulheta? — Gabriel arregalou os olhos inocentemente como se estivesse assustado com a acusação, mas já preparando cada milímetro do seu corpo.
O velho deu um sorriso e rosnou, encarando bem o rapaz.
– Você sabe do que eu estou falando — retrucou.
Os quatro se entreolharam como se não fizessem ideia do que estava falando ou de quem quer que fosse o homem, negando com a cabeça logo depois.
– Ampulheta... O que é isso mesmo? É aquele negócio de apoiar pé quebrado, né? — Gustavo perguntou e Iago concordou.
– Acho que sim, sim. Fica embaixo do braço, né?
– Aham, Iago. Mas, senhor... Veja bem. — Derek chamou a atenção do fulano que parecia entretido, como se achasse graça da atuação.
– Diga-me — mas seu tom foi sério.
– Não tem ninguém aqui com o pé quebrado... Mas o senhor... — olhou para o pé dele e lembrou-se do andar manco -... precisa de uma. E já que estamos em um hospital, podemos arrumar uma para o senhor! — Sorriu simpático e animador.
– Ah, é mesmo? — o fulano disse.
Marilyn finalmente largou o braço do Gustavo em que fazia os curativos e olhou para o homem à frente. Seus pêlos todos do corpo se arrepiaram e a sensação estranha do déjà vu percorreu-lhe os nervos. Rapidamente a garota, mesmo que confusa, abaixou a cabeça e voltou sua atenção para o outro braço, a fim de terminar o serviço.
– Exatamente! — Gabriel fez as ligações mentais e olhou em volta do hospital vazio, procurando um par de muletas perdidos ou estacionados por aí. Mas infelizmente o máximo que encontrou foram algumas cadeiras de rodas e botinhas.
Quando todos repararam — não por truque de mágica, flashisse ou coisa igual -, o velho estava bastante próximo ao Biel. Trataram de agir rápido. Como Thiago sempre teve sua pose e mania de liderança, não hesitou em ir realmente buscar uma muleta de verdade.
Um a menos.
– O senhor prefere uma feita de carvalho? — Derek comentou casualmente, mas não obteve nenhuma atenção.
Atenção esta que foi fixa para a saída do Follen.
E ainda mais rápido que anteriormente, a ponta áspera de sua bengala estava na ponta da garganta do loiro, empurrando levemente o pomo de Adão.
– Me dê a ampulheta — murmurou com a voz grossa mais uma vez rasgando a garganta e dando a impressão que estava surgindo de um rugido do fundo de uma caverna qualquer.
Gabriel, por sua vez, ficou pálido e colocou as mãos espalmadas atrás do corpo afundadas no colchão de péssima qualidade em busca de equilíbrio e se afastar daquela bengala possivelmente assassina.
– Eu não sei onde a ampulheta está! — Arregalou os olhos e o homem pareceu até ficar mais alto e assustador.
Alguém pigarreou meio desconfortável com a situação. Todos os outros três prestavam atenção na cena, mas o pigarro conseguiu mudar o foco até mesmo do futuro agressor e do possível cadáver.
– Sinto ter que falar isso, mas... — Derek coçou a cabeça.
Gustavo logo sacou o que ele via e foi tentar consertar tudo, quase assassinando o melhor amigo com o olhar.
– Eu acho que sei onde está o que você está procurando — disse e encarou o fulano que ainda não sabemos o nome.
Os outros olharam em volta enquanto Guga fazia o contato visual. E onde Biel estava esparramado com as mãos, entre elas, tinha surgido a maldita ampulheta. Ela tinha um pequeno detalhe a mais: a areia que caía mostrando o tempo estava em excesso na parte debaixo, indicando que o tempo estava quase acabando.
Se sentiram traídos por um segundo. Desconfiados por outro. Mas no final das contas, entenderam a boa sacada que Guga fez.
– É melhor você me falar sem joguinhos, garoto. Ou eu mato você e todos os seus amiguinhos — murmurou naquele jeito macabro dele. — Nem que eu precise caçá-los no Espaço-Tempo.
Sem hesitar e entender, Gustavo concordou com a cabeça. Seus sentidos estavam aguçados e uma euforia que só aparecia quando bebia estava presente em seu corpo.
– Vou te levar até lá.
Os outros rapazes, confusos, protegeram a ampulheta e fingiram estar concentrados em outras coisas. Como o vestidinho da enfermeira, o relógio atrasado e a face alheia.
Marilyn olhou para o homem novamente, com medo e ainda insegura. Sentia que ia desmaiar a qualquer segundo se não tivesse ar o suficiente. A sensação piorou quando ele retribuiu o olhar muito intensamente. Ela soube que estava quase no seu limite.
– Estou aguardando. Já sabe o que acontece com qualquer tentativa de esperteza, não sabe?
Slytes concordou e por um momento pensou no que estava fazendo. Se valeria a pena e se o plano mal pensado teria um grande final.
Ele foi na frente, guiando e tentando se lembrar do caminho exato onde esteve anteriormente. A luz da sala em que seus amigos estavam foi se distanciando e ele realmente esperou que Iago estivesse pelas redondezas.
Por sorte, havia pequenas gotas de sangue em parede ou outra, cantos do chão. Sangue fresco.
– Por aqui. — Virou e reconheceu na hora a porta da tão aguardada sala.
Estava silenciosa demais do que anteriormente e sequer ouvia rosnados da sua pequena mina de dinheiro em forma de dinossauro.
Antes de colocar a mão na maçaneta, o carinha olhou para o Gustavo com um olhar ameaçador e ele já estava ficando bem cheio daquilo. Tanto que se segurou e o máximo que fez foi girar os olhos.
– Anda logo. Tá aí o que você queria. Ou quer que eu entre também?
– Não. — O olhou como se ele soubesse demais.
E assim o fez. Girou a maçaneta, e num passo falso, Gustavo o empurrou com força para dentro e trancou a porta por fora. Sacando o golpe, o velho começou a tentar sair e ir atrás, batendo com força contra a porta enquanto via o rapaz caminhar tranquilamente em direção à sala dos leitos.
Mas o que o senhor não esperava foi que um rosnado misterioso surgisse atrás de si. No mesmo minuto, acendeu as luzes do quartinho e encontrou dois pares de olhos amarelos de largarto o encarando famintos.
– Seu Mario mandou avisar que chega em três horas, Sr. Joaquim — o mensageiro avisou e logo saiu correndo descalço no chão sem asfalto.
Joaquim concordou ansioso e fez questão de fechar a porta e as cortinas de pano, tampando qualquer indício de luz solar ou visibilidade. Também desconfiado, preparou suas artimanhas e seguiu seu caminho para o seu esconderijo subterrâneo.
O porão construído por ele próprio na adolescência na mesma casa que ele nasceu e cresceu era iluminada pelas luzes de velas, que davam um tom antigo e até macabro. Mas nada tirava o brilho dos olhos que Joaquim tinha. Era sua oficina, onde seus projetos, sonhos, trabalhos e esperanças ficavam. Alguns até incapazes de serem mostrados ao mundo, outros perigosos demais para o uso.
Joaquim não se considerava um bruxo ou sequer um gênio brilhante como seu antepassado, mas acreditava que tinha algo especial em si mesmo. Ele sabia, sentia e via.
Sob as mesas de madeira cobertas por panos brancos estava um dos seus trabalhos, um molde perfeito para o que estava para chegar de um país distante do velho Brasil. Um molde que, se seus cálculos estivessem certos, caberia perfeitamente no funcionamento do Fator X e poderia, com certeza, mudar o mundo, a física, a história. E possivelmente o caos iria reinar por todo o cosmo.
Admirando sua obra preciosa com as duas pontas dos dois dedos, Joaquim não se sentia nem um pouco amedrontado com o que estava prestes a fazer. Em pouco tempo, seu amigo Mario traria o Fator X e tudo estava prestes a mudar. Mas ele via como um sonho se tornando realidade, como um momento certo e maravilhoso pronto para existir.
Só ele sabia como foi difícil fazer tudo isso se tornar realidade. Muita gente envolvida com o Fator X, contrabandeando durante noites e dias seguidos, com pessoas perigosas passando de mão em mão até seu Joaquim. E se ele não cumprisse o trato, sua morte seria um dos menores problemas. Ele precisava do resultado esperado, que seus cálculos confirmaram milhares de vezes, mesmo ainda não conhecendo o Fator.
Havia esperanças. E planos, muitos planos.
– Querido? — ouviu sua esposa chamá-lo lá de cima, com seu tom hesitante de sempre que ele estava no porão. Era sinal de trabalho. E para isso, ele precisava de paz.
– Sim? — respondeu apressado, esperando ansioso nas calças para saber se era o que ele queria.
– Mario está aqui — falou sem a formalidade exigida socialmente. Neste momento, seu corpo todo já começou a formigar. Da cintura para baixo, ele não sentia nada por tamanha ansiedade e apreensão.
Tanto que não sentiu quando no segundo seguinte já havia aberto a porta para Mario e o ajudava a descer as escadas firmes de madeira para ir de encontro ao centro do quartinho.
– Então és aqui que a magia acontece? — Mario perguntou, andando sorrateiro e observando todos os cantos.
Os olhos espertos de Joaquim o analisaram, procurando quaisquer indícios de armas ou qualquer outra coisa. Como já esperava, encontrou uma navalha enfiada dentro da bota e uma faquinha dentro do início da calça. Em suas mãos estava uma embalagem muito bem protegida, em formato de quadrado.
Estava lá.
O Fator X.
Mal conteve sua respiração e seus batimentos cardíacos, extasiado.
– É aqui. Mas ambos sabemos o que precisa para presenciarmos a real mágica.
Mario virou-se para o senhor com uma seriedade macabra.
– É bom que cumpras tua promessa.
– É claro que irei cumprir. — Estendeu a mão que tanto coçava para receber logo a embalagem.
Mas não foi tão fácil assim, não.
Mario negou com a cabeça e seu semblante se tornou desconfiado. Ele conhecia muitos homens do campo assim e sabia do que eram capazes sem a civilização da cidade.
– Na mesa.
– Sinto muito, mas o senhor não poderá fazer parte do processo. É... Perigoso.
– Hmmm... — O homem rosnou bravo, meio irritado com o fato. — Mas prepare a mesa para que eu deixe pronto para o uso.
Joaquim concordou impaciente e tirou as coisas banais de cima do pano branco, deixando a superfície plana. Ao lado estava seu tão amado molde.
Como o prometido, Seu Mario deixou a embalagem em cima da mesa e subiu um degrau da escada de madeira, com um certo pesar em perder aquilo que estava prestes a acontecer.
Mas Joaquim Follen... Mal conseguia se aguentar. Nunca mais esperaria.
Poderia morrer ali agora com tamanha pressão.
Ao desembrulhar o pacote com uma delicadeza digna, senhor Joaquim viu o Fator X como alguém que via o paraíso pela primeira vez.
A ampulheta de cristal reluzia em suas mãos.
– Temos um problema — o rapaz de cabelo cor de areia disse todo agoniado e sentindo que ia desmaiar. Como da outra vez.
Gustavo mal chegou direito e franziu a testa.
– Outro? Acabei de resolver um!
– Fala aí. Levou para o Dino, certo? — Gabriel perguntou sorrindo.
– Claro. Quanto mais gordo, mais caro ele fica...
– Não vamos vender o animal! — Derek disse chocado.
– Mas qual o problema? — Thiago perguntou com voz nasal enquanto coçava o nariz. Parecia abatido, também.
– Vocês reparam que o tempo está acabando na ampulheta? — perguntou desconfortável com a mesma de cristal nas mãos.
– E? — Biel franziu a testa, que começava a suar. — Isso te incomoda? Só virar.
– É, mas quando eu giro.... — Ele demonstrou, girando a ampulheta de cabeça para baixo, no intuito de recomeçar a contagem. Mas não foi o que aconteceu.
Ela continuava com as pequenas areias caindo como anteriormente, como se a gravidade não a afetasse.
– Sinistro — Iago disse, mostrando-se apavorado.
– Eu ainda acho que fomos drogados — Gabriel argumentou.
– O que isso deve signi... — Não conseguiu terminar a frase e no segundo seguinte ja estava desmaiado no chão sujo do hospital.
O mesmo aconteceu com os outros em efeito dominó, sendo Biel o último.
Desta vez, Iago não sentiu um monte de gente caída em cima dele ou embaixo de um monte de gordura como esperava. Desta vez, a textura do chão onde ele estava era de terra, com um cheiro estranho de água, plantas e cocô animal.
– Caras... — Levantou-se coçando os olhos, confuso com a claridade inesperada. Parecia sujo da terra que se deitou, mas os barulhos ambientes eram no mínimo confusos.
Quando reparou que nenhum dos seus amigos estavam por perto ou sequer presente, se apavorou.
– Pessoal? — gritou alto e reparou que estava em uma espécie de floresta aberta, com chão cor de paçoca e árvores muito, muito grandes. Jurou ter visto um inseto maior que seu pé.
Mais um rosnado foi ouvido atrás de si enquanto ele tentava reparar nos sons para reconhecer qualquer sinal de vida dos coleguinhas.
– Sh... — Falou irritado e concentrado.
Mas quando uma gota enorme de uma baba caiu no seu ombro, ele foi obrigado a olhar para cima.
Quem não fez silêncio foi ele.
O grito que saiu da garganta fez até as aves voarem para longe das árvores dos arredores.
Fale com o autor