Thunder
1 Capítulo Unico
Estava deitado confortavelmente no sofá, sua manta fofinha lhe protegendo do frio que o ar condicionado. Na sua mesinha estava um pote de sorvete vazio ao lado de um balde de pipoca pela metade; estava maratonando Suits, e na sua sincera opinião a terceira tinha sido a melhor até agora. A sala toda escura somente a tela da T.V. iluminando o local.
Finalmente era sexta feira, teria um dia somente seu, sem Shun para encher sua cabeça com algum preparativo para o casamento, ou nervoso sobre algo que a Fabia tinha dito. Aquele ano tinha sido alongo de mais, dias em claros, semanas horríveis e meses piores ainda, a carga horaria que um padrinho trabalha era absurda, deixava a qualquer um louco. Mas o que mais poderia fazer? Fora seu irmão que tinha pedido, fazia qualquer coisa por ele.
Ainda se lembrava do dia em que Shun chegara todo sorridente falando sobre uma garota que conhecera na empresa do seu pai, e como ela era tudo o que sempre sonhos, desde então começaram a sair. As coisas só melhoram quando um acordo entre as duas empresas foi estabelecido através de um casamento entre os dois.
Foram meses o ouvindo falar sobre a nova noiva, como ela era linda, esperta, fofa, e como o relacionamento dos dois estava fruindo. Dizia que logo iria apresentar ela para o castanho. E então finalmente a data do casamento fora marcada 21 de março do próximo ano.
E foi aí que seus problemas começaram, com a data de casamento marcada Dan finalmente foi a presentado a Fabia, e o que ocorreu ali não saberia explicar; sentiu como se tivesse achado o que tanto procurava durante sua vida, ao ver ela sorrir timidamente e seu rosto corando.
Dan não sabia quando realmente se apaixonou por ela, se foi naquele restaurante italiano ou se foi no durante o dia a dia. Se atolou no trabalho da empresa Kazami, evitou todos os encontros possíveis em que ela apareceria sem parecer suspeito aos olhos de Shun. E foi assim que seu ano infernal teve início.
Depois de tantos meses evitando a noiva de seu melhor amigo era bom poder finalmente ter um dia só seu, sossegado no seu cantinho, sem precisar fingir nada, sem enganar seu melhor amigo.
Sua campainha tocou, cortando qualquer raciocínio logico sobre as merdas da sua vida ou a serie que ainda passava na televisão, pausou a mesma se levantando do seu ninho e caminhando a passo lentos rumo a porta.
Ao abrir a mesma se surpreendeu com a pessoa do outro lado da mesma.
— Hm... Oi — falou sem jeito
— Oi — a azulada falou corando ao reparar que o castanho a sua frente estava sem camisa.
— O que faz aqui? – falou sem pensar — Não era para estar na sua despedida de solteira ou sei lá.
— Decidi que tinha algo melhor para fazer do que isso – falou com um sorrio enorme
— E o que eu.... — Não terminou, foi interrompido por um beijo repentino, um simples selar de lábios sem jeito.
— Não podemos fazer isso — sussurrou com a voz rouca — Isso é errado — tentou de novo com um fio de voz. Sentia sua sanidade indo embora aos poucos, a cada passo que a azulada dava para mais perto de si. Sentia uma tensão no ar, era difícil respirar.
Tudo o que tinha guardado por um ano estava vindo à tona, todo o sentimento reprimido. Não sabia o que fazer, tinha quase certeza que não aguentaria ficar sozinho com ela por muito tempo. Iria ficar louco, podia sentir.
Sentiu as mãos pequenas da mulher a sua frente tocar gentilmente seus ombros, aquilo foi um gatilho e sem pensar passou uma das mãos pela cintura fina e a outra foi parar na nuca puxando o corpo da Fabia com certa brutalidade fazendo os lábios enfim se tocarem num beijo fogoso. As mãos antes tímidas, agora exploravam o corpo alheio, suspiros soltos em meio aos beijos.
Aquilo era tão errado, mas então por que se sentia tão bem?
Dan quebrou o contato com a mesma brutalidade que tinha começado. A respiração pesada e ofegante, as roupas amaçadas. Fabia o olhou perdida.
— Não podemos — voltou a afirmar, passando a mão nos cabelos num tique nervoso — Você é noiva dele — soltou num riso nervoso — Vocês vão se casar amanhã!! — gritou.
Fabia se assustou com o gritou repentino, dando um passo para trás.
— Sabe que não tenho escolha — falou chorosa — Mas pelo menos hoje... Somente hoje, me deixa ser sua ao menos uma vez.
Aquele pedido limpou o resto da sanidade que tinha. Sabia que o que faria dali para frente não teria volta, e nem poderia pedir perdão. Ah, como queria não amar tanto aquela mulher. Se aproximou da mesma, passando o polegar levemente por sua bochecha limpando os vestígios de lagrima depositando logo em seguida um beijo no topo da testa da menor.
A azulada colocou as duas mãos no rosto do moreno uma de cada lado, fazendo com que ele olhasse diretamente para si. Olhos castanhos perdidos nos esmeralda. Eram tão belos, podia ficar olhando para eles pelo resto de sua vida, jurava que chegava a ver pequenos pontinhos negros como se fossem estrelas num céu. Tão cristalinos que se não olhasse com cuidado poderia confundir com azuis, e as vezes tão escuro que poderia jurar que tinha uma galáxia vivendo lá como seu próprio universo. Um só dela.
Dan não saberia informar quem deu o primeiro passo, quem quebrou o espaço que os separava. O beijo foi calmo diferente do anterior, era sereno e repleto de amor. Limpando sua mente dos problemas que viram pela frente.
—----X-----
Estava parado ao lado de Shun, ele estava tão feliz. Se sentia sujo pelo o que tinha feito. O smoking lhe incomodava, a gravata apertava sua garganta, não entendia como as pessoas podia usar aquilo para trabalhar.
A música começou a tocar, as noivinhas entram sendo seguidas pelas damas de honra, e logo atrás estava a noiva. Usando um vestido todo azul turquesa, ele era justo na cintura numa tonalidade mais escura do que no restante e as alças caiam por seus ombros enfeitadas com florezinhas roxas e rosas, o vestido se abria numa saia rodada com diversas camas. O cabelo estava preso em um coque mal feito pelo qual algumas mexas escapavam.
E enquanto o castanho assistia ela caminhar calmamente até eles, não pode deixar de pensar o quando ela estava linda, como o cabelo azul escuro quase negro combinava com a pele branca, o vestido se ajustava perfeitamente ao seu corpo, destacando todas as suas curvas e ressaltando seus olhos esmeraldas.
“Tão linda. Será que um dia Shun me perdoara? Dormi com a sua noiva um dia antes dessa merda, trai a confiança dele.”
Quando por fim ela estava do lado do moreno no altar, não pode evitar se sentir nervoso. Suas mãos tremendo e suando como um louco, estava tenso. Seu melhor amigo e o amor de sua vida estavam se casando.
Foram longos minutos, quase meia hora de cerimonia quando por fim os “sim” foram trocados juntos as alianças.
Pronto, estava feito.
Tinha traído seu melhor amigo, e nem tivera a coragem de contar para o mesmo.
Depois de ouvir aqueles “sim” seu corpo ligou o automático, poses para fotos, sorrisos falsos. Runo passou sua mão pelo braço do castanho o conduzindo para o carro em que vieram. Dan ligou o mesmo e seguiu em direção ao local da festa, uma leve garoa começou a cair.
Chegando ao local pode repara na chácara bem arrumada e iluminada, as mesas foram distribuídas entre o salão ao lado da casa e os dois pequenos quiosques que tinham na parte de baixo do salão, o que vendo agora com todos os convidados chegando e a chuva de ventania não fora uma boa ideia. Mas ninguém imaginaria que choveria neste final de semana.
Adentrou o recinto com Runo ao seu lado, a mesma estava perfeita no vestido creme de madrinha, seus cabelos soltos com algumas mechas caracoladas. A mesma exibia um sorrio carmesim, seus olhos brilhando de emoção. Sentaram na mesa dos padrinhos e madrinhas.
Todos conversavam animada mente, cada uma mais bonita do que a outra. Juli e Alice estavam discutindo sobre os penteados e maquiagem dos convidados ali presente uma discussão ao qual a Runo logo entrou. Se divertiu ouvindo Marucho falando de suas novas invenções.
Os noivos chegaram todos se levantaram para saudarem eles. Quando todos e sentaram Dan levantou para fazer seu brinde.
— Primeiramente quero agradecer no lugar dos recém-casados a todos os que puderam comparecer a esta comemoração. – Falou com calma – Gostaria de agradecer aos noivos pelo convite para falar num dia tão especial. Estou muito feliz por estar aqui. Estou um pouco nervoso por isso vou começar contando uma história. Era uma vez um rapaz franzino, de cabelos negros, muito tímido que gostava de estar ao ar livre. Tinha uma habilidade incrível com eletrônicos, e uma cabeça lógica invejável. No CEA, ele já era capaz de resolver os meus problemas de física e matemática do primeiro ano, o que lógico me deixava enfurecido. Ele nunca foi um garoto muito convencional, não curtia jogar futebol, basquete e handbol, mas adorava cavalos, e a equitação foi seu esporte por alguns anos. Foi neste ambiente que fez seus melhores amigos. Como sempre foi um cara gente boa, agregava os amigos do colégio, do condomínio, do clube formando um time inseparável de companheiros de uma vida inteira.
“Shun sempre foi destemido. Um cara de muita fé, acreditou sempre nele mesmo e nos seus objetivos. Com muita luta, teve uma carreira profissional de muitos sucessos e sempre soube o que queria. Mas algo estava faltando. Quando, um dia, ele me disse: “Daniel acho que encontrei a mulher da minha vida”. Havia um novo brilho no olhar. Algo tinha mudado naquele garoto de São Conrado. Acho que nós, irmão mais velhos, temos um quê de maternal em relação aos caçulas. Tentamos protegê-los, somos levemente ciumentos – só levemente –, mas naquele dia soube que meu irmãozinho tinha finalmente encontrado alguém especial.
Fabia trouxe o que faltava. Seja bem-vinda, a nossa família! Cuide bem do meu irmão. O Shun é um cara especial. Fico muito feliz com esta união e tenho certeza que é um encontro de almas gêmeas. Um casal gostoso de estar por perto, que conversa apenas com o olhar, com cumplicidade, onde um conhece o outro e sabe se respeitar. Agora estão começando a construir uma linda família, uma tarefa deliciosa, mas nem sempre muito fácil. Continuem se respeitando, deem muita risada juntos e levem a vida de forma leve! Nunca percam esse brilho.
E que venham os filhos, estou torcendo que não demore muito para enchermos a fazenda de crianças, por favor! Contem comigo sempre! Sou um admirador e testemunha da conquista de vocês de estarem aqui, hoje, com uma relação tão forte e emocionante. Desejo a vocês toda felicidade deste mundo e uma vida inteira de alegrias.” – ao final do discurso Fabia estava chorando, Shun se segurava para não fazer o mesmo, e todos o olhavam de forma melancólica e emocionados.
O moreno levantou caminhando em direção ao seu irmão postiço estendeu a mão num aperto firme, puxando o outro para um abraço.
— Dan, isso foi perfeito. Obrigado! — falou ao pé do ouvido dando tapinhas nas costas do mais velho. Se sentia um lixo ao ouvir aquelas palavras saindo da boca de seu irmão mais novo.
Horas se passou, o bolo foi servido junto de doces: brigadeiro, beijinho e bem casados; agora a pista de dança tinha sido aberta músicas eletrônicas eram ouvidas, como batidas de pop, rock, funk. Todos pulando e tentando imitar as coreografias oficiais, era até engraçado de se ver.
Em algum momento tudo aquilo perdeu a graça, sentia que era hora de ir embora. Mas é claro que não iria se safar do que tinha feito na noite passada;
—----X-----
Fabia acabou tentando que ser levada ao hospital por Shun e Dan, tinha bebido de mais, falado de mais. Shun descobriu.
Sentiu um soco ser atingido em sua bochecha direita, levou a mão ate o local.
— COMO VOCE PODE SEU DESGRAÇADO?
— Shun estamos num hospital
— Tudo o que você precisava era ter me falado — soltou num suspiro — Você era meu irmão, como pode me trair assim?
— Shun, desculpa. Eu não queria....
— VOCE NÃO QUERIA?
— Shun....
— Eu não quero, mas te ver. Vai embora. Não quero, mas te ver. NUNCA MAIS...
Saiu do hospital com a cabeça baixa. Tinha arruinado o casamento de seu melhor amigo, nunca se perdoaria por isso. Montou no carro, e dirigiu de volta a seu apartamento.
Pela janela podia se ver a chuva caindo. Sentia a superfície gélida contra sua pele morna, anestesiando assim a dor que sentia na lateral direta, estranhamente lhe causando um contraste gosto para o moreno. Dan sentia seu coração doer, algo pesado tomava conta de seu peito.
Aquela chuva lhe dava um estranho conforto, como tinha feito tanta burrada em um único dia? Tinha conseguido estragar tudo que jugava ser mais importante.
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