Through the Eyes of Love
5 Capítulo V
Notas iniciais
— Hyoga, hey Hyoga. — Isaak olhou ao redor e esfregou o nariz. Parecia realmente desesperado, era como se estivesse sendo seguido constantemente, temia ser ferido, embora tivesse conseguido pagar a dívida que contraíra com o traficante. O loiro Versailles cumpriu a promessa, lhe entregara o dinheiro que ele tanto queria, mas mesmo assim ainda se sentia constantemente observado. — Vem cá. — Chamou e se escondeu atrás de uma pilastra, já fazia dias que não ia a aula, ao menos não para frequentar a escola, geralmente aparecia ali para vender drogas para usuários que cursavam ali.
— Você está um lixo. — Hyoga tornou enojado. — Eu já não falei para você sumir? Desse jeito vai acabar preso de novo, por que você está aqui? — Indagou irritado, depois de tudo cortara relações com Isaak, embora vez ou outra o ‘amigo’ o incomodasse. Já estava cansado de tudo aquilo, depois de saber-se sozinho, sim, porque Camus ainda estava internado e Afrodite não era nem de longe um anjo. Sair de casa se tornara um martírio, aquele maldito parecia uma sombra e o vivia controlando. — Aquele viado continua no meu pé, não tem como a gente se ver, inferno. — Resmungou amargurado.
— Eu trouxe. — Retirou do bolso uma espécie de recipiente de plástico, dentro dele, o pó branco se sobressaia. — Eu sei que você precisa, eu pensei em você, sempre penso em você. É um presente, não precisa pagar. — Se apressou em dizer e sorriu. — Eu senti sua falta. — Tocou o rosto do amigo e aproximou os lábios, mas o loiro desviou no exato momento que o beijaria. Triste, limitou-se a beijar a bochecha dele.
— Não preciso. — Hyoga disse seco. — Nunca precisei, eu só usava por usar, não sou viciado, você é que é doente, vê se me erra. Eu só queria foder o Camus, agora que ele está fodido, tanto faz usar essa merda ou não. — Empurrou o outro, sentia vontade sim de pegar a droga oferecida, mas também pensava em evitar problemas. Estava confuso e triste, ainda sentia raiva de Camus, mas cima de tudo sentia falta dele. Ademais, embora estivesse em liberdade, ainda haveria o maldito julgamento e estar na companhia de Isaak certamente pesaria caso fosse levado ao júri. Precisava ficar sóbrio, se soubessem que ainda usava drogas a situação iria se complicar. Não podia ir para cadeia, não sobreviveria, concluiu com amargura.
— Eu não sou doente, eu... — Isaak se irritou. — Você está brincando comigo? Acha que é alguma coisa? Você e eu somos iguais, não se ache tanto. — Tornou irado e agarrou os cabelos do loiro. — Você não vai me tratar assim, estou cansado dessa sua atitude, entendeu? Eu me controlei até agora, porque eu amo você, mas não pense que por causa disso vou deixar você me pisar. Você não me assusta mais, o Cassius já recebeu, se você não tomar cuidado é você quem vai ser cortado, talvez eu faça isso. — Riu afetado. — O que acha Hyoga, uh? Quer ser cortado? Ou talvez você prefira que eu te foda, prefere? — Empurrou o loiro contra a parede, estavam atrás do prédio principal do colégio, olhou em volta para ver se não havia ninguém por perto.
— Hyoga? — A voz doce soou, atraindo a atenção de Isaak. — Solta ele. — Pediu um tanto assustado.
— Cala a boca! — O rapaz berrou irritado e se viu obrigado a soltar o loiro. — Vê se fica caladinho, bichinha, senão você é que vai se ferrar, entendeu? Eu sou bem perigoso. — Retirou do bolso um canivete e mostrou ao menor, riu ao vê-lo tremer. — Hyoga, depois a gente continua a nossa conversa, nem pense em sumir, eu sei como encontrar você, te conheço muito bem. — Ao dizer aquelas palavras saiu correndo dali.
Assim que o outro saiu, Hyoga deixou-se cair sentado, pela primeira vez sentiu medo, em outrora seria fácil se livrar do outro, mas a verdade é que estava em sério perigo. Se o tal do Cassius sacasse que ele estava parando de usar e que poderia por ventura contar a alguém tudo que sabia, talvez as ameaças de Isaak não fossem delírios distantes e isso o amedrontava. Ademais, nunca vira Isaak tão irritado, talvez não tivesse sido boa idéia mexer com ele. Os olhos mantinham-se fixos nos próprios pés, foi então que sentiu um toque gentil no ombro, virou-se um pouco assustado e mirou o rosto bonito do tal Shun Amamiya, ele era o representante de classe, o moleque irritante que o seguia para cima e para baixo, tentando de todas as formas fazê-lo se enturmar e frequentar as aulas.
— Você está bem? — Ele indagou preocupado. — Temos que contar ao diretor. — Shun aconselhou, temendo que o amigo se machucasse seriamente.
— Isso é piada? Quem pediu sua opinião? — O loiro ditou irritado. — Escuta, você nem devia ficar perto, ok? Você viu aquele canivete? Pois é, ele pode te matar, por que você ainda perde seu tempo? A gente nem se conhece, foda-se você e essa droga de negócio de representante de sala, eu não vou me enturmar com esse bando de caretas e você e eu não somos amigos, então da próxima vez vê se cai fora e para de se meter em assuntos que não te dizem respeito. — Riu, mas por dentro sentia-se grato, se o garoto não tivesse aparecido, muitas coisas podiam ter acontecido. Poderia até brigar com Isaak, mas certamente sairia machucado também, mesmo porque não estava acostumado com aqueles surtos de raiva, Isaak podia ser violento, mas nunca levantou a voz para ele. E agora o desgraçado começava a mostrar as garras e isso o irritava profundamente.
— Eu só gosto de você. — Shun rebateu doce e sorriu. — E não somos amigos, porque você não quer, Hyoga. Eu realmente quero ser seu amigo. — O castanho olhou-o ternamente, se ergueu e estendeu a mão para ajudá-lo a ficar de pé.
Hyoga o olhou estarrecido, nunca imaginou uma resposta como aquela, ninguém nunca gostou dele, quer dizer, tinha Isaak, mas mesmo ele gostava dele por interesse, já aquele garoto era diferente, sempre o tratava mal, sempre o evitava e mesmo assim ele parecia realmente querer ajudar. — M-mas eu não! — Se apressou em dizer e deu um tapa na mão do outro, fazendo-o recuar. Riu e ficou de pé rapidamente. — Eu não vou com a sua cara, nerd, fala sério, acha mesmo que eu iria querer ser seu amigo? Você é só um idiota afetado, bolsista, ridículo! — Desatou a falar e por algum motivo se sentiu péssimo ao ver aquele rapaz de face angelical abaixar a cabeça com os olhos úmidos. — Isso aí, sou um cara malvado, sacou? Você é um bebê chorão, volta correndo para a mamãe e vê se me deixa, bastardo. — Empurrou o outro.
— M-me desculpe. — Shun disse sincero. — E-eu... — Mordeu o lábio inferior e fungou, realmente gostava do loiro, o achava realmente incrível. Sabia que ele não era exatamente um bom exemplo, mas enxergava nele um bom coração, por isso queria se aproximar, queria ajudar, talvez se ele tivesse outros amigos e se afastasse do outro garoto que vivia encrencado pudesse ter uma vida normal.
— Eu já falei, não quero sua pena, agora vaza antes que eu quebre a sua cara. — Cuspiu irritado, odiava o jeito que o outro o olhava, não precisava da piedade dele, era óbvio que ele sentia apenas isso, afinal, todos ali o evitavam, mesmo depois da comoção do assalto passar, todo mundo parecia evita-lo, exceto aquele garoto idiota.
— N-não é pena. — Shun tentou dizer e limpou as lágrimas. — E-eu quero mesmo ser seu amigo. — Insistiu, estava tremendo e magoado, mas realmente queria tentar ser amigo do garoto.
— Você é burro, não é? — Hyoga sorriu de lado. — Olha só. — Se aproximou e agarrou a camisa do rapaz. — Aquele cara e eu somos bem parecidos, sabia? A gente fez um monte de merda juntos, acha mesmo que eu combino com alguém como você? Olha só para você, é pobre, sem graça e lento. Por que eu iria querer sair com você, uh? — Riu cruel.
— ... — Shun abaixou a cabeça e a franja longa encobriu os olhos.
— Acho que a ficha caiu, né? Some. — Empurrou o outro de novo e ele caiu sentado. — Não consegue nem ficar de pé, fala sério. — Maneou a cabeça negativamente e saiu resmungando.
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— Bom dia, como você está hoje? — Ikki adentrou o quarto e encarou Camus, o ruivo parecia bem melhor, mas continuava se recusando a conversar sobre os verdadeiros motivos de estar ali. Aquele tipo de paciente era complicado, pois geralmente ficava mais simples quando aceitavam a doença e requeriam ajuda, mas Camus Versailles era um desafio, nos primeiros dias ele parecia estar em surto, mas depois, se acalmou e se fechou novamente na concha.
— Estou ótimo. — Tornou sério. — Doutor, quanto tempo eu preciso ficar aqui? Tenho que ir para casa, meu irmão... — Ele tentou, mas o médico logo o cortou com um gesto de mão. O olhou com atenção e aguardou.
— Isso só depende de você, Camus. — Ikki se sentou na cadeira disposta próxima a cama e pousou a prancheta no colo, havia também algo que parecia uma agenda. — Enquanto você continuar se recusando a conversar, não posso te ajudar, mas se você quer mesmo ir para casa devia se esforçar. Se continuar calado não posso fazer nada. — Explicou pacientemente, havia se formado como psiquiatra há pouco tempo, mas era um excelente profissional e gostava do que fazia.
— O que quer que eu diga? — Camus indagou perturbado.
— Qualquer coisa, não existe um assunto em particular que você precise falar, apenas diga o que sente. O que realmente sente. — Insistiu.
— Me sinto péssimo, odeio esse lugar, odeio ficar trancado, quero ir para casa. — Confessou triste. — Mas você não vai me liberar, não é?
Ikki assentiu, já era um começo, era óbvio que ele não iria gostar mesmo, ninguém em sã consciência gostava de perder a liberdade. E ele realmente acreditava que apesar dos pesares, Camus era são e logo se recuperaria. — Eu vou. — Ikki anuiu tranquilo. — Assim que você estiver melhor, não sou seu inimigo Camus, ao contrário, quero te ajudar.
— Então me deixe ir embora. — Pediu.
— Não é assim que as coisas funcionam, você sabe que precisa superar o que te atormenta, do contrário vai acabar voltando para cá. — O moreno tocou a mão do ruivo num gesto amigável, mas deixou escapar um suspiro quando ele retirou a mão de maneira brusca.
— Eu... — Camus respirou fundo e acomodou-se melhor na cama. — Não sei o que dizer, me sinto sufocado, me sinto ao ponto de ter um colapso, não importa o que eu faça, me sinto à beira de um precipício. Achei que me afogando em trabalho eu conseguia ocupar minha mente e evitar pensar...
— E por que você não quer pensar? — Ikki indagou sem muito interesse, bem, estava interessado, mas queria que ele se sentisse à vontade, daria a ele o tempo que ele precisasse, queria que ele o visse como um amigo, alguém em quem pudesse confiar e não como um médico. — Sabe, Camus, pensar às vezes é bom, porque conseguimos discernir o que vale a pena ou não. Conseguimos rever nossos conceitos e enfrentar nossos medos.
— Eu não quero pensar. — Camus tornou cabisbaixo. — Porque sempre me lembro das coisas terríveis que eu fiz. Eu sou um péssimo irmão... — Escondeu o rosto. — Eu sou um péssimo pai. — Confessou finalmente o que não ousara dizer a ninguém, nem mesmo a Afrodite, seu melhor e único amigo.
— Pai? Você tem filhos? — Ikki pareceu surpreso, não havia nada daquelas informações na ficha do paciente.
— Ele é meu filho. — Camus apontou para a foto que se encontrava na mesinha ao lado da cama, nela, Hyoga aparecia sorridente, ambos estavam abraçados, era uma foto antiga, ele até mesmo arriscara sorrir. — Eu nunca disse a ele, eu nunca disse porque tive vergonha, tive medo. Nunca disse a ninguém. — Confessou.
— Medo do quê? — Ikki perguntou verdadeiramente interessado.
— Medo do meu pai. — Abaixou a cabeça. — Ele... ele me proibiu... eu sei, sou adulto, não deveria ter medo, mas ele. — Mordiscou o lábio inferior. — Eu assinei um acordo, onde abria mão da guarda dele, eu era muito novo, por isso meu pai me fez assinar. Eu só poderia dizer a ele a verdade após ele completar 21 anos. Tive medo que ele contasse toda a verdade para o Hyoga, não queria que ele me odiasse.
— Camus. — Ikki suspirou e começou cuidadoso. — Eu imagino que seja difícil para você, dá para ver que era mesmo novo, vocês parecem realmente irmãos. Mas existem certos momentos que temos que tomar coragem, Hyoga vai entender se você contar a verdade, posso ajudar você, posso conversar com ele. Seu pai já não está nesse mundo e o único que poderia levar esse contrato as últimas consequências é ele, você não precisa mais ter medo, você está livre agora.
— Não! — Camus negou veementemente. — Não posso, não quero. — Ditou rápido, atropelando as palavras. — Você não pode contar, você é médico, é sigiloso tudo que falamos, você sabe disso, doutor, é antiético. Livre? Livre? Você não entende! Não importa que esteja morto, ele nunca vai me deixar em paz, nunca poderei ser livre dele, nunca! — O rapaz abraçou o próprio corpo incomodado, embora soubesse que a figura do pai era somente uma peça que sua própria mente pregava, ainda era assustador imaginar que aquele homem iria surgir como um demônio na escuridão e destruir tudo que tanto lutou para construir.
— Camus, seu pai não pode te ferir, ninguém mais pode. Não vamos permitir isso, seu amigo Afrodite ou mesmo eu, você é meu paciente e não vou deixar que ninguém te machuque. — O médico garantiu, sentia-se penalizado por ver alguém aparentemente tão forte parecendo tão frágil em um momento como aqueles. Qualquer pessoa estava solícita a acontecimentos terríveis e por vezes se sentia impotente por não poder ajudar a todos, mas estava disposto a ajudar aquele ruivo e não iria desistir. — Nesse momento a única pessoa que pode impedi-lo de ser feliz é você mesmo, não deixe que o medo o impeça de recomeçar. Você não é uma pessoa ruim, não tem porque pensar algo desse tipo. Por vezes é difícil encarar os fantasmas do passado e superar as dores, mas você não está sozinho. Lembre-se disso, você está seguro e vamos te ajudar no que for possível. — Ikki se permitiu sorrir, um sorriso raro, geralmente não costumava demonstrar aquele tipo de expressão, mesmo quando tratava todos com gentileza e compreensão. — E fique tranquilo, não precisa ameaçar me processar, sou ético, fique tranquilo. — Tentou usar um tom mais ameno, entretanto, o outro não pareceu reagir como ele esperava. Ficou um tempo em silêncio analisando a situação, estava a par de todos os acontecimentos, sabia que o ruivo não se dava bem com o progenitor, sabia que ele havia sido violentado, era um terreno perigoso, qualquer deslize poderia enviá-lo para o fundo do poço. — Camus, seu pai era doente. — Ele disse finalmente, atraindo a atenção do paciente. — Não é você, é ele, ele era doente, era cruel, o que ele fez com você foi errado. Nenhuma criança merece passar pelo que você passou, acima de tudo uma criança necessita de proteção e de apoio dos progenitores. O Hyoga tem em você um porto seguro, seja você pai dele ou não, ele sabe que pode contar com você. Não vou obriga-lo a dizer a verdade, mas pense bem, você quer que ele passe a vida toda vivendo uma mentira? Não acha isso triste? O caso de vocês é diferente, sei que você o protegeria e nunca permitiria que ninguém tocasse nele, mas mesmo assim, mentira é mentira, Camus. Não existem mentiras boas ou mentiras ruins, por isso pense bem.
— Eu vou pensar. — Disse mais calmo, de fato, odiava mentiras, odiava imaginar que Hyoga viveria o resto da vida enganado. Queria protege-lo e cuidar dele, queria poder chama-lo de filho e não passar a vida fingindo ser algo que não era. — Só me dê um tempo, me sinto tão culpado... eu às vezes, penso que... eu poderia ter evitado...
— Nada disso é sua culpa, não importa quantas vezes tenham dito que era, você era uma criança, foi uma vítima das circunstâncias terríveis que o cercavam, não havia como ter evitado, você tentou evitar, teve seu momento, gritou por socorro e uma pessoa cruel lhe negou sua tábua de salvação. Não dependia de você, Camus, o que uma criança poderia fazer? O único que poderia fazer algo era seu responsável e ele era tão doente ou mais do que o monstro que te feriu. — Manteve a voz calma, embora sentisse certa raiva invadi-lo, morria de medo de que criaturas asquerosas como aquelas cruzassem o caminho de sua família, não conseguia deixar de pensar em Shun, só de imaginar o irmão sendo machucado daquele jeito sentia as ganas de socar alguém. Procurou se acalmar e tentar demonstrar confiança ao paciente. — Você é forte, sei que pode superar isso, você vai conseguir. — Ditou. — Eu vou te deixar um dever de casa, ok?
Camus franziu o cenho estranhando aquilo, mas deu os ombros e sorriu fraco. Não estava acostumado a ser tratado daquele jeito, já era um adulto e mesmo assim o tratavam como um jovem ou coisa parecida. Ikki Amamiya era um médico diferente, sempre imaginou psiquiatras, psicólogos ou terapeutas como velhos cheios de si, mas ele era realmente uma pessoa que demonstrava se preocupar sinceramente com os pacientes. Não conseguiu deixar de se sentir sortudo por isso, por saber que estava em boas mãos.
— Eu quero que você escreva como se sente. — Ikki entregou a ele a agenda que carregava e uma caneta. — Eu vou confiar em você. — Referia-se a caneta, acreditava que Camus não faria nenhuma loucura com o objeto.
— Obrigado. — Tornou sincero. — Não vou decepcioná-lo.
— Qualquer coisa serve, só quero que escreva o que sente, pode falar do tempo, dos seus sonhos, do Hyoga, de tudo. Não se sinta envergonhado, só eu vou ler, ninguém nunca saberá o conteúdo. — Garantiu.
— Eu sei. — Abraçou a agenda e desviou o olhar, suspirou, mirou a janela, podia ver que lá fora fazia um dia ensolarado, mas para ele era como se houvesse uma nuvem cinzenta que o impedisse de vislumbrar qualquer beleza ou esperança. Sentia-se péssimo, apesar dos remédios que tomava e por sinal, desde que começara a tomar os remédios, nunca mais teve o desgosto de ver o pai e isso por si só já era um grande alívio.
— Você devia sair um pouco, o hospital tem um jardim bonito, por que não experimenta dar uma volta? — Ofertou, mas como não obteve resposta, se levantou e deixou o quarto. Sabia que seria um longo caminho até conseguir alcançar o ruivo, mas confiava que ele iria superar.
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Shaka mirou o apartamento uma última vez, respirou fundo e deixou o ar escapar por entre os lábios, estava cansado, já não podia mais suportar toda aquela indiferença de Milo, aliás, o modelo parecia estar sendo sugado para seus próprios problemas. Decidira desaparecer de uma vez, não viveria as custas dele pelo resto da vida e não queria se tornar um peso. Obviamente as notícias o afetavam, vira e mexe lia o jornal ou revistas e ali, diziam o que ele andava ‘aprontando’. Camus Versailles era o assunto da vez e a pessoa que se tornara um tabu para Milo, embora ele insistisse em demonstrar indiferença, nunca o viu tão pensativo, seus olhos já não tinham mais brilho, era sempre assim. Ele dizia que precisava sair, ia até o hospital e voltava destruído, pois o tal empresário se recusava a recebe-lo, não sabia exatamente o que acontecera com o homem, mas ele também estava doente. Sentia-se miserável por sentir ciúmes, afinal, embora estivesse se sentindo triste, seu caso não era tão grave ao ponto de ficar internado como o outro. Mas o que o destruía, era saber que Milo, mesmo morando com ele não havia notado absolutamente nada. Seu coração e mente estavam tomados de pensamentos acerca daquele desconhecido e isso o feria profundamente.
Deixou o apartamento do modelo apenas com uma mala, ali, estavam todos os seus pertences, é claro que Milo o havia presenteado com várias coisas, mas ele não ousaria carregar consigo lembranças que possivelmente o fariam mais miserável e infeliz. Em cima da mesa apenas uma nota, letras caprichosas, apenas uma frase; “Obrigado por tudo. ” Não havia necessidade para comoções ou declarações acaloradas, acusações ou quaisquer outros exageros. Para muitos talvez fosse covardia escapulir na surdina, mas não tinha condições psicologias de discutir com o ex-namorado, um sorriso amargo adornou os lábios do indiano, namorado? Nunca foram mais do que amantes eventuais, Milo nunca o teve como alguém com tamanho significado. Caminhou pelas ruas abarrotadas de gente com aquela mala e era como se ela pesasse toneladas. Usou o tempo que tinha para pensar, pensou na família, pensou nos amigos que perdeu, pois naquele país estranho não conhecia absolutamente ninguém além de Milo. É claro que havia Saga, Kanon e até Shura, mas eles eram consequências de sua relação com o Grego e não havia nenhuma espécie de laço que os unisse, tinha pouco, aliás, quase nenhum dinheiro, mas não se permitiria ser humilhado. Não pediria dinheiro à Milo, estava decidido a arrumar um emprego e viver da maneira que fosse mais conveniente. Talvez, o pai um dia o perdoasse, talvez um dia a mãe o quisesse receber novamente em seus braços, eram questões complicadas, mas sabia que não podia fugir mais.
O bairro foi mudando, o cenário foi se tornando pouco agradável aos olhos, aos poucos, o local luxuoso foi dando lugar a pobreza que atingia aqueles menos favorecidos. Ele não se importava, nunca fora uma pessoa ligada ao luxo e não planejava viver como rei, queria apenas viver em paz. Sabia que seria difícil conseguir trabalho, pois era praticamente inexperiente e não havia cursado faculdade, mas tinha certeza que com paciência conseguiria superar as dificuldades. Parou em frente de um hotel ou motel, não sabia dizer exatamente do que se tratava. O letreiro desgastado denunciava a precariedade do local, mas aquilo era a única coisa que conseguia pagar e nem sabia até quando. Tudo dependeria da sorte ou da falta dela, concluiu ao adentrar o recinto. Um homem com uma expressão enfadada se encontrava sentado em uma cadeira atrás do balcão, mirou-o de cima abaixo e sorriu torto, ele engoliu em seco e pensou mil vezes antes de seguir com aquela loucura. Ainda poderia ligar para Milo ir busca-lo, poderia talvez simplesmente dar meia volta e correr de volta para a segurança da casa do modelo, mas decidiu que não faria isso. Avançou em passos vacilantes e retirou a carteira do bolso.
— Em que posso ajudar? — O homem mirou-o cheio de malicia.
— Eu quero um quarto, vou alugar por tempo indeterminado. — Explicou meio sem jeito, desviou o olhar e cerrou o punho que ficava oculto pelo balcão.
— Sei, bom, eu preciso de pagamento adiantado. — O homem não fez rodeios. — Sabe como é, para garantir que não teremos problemas.
— Sim senhor. — Ele olhou a tabela de preços atrás do homem e encolheu os ombros, não era tão caro, retirou uma quantia suficiente para ficar uma semana. Depositou o dinheiro no balcão e entregou a ele os documentos para que pudesse concluir o registro. Shaka olhava em volta, sentindo-se deslocado, não gostava dali, queria ir para casa. Não para a casa de Milo, mas sim para sua casa, para o seio de sua família. Abaixou a cabeça e segurou a vontade que tinha de chorar, tinha que ser mais corajoso, afinal, ousara desafiar a vontade de seu pai e humilhá-lo publicamente, então por que agora temia tanto? Respirou fundo e soltou o ar devagar.
— Hey loiro. — O homem chamou pela quinta vez. — Já está bom assim. — Ditou ao receber atenção do belo rapaz. — Shaka, uh? Eu acho que te conheço de algum lugar... — Coçou o cavanhaque e arqueou uma sobrancelha. — Você já apareceu na TV?
— Eu? — Shaka indagou visivelmente nervoso. — Imagine, eu sou apenas uma pessoa comum. — Disfarçou e puxou os documentos bruscamente das mãos do homem. — Pode me dar a chave, por favor? — Pediu querendo sair dali o mais rápido possível.
— Claro, já pagou, é toda sua. — O homem deu um impulso na cadeira e a mesma rodopiou até a parede, esticou a mão e capturou um chaveiro velho, nele pendia uma chave, analisou-a e atirou para o loiro que por pouco não a derrubou, riu disso, definitivamente aquele homem não era alguém do povo, se fosse, agiria com naturalidade. Pensaria em alguma forma de lucrar com ele, ficou apenas observando enquanto o rapaz arrastava a mala pelo local em direção ao elevador. — Loiro, está quebrado, é melhor usar as escadas. — Indicou.
Shaka mirou-o perturbado e com um suspiro desistiu do bendito elevador. Bem, não era de todo ruim, o elevador não parecia mesmo um lugar seguro. Guardou o puxador da mala e segurou-a pelo suporte, começou a subir as escadas. Era no terceiro andar, o lugar era consideravelmente grande, embora decadente. Logo no primeiro andar já podia notar que não era somente a aparência do local que deixava a desejar, mas as paredes pareciam finas, já que conseguia ouvir perfeitamente o que as pessoas faziam nos quartos.
Continuou subindo, iluminação ruim, cheiro forte de urina e outros odores extremamente desagradáveis. Em dado momento o loirinho cobriu o nariz e parcialmente a boca, não sabia se aguentaria aquilo por muito tempo. Quando finalmente chegou ao andar correto já se encontrava cansado, também pudera, passara grande parte do dia caminhando pela cidade, pois não tinha condições de pagar um táxi, ademais, não fazia sentido quando não se tinha destino certo, não é? Ao vislumbrar o quarto onde ficaria hospedado o loiro colocou a mala no chão e voltou a puxá-la pelo corredor valendo-se das rodinhas. Estava deprimido, definitivamente não havia sido uma boa idéia, concluiu ao ver um hóspede no mínimo suspeito começar a rir e tentar chamar-lhe atenção.
— Hey boneca, psiu, vem cá! Vem se divertir com tio. — O homem ébrio tornou divertido. Fazia gestos obscenos, tocando na genitália e ofertando-se despudoramente. — Vem cá seu puto! Eu pago bem. — Berrou.
O loiro correu em direção ao quarto e nervoso derrubou a chave, a voz se tornava cada vez mais próxima para o desespero dele, capturou o objeto e destrancou a porta, quando adentrou o quarto o homem estava ao passo de segurá-lo pelo braço, apressou-se a trancar a porta e ainda ficou ouvindo o mais velho berrar e bater na porta quando se afastou dela assustado. Olhou em volta e torceu o nariz, o local cheirava a mofo e era óbvio que não limpavam há muito tempo, pois havia poeira e os lençóis se encontravam amarelados. Puxou a mala até a cama, uma cama pequena que rangia, percebeu ao tocar na mesma, estava enjoado. Retirou os lençóis e atirou-os em algum lugar do quarto, o colchão era velho e provavelmente desconfortável concluiu ao retirar um lençol que trouxera na mala, ocupou-se de arrumar a cama e só então se sentou. Abraçou os próprios joelhos e se permitiu chorar, mirou o telefone e pensou em ligar para Milo, mas logo desistiu da idéia. Só precisava dormir, isso, dormir, no dia seguinte as coisas certamente estariam melhores. Poderia procurar um emprego e com um pouco de sorte logo deixaria aquele lugar horrível. Quase deu um pulo ao ouvir o barulho de algo se quebrando e gritos histéricos de algum dos quartos vizinhos. Se apressou a pegar os comprimidos que havia levado, precisava dormir e a única maneira de conseguir isso seria com remédios. Na mesa de cabeceira havia uma jarra com água, mas o loiro dispensou aquela idéia absurda, se os lençóis estavam naquele estado, imagine quanto tempo aquela água havia sido deixada ali? Pegou cinco pílulas e engoliu sem água.
Geralmente tomava um remédio feito à base de ervas, não ingeria drogas, fossem elas lícitas ou não. Se deitou na cama e encolheu o corpo, não demorou muito para que o remédio começasse a fazer efeito, coisa que o loiro estranhou, já que as pílulas sempre demoravam. Tudo no quarto rodava, ainda conseguia ouvir os gritos dos ‘vizinhos’ ao longe, mas muito, muito longe. Franzindo o cenho o loiro girou na cama e tentou alcançar o vidro de remédios, as letras estavam embaçadas, entreabriu os lábios e respirou ofegante. Aos poucos a mão foi ficando dormente e os comprimidos escorregaram. O vidro espalhou pílulas pelo quarto inteiro e o menor desmaiou. A sensação de letargia era terrível, sentia como se o corpo inteiro estivesse flutuando e vozes desconhecidas o chamavam a todo tempo.
— Shaka? Senhor Devraj? — A voz chamava.
— Urgh... — Emitiu um som baixo, mas não se moveu e tampouco abriu os olhos.
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— Shura! — A voz do loiro soava desesperada do outro lado da linha, já fazia cerca de duas horas que rodava a cidade inteira atrás de Shaka, quando chegou ao apartamento, se limitou a esperar. Shaka poderia ter saído, mas ele não voltava, demorou um pouco até perceber que as coisas dele haviam sumido e por fim encontrou o bilhete de despedida. Naquele momento o mundo do modelo desabou, não podia acreditar que o loirinho tinha simplesmente ido embora. — Pelo amor de Deus, você precisa me ajudar, o Shaka, ele sumiu! — Confidenciou para o amigo.
— É o quê? — Shura rolou pela cama e esfregou os olhos, mirou o relógio em cima da mesinha e se sentou um tanto afetado. — Milo, sabe que horas são? O que aconteceu? — Não conseguia entender muita coisa, estava sonolento, a ligação estava ruim e Milo parecia desesperado. Atropelava as palavras, não dizia coisa com coisa. — O que tem o Shaka?
— ELE SUMIU! FAZ HORAS QUE ESTOU PROCURANDO! — Berrou desesperado. Estacionou o carro e socou o volante, gritou e extravasou o que sentia. Era um misto de raiva, impotência e preocupação. Nunca imaginou que o loiro fosse simplesmente fugir de casa, decerto não estava sendo o melhor dos companheiros e muito menos um bom amigo, mas não imaginava que ele seria irresponsável de sumir de uma hora para outra sem deixar nenhum contato. Ligou várias e várias vezes para o celular do rapaz, mas sempre caia na caixa postal e já começava a ficar assustado. E se alguma coisa tivesse acontecido com ele? E se alguém o estivesse machucando? Não conseguiu deixar de pensar em Camus, na situação horrível que ele sofreu, não queria nem sequer cogitar a idéia de que o outro estivesse passando por algo semelhante.
— Cara, fica calmo, não adianta gritar, aonde você está? — Shura se ergueu rapidamente, tinha trabalhado até tarde, mas isso não o impediu de calçar os sapatos com pressa e correr na direção da porta, iria até o amigo, o ajudaria na busca. Sabia o quanto Milo andava deprimido, não conseguia compreender como ele havia se apegado tanto ao tal Camus, mas ele parecia outra pessoa. Fazia tudo no automático, descuidou da própria saúde, vivia em função de correr até o hospital e voltar revoltado por ser recusado, não conseguia reconhecer o amigo.
— Eu sei lá, Shura, eu já andei essa merda toda, de carro, a pé, ninguém viu ele! E se... e se ele... — Milo sentiu lágrimas inundarem os olhos e escondeu o rosto entre os braços. — Eu sou um estúpido, eu nunca deveria tê-lo abandonado naquele apartamento, eu sou o pior tipo de traste que existe no mundo. — Lamentou profundamente arrependido. — Se ele estiver ferido, se alguém o machucar...
— Milo pare com isso, isso não combina com você, pelo amor de Deus! Faça um esforço, como quer que eu te ajude se você não sabe nem onde está? Ele não está ferido, não está! Você precisa se acalmar, do contrário vai acabar fazendo alguma bobagem. Sai desse carro agora, dirigir nervoso assim vai se tornar um perigo para as outras pessoas, além de ser um perigo para si mesmo. — O modelo tornou nervoso, não era bom em lidar com aquelas crises do amigo, preferia o Milo sorridente e forte, não que fosse abandoná-lo, mas nunca sabia o que dizer.
— Eu estou em uma praça no centro, estou estacionado aqui, vou sair para dar uma volta, quando chegar me liga, eu vou a pé mesmo. — Explicou enquanto limpava as lágrimas e tomava coragem para recomeçar as buscas. Chegou a ligar para a polícia, mas disseram que só poderiam tratar do caso como desaparecimento após 24 horas, ademais, Shaka era adulto e poderia simplesmente ter saído para algum lugar. Claro que ele não acreditava nisso, tudo havia sumido, era óbvio que ele tinha decidido ir embora, mas ele era livre, não podia prendê-lo em casa. Por isso decidiu ocultar a parte que as roupas e objetos pessoais haviam sumido junto do loiro, mas mesmo isso não garantiu a busca que necessitava.
— Estou indo, não faz nenhuma besteira, me espera, não vá muito longe. — Shura pediu e desligou.
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