Through the Eyes of Love
4 Capítulo IV
Notas iniciais
— Afrodite, você sabe que preciso sair, não posso ficar aqui sentado enquanto o Hyoga está lá sozinho naquele lugar horrível. — Camus mantinha a cabeça abaixada, os olhos fixos na caneca de chá que fumegava, Afrodite obviamente queria ajuda-lo e faria de tudo para deixa-lo mais confortável, mas estava cansado, cansado de fugir, cansado de observar sua vida ruir diante dos seus olhos e permanecer a parte de tudo por medo. — Ele deve estar assustado, pobre Hyoga, não acredito que as coisas chegaram a esse ponto, talvez seja um engano, preciso vê-lo agora. — Fez menção em se erguer, mas um riso afetado do amigo fê-lo encará-lo sem compreender. — Dite?
— Assustado? Pobre Hyoga? — O loiro balançou a cabeça incrédulo e sorriu com escárnio, às vezes Camus era tolo ou inocente demais, concluiu ao lançar um olhar piedoso ao francês, não sabia explicar ao certo, mas era irritante ver um homem tão genial como ele ficar cego por conta de um adolescente problemático como Hyoga. — Entendo que você queira vê-lo Camus, mas temos que ter muito cuidado, nesse momento tem uma multidão lá fora louca para que você saia de casa e depois do que aquele repórter disse, deve haver coisas ainda piores, acha mesmo que as pessoas vão continuar te enxergando com bons olhos? Você pode até mesmo se ferir, as opiniões públicas podem ser cruéis e existem loucos lá fora, não tem medo de sofrer um atentado? — O loiro indagou e começou a andar de um lado a outro, estava pensativo e apreensivo, em sua mente havia uma teoria, mas sabia ser terrível demais para lidar com ela de maneira trivial.
— Não estou entendendo, acha que vão me atacar por ser um parente ruim? — Camus deixou um riso baixo e incrédulo escapar por entre os lábios. — Então espera que eu fique aqui até quando? Preciso ver o Hyoga e resolver essa situação. E por que está dizendo isso, Afrodite? Claro que ele está assustado! Ele é apenas uma criança, obviamente agora deve estar à beira de um colapso, se ele realmente feriu uma pessoa, deve estar tão arrependido, ele só tem a mim e quando me ligou eu deliberadamente fiz parecer que não me importava, que não iria ajuda-lo, eu sou definitivamente um péssimo irmão. Se as pessoas quiserem me crucificar por isso, eu aceito, eu mereço ser punido por ter negligenciado o meu irmão.
— Você não está sendo racional agora. — Tornou o loiro para o desespero do outro que o mirou sem entender, Afrodite lambeu os lábios e respirou fundo, soltou o ar devagar e resolveu expor tudo que pensava. Cedo ou tarde Camus iria saber, não havia como manter silêncio quando as coisas chegaram aquele ponto crítico. — Só existem quatro pessoas que sabiam da prisão do Hyoga, Camus, duas delas se encontram nessa sala, ou seja, você e eu. — Fez uma pausa dando tempo para o outro ligar os fatos, mas o ruivo apenas fez uma careta. — Você é inteligente, Camus, vamos lá, não faça isso com você mesmo. — Pediu desesperado.
— Os outros dois são Hyoga e o rapaz que foi preso com ele. — Camus disse mecanicamente, já tinha pensado nisso, não teria como os policiais ligarem para o jornal, isso poderia trazer problemas e consequências que implicariam em investigações internas caso fossem processados pelas famílias envolvidas. — Esse garoto, o suposto cúmplice, talvez ele tenha feito isso para tentar lucrar algo. Talvez Hyoga esteja sendo arrastado para toda essa confusão, não teria sido esse rapaz a esfaquear o homem? Talvez esteja sendo ameaçado... — Teria continuado, porém as batidas irritantes que o sapato do amigo fazia no piso chamaram atenção, ele o mirava com uma expressão irritada e tinha os braços cruzados frente ao peito. — O que foi?
— Camus. — Afrodite se aproximou cauteloso. — Ouça o que está dizendo, acha mesmo que Hyoga levaria a culpa por outra pessoa? Estamos falando do Hyoga, aquele Hyoga que só pensa nele mesmo, o Hyoga que não se importa em destruir a vida do irmão com suas atitudes egoístas e mesquinhas. Eu não queria te dizer isso, mas meu amigo, você é a única vítima aqui. Não percebeu até agora, mas está sendo manipulado por esse garoto, acha mesmo que ele não tem consciência dos próprios atos? Tolo fui eu por julgar sua capacidade e discernimento, você estava certo, não agora, mas antes, quando disse que ele deveria experimentar o próprio veneno e aprender o significado dos próprios atos. Vou te dizer o que penso e pode até ficar com raiva se quiser, mas eu acho que ele ficou furioso ao ver que você não iria ajuda-lo como sempre fez e exatamente por isso ele mesmo o entregou aos jornais. Ele quer causar um escândalo, porque pensa que dessa forma vai punir você e está surtindo muito resultado vale ressaltar. — Disse finalmente, já não suportava mais aquela conversa fiada. Às vezes tinha que ser cruel, pois o ruivo parecia ser cego quando se tratava do irmão e vê-lo desolado daquele jeito o machucava. Quanto antes ele sofresse aquela desilusão terrível melhor, pois assim conseguiria recuperar o controle e tratar do assunto de maneira prática e efetiva.
Camus se ergueu e deixou a caneca que tinha em mãos cair, a porcelana se espatifou e o líquido fumegante tocou os pés descalços do empresário que deu um passo para trás assustado e nem ao menos percebeu quando um dos cacos adentrou a sola do pé. Com uma expressão horrorizada e com o membro dolorido cambaleou para trás, quase derrubando o que havia na mesinha de centro. — Como pode dizer uma coisa dessas? O Hyoga faria isso? O Hyoga não... ele não faria! Por que você está fazendo isso comigo? Já não basta tudo isso estar acontecendo? Por que está me atormentando desse jeito? Hyoga não é um monstro, não é! — Negou veementemente, os olhos percorreram a sala e buscou uma rota de fuga, buscou alguma coisa em que se agarrar e todo aquele muro que por anos e anos tentou construir finalmente começava a ruir. Bastou uma pequena rachadura para abalar completamente a estrutura e novamente Camus se viu em seu passado, mirou Afrodite e engoliu em seco, não era o amigo que via ali, mas sim a expressão severa do pai, as palavras cruéis, a falta de apoio, o julgamento. As lágrimas escorreram pela face sem permissão, ele sorriu, um sorriso torpe, deu um passo para trás, sentindo o pé dolorido, o caco de outrora adentrando mais a carne ferida, mas isso não o impediu de desviar do móvel e continuar recuando. Ao passo que recuava ele negava e dizia palavras desconexas. Sentiu em fim a parede contra as costas, deixou-se escorregar ali e agarrou a própria cabeça, chorava, dolorido, desesperado, completamente despedaçado.
— Camus vem aqui, não faz isso. — Afrodite pediu, preocupado, talvez não tivesse sido uma boa idéia dizer o que pensava. Ele parecia tão frágil, devia ter pensado melhor, mas enquanto ele continuasse sustentando aquela figura ilusória, de um Hyoga gentil, um Hyoga humanizado e preocupado com o bem-estar dos demais, seria complicado lidar a situação. — Eu não estou atormentando você, me dói dizer isso, preferia mil vezes estar enganado, mas eu não acho que esteja. Pense melhor Camus, quem poderia lucrar com tudo isso, senão o próprio Hyoga? Ele estava zangado, estava irritado com você e queria te punir. É horrível, eu sei, mas tenho certeza que agiu de má fé, porque estava desesperado, podemos resolver tudo, apenas respire fundo e se acalme. — Se aproximou cauteloso e ajoelhou-se na frente do amigo, pouco se importava com a calça que ficaria possivelmente suja com o sangue que o outro espalhara pela sala devido ao ferimento. — Olhe para mim. — Pediu e tocou a face dele, tentando chama-lo para a realidade.
— Não... não... não... não... — Repetia uma, duas, três, repetiria mil vezes se fosse necessário. Se isso pudesse afastar toda a dor que sentia, se pudesse fazer aquela imagem desaparecer de uma vez por todas. Camus ergueu a face e seus olhos focaram algo que somente ele via, atrás do amigo, a figura imponente do pai e ele lhe sorria, cruel e diabolicamente elegante.
“— Você é fraco Camus, sempre foi, olhe como é patético, Hyoga agora está na cadeia, por sua culpa, porque você é um inútil e nunca teve coragem para cuidar dos interesses dele. Me diga, Camus, por que não foge de novo? Você é bom nisso, muito bom. — O homem tornou cruel e se aproximou, se aproximou e agachou ao lado do filho, deitou a cabeça de lado e um sorriso lotado de escárnio adornou a face do mesmo. — Isso é sua culpa, Camus, você está assim, porque você mereceu. Lembra daquela noite? Lembra o que você fez? “
— Eu não fiz nada, não foi minha culpa! — Camus tornou para aquela figura que há muito o atormentava. Estava cansado de fugir daquele fantasma, ele sempre o seguida, aonde quer que fosse agora tomava forma para tirar-lhe a sanidade. Não era justo, não era! Nunca foi, pensou aturdido e perdido.
— Camus? — Afrodite sacudiu o amigo e arregalou os olhos assustado. — Camus com quem você está falando? Hey Camus! — Tentou e tentou, mas o outro continuava estático, olhando para o nada, tremia e soluçava, incapaz de discernir a realidade.
“— É claro que foi, você fez aquilo, você sabe que fez, pode tentar enganar a todos, mas a mim você não engana. E nem a si mesmo, não é? Do contrário não estaria aí nesse lugar, corroído pela culpa, você é um assassino, Camus, e o Hyoga? Ele é sua cópia! — O mais velho gargalhou. — É o seu sangue de assassino que tornou ele assim, porque ele é um monstro, um filhote de monstro. — Provocou. ”
— NÃO! — O ruivo gritou e empurrou o amigo, se ergueu e se afastou desesperado. — Fique longe, fique longe de mim! Saia daqui! — Ordenou incandescido. — Saia, vá embora, vá embora!
Afrodite caiu sentado e olhou estarrecido para o amigo, fez menção em se aproximar, mas ao ver o desespero nos olhos do ruivo e as mãos dele, apenas permaneceu onde estava. Nunca o havia visto daquela forma, ele parecia louco, fora de si. — Vamos conversar, Camus, se acalme, se acalme. — Pediu.
— Eu não fiz isso, eu não fiz, eu não fiz! — O ruivo ditou desesperado. Engoliu em seco e riu baixo, totalmente descontrolado. — Eu não fiz! Não fui eu, foi você, você tentou me matar, eu só me defendi!
“— Verdade? Então por que você está segurando essa arma? — O mais velho dos Versailles ditou com um sorriso torpe e caminhou altivo, se aproximando do menor. — Hm? Você quer me matar de novo, não é? Não foi suficiente me ver morrer uma vez...”
Camus desviou o olhar do ‘pai’ e mirou as próprias mãos, trazia consigo o abridor de cartas, havia pego quando se afastou, o objeto em outrora se encontrava na mesinha de centro. Não percrbeu quando agarrou a arma e muito menos quando supostamente a apontou. Arregalou os olhos e deixou o objeto cair e nesse preciso momento o corpo tombou para trás, caiu, batendo as costas no sofá e mirou um Afrodite horrorizado que o segurava pelos ombros.
— Camus! — Chamou novamente. — Camus, por favor, fale comigo. — Implorou. — Não faz isso comigo, você não pode fazer isso comigo! — Naquela altura o loiro já chorava copiosamente, nunca imaginou que o ruivo faria algo assim. Gelou quando ele apontou aquele bendito abridor de cartas e por mais que soubesse que ele jamais o iria ferir, sentiu pavor, um sentimento horrível que o fez paralisar de imediato.
— Afrodite? — Camus piscou algumas vezes e mirou o loiro com uma expressão que mesclava surpresa e temor. — Eu... eu não... eu sinto muito... eu nunca, nunca te machucaria. — Explicou apavorado.
— Shhh... Está tudo bem, eu sei. — Disse e o abraçou. — Está tudo bem, eu estou aqui. — Ditou triste e escondeu a face banhada em lágrimas nos ombros do mais alto. — Você está bem agora, não se preocupe. — Aquelas palavras eram mais para si mesmo do que para o ruivo, tinha idéia que o outro estava perturbado e possivelmente os fantasmas do passado em um momento ou outro cobrariam seu preço, mas nunca imaginou que o amigo pudesse ter um surto daqueles. Não conseguia acreditar nisso, não podia ser real, aquilo era um pesadelo, um terrível pesadelo. — Fique quietinho.
Camus permaneceu inerte e chorou, chorou como há muito não fazia. Não era a primeira vez que via aquele homem, começou com sonhos terríveis que o faziam acordar de madrugada suado e desesperado e não demorou para que a figura fantasmagórica tomasse forma e começasse a segui-lo no cotidiano. Tentou ignorar, pois sabia que não era real, não era, não podia ser. Arthur Versailles estava morto, morto e enterrado! Mortos não andavam a luz do dia, mortos não falavam e mortos definitivamente não podiam machucar os vivos. Aquele era o mantra que entoava dia após dia, mas estava ficando difícil ignorar, por vezes tentava fechar os olhos e implorar em sua mente para que o mais velho desaparecesse, mas ele era teimoso, ele sempre dava um jeito de retornar.
— Ele vai voltar Afrodite, ele sempre volta, ele sempre volta, ele... — Agarrou-se ao loirinho e tornou desesperado, segurava nele, como um naufrago em uma tempestade em alto mar. Precisava dele, precisava saber que ele estava ali, ele era sua tábua de salvação, sua sanidade. Os olhos giravam nas próprias órbitas e ele vasculhava cada canto, tentando inutilmente se certificar que aquela figura terrível não iria se aproximar ou fazer nenhum mal. — Ele vai me destruir, vai machucar o Hyoga, vai machucá-lo assim como fez comigo. — Lamentou.
— Quem vai fazer isso Camus? Quem? — Tornou nervoso.
— Meu pai, ele está bem ali. — Apontou trêmulo para o meio da sala. Afrodite respirou fundo e soltou o ar devagar, virou a cabeça e mirou na direção que o amigo apontava. Sabia que não havia nada, sempre soube, mas mesmo assim queria se certificar, o desespero do outro era tão palpável que por um segundo quis acreditar que ele estivesse certo e que ele não estivesse perdendo a sanidade. — Não há nada ali, Camus, não há nada. — Tentou acalmá-lo.
“— É claro que há, eu estou bem aqui, não dê ouvidos a ele, ele está mentindo para você, todos mentem para você, Camus, porque é divertido ver você sofrendo. Você é tão estúpido. — O mais velho revirou os olhos e andou calmamente pela sala, se sentou em uma poltrona e cruzou as pernas. — Achou que viveria em paz? Desfrutando da minha fortuna? Vivendo a vida que você roubou de mim? Hahaha... Camus, meu querido e amado Camus, eu acho que isso não vai acontecer, você sabe que sou um homem caridoso. — Ele ditou com uma expressão tranquila. — Se você confessar o que fez, se você vier de bom grado se encontrar comigo, vou te perdoar. Por que não faz isso, uh? Conte a todos que me matou, conte a todos o quanto você odiava seu velho pai, diga a eles o quanto você queria me destruir. Depois, você pode se juntar a mim, Hyoga não precisa de você, ele pode viver muito bem sozinho, ter você por perto é que o afeta. Morra de uma vez, faça um bem ao seu querido filhinho. Quer que todos saibam que ele tem um pai assassino? Um pai assassino que matou o próprio pai? Ele vai odiar você, vai te desprezar e vai sentir nojo, aquele garoto me ama, sabe? Diferente de você, ele me ama. Ele nunca vai te perdoar, então se mate, se mate logo. ”
— Camus, seu pai morreu, não tem como ele estar aqui. Mortos são apenas isso; mortos. O seu pai te machucou? Do que está falando? Ouça, não vou deixar ninguém te machucar, certo? Nunca! — Afrodite garantiu.
— Eu o matei... — Ditou baixinho. — Eu o empurrei da escada... — Confessou. — Ele estava tão furioso, ele gritou comigo, ele me mataria, disse que me mataria. Discutimos, ele me empurrou e eu o empurrei de volta, estávamos próximos à beirada da escada e ele caiu... eu fiquei apenas observando, ele estendeu a mão na minha direção, mas eu, eu recuei. — Riu e mais lágrimas escorreram por sua face. — Eu sabia que ele iria morrer, era uma queda terrível, eu sabia... eu queria que ele morresse... eu fiz... eu fiz isso porque... porque...
“— Porque você me odiava. — O mais velho complementou e agora ele estava novamente próximo, bem próximo, próximo ao ponto de o filho sentir sua respiração. — Você nunca me perdoou e eu nunca fiz nada para você, Camus, você sabe que não. Eu só protegi essa família, eu tentei salvar você, lembra? Tudo que fiz foi pelo seu bem. ”
— Sim... eu te odiava, eu odiava o que você me fez ser, odiava você com todas as minhas forças. — Confessou. — Eu ainda o odeio, eu te odeio! — Rebateu. — Me salvar... você nunca moveu um dedo para me ajudar, você me deixou trancado naquele quarto por todos aqueles anos. Você me viu definhar, me viu morrer dia após dia, você é quem estava me matando! Eu só... eu só... era você ou eu e pela primeira vez na minha vida eu pensei em mim! — Finalmente tivera coragem de dizer tudo que pensava, tudo que passou, por anos ficara sozinho, trancado no escuro, vivenciando aquela realidade horrível e opressora.
“— O que queria que eu fizesse? Queria que eu contasse a todos? Nossa família seria motivo de piada, todos iriam nos julgar e nos apontar na rua! Você nunca teria condições de sair de casa novamente, não poderia fazer faculdade e eu nunca mais conseguiria reerguer a empresa. Sacrifícios são necessários, Camus, você sabe disso, sempre soube. — Rebateu com frieza. — Você só precisava esquecer tudo, é tão difícil assim? ”
— Eu era somente um garoto! Só um garoto, você fingiu que não viu, você me vendeu... me vendeu... — Gritou.
Afrodite se soltou com cuidado e se ergueu, não sabia o que fazer, não sabia como reagir. Apenas ficou ali, inerte, olhando para ele, olhando para aquela discussão imaginária e chegava a sentir vertigem. Sua mente trabalhava rápido e aos poucos ele assimilava a situação e muito embora odiasse aquele fato, começava a entender perfeitamente o que estava ocorrendo. Mesmo que Camus apenas respondesse ao suposto fantasma do pai.
“— Não foi assim, eu o mandei embora, eu o fiz desaparecer, você sabe! Eu salvei você, moleque ingrato. — Rebateu o mais velho. ”
— Sim... depois que tudo acabou... você... simplesmente o mandou embora, você aceitou o dinheiro dele... você vendeu seu próprio filho... — Disse baixinho.
Afrodite sentiu o estomago revirar e agradeceu por não ter comido nada, do contrário, teria vomitado diante do rapaz ao escutar toda aquela maldade. Sabia que ele havia sofrido abusos, mas nunca imaginou que o pai do mesmo soubesse disso e tampouco que o tivesse obrigado a ficar quieto por todos aqueles anos. Era desumano, era cruel, que espécie de demônio aceita conviver com tamanha monstruosidade e obriga uma vítima, uma criança a ficar quieta diante das circunstâncias?
“— Você é decepcionante, achei que tivesse compreendido, sentimentos como esses é que causam sua ruína, devia ter usado essa experiência para se tornar forte, mas em vez disso você continua chorando pelos cantos. Nós precisávamos do dinheiro, Camus, sem ele todo o nosso patrimônio teria desaparecido, você pensa que teria sido melhor, mas você não faz idéia de como é viver na miséria! É sua culpa por acreditar nas pessoas, nunca deveria ter se mostrado solícito, você quis aquilo, não foi? Você seduziu aquele homem, você gostou, não foi? Hahaha... gostou sim, gostou, adorou, está apenas tentando disfarçar isso com essa carapuça de vítima, mas você não é vítima, você sempre foi problema. Jogou fora todas as minhas esperanças e engravidou aquela piranha sem eira nem beira, achou que eu iria aceitar sua rebeldia? Nem ela te quis, ela só queria o seu dinheiro, mas você não tinha dinheiro, não é? Era meu! Meu! Meu! Meu! Você não vai ficar com o meu dinheiro, é meu! Não vou permitir que você viva feliz e gaste minha fortuna. Assassino, seu parricida imundo! ”
Afrodite pegou o celular e se afastou um pouco, mas antes de deixar a sala, capturou o objeto que em outrora Camus usou para ameaça-lo, temia que o rapaz acabasse se ferindo se tivesse chances. Discou rapidamente o número da emergência e pediu uma ambulância, não queria fazer isso, mas sabia que se não fizesse, acabaria causando maiores problemas para o ruivo. Se sentia culpado, pois em vez de apenas aconselhá-lo a procurar ajuda, deveria tê-lo obrigado a ir ao médico, agora talvez não houvesse chances e tudo isso por ser negligente e burro ao ponto de imaginar que aquela fachada de autocontrole era verídica.
— Como pode dizer isso? Eu tinha somente oito anos, como eu poderia ter gostado? Eu achei que iria morrer, eu queria morrer, eu me senti tão imundo, tão desgraçado... eu me odiei, odiei você, mas me odiei ainda mais, porque no fundo eu queria acreditar que você me amava, que fazia aquilo para me proteger, por anos eu pensei isso, acreditei realmente... você devia me proteger, devia ficar ao meu lado, mas você simplesmente disse que estava tudo bem. Que não tinha problema, eu só precisava ficar quieto e que logo não ia doer mais... — A voz do ruivo agora não passava de um sussurro quase inaudível. — O Hyoga é diferente. — O ruivo ditou triste. — Ele não é como eu. — Balançou a cabeça negativamente. — Ninguém vai machucar o meu filho... ele é meu... meu filho... eu vou proteger ele, de você, de todos, eu nunca vou deixar que alguém toque nele.
“— Talvez, mas isso tudo é graças a quem? — Deu três tapinhas no rosto do filho. — Hyoga é um predador, ele é esperto, é tudo que eu sempre quis. Não é como você de fato, decepcionante, fraco e medroso. Ele sim é o meu orgulho, o criei muito bem. Você vai proteger ele? Hahaha... francamente, você não é capaz de proteger nem a si mesmo, que dirá aquela criança. Você sabe, Camus, o único motivo pelo qual eu o deixei ficar com ele? É porque eu precisava de um herdeiro, nunca vi você como alguém que poderia se tornar meu herdeiro, ele era diferente, eu o criei para se tornar uma cópia fiel. É por isso que deixei tudo para ele, para o filho que você nunca seria capaz de se tornar. Hyoga pode ter o seu sangue, mas ele é meu, você sabe disso. Experimente dizer a ele, diga a ele que você é o papaizinho dele, acha que ele vai sorrir e se atirar nos seus braços? Ele vai te odiar, te renegar. Eu deveria ter jogado você fora, nunca gostei de você. — Confessou aos risos. — Amar você? Não seja estúpido! Eu só fiquei com você, porque não tinha outra opção, mas quando o Hyoga nasceu? Bem, era o momento perfeito para me livrar de você, naquele ponto você já não era mais útil. ”
Não demorou para que a ambulância chegasse, mesmo com tantos repórteres, a equipe não teve problemas para passar pela portaria e logo estavam no apartamento do ruivo. Ele continuava no mesmo lugar, os pés sangravam e ele chorava copiosamente. Foi preciso usar um sedativo para retirá-lo de lá e mais uma vez uma chuva de flashes ocorreu, os paparazzi se acotovelavam e tentavam a todo custo arrancar alguma coisa de Afrodite que apenas se limitou a acompanhar a maca que levava o amigo. Sabia que as coisas dali para frente seriam difíceis, sabia que todos os sorrisos, os planos que tinham, tudo isso se tornariam cinzas. Mas precisava ser forte, Camus precisava dele, Hyoga, apesar de tudo, também precisava e não iria deixar as coisas como estavam. Desejou que Arthur ainda estivesse vivo, pois ele mesmo gostaria de dar fim aquele demônio infeliz.
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O tempo passou rápido, uma semana, duas e finalmente um mês após todo o ocorrido. Kanon era um ótimo advogado e não demorou a conseguir calar a mídia a respeito dos escândalos que envolviam Milo. Shura também lidou bem com a situação e logo já era visto nas boates mais badaladas ao lado de belas modelos, obviamente seu orgulho ficou ferido pelos comentários do tal Aquiles e ele fez questão de se exibir com o máximo de mulheres possíveis, isso de alguma forma o acalentava. Não que fosse preconceituoso, Milo era gay, era seu melhor amigo, mas não gostava de saber que andavam supondo coisas como aquelas a seu respeito. Saga soube que Camus havia sido internado e ele ainda se encontrava incomunicável, os papéis ainda eram válidos, Afrodite pessoalmente pedira a ele que apenas fizesse uma coletiva e afirmasse que a coleção havia sido adiada, mas que eles ainda trabalhariam juntos, aquela era a única maneira de ajudar o amigo. Afinal, Camus era um homem focado no trabalho e temia que uma situação complicada pudesse piorar o quadro em que ele se encontrava. Aos poucos as coisas foram voltando aos eixos, milagrosamente o homem que Hyoga ferira acabou sobrevivendo e o menor foi liberado após um árduo trabalho de Kanon, que por pedido pessoal de Afrodite resolvera defender o garoto. Eram velhos conhecidos, era óbvio que não recusaria o caso.
Shaka apesar dos pesares decidiu que iria sim viver com Milo, daria ao modelo uma última chance, talvez e só talvez pudessem resgatar o que havia sobrado da relação de ambos. Mas isso estava se mostrando um pensamento estúpido, pois Milo continuava o mesmo de sempre. O evitava, o tratava como um desconhecido e o pior não era o jeito festeiro do modelo, mas sim o fato dele se tornar completamente fechado. O loiro de alguma forma se apegara ao empresário ruivo, pois apesar de todo o tempo, ele ainda tentava de todas as formas vê-lo, mesmo sendo sempre ignorado pelos médicos que insistiam que ele fosse embora, pois o paciente não queria e não podia receber visitas. Apenas dos familiares, exceto Afrodite, que tinha uma permissão especial para acompanhá-lo.
Hyoga respondia o processo em liberdade e sua vida continuava normal, apesar do escândalo, tudo foi esquecido aos poucos pela mídia que buscava agora tentar descobrir os motivos do ruivo ainda estar internado. Coletivas foram feitas, questões foram levantadas e muitas foram respondidas, outras ignoradas, mas os motivos do francês estar hospitalizado ainda eram um mistério. Afrodite dissera a todos que ele estava muito doente e que necessitava de tratamento e logo tudo seria revelado. Mas a doença era um segredo de estado e isso agitava os paparazzi que tentavam de todas as maneiras cercar Hyoga, mas mesmo ele se sentia desolado e por isso mesmo evitava qualquer contato com repórteres ou qualquer um que o questionasse sobre a saúde de seu irmão. O fato dele ter sido preso por tentativa de homicídio logo se tornou distante e era como se ele não tivesse feito absolutamente nada. O loirinho, no entanto, se sentia infeliz como nunca, ver Camus em uma cama de hospital não fora de modo algum algo que o satisfizesse. Imaginava que ver o irmão em uma situação difícil fosse melhorar a dor que sentia, mas descobriu que era o contrário, não gostava de ver Camus sozinho, quieto e com os olhos sem brilho. Aquela era uma visão do inferno e após vê-lo chorou feito a criança que era, lamentou e implorou para que tudo voltasse a ser como era antes.
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— Milo, aonde pensa que vai? — Saga indagou irritado, mal haviam acabado a sessão de fotos e o loiro saíra correndo, o perseguiu pelo local até estarem a sós no camarim do modelo.
— Vou ver o ruivo. — Rebateu enquanto se trocava.
— Não acha que já causou comoções suficientes por toda uma vida? Não acho que seja uma boa idéia você continuar cercando ele assim. Você já ouviu isso milhares de vezes, ele não quer ver ninguém e os médicos não acham adequado que receba visitas. — Saga tornou irritado, não entendia o irmão, nunca o vira tão obstinado e por mais que odiasse admitir, começava a suspeitar que toda aquela perseguição ia muito além de simples capricho, mas não achava correto que o irmão se envolvesse com alguém doente como o ruivo.
— Hoje eu estou sentindo que estou com sorte. — Sorriu esperançoso. — Hoje ele vai me receber.
— Milo, você não deve ir vê-lo, entenda, ele é doente. — Saga extravasou o que pensava, era cruel, mas era um fato. Não gostava de ver as coisas por aquele ângulo, mas sabia o quanto Milo era irresponsável e que possivelmente se cansaria e isso poderia machucar ainda mais o rapaz.
— Não é doente, está doente. — O loiro corrigiu com uma expressão séria. — E se ele fosse doente, não mudaria o fato de eu gostar dele. Saga, eu sei que você vai pensar que isso é apenas um capricho meu, mas eu realmente gosto do ruivo. Eu pensei nisso durante todo esse tempo, se fosse só fogo de palha eu teria arrumado outra pessoa, mas eu não consigo parar de pensar nele, eu sei lá. — Coçou a cabeça e sorriu meio sem graça. Se sentou ao lado do irmão e agarrou as mãos dele. — Eu acredito que ele vai sair logo do hospital e eu sinto aqui. — Com a destra tocou o próprio peito. — Que eu preciso estar lá para recebê-lo.
— O que você sabe sobre gostar de alguém? O Shaka está lá trancado no seu belo apartamento, você não consegue cuidar nem do seu suposto namorado, por que acha que conseguiria cuidar do Camus? — Saga puxou as mãos e se ergueu irritado. — Ouça bem, eu não quero saber de mais nada, esqueça esse homem e não se atreva a ir atrás dele. — Não queria conversar com o irmão, ele era teimoso e não conseguia compreender aquela fixação. Decerto podia compreender que Camus era um homem bonito, mas era também uma pessoa doente como havia citado. Não tinha preconceitos aquele respeito, mas não acreditava que Milo estivesse preparado para vivenciar uma relação complicada como seria a de ambos, e, isso se viesse a se concretizar.
— Você sabe que eu não vou te obedecer. — Milo sorriu sapeca e se ergueu. — Eu sei, Shaka não é burro e nem eu, sabemos muito bem que o que nos mantem juntos no momento é a conveniência, da minha parte para evitar escândalos e da dele por não ter para onde ir. Não me entenda mal, eu gosto do Shaka, mas não consigo me imaginar junto com ele.
— E consegue se imaginar com aquele homem? — Saga riu. — Você não faz idéia de onde está se metendo Milo, não faz mesmo idéia. — Suspirou.
— Então por que não me diz? — Milo se aproximou do irmão e tocou o ombro dele. — Eu sei que você sabe a verdade, você e o Laursen ficaram horas trancados em uma sala, não uma, mas várias vezes. Ou você e ele estão tendo um caso ou você sabe da verdade e está escondendo o jogo. — Tornou.
— Não seja ridículo. — Saga desviou o olhar. Afrodite Laursen o havia procurado e pelo bem do contrato conversara com ele e contara toda a verdade. Ficou desolado, triste, mas sabia que não poderia fazer nada para mudar o passado. Poderiam sim continuar trabalhando juntos se o francês desejasse quando saísse da clínica, mas daí a dar apoio as idéias transloucadas de Milo era algo bem diferente. — Eu vou te contar, mas você precisa manter a boca fechada, o que vou te dizer aqui é segredo, entendeu? Espero que você tenha bom senso e que esqueça esse homem de uma vez por todas depois de saber a verdade.
Milo estava curioso, tentava cercar o estilista vez ou outra, mas a boca de Afrodite era um túmulo, sabia que Saga possivelmente seria discreto, mas não custava arriscar e ali estava o resultado. Sorriu animado e puxou o outro para que ambos se sentassem. Empertigou-se e se limitou a ouvir tudo que o irmão tinha a dizer.
— Camus está internado, porque sofreu um surto psicótico, o pai dele morreu recentemente, disso você sabe, não é? — Fez uma pausa, mas ao ver o irmão assentir continuou com a narrativa. — Pois bem, foi um acidente, o homem caiu da escada e quebrou o pescoço. Ao menos é isso que todos pensam, mas a verdade é que o Camus o empurrou da escada. Ambos não tinham uma boa relação, Afrodite me garantiu que foi legítima defesa e eu sinceramente não acho que ele esteja mentindo, mas isso não muda o fato daquele homem ter matado o próprio pai. Independente dos motivos dele, isso é errado e eu não acho correto que ele se omita a esse respeito. Na infância o rapaz sofreu abusos, Afrodite me contou os detalhes e sinceramente eu prefiro não repetir para você, é asqueroso. — Saga abaixou a cabeça e tomou fôlego. — Ele foi estuprado, Milo, o pai dele sabia, mas para evitar um escândalo ele o fez ficar quieto por muito tempo. Obviamente você deve imaginar o quanto foi complicado para ele, somando isso, a situação complicada com o irmão que acabou na cadeia após quase matar um homem e o assassinato do pai, ele surtou, perdeu o controle e precisou ser internado. Ele está sendo mantido fora de uma clínica especializada, porque Afrodite quer evitar maiores complicações, pois isso poderia piorar o quadro, mas ele nunca, nunca será o que você quer. Acha mesmo que ele vai conseguir ter uma vida normal? Acha que ele vai conseguir ter sexo com outro homem depois de tudo que aconteceu com ele? Esqueça o Camus, ele não precisa que você seja mais uma dor de cabeça na vida dele. Já tem problemas suficientes, se você gosta mesmo dele como diz, então o deixe em paz. Eu estou pedindo, não, eu estou implorando, esqueça-o.
— O quê? — Milo sorriu e mirou o irmão. — Isso é mentira, não é? — Riu, mas ao ver o outro negar, engoliu em seco e ficou de pé. Entreabriu os lábios e pensou em dizer algo, mas as palavras não saiam, era como se sua voz o tivesse abandonado e pela primeira vez na vida se sentiu um completo inútil. Tudo ao redor pareceu girar e ele imaginou aquele anjo ruivo sozinho, machucado, chorando. Maneou a cabeça negativamente e cerrou os punhos. — Isso é demais, Saga, você sabe o que está dizendo? Quando criança... estuprado... — Milo guiou as mãos aos lábios e sentiu a bílis subir a garganta, precisou sair correndo para o banheiro, colocou para fora tudo que havia consumido. Não conseguia acreditar que isso era verdade, não aquele homem seguro de si, não aquela pessoa centrada que se tornara em sua vida uma figura constante de delírios, não o único que conseguiu fazer seu coração pulsar de maneira diferenciada.
Saga não se moveu, entendia a reação do outro, conseguia ouvi-lo passando mal e isso o preocupou, mas se manteve exatamente onde estava e quando finalmente o loiro deixou o banheiro o encarou com seriedade. O loiro desviou o olhar e saiu do camarim, pensou em segui-lo, mas achou por bem deixa-lo sozinho, ele precisava assimilar a idéia e apesar de Milo ser uma pessoa problemática, acreditava que aquela revelação seria suficiente para fazê-lo entender que deveria se afastar do outro.
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