Through The Ghost
1 Capítulo único: Fantasma.
Notas iniciais
"Dói. Doía. Doeu. Os passos leves e fantasmagóricos poderiam ter ecoado pela imensa casa vazia, mas nada se fez ouvir. As batidas de seu coração antes tão fortes, já não se faziam presente. Mesmo que antes fossem lentas, dolorosas, falhadas, ela as teria desejado de volta. Aquelas batidas lentas de medo. De dor e desespero. Ela sempre as queria de volta. Embora nunca as tivesse. Tocou o rosto com as pontas dos dedos, seguindo o caminho que antes teriam sido molhados por lágrimas. Lágrimas salgadas e opacas que marcariam um caminho de dor por sua face e acabariam encharcando seus lábios rachados. E então, a dor teria seu tão aclamado espaço. Uma dor que reverberaria por seu corpo inteiro, fazendo com que cada músculo parecesse gritar em tormento. Mas nada disso pertencia mais a ela. Então apenas andava pela casa escura, sem jamais dormir, sem jamais descansar. Apenas tentando tirar de sua cabeça tudo aquilo que não deveria mais ter espaço ali. Mas tudo apenas se tornava pior a cada segundo, minuto, hora, dia. Décadas. Nada daquilo melhorava. Nada nunca mudava. Para ela não havia nem mesmo sinal da tão esperada luz que diziam haver no fim do túnel. E o tempo tortuoso que passava por si apenas tornava as coisas cada vez piores. O fim não lhe chegava. Então ela apenas podia vagar. Sem rumo. Sem esperanças."
Era uma maldita noite fria naquela cidade a tanto esquecida. O céu negro despido de estrelas parecia ameaçar qualquer um que se aventurasse naquelas ruas. Se ao menos existisse alguém para cometer tal ato. Sua presença etérea avançava calmamente ruas adentro, pulando pedras, escombros e pedaços antigos de construção. Mesmo que isso não fosse necessário mais, trazia certa sensação de conforto evitar aqueles pequenos empecilhos.
A sombra do coração que vivia em seu peito permanecia no mesmo silêncio em que a tantos anos estivera. Ficava imaginando que se ele batesse com certeza estaria repleto de dor. Mas ao mesmo tempo, seria bom se sentir viva. Depois de tanto tempo confinada ao frio de seu corpo pálido e à quietude ao menos uma vez seria maravilhoso sentir como seria ser viva novamente. Sonhos sem sentido, que nada mais eram que sombras. E sombras eram o que mais existia naquela cidade. Para onde quer que caminhasse elas envolviam seu corpo efêmero e as trevas pareceriam sempre tomar a mesmas formas.
A forma deles.
Nesses instantes parecia que o chão se abria sobre seus pés e ela caía. Caía e caía em direção ao vazio. Mesmo que já vivesse nele. Todo o seu passado se repetia sem parar em sua mente, mantendo sempre presente tudo que já lhe fora importante. E talvez tornando tudo aquilo muito pior. Mas só havia uma coisa que piorava tudo. O silêncio. O silêncio que eles deixaram. Aquilo a enlouquecia e a fazia querer bater a cabeça em cada parede que aparecia em seu caminho. Se ela não as atravessasse provavelmente já teria morrido novamente de tanto acertá-las com o crânio.
Era um tanto quanto incrível quando mesmo na morte o sorriso deles nunca a abandonara. Por mais que já tivesse vagado. Por mais tempo que já estivesse presa naquele limbo. Ela nunca os esquecia. Nenhum deles. Nenhum. Podia lembrar-se com perfeição de cada rosto, de cada expressão de todas as pessoas que um dia já habitaram aquela cidade coberta de cinzas. Hoje apenas um pequeno ponto de pó em mapas tão antigos que ninguém mais os utilizava.
Cidade esquecida e abandonada a tanto que nem ela mesma saberia dizer o tempo certo. Aquela, como muitas outras não durou para sempre. E no fim restara apenas as construções antiquadas, os objetos abandonados em desespero durante a fuga. E os fantasmas.
Mesmo que ali houvesse apenas ela. O pequeno fantasma branco que atravessava ruas e avenidas, eternamente presa naquele lugar. Nunca podendo sair, nunca podendo escolher para onde ir. Apenas aguardando silenciosamente a luz que diziam que buscava a todos. Mas que nunca chegava para ela.
E ela já desistira de tentar entender o por que de ter sido abandonada à própria sorte naquele mundo que não mais lhe pertencia. Não era justo. Não era certo. Ela se tornara apenas uma aberração cujo destino era apenas assustar os mais desavisados viajantes que por vezes por puro azar acabavam cruzando aquela cidade fantasma tarde da noite.
Uma situação impensável e insuportável.
Os passos inexistentes tomaram conta do grande salão em que ela adentrara, ou pelo menos era assim que ditava sua imaginação. Aquele espaço acabado, antes um grande teatro e agora apenas uma construção meio destruída e coberta de uma poeira tão grossa que dificilmente algum dia poderia ser removida, se é que alguém se importaria com isso, era parte dos breves passatempos dela.
A pequena subiu ao que antes era o palco. Um grande buraco se abria na parte de trás, levando a passagens abarrotadas de terra e pedaços de cenário. Ela o evitou, tomando a frente do piso de madeira que ainda estava intacto. O teto totalmente esburacado deixava incidir diretamente sobre ela um facho de luz prateada provinda pela lua cheia, mais bela que qualquer iluminação que algum dia poderia ter sido usada ali.
O pequeno corpo se movia. Seus passos não marcavam o piso e seus movimentos não provocavam nem o mínimo deslocamento de ar.
Era aquele seu fardo. Estar para sempre presa à uma cidade que aos poucos desapareceria completamente, vencida pelas florestas e vegetação que já tomavam suas ruas. A última representante de um povo já completamente extinto. A que morrera quando não deveria, a que teve seu corpo rasgado e destruído sem piedade, e seu sangue espalhado pelas paredes da casa que antes habitava.
A que fora vítima da estupidez e violência humana. A órfã que era considerada apenas um empecilho.
Morrera fora de hora, brutalmente arrancada de um mundo que ela mal começara a conhecer. E agora continuaria a existir, enquanto não alcançasse seu tempo ali continuaria. Até que finalmente seus anos vencessem e chegassem à seu fim, quando finalmente acenderia para o plano no qual era aguardada.
Enquanto isso ela apenas poderia esperar.
Vivendo através de um espírito.
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