Capítulo 6: Parceiros

Taichi e eu começamos nossa busca pelos nossos parceiros assim que nos separamos dos outros. Nós decidimos seguir ao norte, ele tinha a sensação de que encontraríamos pelo menos um deles naquela direção.

“Sinto muito por ter estragado seu dia especial.”

“Nosso dia especial, Taichi.” Eu o corrigi. “Eu não entendo por que você só me dá crédito. Todos queriam isso, eu acho.”

“Eu não percebi que alguns de nós ficariam irritados com isso.” O adolescente deu de ombros. “É como se todo esse tempo separado nos tornaram pessoas odiosas.”

“Eu não acho que seja isso.” Eu coloquei meu dedo indicador embaixo do queixo. “Nós estamos todos ocupados com nossas vidas. Alguns de nós lidam com isso melhor do que os outros. Não podemos julgá-los.”

“Você tem razão.” Taichi suspirou fundo. “Eu fui inocente em pensar que poderíamos voltar a ser como éramos. É claro que não, todos nós crescemos desde então.”

“Exatamente.” Eu assenti. “Mas isso não significa que não podemos ter aquilo de novo mais para frente.”

“Você viu o jeito que o Yamato agiu com a Sora depois que ela chamou a atenção dele?”

“O que tem isso?” Eu lhe perguntei, sem saber exatamente onde isso ia chegar.

“Eu nunca o vi fazendo algo assim com ela antes.”

“Estou sentindo um pouco de ciúme?”

“O que?” O moreno arregalou os olhos e tentou seu melhor para esconder suas bochechas coradas. “Não estou com ciúme.”

“Então por que está cismado com isso? Talvez o Yamato ser uma estrela do rock tenha o ajudado a superar sua timidez. Mas tenho certeza que foi só uma coisa entre amigos.”

“Exceto que eles não passam tempo juntos. Aquilo tudo foi estranho.”

“Se você diz.” Eu respondi meio distraidamente. “Tailmon, onde você está?”

“Taichi!” Uma voz familiar ecoou na floresta.

“Agumon!” Taichi tinha um sorriso bem largo em seu rosto enquanto corria até seu parceiro.

Eu sorri observando meu irmão e seu parceiro se emocionarem. Não podia culpá-los, todos nós agiríamos assim após encontrar nossos Digimon. Eu olhei ao redor e continuei minha busca pela Tailmon.

“Certo.” Taichi disse enquanto se levantava e me olhava. “Agumon, você pode nos levar onde a Tailmon está? Você ainda sabe onde é, não sabe?”

“Sei, sim. É por aqui.”

Meu irmão e eu começamos a segui-lo. Eu mal podia controlar meu sorriso, sabendo que seguraria a Tailmon logo.

Mimi e Sora foram ao sul. Elas estavam andando por entre as árvores em silêncio quando a menina ruiva decidiu quebrá-lo.

“Não consigo acreditar que você veio de Nova Iorque, Mimi. Que loucura!”

“Por quê? Eu não podia perder esse dia. Agora que a tradição voltou, pode esperar que eu faça isso todo ano.”

“Seus pais concordaram com isso?”

“Eles não sabem.”

“O que?!” Sora gritou. “Mimi!”

“Eles não sabem de tudo. É claro que eu tive de lhes contar algo. Eu não podia simplesmente sumir por um dia. Você os conhece, eles surtariam.”

“Certamente conheço.” Ela sorriu. “Às vezes você parece igual sua mãe.”

“Não, ela é pior que eu.” Mimi fez uma careta e riu. “Se meu pai não quisesse ser corajoso, Togemon nunca teria evoluído para Lilimon.”

“É verdade. Odaiba estava um caos naquela época.”

“Estava mesmo, mas eu me diverti tanto, por mais que fosse uma chorona.”

“Você era criança, então não posso te culpar. Era uma coisa nova para todos nós. Quando você imaginaria salvar o mundo? Nós éramos adolescentes ou crianças.”

“Mas você precisa admitir que foi legal, Sora.”

“Definitivamente foi.” Sora riu. “Eu meio que sinto falta disso, sabe? Embarcar em outra aventura.”

“Eu não poderia me juntar a vocês dessa vez.” A menina de cabelos rosa disse tristemente. “Fuso horário é horrível. Eu perderia a maior parte das aventuras por causa disso.”

“Tenho certeza que poderíamos arrumar um jeito de…” A tenista parou de falar. “Hein?”

“O que aconteceu, Sora?”

“Você tem de me prometer que não vai gritar, mas acho que encontrei algo.”

“O que?” A voz da Mimi estava trêmula. “O que é, Sora?”

Ela viu sua amiga entrar mais fundo na floresta, mas era incapaz de se mover. Ela teve receio de encontrar uma cobra ou algo assim. Ela odiava insetos.

“Você não tem medo do que possa encontrar?”

“Na pior das hipóteses podemos encontrar um Kuwagamon, eu acho. Não há cobras ou insetos no Mundo Digital, Mimi. A menos que eles sejam Digimon. Não precisa se preocupar.”

“Eles são assustadores, Sora.” Ela colocou seus braços ao redor do peito, como se o simples pensamento de um inseto lhe desse arrepio.

“Eu encontrei!”

“Se isso for uma pegadinha comigo, eu vou te matar.” Mimi disse quando viu sua amiga voltando com as mãos escondidas nas costas.

“Quer se acalmar?” Sora perguntou exasperada. “Eu nunca faria isso com você. Só faço isso com o Taichi.”

“Então o que é?” Ela nem precisou esperar pela resposta. A menina ruiva saiu do caminho e o queixo de Mimi caiu e ela gritou a plenos pulmões. “Palmon!”

“Mimi!” A Digimon gritou no mesmo volume.

“Vocês duas não mudaram mesmo.” Sora exclamou maravilhada, com suas mãos nos quadris.

“Cale a boca!” As duas falaram ao mesmo tempo.

Yamato e Takeru decidiram ir a leste, para as montanhas. Não era exatamente o lugar ideal do Patamon, mas era o do Gabumon e eles decidiram procurar por ele primeiro.

“Você acha que podemos achá-lo lá?”

“Não sei, mas estou disposto a tentar.”

O dono do Brasão da Esperança não respondeu, apenas abaixou a cabeça e continuou andando.

“Você deverá gostar de saber que pedi desculpas à Sora.”

“O que?” Ele levantou a cabeça e olhou seu irmão. “É sério?”

“Sim, por quê? Eu percebi que fui muito duro com ela e não deveria. Além disso, você abriu meus olhos. Então tenho de te agradecer.”

“Tudo bem, Yamato. Você não precisava. Eu só não queria que vocês dois se tornassem completos estranhos.”

“Eu sei que você teve boas intenções, Takeru. É por isso que eu te devo desculpas também.”

“Desculpas aceitas.” Ele sorriu. “Então, quando isso aconteceu?”

“Quando caímos aqui. O Koushiro e eu caímos perto dela e da Mimi, então não foi difícil encontra-las. Eu me desculpei com ela assim que ela acordou. Estamos acertados agora, aparentemente.”

“Fico feliz em ouvir isso, maninho.”

“Obrigado.” Ele sorriu fracamente e voltou sua atenção para o outro lado. “Gabumon, onde está você?”

Takeru decidiu arriscar também. “Patamon! Patamon!”

“Vamos olhar na caverna. Algo me diz que vamos achar o Gabumon lá.”

“Certo.” Takeru seguiu seu irmão e correu para dentro da caverna.

“Tá vendo, eu disse que o encontraríamos.” Yamato disse com um sorriso depois que eles entraram e ele correu até seu parceiro. “Gabumon, sou eu. Yamato.”

“Yamato.” O Digimon lentamente abriu os olhos, mal acreditando que ele ouviu sua voz. “É você mesmo?”

“Claro que sou eu, quem mais seria?” O louro se ajoelhou e o abraçou.

“Como você chegou aqui? Eu achei que o portal estava fechado.”

“Nós também. Mas aparentemente o digivice conseguiu abri-lo novamente. Nós fomos trazidos pelo oceano de novo.”

“Nós? Isso significa que os outros vieram também?”

“Sim, mas todos nós seguimos em diferentes direções para encontrarmos nossos parceiros mais rápido. Eu espero que eles tenham conseguido, pelo menos parcialmente.”

“Maninho, vamos encontrar o Patamon e voltar para onde devemos nos reunir.”

“Tudo bem.” Yamato levantou e olhou para seu irmão. “Você tem alguma ideia de onde ele possa estar?”

“Não exatamente.” Ele deu de ombros. “Mas eu sei que ele não gosta de frio, então aqui não é um lugar onde ele estaria.”

“Então vamos ter de começar de novo.”

“Infelizmente, sim.”

“Os Digimon voadores geralmente gostam de ficar na área central do Mundo Digital, onde tem a maioria dos suprimentos que eles precisam para sobreviver.”

“Então está dizendo que é lá que vamos encontrar o Patamon?”

“Não apenas ele, mas Piyomon e Tentomon podem estar lá também.”

“É perto de onde devemos nos encontrar depois.” Takeru olhou para o Yamato. “Devemos mandar mensagem para a Sora e o Koushiro e avisá-los sobre isso?”

“Vou fazer isso.” A estrela do rock pegou seu celular e enviou uma mensagem para seus amigos. “Pronto.”

“Ótimo, agora vamos.”

“Eu mostro o caminho.” Gabumon tomou a liderança e os irmãos o seguiram.

“Eu não achei que você viria.” Agumon disse para o seu parceiro enquanto nós continuávamos nossa busca pela Tailmon.

“Nem eu.” Taichi respondeu, dando de ombros. “Não achávamos que o portal iria abrir novamente, mas abriu. Não poderíamos perder essa chance.”

“Isso mesmo.” Eu concordei automaticamente. “É uma pena que não pudemos vir em Primeiro de Agosto.”

“Mas podemos mudar isso no ano que vem.” Meu irmão colocou uma mão no meu ombro e me assustou.

“Eu sei.” Eu tentei usar meu melhor sorriso. “Fico feliz que estamos aqui agora. Antes tarde do que nunca, certo?”

“Concordo totalmente.” Ele sorriu para mim e depois olhou ao redor, procurando por seu parceiro. “Cadê o Agumon?”

“Taichi, Hikari.” Ele apareceu no meio de alguns arbustos. “Estou bem aqui.”

“O que está fazendo aí?” Taichi perguntou enquanto corríamos em direção ao Agumon.

“Adivinhem quem eu encontrei?”

“Hikari!”

Eu não consegui conter um sorriso quando vi Tailmon saindo de trás do parceiro do Taichi. Eu me abaixei e abri meus braços enquanto ela veio correndo até mim.

“Tailmon!”

“Eu achei que nunca mais te veria pessoalmente.”

“Eu sabia que nos veríamos de novo. É por isso que eu falei ‘Te vejo em breve’. Eu nunca duvidei disso, nem por um segundo.”

“Agora eu me sinto idiota por não acreditar nisso. Sinto muito.”

“Tudo bem, Tailmon.” Eu a segurei em meus braços e levantei. “Não se preocupe com isso.”

“Hikari, devemos voltar agora. Acho que os outros podem estar esperando por nós.”

“Certo, vamos.”

“Mimi, quer parar de apertar a Palmon? A pobre Digimon vai morrer asfixiada.” Sora tinha um tom divertido em sua voz, mas ela também estava falando sério.

“Ah meu Deus! Desculpa, Palmon. Eu não quis te machucar.” Ela imediatamente se soltou dela.

“O que?” A jogadora de tênis colocou a mão no bolso e pegou seu celular. “É uma mensagem do Yamato.”

“Ele finalmente está te chamando para sair?” Mimi provocou.

“Cale s boca, Mimi.” Sora mostrou a língua para ela e abriu a mensagem. “Ele disse que os Digimon voadores geralmente ficam na área central do Mundo Digital. Ótimo, viemos até aqui para quase nada. Agora vou ter de esperar um pouco mais para encontrar a Piyomon.”

“Não reclame, Sora.” A menina de cabelos rosa disse frustrada. “Nós teríamos que vir até aqui de qualquer jeito. Como iríamos achar a Palmon?”

“Você tem razão.” Ela não conseguiu achar nada para rebater isso. “Agora que estou lembrando, você nunca me agradeceu por fazer isso.”

“Eu vou te agradecer quando fizer o que me prometeu.”

“E o que era mesmo?” Sora revirou os olhos, tentando lembrar o que ela tinha dito.

“Ah meu Deus, você não lembra?” A dona do brasão da Sinceridade estava chocada “Você prometeu que tentaria ver se o Taichi sentia algo por mim.”

“É verdade! Esqueci completamente, desculpa. Mas eu vou falar com ele quando voltarmos ao Japão.”

“Bom mesmo. Do contrário você não vai casar com um certo louro no futuro.”

“Não se iluda, Mimi. Ou eu não vou falar com o Taichi.”

“Você é tão cruel, Sora.” Ela fez bico. “Eu quero minha amiga de volta.”

“Ainda estou aqui.” Sora não conteve um riso. “Agora vamos. Estou doida para ver a Piyomon.”

Koushiro e Jyou retornaram ao lugar escolhido para todos se reunirem depois que recebeu a mensagem do Yamato. Felizmente, eles não estavam muito longe dali. Eles estavam sentados perto de uma árvore, esperando pelo resto.

“Você cresceu mesmo, Koushiro.” Tentomon disse, dando uma boa olhada em seu parceiro.

“Quer parar de fazer isso?” Ele implorou. “Eu realmente não gosto.”

O menino ruivo sempre teve dificuldade quando as pessoas meio que o mediam de cima a baixo. Ele sentia que sua aparência valia mais do que sua personalidade, isso o incomodava muito.

“Você não quer crescer?”

“Não é isso. Eu só não gosto que as pessoas me julguem pela minha aparência.”

Tentomon aceitou isso como resposta e pousou ao lado de seu parceiro. Taichi e eu chegamos logo depois.

“Ei!” O moreno acenou animadamente.

“Taichi, Hikari.”

“Onde estão todos?”

“Devem estar chegando logo, eu espero.” Koushiro respondeu enquanto sentávamos num círculo.

“Takeru!”

“Patamon!” O menino de onze anos exclamou enquanto abria os braços para seu parceiro. “Eu senti tanto sua falta!”

“Eu também senti a sua.”

“Oi, pessoal.” Yamato disse de um jeito descolado.

“Sora, espere por mim!” A voz de Mimi podia ser ouvida a distância.

“Eu quero ver a Piyomon, Mimi. Rápido.”

“Estamos correndo desde que encontramos a Palmon. Não consigo acompanhar, estou cansada.”

“Sora!” Piyomon voou de uma árvore até sua parceira.

“Piyomon!” Ela respondeu emocionada.

“Você mudou muito desde a última vez que eu te vi.”

“Não seja boba.” A menina disse meio envergonhada. “Três anos se passaram desde então. É claro que mudei.”

“Estou tão feliz em te ver novamente!” O passarinho rosa se jogou nos braços de sua amiga.

“Estamos todos aqui agora, então o que vamos fazer primeiro?” Taichi perguntou olhando para mim.

“Estou faminta.” Mimi disse com olhos fechados.

“Acho que vamos comer então.”

“Eu acho que você nem está com fome.” Eu provoquei. “Só disse isso porque a Mimi está faminta, certo?”

Todos começaram a rir, deixando-o bem desconfortável porque ele ficou muito vermelho.

“Não foi, não!” Ele apontou um dedo para mim. “Você não quer que eu tire sarro de sua queda pelo Takeru, quer?”

“O que?!” Eu corei instantaneamente, incapaz de encarar até meu irmão.

“Podemos comer agora?” Sora perguntou, percebendo meu desconforto e tentando mudar de assunto.

Eu sussurrei um ‘Obrigada’ para ela enquanto arrumávamos as coisas na enorme toalha vermelha e branca.