Three Wishes
1 Her
O porão continuava empoeirado e, portanto Andrew continuava espirrando. Parecia que, para seu avô, não importava quantas vezes espirrava o velhinho continuaria a desejar saúde. Foi assim que passara a última semana de férias de verão: agradecendo as 6743 vezes que o avô falou “saúde” por causa da maldita rinite, ou seja, limpando o porão do vovô Stefan. Duas festas recusadas e contando.
Andrew atravessa o porão, o canto esquerdo era o único que faltava ser organizado, e tudo que pensava era sobre como estaria livre depois que terminasse aquele último pedaço. Talvez não perdesse a festa na casa de Chad, o capitão do time de futebol da escola e, coincidentemente ou não, seu melhor amigo – certo, eles estavam brigados desde que Chad começara a namorar Ashley, crush supremo de Andrew desde a quarta série, mas isso não o impediria de ir à festa. Nada o impediria, a não ser seu avô que continuava insistindo para que terminassem hoje, ele com certeza impediria.
O porão era ligeiramente pequeno, mas parecia conter toda a magia de uma lâmpada mágica (perdoem o trocadilho), pois Andrew tinha certeza que caberia o Louvre inteiro dentro. Antes de começarem a empreitada de arrumar e caçar os ratos intrusos, que habitavam o cômodo junto com as relíquias dignas do museu, o quarto estava lotado, Andrew mal conseguia dar um passo para dentro, mas sabia que nada tiraria da cabeça do vovô Stefan a faxina naquele lugar. Depois de dar uma vasculhada pelo cômodo, ajudou seu avô a subir e começou a sessão de espirros.
— Precisamos terminar hoje, Andrew! – Disse Stefan de sua poltrona, a qual fizera Andrew trazer para cima depois de “uma forte dor no quadril”, do lado direito do porão. – Sonhei essa noite com algo que eu tinha quando era um pouco mais velho que você, quero que fique com ela.
— Podemos procurar por isso depois, vovô. – Ele respondeu, movendo uma caixa pesada de papelão. Empoeirada? Pode-se dizer que completamente feita de pó, já que Andie quebrou o record de quantidade de espirros por minuto, pude ouvir de onde eu estava.
Ah! Certo! Você acha que eu sou um narrador em terceira pessoa ainda. Sinto muito, mas não vou me apresentar ainda, prefiro manter o suspense. Tão misteriosa quanto uma dançarina árabe de dança do ventre... Adoro!
— Deixe-me ver essa caixa. – Stefan se inclinou da poltrona vermelha que estava sentado, puxando o ar com os dedos.
— Seu desejo é uma ordem... – Andrew murmurou, empurrando a caixa para o outro lado do cômodo com... Ah! Aqueles músculos. Matenha a concentração!
Assim que a caixa chega a seus pés, Stefan abre-a e vasculha as coisas de dentro, retirando apenas um álbum fotográfico roxo do fundo. Ele passa a mão na capa, olha algumas das primeiras fotos e o derruba novamente na caixa:
— Tudo lixo. Pode jogar fora. – Com um suspiro, Andrew joga a caixa no pequeno buraco que conectava o porão com o resto da casa.
Nosso protagonista bonitão estava ficando irritado. Ele amava o avô mais que tudo na vida, mais até que Ashley, mas seu modo sistemático sempre o irritava e, naquela faxina, era o que mais mostrava da personalidade de Stefan. Era sempre assim: nova caixa, nova olhada, tudo lixo. Se o grande motivo dessa arrumação maluca era jogar tudo fora, por que ficar olhando as caixas empoeiradas? Para enlouquecer sua rinite?
— O que está esperando, filho? – Seu avô pergunta, analisando brevemente o neto parado há alguns centimetros da portinhola. – Nenhuma dessas caixas vão ser movidas sozinhas. Não tenho força e muito menos telecinese para arrumar tudo isso sozinho.
O grande relógio de pêndulo antigo, que vovô Stefan afirmou ser relíquia da família, tiquetaqueava devagar enquanto o celular de Andrew tiquetaqueava rapidamente. (Está certo falar assim? Celular tiquetaqueia quando recebe mensagem? Ninguém nunca me contou como realmente era...) Ele tinha certeza que era sobre a festa. Chad convidando mesmo depois da briga? Possivelmente. Chad falando que terminou com Haily? Não tão possível. Haily clamando por Andrew chegar na festa porque não sabe viver sem ele? Sonha menos, Andie. Ele queria muito pegar o celular, mesmo sem nenhuma esperança de ser a última opção, mas a última vez que pegara o aparelho o avô deu um tapa leve em sua mão, dizendo o quanto era irresponsável pegar o celular perto de tantas coisas antigas... “Elas podem se revoltar, menino.”.
Não pegou a tecnologia do bolso, era só mais um motivo para briga. Ao invés, pegou a última caixa do chão, atravessou o sótão — não esquecendo de mais um espirro (“saúde”, disse Stefan)– e colocou-a aos pés de seu avô:
— Essa é a última. – Soltando um suspiro, apoia as mãos nos joelhos. – Seja o que for que o senhor queira me dar de tão urgente ou está aí dentro ou o senhor perdeu junto com a venda de garagem do ano passado.
Stefan olha dentro da caixa de papelão. Se eu estivesse junto, reconheceria todas as mínimas coisas que estavam lá dentro: dois walkie-talkies verdes, uma máquina fotográfica Polaroid, um caderno de capa dura e, por fim, um cobertor vermelho xadrez que, para surpresa de Andrew, não estava dobrado como seu avô sempre deixa os cobertores, mas sim embolado.
— É esta. – Andrew podia jurar que os olhos de seu avô estavam com lágrimas, mas, como rinite é algo passado junto com o DNA, apenas apontou para o bolso da calça de seu avô. Ele sabia que o lenço estava lá. – Leve a caixa para a sala com muito cuidado. Muito. Cuidado. Depois, volte para me ajudar a descer para lá.
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A casa cheirava à macarronada especial do vovô Stefan. Era a primeira vez em anos que o avô de Andrew cozinhava, especialmente aquele prato. Era o favorito da filha e, depois que ela se fora, não fazia mais sentido em faze-lo novamente. A mãe de Andrew era a faísca de loucura e felicidade da família, desde os tempos da mamadeira. Quando a notícia do acidente de trêm chegara naquele 7 de julho, todo o fogo se extinguiu.
A mesa foi posta e os pratos esvaziados rapidamente, nada poderia ser melhor que a macarronada especial depois de uma longa semana de limpeza. Andrew não notou a comida a mais, mesmo sabendo que seu avô nunca errava a quantidade (Stefan se gabava muito por isso, dizia que aprendeu com a esposa), mas nunca foi alguém que repara nos detalhes. Se reparasse me pouparia de muitos perrengues para saber tim tim por tim tim como foi antes de fazer minha entrada triunfal.
Já estava tirando a louça suja da mesa, quando foi interrompido:
— Pode deixar aí, temos uma coisa mais importante para fazer antes. – Stefan se segura nas paredes verdes desbotadas que já deveriam ter sido pintadas há meses, atravessando a pequena sala de jantar até a sala.
Os cômodos conjugados davam para o neto um pouco de sossego, é mais fácil se locomover sem ajuda quando não há uma porta atrapalhando. Assim, tudo que precisava fazer era manter as passagens limpas, sem cadeiras ou outros móveis no meio do caminho. Às vezes esquecida? Os vizinhos bem sabiam quando.
Andrew assiste o avô sentar na poltrona preta que ficava em frente a televisão, mas, ao contrario de todas as outras noites, ela não é ligada. Puxa para perto a caixa que repousava na mesinha de centro de vidro e revira até pegar o cobertor xadrez.
— O que é isso, vovô? – O neto se aproxima, puxando uma cadeira da salinha de jantar. Sentar no sofá não seria a melhor das opções, quebrara nos últimos dias.
— Isso é o seu presente de aniversário. – Ele afaga o cobertor lentamente. – Quando eu fiz 17 anos, meu pai me levou em uma loja de relíquias. Eu sei que é estranho, principalmente falando agora, mas tudo que era velho me fascinava. Você me conhece! Quando entramos, a vi prontamente e nada, nada, me fazia mudar de ideia. Meu pai, seu bisavô, tentou até empurrar para mim uma máquina de escrever antiga. Quando levei para casa e esfreguei um pouquinho...
— Vovô! Eu não preciso saber das coisas que o senhor fez quando era adolescente! – Andrew fez cara de nojo, colocando uma das mãos no rosto.
— Certo. – Stefan riu estrondosamente. Se inclinando para entregar o cobertor velho ao neto, acrescentou: — Tome cuidado, ela é muito importante.
Andrew pegou o cobertou com as duas mãos, esperando mais um espirro, que não chegaria ainda. Esperava ser todo macio, mas havia algo dentro e o cobertor “dobrado” começou a fazer mais sentido na sua cabecinha: seu avô não havia sido descuidado, ele havia embrulhado algo. Ao retirar o cobertor, ele descobriu o “algo”.
— Uma molheira? – Ele levanta uma sobrancelha, pegando o objeto pela alça. Ultrajante, eu sei, comparar uma lâmpada, a minha lâmpada, com uma molheira.
— Olhe mais perto. – Seu avô estava sério, mas nada disso transparecia em seus olhos, que pareciam estar sorrindo.
Andrew revirou a “molheira”. A alça no fim era a unica coisa que deixava esta lâmpada parecida com as demais. Com uma tampa maior que o normal, com o formato de quando a casquinha de sorvete fica perfeita, era incrustrada de pedras roxas na lateral, formando um circulo central, que Andrew teve que soprar a poeira para enxergar melhor. Abaixo das pedrinhas, havia algo escrito.
— O que tem aqui em baixo, vovô? – Ele chega mais perto, franzindo os olhos.
É aí que tudo começa. Ele leva o polegar direito, o que não estava segurando a alça, já que era canhoto, à lâmpada e passa suavemente pelas palavras gravadas na lateral da relíquia de família. “Que o seu desejo se torne realidade”. Tenho certeza que Andrew deve ter pensado que era a frase mais cafona que ele já havia lido e olha que ele já leu todos os romancinhos adolescentes possíveis, só para ter o que conversar com a Ashley, claro. Mas o cafona foi substituído por surpresa, assim que olhou para o bico da lâmpada, que soltava uma fumaça tão roxa quanto as pedras da “molheira” – seus olhos também se reviram quando eu digo “molheira”?
A fumaça ia tomando forma e o sorriso do avô também, já sabia, afinal, tim tim por tim tim o que aconteceria. Andrew, por outro lado, era uma criança assustada com os palhaços do circo: cheio de cores, mas assustador mesmo assim. Quando a sala toda parecia tomada de fumaça roxa, ela se dissipou rapidamente, como se nunca tivesse existido, deixando uma mulher parada com as costas bem a frente de Andrew. Eu!
— As coisas já estavam mesmo ficando mais apertadas. – Levanto os braços, alongando-os. — Quantos anos se passaram desde que saí pela última vez? Cinquenta? Cem? Não importa quantos foram, sempre passam mais devagar. Ficar na lâmpada, esperar o próximo mestre... As coisas seriam tão mais divertidas se ele aparecesse no minuto que o último tivesse terminado com os desejos... Odeio esperar. – Me viro, encarando um Andrew completamente paralisado no sofá, só que nessa hora eu não sabia que era só o que ele fazia quando estava pensando em fugir ou no que dizer. E claro que nem sabia que ele se chamava Andrew. Por que é tão confuso contar uma história depois?
Então, onde eu estava? Certo! Saio da lâmpada e encontro um garoto, 17 anos mais ou menos, belos músculos, mas um olhar de banana e um velhinho de mais de 60 anos, se a cor da dentadura dele não estiver me enganando. Os olhos dos dois são, com certeza, iguais e não estou nem falando da cor, mas o formato, o olhar... Eu conhecia aquele olhar.
— Mestre Stefan? – Pisco os olhos, deixando-os um tempo fechados. Não era possível, até era, mas naquele momento não era, que aquele senhor era o meu mestre Stefan. O mestre que tinha os olhos mais serenos e atentos todas as vezes que entrávamos em uma loja de usados. O mestre que deixava qualquer menina de coração derretido, menos uma.
Me ajoelho em frente a mesinha de centro que nos separava:
— Como o tempo passou tão rápido assim?
— Alimah, você está esquecendo nosso trato sobre o “mestre”? – Ele respondeu. Era ele.
— Mestre? – Franzo a testa levemente, ou achava que era levemente, já que Andrew falou mais tarde que havia verdadeiros vincos na minha testa. – Claro! Novo amo! – Bato a mão na testa, me virando novamente. Como o garoto não havia falado nada ainda? Com uma voz ridícula de apresentador de televisão repito o discurso memorizado pela décima quinta vez: — Meus parabéns! Você encontrou a lâmpada de Alimah, a melhor gênia da lâmpada desde o original! Além da minha convivência magnífica, você ainda ganha mais três, isso mesmo!, três desejos! Meu superior mandou avisar que não pode pedir mais desejos.
Termino com uma piscadinha, que achava que não foi notada pelo novo amo, estupefado demais para notar qualquer coisa. Ele abre e fecha a boca, devagar. O que não faltava em minha cabeça eram comentários engraçadinhos, mas todos eles foram deixados de lado quando Stefan se agarrou nos braços da poltrona e se levantou, vagarosamente:
— Ali, pode me deixar na cama? Meu quadril não é mais o mesmo e depois de horas tentando achar a lâmpada... Além disso, vocês precisam de um tempo sozinhos. Explique tudo para meu neto. – Arregalei os olhos com as últimas palavras. Neto? Stefan já tinha idade para ter um neto?
— Claro, vovô. – Não pude deixar a risada escapar. Surpresa depois, deboche primeiro. Esse é o meu lema! Estalei os dedos, transportando um dos meus melhores amos para a sua cama. – Então... – Circundo a mesinha de vidro, finalmente notando as roupas que usava quando saí da lâmpada.
Com uma calça larga nas pernas terminando em uma tornozeleira de ouro em cada perna, giro levemente para sentir o movimento. As pedras penduradas na minha cintura tintilam, não só agora quando giro, toda vez que me mexo. Um top cobre meus peitos e, nos pulsos, as pulseiras douradas grossas que, na verdade, significavam as minhas algemas. A prisioneira da lâmpada.
— Por que todo esse roxo? – O garoto parece notar que olho para as minhas roupas, já que lilás era a cor de todas as peças. – E por que você está descalça?
— Por que não roxo? Precisa concordar que é a cor mais bonita. – Sento na poltrona, cruzando as pernas. Responder o porquê de estar descalça só deixaria a conversa repetitiva. – Muito bem... Como é o seu nome? Não acho delicado te chamar de pequeno Stefan.
— Andrew. – Ele diz, colocando minha casa em cima da mesinha de centro.
— Certo, Andrew, antes de você começar a pedir qualquer coisa, preciso te contar das regras.
— Regras? Você disse três desejos e agora tem regras? Não está certo isso, não!
— Se não te agrada reclama no PROCON, fofo! Regras para que eu não fique de idiota quando não conseguir realizar algum desejo. Nem tudo é permitido para mim. – Revirei os olhos. Garotos adolescentes, eles nunca iriam mudar? Fazendo um médio quadro de luz LED aparecer ao lado da minha cabeça, listando o que eu dizia, comecei a ditar as regras: — Número 1: Eu não posso matar ninguém. Fica meio complicado depois quando a polícia me investigar. 2: Eu não posso ressussitar ninguém. Não precisamos de nenhum Frankenstein solto por aí. Por fim, mas não menos importante, número 3: não posso obrigar ninguém a se apaixonar. Amor é muito mais complicado do que um simples feitiço de gênio da lâmpada.
Ele se levanta, colocando uma mão na boca e balançando a cabeça. Parecia agitado, como se as regras lhe incomodassem. Minhas regras nunca incomodaram ninguém, só, claro quem queria conquistar o amor – Sim, estou falando de você, Stefan querido – ou quem queria matar o inimigo.
— Então você não serve para mim. – Andrew diz.
— O quê? – Eu quase grito, me levantando. Quem ele queria matar? – Você não passa de um garotinho mimado! Te dou a oportunidade de ter o que mais você quiser, menos essas três coisinhas, e você recusa todas elas? Tem noção que pode pedir, sei lá, a paz mundial?
Aí está uma coisa que nunca me pediram. A paz mundial. Quem se preocupa com o mundo quando você pode ter o que quiser só para você? Três pedidos... Três egoísmos, um atrás do outro.
— Tudo que eu quero é minha mãe de volta. – Ele bufa. – Minha mãe, minha avó e Ashley. Você não pode me dar nenhuma delas. – Franzo a testa. Vivian havia morrido? Quando? Como? Ah, santa Lâmpada...
— Espera... Quem é Ashley? – Minha cabeça cai para a direita, com curiosidade. – Não conheço sua mãe, mas é filha de Stefan. Vivian me deu muito trabalho, sei muito bem quem é, mas... Quem é Ashley. É a menina que você quer matar?
—Matar? – Ele grita um pouco baixo. A cara dele não estava muito das boas, estava com medo que ele fosse me mandar ficar na lâmpada... Não seria a primeira vez. – Não! A Ashley é a garota mais doce e linda que eu conheço, por que alguém iria querer matá-la?
— Então você está apaixonado por ela... Interessante. – Eu ia falar que ele tinha listado dois ótimos motivos, mas achei que ele iria ficar muito bravo. – O que tem com vocês meninos Ventura que só querem conquistar uma garota? – Ele cerra os olhos e eu suspiro. – Quando eu digo que sua avó me deu trabalho eu realmente quis dizer isso. A quem você acha que seu avô pediu ajuda para começar a namorar com uma garota como Vivian?
— Mas você disse que... – Ele me olha, estarrecido.
— Eu disse que eu não podia obrigar ninguém a se apaixonar. Nunca vi nada nas regras sobre ajudar. – Eu dou uma piscadela.
— Você pode me ajudar, então?
— Só depois que fizer o pedido oficial. – Eu levanto, praticamente coçando os dedos, fazia muito tempo desde a última vez que eu tinha aquele puxãozinho no estômago. Claro, os punhos ardiam, já que as algemas esquentavam a fim de me lembrar do compromisso que eu tinha com meu amo.
— Eu desejo que me ajude a conquistar Ashley. – Ele diz, contornando a mesa de centro para chegar mais perto de mim. Sempre é tão bonitinho o primeiro desejo, o tom formal, quase esperando que alguém saia de algum canto gritando que é uma pegadinha.
— Que o seu desejo se torne realidade. – Levanto os dois braços na altura do peito e os cruzo, assentindo com a cabeça logo depois. Completamente teatral, não preciso balançar cabeça nenhuma para fazer com que as coisas aconteçam. Ele parecia desapotado, então completei: — Eu estou com fome, nada vai acontecer antes de eu comer alguma coisa.
E, simples assim, Andrew lembrou e entendeu a porção errada de macarrão.
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Empurro o prato vazio, soltando um arroto. O que é? Fazia mais de vinte anos que eu não comia nada do mundo humano! Você não pode me julgar. Enquanto eu estava comendo, Andrew não tirou os olhos de mim, não de uma forma romântica, longe disso. Ele esperava, parecia querer falar alguma coisa, a urgência estava em seus olhos, mas eu não queria conversar. Comida antes, desejos e conversas depois.
— Posso falar agora? – Ele levanta uma sobrancelha e continua quando aceno, levando o copo de suco de morango aos lábios. – Ashley está numa festa na casa do namorado dela, Chad.
— Você está me dando mais trabalho que eu imaginava, pequeno Andrew. – Bufo. Namorada? Ele não disse nada de namorada antes. – Você foi convidado?
— Você me insulta. – Coloca a mão no peito, fingindo estar ofendido. – Acha que o meu companheiro de time não me convidaria para uma festa na casa dele?
— Ótimo! Nós vamos. – Coloco o copo na mesa, puxando o prato para levar até a pia.
A cozinha era minúscula, tão pequena que precisei comer na sala de jantar conjugada com a sala. Parecia quase impossível que Stefan morava na mesma pequena casa que ele comprou logo depois de ter casado. Lembro de quando entrei a primeira vez achando que eles iriam começar a rir e me dizer que o último desejo era uma casa. Claramente não aconteceu.
— Não podemos ir. – Ele diz, indo atrás de mim.
— Andrew, querido. – Depois de colocar a louça na pia, me viro e coloco uma mão em cada ombro, naqueles ombros largos... – Todo mundo pode fazer o que quiser, se aguentar as consequências depois. Isso não vai te gerar consequências ruins, Stefan não vai te deixar de castigo. Não comigo junto.
— O quê? – Ele franze a testa. – Não. Quis dizer que não temos uma história. Quem é você? Não posso chegar lá com uma garota que ninguém nunca viu na vida. Vão fazer perguntas.
— Você me insulta. – Ecôo suas palavras. – Você só precisa se preocupar em me apresentar para ela e o namorado, logo ex. Preciso saber qual é a deles e, principalmente, qual é a sua. – Faço uma pausa, pensando por um segundo. – O que eu preciso para as pessoas acharem que eu tenho uma vida?
— E você fala para eu não me preocupar. – Ele se vira, tomando caminho para a escada de madeira da sala de jantar/sala. Para no pé dela e olha para mim. – Um celular, Instagram, os garotos do time vão te procurar, com certeza. Vai precisar de uns domcumentos se quiser ir para nossa escola.
— Vai se arrumar, príncipe encantado. Sua princesa te espera.
— Vai precisar de uma roupa diferente.
— Andrew. – Dou um passo para frente. – Vai tomar um banho, você está fedendo.
Ele dá um sorrisinho e sobe o resto das escadas. Posso ouvir o chuveiro ligando, enquanto me concentro para fazer um celular para mim.
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Andrew desce as estreitas escadas, invadindo o ambiente com o perfume que usava — era ruim, sendo o nome que seja. Estava bonito, usava uma camiseta vermelha, que se destacava na sua pele, e calça jeans, estava descalço. Será que ele esperava que eu fizesse o estilo fada madrinha e dar para ele tênis de cristal?
— Por que você não está pronta? – Ele diz, apontando para minhas roupas. A verdade era que eu já havia trocado a roupa tantas vezes que eu tinha decidido voltar para as roupas que eu saí da lâmpada e esperar ele me ajudar.
— Por que não me ajuda? Eu fiz meu Instagram. – Eu disse, chegando perto dele, mostrando meu celular na página do meu perfil, agora com 50 fotos muito bem tiradas, algumas na capital da Arábia Saudita e algumas ao redor do mundo. Se eu iria entrar para o colégio de novo, eu faria direito.
— Como você tirou todas essas fotos enquanto eu estava no banho? – Ele disse, pegando meu celular e passando o dedo até o fim das minhas fotos. – E em todos esses lugares? Isso aqui é a Arábia Saudita?
— Aham! – Digo, animada, olhando o celular por cima dos ombros dele. – Você está olhando para o meu álibe. Você e o seu avô decidiram abrigar uma aluna de intercâmbio! Eu já tenho todos os documentos dentro da escola, plantei lá.
— Como você conseguiu fazer tudo isso em, o quê?, vinte minutos de banho? – Ele pergunta, estupefado.
— Eu sou uma gênia, gênio! – Respondo, tomando meu celular da mão dele. – Posso fazer o que quiser, quando quiser. Mas, aparentemente, não posso escolher uma roupa pra ir pra essa festinha. Pode me ajudar? Eu achei umas gurias com umas roupas bem legais, mas não sei... – Mostro as fotos.
— A saia. Mas troque as blusas, Chad adora a banda. – Ele diz, apontando.
— O jurado de Project Runnaway fala, eu aceito. – Giro, para dar um pouco de drama, novamente. Que gênio não adora um pouquinho de drama. Quando paro na frente dele estou vestindo uma saia preta e uma regata cinza de Green Day com as costas rasgadas.
— Você parece uma garotinha hipster. – Ele olha para mim. – Muito bonita, verdade, mas ainda hipster. Só falta o coque frouxo para virar uma fanfic.
— Já está abusando do meu bom humor. – Levanto uma sobrancelha e olho para os pés dele. – Você não está esperando que eu seja sua fada madrinha, certo? Se estiver, errou o ser mágico.
Ele sorri, e se senta no sofá da sala para colocar seu sapato. Sento do seu lado, balançando o joelho levemente, até chegar ao ponto em que eu não conseguia mais parar. Quando termina de amarrar os cadarços, Andrew coloca a mão direita na minha perna e o silêncio fica mais ensurdecedor do que quando ele colocava os sapatos. Por que humanos demoram tanto para trocar de roupa?
— Certo! – Eu falo, antes que fique constrangedor demais. – Vamos com seu carro?
— Qual carro? Não tenho um carro. Vou chamar um Uber para gente. – Ele pigarreia, pegando o telefone.
— Você não tem um carro? – Levanto uma sobrancelha. – Você realmente não está facilitando as coisas para mim.
Levanto do sofá e vou para a porta da frente. Abro, parando na varanda branca e posso escutar Andrew vindo atrás de mim, então tombo a cabeça para a esquerda e um Jeep branco aparece na rua. Simples como mágica. Não como, mas é mágica. Atravesso o estreito quintal dos Ventura, indo para o lado do carona.
— Você vem ou não? – Grito para que ele possa me escutar entre toda a confusão que estava nos seus olhos. Como se tivesse acordado do transe, ele caminha, aos pulinhos, para o lado do motorista.
— Como você sabe tanta coisa? – Ele pergunta, assim que entra no carro e afivela o cinto de segurança.
— Eu tenho Netflix, sabia? Eu moro numa lâmpada, não numa caverna.
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A música escapava para fora das janelas abertas da casa. Só pela entrada do condomínio que abrigava a casa do amigo — ou seria colega de time o termo correto?- do meu amo eu já podia imaginar o quanto a menina gostava do dinheiro, ou melhor, dele. O porteiro já conhecia Andrew de outros carnavais, então deixou a gente passar sem problemas, até elogiou o carro novo. Entretando, foi quando Andie estacionou em frente à casa de Chad que eu realmente vi o quanto ele era rico. A casa, de três andares, era branca por fora com duas colunas de estilo grego ladeando a porta, e quando eu digo porta eu digo porta de rico, daquelas que a gente olha na internet e pensa “quero ser rico um dia para colocar uma porta dessas na minha casa”.
— Agora eu sei porque ela namora esse cara. – Murmuro, olhando pela janela.
— O quê? – Ele não ouviu o que eu disse, ufa.
— Nada. – Sorrindo, abro a porta e pulo para alcançar o chão. – Me apresente sua futura namorada, senhor Ventura.
Andrew pula do carro e vamos juntos até a porta. Sem cerimônias, entramos e eu consigo ver a real fortuna de Chad. A casa era, sem exageros, um palácio. As portas de trás, que davam acesso ao jardim, eram todas de vidro e eu só podia imaginar o trabalho que dava para limpa-las. Mesmo lotada com garotos da idade de Andrew, eu podia ver todo o bom gosto de quem havia decorado a sala e, acredite, estava tudo à meia luz.
Fomos entrando e Andrew parava para me apresentar como “a nova aluna de intercâmbio da Hawkings”, mas nenhuma delas me interessava, precisava mirar no prêmio final, então fui simpática, sorria e, quando precisava, respondia que eu nasci na Arábia Saudita – o que não era nenhuma mentira, afinal.
Quanto mais íamos para os fundos da casa, mais eu via o luxo. Estatuetas, tapetes persas (reconheço um de longe), quadros enormes e, claro, aquele jardim. No fundo de tudo isso, havia um DJ tocando e, sinceramente, quem contrata um DJ para uma festinha de quintal? Aparentemente o colega de time do meu amo.
— Vou pegar uma coisa para a gente beber! – Andrew berra por cima da música e eu só aceno positivamente, poupando-me do esforço de gritar para ser entendida. Eu podia ver que Andie estava nervoso, a bebida serviria para acalmar os nervos dele.
Sei o que está pensando, mas não é bem assim. Ninguém vai voltar para casa dirigindo bêbado. A grande verdade é que álcool não faz efeito em mim. Gênios metabolizam o álcool muito rápido, então nunca poderei ficar bêbada. Sei o que está pensando de novo, mas, às vezes, tudo que um gênio quer fazer é beber até esquecer como é ficar submetido às ordens dos outros. Tomar um porre ajuda. Não sempre.
Andie volta com dois copos vermelhos e me entrega um, pelo menos a cerveja ainda era a barata. Ele entorna o copo quase todo na boca e, quando termina, pega minha mão me arrastando até o jardim:
— Acho que Chad está perto da mesa de ping-pong. Você já tem uma estratégia? – Ele não olha para mim para falar, o que dificulta para ouvi-lo. Pego-o pelos ombros e o giro.
— Fica calmo, Ventura! — Pego-o pelos ombros e o giro, forçando-o a olhar para mim. – Hoje é só um reconhecimento de campo. Você vai me apresentar para eles e eu vou observar. Só isso. Passeio do maternal.
— Certo. – Ele diz para si mesmo, posso ver que já esqueceu que estou ali e só está tentando se confortar. – Passeio do maternal.
Ainda segurando minha mão, vamos até a mesa de tênis de mesa e, eu juro, ela está rodeada por adolescentes. Você sabe o que está acontecendo: beerpong. De um lado, o esquerdo, um casal, ela usando um vestido colado no corpo, bordado inteiro com lantejoulas rosas, ele usava uma camiseta de marca e bermuda – o calor do começo de setembro permitia. A garota tinha o cabelo tão loiro, que deixaria qualquer cabelo de milho com inveja, já o garoto parecia exibir a menina para todos, como um troféu, fazendo-a dar um beijo molhado toda vez que acertava um copo. Já o outro casal, coitados, parecia estar ali apenas para perder.
Meu mestre se aproximou do casal da esquerda, me levando junto pela mão. Cumprimentou o cara, que agora eu tinha certeza que era Chad, com um aperto de mão e a garota com um abraço e se vira para mim:
— Ashley, Chad, essa é Alimah. Vovô e eu decidimos que era hora do antigo quarto virar de alguém, nos candidatamos para um programa de intercâmbio e cá está ela. – Ele dá um sorriso amarelo, como se estivesse desconfortável em mentir para Ashley.
— Olá! – Sorrio e, com esse gesto, coloco na cabeça da paixonite de Andrew que somos melhores amigas, como se tivéssemos crescido juntas.
— Ali, Ali, Ali! Adorei seu nome! – Ela grita, jogando os braços à minha volta. Sou invadida pelo cheiro do perfume Channel que ela usava, doce demais para meu gosto. – De onde você é, meu xuxu?
— Eu sou árabe. – Digo, me desvencilhando dos seus braços. Lanço um sorriso para Chad. – Você deve ser o namorado sortudo.
— Chad, mas o Andrew não é educado o suficiente para me apresentar. – Ele diz, afastando Andie para o lado e levantando a mão para apertar a minha.
— Acho que ele não gosta muito de você, Chad. – Levo minha mão na dele e pisco de um olho só.
— Por que vocês não jogam com a gente? – Ashley pergunta, apontando para os adversários. – Eles já perderam de qualquer maneira.
— Nunca venceríamos vo... – Andrew começa a falar, mas o interrompo:
— Claro! Por que não? – Viro-me para meu mestre, piscando os olhos vagarosamente. – Mas eu não sei jogar muito bem, você me ensina?
Andrew dá um sorriso pequeno, assentindo, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ao invés, fúria era emoldurada pelos cílios. Me puxando até a outra ponta da mesa pelo braço, ele deixa um pouco do sentimento aparecer em sua voz:
— O que você está fazendo? Eles nunca, nunca, perderam uma partida de beerpong.
— Eu já disse para confiar em mim? Caso não: confie em mim. Eu sei o que eu estou fazendo. – Eu digo, me soltando do aperto das mãos dele. – Além disso, eu tenho uma mira muito boa.
Ao chegarmos à ponta da mesa, Andrew me explica rapidamente as regras do jogo, que eu já sabia, e começamos. Claro que Ashley e Chad começam acertando o copo da frente, então, olho para Andrew e reviro os olhos. Pego o copo, retiro a bolinha e tomo o conteúdo em um só gole, jogando o copo para o lado ao terminar. Nossa torcida berra, dizendo que árabes são de mais. Não tenho como não dizer que fiquei orgulhosa, principalmente depois da cara feia da Ashley. Alimah 1 e Ashley 0.
Com a mesma bolinha laranja que peguei no copo, miro em um copo do outro lado da mesa. Empurro minha mão para frente e para trás e, quando vou lançar a bola, paro no meio do caminho. Me viro para Andrew e digo:
— Andie, você pode me ajudar? Tenho medo de errar. – Sorrio, deslumbrante. Ele chega mais perto e eu falo mais baixo. – Abrace meu corpo pelo lado e mexa a sua mão com a minha, vamos acertar essa e ela vai morrer de inveja.
E assim ele fez, encostou o lado esquerdo do corpo no meu e abraçou minhas costas com o lado direito, pegando na minha mão logo depois.
— Assim? – Ele sussurra no meu ouvido e, para deixar nosso teatrinho cada vez mais “real”, dou um sorrisinho e abaixo a cabeça, olhando para seus olhos em seguida. Eu juro que podia sentir o olhar fulminante de Ashley.
Jogamos a bolinha juntos e, quando parecia que não ia acertar nenhum copo, um vento misterioso soprou e ela entrou no canto direito. Levanto um braço, dando um beijinho na bochecha de meu parceiro de jogo, que se assusta e se afasta, lentamente.
O jogo continua. A cada copo que perdemos, há um beijo do outro lado da mesa e, quando a situação se inverte, o berro de todos é assustador. Ao que parecia, ninguém havia vencido Ashley e Chad desde que começaram a namorar. Ninguém até uma certa pessoa esfregar uma lâmpada mágica. Éramos bons juntos, quase não precisei usar meus poderes para fazer uma bola entrar no copo, apenas para afugentá-las dos nossos. Como não podia deixar todos intactos, Andrew teve que beber vários copos de cerveja e, eu tinha certeza, que não havia apenas isso no copo – e a mistura seria fatal.
Só faltava um copo em ambos os lados e era possível sentir a tensão no ar. Uma grande parte das pessoas que rodeavam a mesa torcia para o fim do reinado de vitórias do casal, não todos... Puxa sacos. Era nossa vez de jogar a bolinha e Ashley passava a mão por cima da boca do copo, completamente ilegal, mas ela não ligava.
— Joga você. – Andrew disse, rindo. Já estava bêbado a ponto de rir do vento.
Sopro um cabelo rebelde que foi parar na frente dos meus olhos. Eu não ia atirar a última, eu faria ele acertar. Pego a mão direita dele e coloco a bola laranja na palma. Fecho os dedos dele e dou um beijo, dizendo:
— Eu confio em você.
Bre-ega! Eu vômitava no meu cérebro, mas era disso que Ashley gostava. Romântismo excessivo, sendo brega demais. Ela fervia de ciúmes, eu pude ver pelo canto do olho. Mas o Andrew bêbado gostou, sorriu e se virou para jogar pela última vez.
Que é óbvio que o álcool afeta a mira da pessoa, todo mundo pode ver quando vai num banheiro público em festa, mas Andrew jogou muito torto. Não sei como ninguém suspeitou da curva que a bola fez, talvez porque todo mundo culpou o mesmo culpado da falta de mira. A bolinha caiu e eu pulei, gritando. Meu mestre levantou as duas mãos para um high five e me abraçou logo em seguida, tirando meus pés do chão. Era possível ouvir o grito de frustração de Chad, enquanto Ashley batia palminhas.
— Me beija. – Sussurro em seu ouvido.
— O quê? – Ele olha nos meus olhos.
— Confia em... – Interrompida pelos seus lábios, enceno surpresa. Foi rápido, só um toque de bocas, mas eu pude sentir minhas bochechas ficando levemente quentes, como qualquer beijo faria. Claro que isso também poderia ser efeito da fúria do outro lado da mesa, já que ambos, Chad e Ashley, olhavam fixamente para nós, os olhos tão raivosos quanto os de um touro prestes a atacar o toureiro.
As coisas não podiam estar melhores para meu plano.
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Depois de nossa vitória excepcional, com toda modéstia do mundo envolvida, Andrew foi arrastado para algum lugar com alguém, mas na verdade eu não prestei atenção, pois eu precisava dançar. Foi o que fiz por um tempo, mas logo desisti e fui procurar um lugar mais quieto. As músicas eram boas, mas o som estava alto demais e eu realmente precisava de um lugar quieto. Depois de passar todos aqueles anos dentro de um lâmpada, sem qualquer barulho a não ser o que eu mesmo fazia, minha sensibilidade para festas havia mudado.
Portanto, subi as escadas com uma das mãos na cabeça, torcendo para que o segundo andar estivesse vazio. Claro que torcer não ajudou em nada, o corredor, que ficava logo a frente das escadas, estava lotado de gente com copos vermelhos de cerveja na mão e casais se beijando. Suspirei, e subi mais um lance de escadas.
Para sorte de Andrew, dele porque eu falaria para irmos para casa se não encontrasse um lugar vazio, o terceiro andar estava deserto. Bom, não exatamente deserto, para estar deserto ninguém estaria lá, porque Chad estava sentado no sofá da frente de uma das portas, de costas para as escadas.
O andar era diferente do segundo. Ao sair das escadas, você se depararia com uma sala redonda, daquelas chiques que não há nada além de sofás, um grande branco e três poltronas vermelhas, e uma mesinha de centro, tampo de vidro e pés dourados, em cima de um grande tapete, eu podia ver de longe que foi trançado à mão. Ao longo de toda a circunferência, quatro portas de correr brancas permaneciam fechadas. Chad encarava uma delas.
— Por que está perdendo a própria festa? – Dou um sorriso e levo minha mão às costas, estalando um dedo. Ele dá um leve sobresalto, virando a cabeça para trás com um leve sorriso.
— Alguém já te disse que eu odeio perder? – Ele toma um gole da garrafa que tinha em mãos. Eu dou a volta no sofá, sentando ao seu lado, e estendo a mão. Ele entrega a bebida sem pestanejar e eu dou um longo gole.
— Deve ser por isso que me disseram que é um ótimo quarterback. — Levanto uma sobrancelha, entregando a garrafa. Ele dá um sorriso discreto.
— Você e o Andrew... – Ele começa, antes de colocar o gargalo na boca novamente.
— Não sei... Eu não esperava que ele correspondensse. – Olho para baixo. A cada novo mestre mais eu acho que eu estou perdendo meu tempo na lâmpada, quando na verdade eu deveria estar em um filme estrelando junto com DiCaprio.
— Não. – Ele limpa a boca com as costas da mão. – Ele só fez aquilo por causa da Ashley.
— O que tem ela? – Arranco a garrafa, tomando o restinho.
— Esquece eles, está bem? – Ele coloca uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, clássico, e se aproxima lentamente do meu rosto. Eu recuo.
— O que você está fazendo?
— Fica quieta. – Ele segura o meu rosto pelo queixo com o polegar e o indicador da mão direita. – Eu só quero ver uma coisa.
— Chad, você tem namorada. – Eu tento tirar sua mão do meu rosto, virando-o.
— Eu sei que você quer tanto quanto eu. – Ele chega absurdamente perto. Coloco minha mão direita no seu rosto, cobrindo o que eu conseguia.
— Sai de perto de mim. – Consigo me desvencilhar. Saio do sofá, ficando atrás dele. – Nunca mais faça isso! Você é nojento.
Desço correndo cinco degraus, tentando deixar minha encenação convincente, e escuto uma das portas acima bater fortemente. Conto até dez, lentamente, e subo de novo. Eu conseguia sentir minhas bochechas se esticando pelo sorriso enorme que eu dava. Nada, nunca, havia sido tão fácil do que manipular Chad. Pego a pequena câmera deixada no corrimão das escadas, colocada com um simples estalar de dedos, prova de tudo o que o quaterback fez naqueles 5 minutos de conversa. Viro a mão e ela se torna fumaça, transportada para um lugar seguro.
Volto a descer os andares, agora com mais calma. Passo pelas pessoas do segundo andar, agora não tão cheio, provavelmente em quartos fazendo a lâmpada sabe o que, e encontro Andie subindo as escadas. Ele agarrava no corrimão, como se não pudesse ficar em pé sozinho, o que eu não duvidava. Quando me viu, levanta um dedo, estreita os olhos e diz:
— Você! Eu preciso conversar com você! – A voz estava meio embolada. Não bebam tanto em festas, crianças.
— Podemos conversar no carro. Precisamos ir. – Eu digo, colocando um de seus braços em meu ombro, fazendo-o dar meia volta.
— Não! Eu não quero ir. Eu preciso dizer para a Ashley tudo. – Ele fala o nome da menina puxando o s. Puxo ele mais rápido para a saída.
— Você não vai dizer nada nesse estado. – Eu cantarolo baixinho, já ligeiramente cansada por causa do peso. Abro a porta da frente e o carrego para o jardim, rumando para o Jeep branco.
— Por que você está estragando tudo? – Ele se desvencilha de mim, justo quando já estávamos na frente do carro.
— Andrew, só entra. – Eu abro a porta do passageiro, revirando os olhos. Ele está bêbado, não sabe o que está falando, repito em minha cabeça para me impedir de dar um belo soco nos dentes perfeitos dele.
— Não vou entrar em carro nenhum com você! – Ele faz bico, fazendo um suspiro sair dos meus lábios.
— Certo. Eu não queria apelar, mas você está me forçando. – Olho para os lados e constato que ninguém estava prestando atenção. A fumaça roxa aparece e desaparece um instante depois, deixando Andie de braços cruzados no banco do carona.
Ligo o motor e abaixo os vidros o máximo que posso. Eis outra coisa que senti falta dentro da minha prisão/casa: vento. O ar bate no meu cabelo preso, que havia feito antes de sair, e o solta, me fazendo balançar a cabeça. Andrew também parece relaxar, fechando os olhos. Entrego uma garrafa de água gelada para ele, no rótulo da garrafa dizia “cordialidades de Aliamah!”. Aquela frase sempre me fazia dar uma risadinha quando eu fazia garrafas de água, principalmente porque não era culpa minha – a frase simplesmente aparecia. Um tipo de easteregg, já que não era só nas garrafas que aparecia.
Depois de cinco garrafas Andrew parece ter passado de totalmente bêbado para não tanto assim. Estacionei na frente da casa e travei as portas. Ninguém ia sair até conversarmos sobre o que aconteceu hoje. Esperava que estivesse bêbado o suficiente para não mentir.
— O que você queria conversar comigo? – Pergunto, virando o torso na sua direção.
— Pensei que gênios faziam o que os “mestres” desejavam. – Ele levanta as sobrancelhas, desafivelando o cinto de segurança.
— O que você acha que eu estou fazendo? – Minha testa franze. O que ele achava que eu estava fazendo naquela festinha? Tomando cerveja barata?
— Ashley veio falar comigo depois da sua ceninha, ela não ficou nada feliz. Você deveria estar me ajudando a conquistar ela, não a deixar enfurecida!
— Aposto que ela estava. – Cruzo os braços. – Minha lâmpada, Andrew! Como você pode estar brigando comigo ainda?
— Como? Alimah, você conseguiu destruir minha amizade com ela com um beijo! O que você estava pensando em me beijar? – Ele gritou, levantando um dedo. – Se você gosta de toda essa parte de amo e serva, fique sabendo que eu não gosto!
— Se você acha que... – Caio na gargalhada. Rio por tanto tempo que minha barriga dói.– Como se algum dia eu fosse me apaixonar por você! Olha para você! Você é patético! Você tinha três desejos para pedir o que quisesse e tudo que conseguiu pensar foi nessa Barbie interesseira, que, se não fosse por mim, você nunca ia conseguir! – Ele me olha, estupefado. Eu nunca falei com ninguém assim e acho que ele nunca ouviu alguém falar de Ashley como eu fiz. Suspiro. – Olha, você está bêbado, eu estou cansada e ainda tenho que terminar uma coisinha que eu comecei na festa. É melhor entrarmos e você ir dormir.
— Talvez seja melhor mesmo. – Ele abre a porta do carro e sai sem olhar para trás.
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As coisas não poderiam estar piores — certo, não estava tão ruim assim, já que depois da festa de ontem eu bati os 3 mil seguidores no Instagram -, eu havia dormido na lâmpada, coisa que eu pensava que não faria por um tempo, e as minhas costas estavam doendo, mais do que já estavam quando eu saí ontem. Eu fui uma babaca, eu sei que fui, mas nada justificava ele vir tirar satisfação comigo. Andrew disse que ia confiar em mim e veio brigar sem saber da metade da missa!
Eu estava na cozinha, arrumando as últimas coisas na mesa, quando ouvi as escadas rangerem. Respirei fundo e pedi à lâmpada para que o que eu tinha feito bastasse para tirar as palavras amargas da noite anterior da mente de Andrew. Quando uma cabeça grisalha apareceu no alto das escadas, meu coração se acalmou no peito.
— Stefan.
— Pode me ajudar? – Ele pediu, sem fôlego. – Esse negócio de ficar velho são as duas bolas do saco.
— Olha a boca! – Eu dou uma risadinha, e observo meu velho amigo, desculpe o trocadilho, ser carregado pela familiar fumaça. – Se sua esposa estivesse aqui faria você colocar uma nota de cinquenta no Jarro do Palavrão. O que você fez com ele, por falar nisso?
— Peguei o dinheiro e gastei tudo em sorvete para o Andrew. – Ele foi colocado na cadeira da cabeceira da mesa, que estava posta. – O que é tudo isso?
— Pensei que ainda faziam a tradição de domigo. – Apontei para as panquecas, me sentando na cadeira à sua direita, de frente para as escadas. O cheiro estava maravilhoso. — Desde que você me tirou da lâmpada, sabe? Era uma das coisas que eu mais gostava quando sua mãe ia para a cozinha.
— Não desde que Vivian se foi. – Os olhos tristes haviam chegado, eu me lembrava deles muito bem, mas logo se foram, sendo substituídos por um sorriso. – Você sabe muito bem o desastre que eu sou na cozinha.
— Desastre? Você era o filho do furacão Katrina e do acidente de Chernobyl na cozinha. – Levanto as sobrancelhas e sorrindo, tombo o tronco para mais perto dele. – Nem pipoca de microondas você conseguia não queimar.
Ele solta uma risada estrondosa que, acredito, fazia muito tempo que não fazia. Eu transbordava de alegria, quando se esquece que brigou com o neto do seu melhor amigo e que agora era seu “chefe” – nem um pouco confuso- tudo fica melhor. Além disso, eu nunca conversara com meus antigos mestres, eles me abandonavam, escondiam ou me trancafiavam em cofres depois do último pedido. Típicos egoístas de quinta.
Claro que felicidade de gênio dura pouco. Andrew desceu as estreitas escadas se apoiando na parede, a ressaca estampada em cada um dos seus passos.
— Eu tive um sonho muito esquisito, vovô. Algo sobre uma garota dentro da lâmpada que realiza... – Ele levanta os olhos e solta um gemido de decepção ao me olhar. Ele termina de descer as escadas e senta na outra ponta da mesa.
— Tivemos uma pequena briga ontem à noite. – Eu digo, me inclinando para perto de Stefan. – Isso deve explicar o mal humor.
— Cala a boca! Minha cabeça está me matando. – Andrew pega uma panqueca do prato mais perto. Eu tinha feito um ótimo trabalho, modéstia parte. Havia um pequeno vaso com margaridas no centro da mesa e dois pratos com enormes montanhas de panquecas, um de chocolate e outra de baunilha. O suco de laranja estava lá também, junto com uma chaleira fumegante de café fresco.
— Andrew! – Seu avô o repreendeu.
— A ressaca também ajuda no quesito mal humor. – Meu sorriso cínico não deve ter sido o melhor dos apaziguadores, já que Andie levantou da cadeira rapidamente.
— Não me venha com mal humor! – Ele grita, encolhendo-se logo depois, pela dor de cabeça. Levanto da cadeira, pronta para gritar sobre como ele era mimado, mas...
— Já chega, os dois! – Stefan aparta a briga. – Sente, Andrew. Alimah.
— Ele começou... – Digo, baixinho, me sentando e me arrependendo logo depois, pois recebo um tapa na parte de trás da cabeça.
— Eu quero os dois fazendo as pazes. – Ele se levanta, com uma mão nas costas, e se dirige para a cozinha, deixando um silêncio desconfortável para trás.
Pego uma panqueca dourada do meio da mesa e sinto o gosto leve da manteiga derretida na minha língua. Comer... Ah! Se existe coisa melhor nessa infinita vida minha eu ainda não encontrei. Com certeza a coisa mais difícil de ficar dentro da lâmpada é essa: Sem sabores exóticos ou comuns durante um longo tempo.
Andrew me encarava por cima de uma caneca fumegante de café, que colocara enquanto eu fechava os olhos para apreciar minha panqueca.
— Domingo da panqueca... Preciso admitir que você fez um bom trabalho. – Ele murmura, quebrando o silêncio. Solto o ar estrondosamente pelo nariz como resposta.
O peso da culpa recaía sob meus ombros pouco a pouco. O que ele sabia de tudo? Querendo ou não é só um garoto apaixonado com três desejos à seu dispor. Havia um motivo para ele ter pedido ajuda e eu fui um tanto quanto dura na escolha de palavras. Ele não é patético, apenas um pouco bobinho.
— Eu... – Começa.
— Eu... – Nos olhamos, um tanto envergonhados pela cena clichê de filme. Sorrio levemente, colocando um pouco de suco de laranja em um copo e entregando para ele. – Toma. Receita especial para acabar com ressacas. Se quiser saber se funciona é só perguntar ao seu avô, ele tomava quase todo fim de semana.
Andrew sorri, pegando o copo. Acho que é assim que se faz as pazes de um jeito distorcido, porém eficiente: curando a ressaca do outro. Acho que era assim que o mundo funciona agora: não importa se seu amigo, ou mestre, está bravo ou distante ou o que seja, se você está lá para apoiar nos momentos ruins, nas ressacas, principalmente, nada mais importa. Então sorrio de volta.
— Sabe, antes de toda aquela coisa de ontem... – Começo, pegando uma mecha do meu cabelo e olhando as pontas. Sou impedida de continuar a minha artimanha pelo celular tocando na mesinha de centro.
Eu lembro vagamente de ter colocado o celular de Andrew lá, ontem. Depois de sair do carro e terminar o que comecei na festa, eu só pensava em dormir, transformar a raiva em sono era uma das minhas especialidades, além de bancar o cupido para meus amos, mas, como nem tudo são rosas, eu não tinha ideia de onde poderia dormir e, quando dei uma girada pela casa, vi que só tinha duas opções naquele momento: a lâmpada e o sofá da sala. Eu não voltaria para uma cela minúscula, não quando acabara de sair. Coloquei o celular de Andie na mesinha de centro e me aconcheguei no sofá maior, sendo logo acolhida pelo sono.
— Alô?! – Andrew diz, depois de ter atravessado a pequena sala de jantar e pego o celular, por cima do sofá, de cima da mesa de vidro. Ele olha para mim, arregalando os olhos. – Chad fez o quê? Calma, Ashley. Você sabe quem te mandou o vídeo?
Ah! Meus truques deram resultados mais rápidos que eu pensei que dariam. Eu mandara o vídeo para ela, claro. Não estavam nos meus planos apenas filmar a ceninha que aconteceu ontem. Quando invadi os arquivos da escola ontem à noite antes da festa, para adicionar meu arquivo forjado, roubei uma pequena informação: o email de Ashley. Então, antes de entrar em coma no sofá, enviei-o, anonimamente (ou seja, por um email com letras aleatórias). Ela terminaria com Chad e o caminho estaria livre para Andrew.
— Co-como? – Ele olha para mim, abestalhado, depois de terminar a ligação, me fazendo rir.
— Simples! Ashley é uma pessoa que sente muitos ciúmes, aquele beijo foi a prova e ela passou. Mas, ela não é a mais interessante, Chad é. Ele quer o que você tem, eu apostaria que é algum problema com a família. – Levanto da minha cadeira, começando a limpar a mesa.
— Os pais não são os mais presentes. – Ele admite. Levanto uma sobrancelha, guardando essa informação para mais tarde.
— Mas seu avô é. Logo, se você tem a garota nova, linda, árabe e misteriosa... – Ele solta o ar pelo nariz, divertido. Mostro o dedo do meio como resposta. – Ele precisa roubar de você. É provável que ele nem goste da Ashley. – Faço uma careta. — Eu só precisei mexer uns pauzinhos, na verdade. Pode me agredecer depois.
— Você é uma gênia. – Ele gargalha, colocando uma mão na cintura.
— Se você não percebeu isso até agora, provavelmente deveria consultar um médico. – Franzo a testa. Ele chega ao meu lado em duas passadas, atravessando a sala de jantar, e me abraça. Ainda rindo, tira os meus pés do chão. Eu sorrio junto. – Sabe, você deveria ir para a casa dela, ver se está bem.
— Você é minha melhor amiga a partir de agora. – Ele me dá um beijo na bochecha e sobe as escadas correndo, para trocar de roupa.
Acho que agora é seguro dizer que o primeiro desejo está realizado. Por que, então, não me sinto tão feliz quanto deveria?
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