Notas iniciais
Não consegui resistir ao impulso de postar mais...

No outro dia, acordei tarde. Minha cabeça doía. Começou a doer mais quando ouvi minha mãe gritando comigo, mas apenas não me importei, pois eu havia sonhado com Helena. Passei o dia todo pensando nela. Ainda não sabia ao certo as causas de sua morte, mas me informaram no hospital que foi com um tiro. Possivelmente um assassinato. Maldito seja quem a matou! Juro que ainda acerto as contas com o desgraçado. Mas o importante é que ela não estava mais aqui. Eu estava sozinho e com medo de ir à Orleans, afinal, aquela era a cidade natal de Helena. Mas, é claro que se ela estivesse aqui, eu nunca teria nenhum medo. E eu sinto falta dela mais do que senti ontem. Lembro de como ela parecia bonita descendo a rua com seu melhor vestido. Agora ela está muito longe, e eu preciso seguir em frente e viver minha vida.

– Arthur, estou falando com você. Responda-me!!! – Os gritos histéricos da minha mãe me acordaram dos meus pensamentos.

– O que você quer? Que inferno! Minha cabeça está doendo, OK?

– É claro, bêbado do jeito que é! – Ela dizia com cara de nojo – E não fale assim comigo, entendeu? Agora vá tomar banho, pegar suas malas e vamos levá-lo ao aeroporto. Já são seis horas da tarde – Eu dormi tanto assim? – e seu avião sai às oito. E – Ela fez a cara de nojo outra vez – seu cabelo, você precisa cortá-lo! Olhe para isso, parece uma mulher. Nunca reparei como você fica ridículo com esse cabelo quase na altura dos ombros.

– O maldito cabelo é meu, não é? Agora eu vou tomar banho, pegar as minhas coisas e, finalmente, vou me livrar de vocês. – Disse entrando no banheiro, para nem dar chances de eles reclamarem.

Depois do banho, vesti as mesmas roupas do dia anterior, peguei minha mochila e fomos pro aeroporto. Ninguém chorou na minha despedida, meus pais pareciam felizes de finalmente se livrarem de mim. Michael, por outro lado, abraçou-me e disse que sentiria saudade. Eu disse que sentiria também. Então, entrei no avião. Peguei meus fones de ouvido e um livro. Passei horas ali, lendo e ouvindo música. Depois dormi. A cadeira do avião parecia mais confortável que o sofá do hotel e a cama em que diversas vezes já dormi com Helena.

Quando acordei, já estávamos há pouca distância da cidade que eu estava indo morar. Comecei a me preparar para o desembarque, arrumei meus fones de ouvido e meus livros de volta na mochila (que eu sempre carregava comigo). Chequei meu relógio, nove da manhã. O avião pousou, todos desceram. E então eu percebi que não fazia idéia de onde deveria ir. Liguei para os meus queridos pais, e eles me deram informações sobre onde estava o motorista com meu carro e as chaves do apartamento, e o endereço do mesmo. E meu pai aproveitou para fazer um de seus agradáveis comentários sobre como eu conseguia dirigir e que eu deveria conseguir um motorista também. Apenas ignorei, eu amo dirigir. Peguei um táxi e fui pegar meu carro, depois fui direto ao meu novo apartamento.

Chegando lá, tudo estava diferente de como era nas minhas lembranças de criança. O lugar parecia muito desgastado, mas os meus móveis já estavam lá. Tudo bem que não estavam organizados do meu jeito, mas isso não era problema, eu os reorganizaria. Larguei minhas malas em cima de um sofá, e fui até a janela observar a vista. Mas, na verdade, acho que não dá pra chamar de “vista” um lugar cheio de prédios sujos e caindo aos pedaços. Mas, mesmo assim, deixei as janelas abertas. Fui ver o quarto, minha cama já estava lá também. Coloquei minhas roupas no guarda roupas e fui ligar meu notebook. Bom, ao menos aquele lugar tinha wireless. Quando chequei meus e-mails, tinha uma mensagem da minha nova maldita escola. Lá tinha meus horários e o endereço do lugar. Minhas aulas começariam amanhã. Por que infernos terei de começar as aulas numa sexta feira?

Terminei de organizar meu apartamento, que era ligeiramente maior que o outro, tomei um banho e fui deitar. Não consegui dormir, de novo. Helena não saía de meus pensamentos e a saudade já estava ficando insuportável. Levantei e fui até a sala, fitei a janela aberta. Eu estava no sétimo andar, acho que faria um estrago bem grande se eu pulasse. Como a janela não tinha grades, sentei-me nela, com minhas pernas para fora. Liguei uma música e fiquei lá, pensando. Tanta coisa me vinha à cabeça. Eu não suportaria a vida sem ela, não mesmo. Mas não poderia pular. Meus pais não sentiriam minha falta e eu não tinha amigos, mas tinha meu irmão. O que seria do Michael sem mim? Digo, eu sempre estive lá por ele. Sempre o defendi. Acho que eu poderia lidar com a saudade de Helen por algum tempo. Mas, se nada mudasse, ou se tudo piorasse, eu pularia. Com certeza eu pularia. Então o pior que eu poderia dizer, é que as coisas são melhores se eu ficar.

Acabei adormecendo em um sofá qualquer, e nem me lembro de ter ido pra algum deles. Acordei no outro dia faltando apenas meia hora pro começo das aulas. Tomei um banho rápido, peguei minha mochila (que agora já tinha meus cadernos e, é claro, meu iPod), minhas chaves e desci. Entrei no carro e fui para escola, enquanto ouvia alguma música qualquer e bebia um café. Cheguei na escola e estacionei meu carro. Aquele lugar era simplesmente fantástico! Era duas vezes maior que a minha antiga escola. Ao descer do carro, coloquei meus inseparáveis fones de ouvido, minha mochila e fui em direção à entrada. No caminho, todos me olhavam com o mesmo olhar do meu pai. Eles me julgavam. Mas eu simplesmente não me importava, a opinião deles não era nada pra mim. Fui até uma das salas do terceiro ano, e as o professor já estava lá sala. Um homem velho, mas com uma aparência muito simpática. Cheguei na sala e pedi licença para entrar.

– Ah, então é esse o aluno novo? A diretora me falou sobre você. Mas esqueceu de falar que costumava se atrasar – Alguns riram.

– Desculpe-me pelo atraso, sou novo na cidade. – Disse entrando na sala.

– Ah, ótimo. Então? – Ele me olhava de um jeito estranho.

– Sim, senhor? – Encarei-o curioso.

– Não vai se apresentar, Sr. Atrasado? – Agora todos riram. Eu estava enganado sobre esse cara, ele não era simpático.

– Ah, sim. Eu sou Gerard Way, tenho 17 anos e vim de Nova Jersey. Gosto muito de arte e música.

– Ótimo, ótimo. Agora sente-se lá, ao lado do Sr. Iero. – Disse apontando para uma classe vazia ao lado de um menino de olhos verdes e cabelo escuro. O cara que mais tinha rido de mim. Maldito.

Me dirigi à classe ao lado do tal “Iero”, tirei minhas coisas da mochila e coloquei-as na mesa. Quando olhei pro lado, percebi que o garoto dos olhos verdes e cabelo escuro olhava para mim. Quando percebeu que eu estava olhando para ele também, deu um sorriso malicioso e olhos pros amigos, que gargalharam. Não entendi o que tinha de tão engraçado em mim. Por um acaso meu nariz estava pintado de vermelho? Acho que não. A aula passou rapidamente e até que foi agradável, tirando o grupo de palhaços que estavam ao meu lado. Quando bateu o sinal do intervalo, peguei meu iPod e saí da sala. Fui caminhando pelo pátio da escola até achar uma linda árvore com uma sombra incrível, sentei-me de baixo dela e comecei meus desenhos. Eu amo desenhar, e acho que sou bom nisso. Já recebi muitos elogios dos meus professores da escola de Jersey. Eu estava sem imaginação para novos desenhos, então terminei a rosa que havia começado há algumas semanas. Eu nem lembrava que esse desenho ainda existia. Quando terminei-o, fechei meu caderno e fiquei observando as pessoas que passavam. Tinha gente de todos os jeitos lá. Mas um grupinho em especial chamou a minha atenção: os palhaços da minha sala. Iero, o qual eu ainda não sei maldito primeiro nome, e seus amiguinhos me olhavam e riam. Comecei a observá-lo mais atentamente, nos tínhamos algumas coisas em comum, final. Ele também parecia numa ter saído no sol, usava lápis de olho meio exagerado para um homem e seus olhos eram da mesma cor que os meus. Se eu não fosse hétero, poderia até dizer que ele é atraente. Mas não, ele era muito baixo e muito irritante. Bateu o sinal para a volta para a sala. Ótimo, mais um tempo perto deles.

Quando fui entrar na sala, esbarrei em alguém. Quando olhei para o lado, meu coração disparou. Por que infernos isso aconteceu? Deve ter sido por raiva, não sei. Pois eu nem preciso dizer quem que esbarrou em mim e, em seguida, me mandou mais um sorriso malicioso. Fiquei a aula toda pensando sobre isso. Eu era hétero, no máximo bissexual. Tudo bem que eu já beijei alguns garotos enquanto estava bêbado, mas nunca passou de um beijo e nada mais. Estava tão perdido em meus pensamentos que não percebi a professora falando.

– Você, ah... Way, não é? – Assenti com a cabeça. – Ótimo, será a dupla de Iero no trabalho de ciências. – Eu estava começando a achar que esse cara não tinha um primeiro nome. “Iero” e seus amiguinhos gargalharam e olharam para mim de novo – A entrega é semana que vem, o tema está no quadro negro.

Ótimo, agora preciso fazer um trabalho com o “Iero”. Que inferno. Na saída, ele veio até mim. Era a primeira vez que eu o via sozinho, sem sua gangue. Eu estava pegando minha mochila na sala, quando ele chegou.

– Aí, você é a minha dupla, não? – “Sim, infelizmente”, pensei. Mas só assenti com a cabeça – Ótimo. – O sorriso malicioso outra vez... – Eu sou Frank Iero.

– Eu sou Gerard Way, prazer. – Algo dentro de mim me fez pensar que eu quis dizer outra coisa com “prazer”. Mas esse “algo dentro de mim” deveria calar a boca, porque eu deveria pensar na Helena. Eu a amava e, acima de tudo, eu era heterossexual.

– Então... – Ele gaguejou – Way? Gerard Way? – Ele parecia assustado

– Sim, algum problema? – Perguntei, encarando-o.

– Não, não. Nenhum. – Ele gaguejou outra vez – Me passa o teu número, te mando uma mensagem hoje à noite com meu endereço pra gente fazer o trabalho, OK? Agora eu tenho que ir.

Ele realmente mudou quando eu falei meu nome, mas eu não entendi o motivo. Será que eu já conhecia esse cara quando era criança e vivia em Orleans? Porque eu brigava com muitas crianças... Ou vai ver ele me confundiu com outro Gerard. Mas, enfim, deu meu número à ele e fui pra casa. Chegando lá, tomei um banho, vesti outra roupa e deitei-me no sofá para assistir televisão. As memórias voltaram. Helena. Helena. Helena. Eu estava começando a chorar quando meu celular tocou. “Quem será o desgraçado que me liga justo agora?” Mas, na verdade, ninguém estava me ligando. Era uma mensagem de um número desconhecido por mim. Lá tinha um endereço e um horário. Provavelmente seria de Frank. Peguei minha mochila e fui até o carro. O trânsito estava um verdadeiro inferno. Carros e mais carros, motos e mais motos, tinha até bicicletas em excesso.

Meia hora depois, consegui chegar ao endereço que me havia sido enviado. A casa não parecia muito com o que eu imaginei. Tinha um carro que parecia extremamente caro na frente, e a casa parecia uma mansão. Aliás, era uma. Desci do meu carro, toquei a campainha. Um rapaz desconhecido apareceu, e entrou novamente. Logo depois, Frank apareceu, abriu os portões e então eu pude entrar.

– Ah, olá. – Disse eu, meio envergonhado ao sair do carro.

– Achei que você não... – Ele foi interrompido por um cara loiro e de olhos azuis, o mesmo que eu vi há pouco tempo.

– Teu namoradinho chegou, Frankito? – Disse ele, sarcástico.

– Dá pra calar a boca, Bob? – Frank parecia sem jeito, eu corei. – Ignora ele, OK? É meu amigo e eu já está de saída.

– OK, já vou indo, então. Vou deixar vocês dois se comerem em paz. – Ele riu. Agora lembrei, ele era um dos amiguinhos de Frank.

Ele foi embora. Frank e eu subimos até seu quarto para fazer o tal trabalho, mas no caminho ele parou para pegar algumas cervejas. Subimos. O quarto dele era parecido com o meu, fora o fato de ser muito maior. Fizemos o trabalho em questão de minutos, e eu percebi que ele era realmente inteligente. Quando fui guardar minhas coisas na mochila, deixei cair uma foto de Helena. Fui pegá-la, mas Frank foi mais rápido.

– Você deixou cair uma foto com a sua... – Ele parou ao olhar a foto mais de perto. Seu rosto corou. Algo estava errado com aquele garoto, e eu tinha certeza disso.

– Ah, obrigado. Ela era minha namorada – Uma lágrima caiu do meu rosto – Mas enfim, Frank, tenho que ir – Eu tentei disfarçar as lágrimas, após limpar o rosto.

– Claro, tudo bem. – Ele parecia sem jeito. – E me desculpa por tocar no assunto, Way, eu sei como é difícil perder alguém pra sempre.

– Espera, como assim? Você sabe o que aconteceu com a Helena? – “Helena”, esse nome parecia o afetar tanto quanto afetava à mim. Comecei que pensar que algo tinha acontecido entre eles. – Você a conheceu?

– Não, claro que não. É que você disse que ela era sua namorada, e eu vi as lágrimas nos seus olhos, então pensei no mais óbvio. – Ele estava mais sem jeito ainda.

– Ah, sim. Então, Frank, como eu disse, preciso ir. Até segunda feira na escola. – Peguei as minhas coisas que fui saindo.

– Ei, Gerard, espera. – Ele gritou quando eu já estava saindo – Eu sei que você não deve estar pensando nesse tipo de coisa nesse momento, mas amanhã é meu aniversário, e vai ter uma festa aqui em casa. Você vem?

– Claro. – Sorri ao pensar na possibilidade de ter arrumado um amigo.

– Ótimo, te espero às dez. – Sorri de novo, e dessa vez fui correspondido.

Entrei no meu carro e fui embora.

Notas finais
Perceberam a letra das músicas na história?