Threads of Hope
1 Nós duas
Notas iniciais
"E se eu estiver longe de casa?
Oh, irmão, vou ouvir você chamar
E se eu perder tudo?
Oh, irmã, eu vou ajudá-la"
A família que morava na casa parecia ser de classe média. Adentrando mais o lugar víamos a sala, onde tinha dois pares de sofá de coro com uma mesa no centro e uma estante com uma televisão, sem contar os retratos que mostravam o quanto eles pareciam ser felizes. Hoje, era apenas uma recordação do que alguns viviam
– Vou dar uma olhada lá em cima. – Lily avisou subindo devagar os lances da escada virando a cabeça apenas para me avisar – Parece que tem algo comestível na cozinha, vou tentar encontrar algum tipo de arma. — Assenti e ela continuou seu caminho.
Andei calmamente em direção a cozinha, mas o piso da casa já estava bem gasto, fazendo surgir um barulho irritante a cada passo dado. A sala e a cozinha era dividido apenas por um balcão. Abri os armários encontrando pratos empoeirados e copos, porém, consegui enxergar alguns enlatados ao fundo, os peguei colocando rapidamente na mochila e parti para geladeira. Ao todo, achei alguns salgadinhos – o que era bem raro –, enlatados de feijão e de peixe, garrafinhas de suco que ainda estavam dentro da validade e algumas barrinhas de cereais. Acredite, isso era bem mais do que eu esperava.
Pela demora de Lily, deduzi que ela encontrou o que procurava e por falar nela:
– Sabia que o pai dessa família era do exército!? Encontrei essas maravilhas escondidas embaixo do colchão- Ela exclamou com um sorriso colgate enquanto mostrava algumas granadas em suas mãos, e sua mochila também não ficava atrás, parecia bem recheada de coisas – Ainda bem que não era inteligente.
– Sabia que encontrei MM's aqui!? – O meu sorriso devia estar mais estilo meio lua.
– Sério? – Ela questionou com os olhos brilhando.
– Não. – Agora era eu que estava com o sorriso colgate e ela, como sempre, revirando os olhos.
Em meio a toda essa "alegria" escutamos gemidos. O tipo de gemido que já era bem familiar para nós, o do tipo de seres que comem carne humana. Lily tinha os ouvidos bem aguçados em relação à isso, então ela já havia ido até a janela da sala ver o que supostamente já sabíamos.
– TEMOS VISITA LOTTIE! – Ela gritou da sala o que eu "desconfiava".
– MEU NOME É CHARLOTTE! CHAR PARA OS INTÍMOS! – Gritei enraivecida com o apelido ridículo que meu tio havia colocado em mim – Muitos do tipo plano b? – Perguntei adentrando a sala ajeitando a mochila dos nossos alimentos e algumas roupas.
Deixe-me explicar os nossos planos básicos de sobrevivência.
Plano A: Atiramos em todos.
Plano B: Corremos para um lugar "seguro".
E assim vinhamos vivendo no nosso auge dos 14 anos.
– Plano b. – Disse apressada ajeitando as granadas na mochila e logo retirando uma arma, rapidamente a destravando pronto para dispará-la – Vê se encontra uma porta dos fundos ou algo que dê para nos tirar daqui, eu seguro eles aqui.
– Se precisar de ajuda me grita. – Falei lhe lançando um olhar determinado antes de correr para cozinha, onde me recordava de ter visto de soslaio uma porta discreta.
Sabia que havia visto a tal porta. Era menor do que a da frente, parecia estar escondida atrás de algumas caixas. Ouvi sons de tiro perto o suficiente para saber que eu tinha que me apressar. Empurrei nervosamente as caixas derrubando-as no chão escutando apenas elas estraçalhando.
– Espero que tenha conseguido. – Lily disse arfante de costas para mim, olhando para a porta da sala para ver se achava mais comedores de carne.
– Claro que achei, com quem você acha que tá falando? – Perguntei num tom indignado abrindo a porta.
No quintal dos fundos havia somente a grama que estava bem gasta e as tipicas cercas das casas americanas. Lily passou correndo na minha frente com facas... Facas? Pulamos as cercas sem nenhum problema, e nem me dei ao trabalho de olhar para trás, já sabia o que me aguardava.
– Alguém já te falou que você está parecendo um serial killer? – Perguntei na minha ironia de sempre, enquanto ouvia sua gargalhada em meio aos nossos cabelos ao vento.
– Que eu me lembre não, sabe, somos só eu e você desde o começo do maldito apocalipse. – Ela me contou em tom de segredo e eu somente emiti um "aah".
Em meio a nossa correria, já tínhamos parado uma vez para beber o suco que consegui hoje cedo, mas não durou muito e já nos encontrávamos correndo novamente em busca de um carro ou algo do tipo.
– Que fim de mundo... – Lily murmurou irritada procurando algo com seus olhos observadores.
– Percebeu que você fez um trocadilho? – Perguntei levantando a sobrancelha.
Ela pareceu pensar um pouco, e um pequeno levantar dos lábios dela me fez perceber, que não havíamos perdido o humor negro da nossa família.
Enfim, observando mais o local em que estávamos, não consegui encontrar nenhum tipo de comércio, nem uma padaria, que cidade não tem padaria? Fiquei indignada, minha boca salivou só de imaginar uns pãezinhos com doce de creme por cima.
– Espera! – Praticamente gritei para Lily ao avistar um gipe meio escondido por uma árvore – Um gipe! – Disse animada virando a esquina puxando a ruivinha ao meu lado, fazendo-a assim, a correr junto à mim.
– Olha, acho que sei correr sozinha...
– Só por precaução amor. – Disse novamente com ironia, coisa que ela odeia quando é dirigido à ela.
Pude avistar mais próxima ao gipe sua cor, verde escuro – quase preto –, um pouco desbotado. Fui para o lado do volante e tentei abrir a porta. Fiquei um tanto surpresa ao constatar que não estava trancada. Sentei no banco e fechei a porta ao meu lado colocando minha mochila no banco de trás sem olhá-lo. Lily parecia estar tendo dificuldades em subir no gipe. Ela somente havia colocado sua mochila no banco do passageiro (ao meu lado). Gargalhei com a cabeça apoiada no volante ao notar que ela tinha dificuldade ao subir. Seu 1,57 de altura não ajudava ela nem um pouco ao dizer que tinha 14 anos, assim como eu. Porém, ao contrário dela, eu tinha meus amados 1,65 de altura, o que a deixava extremamente revoltada.
– Continua rindo que eu vou te mostrar o serial killer! – Falou visivelmente furiosa com meu riso sobre sua altura, seus olhos me diziam o quanto ela estava me fuzilando em sua mente.
– D-desculpa... – Disse parando de rir lentamente, havia até escorrido um pouco de lágrima.
Por fim, ela finalmente conseguiu subir – até tentei oferecer ajuda, mas era bem orgulhosa –. Estava à uns 10 minutos procurando a chave do gipe e nenhum sinal dela.
– Rápido querida, cê acha que estamos sozinha nesse inferno? – Lily disse carregando sua arma e foi aí que vi, as criaturas dobrando a esquina em nossa direção.
– Não encontro a chave... – Disse afobada com nossa situação atual.
– Faz ligação direta. – Ela exclamou me olhando nervosamente.
– Cê acha que é fácil igual nos filmes? Só chegar e fazer essa merda e tcharam tá feito! – Falei totalmente irada com as mãos no meu cabelo os puxando de leve, e a pressão que ela estava fazendo só agravou tudo.
– Deveria. – Sua voz soou um tanto irônica de mais para os meus ouvidos, e me virei para ela no mesmo instante lhe lançando um olhar raivoso que a fez virar o rosto – Ok, só tente fazer funcionar. – Murmurou com seu jeitinho de pedir desculpas.
Suspirei tentando me manter calma. Abri a parte de dentro – abaixo do volante – onde ficava os fios e tentei me lembrar do dia em que vi meu pai ligando o carro desse jeito. A cor dos fios estava nublada em minha mente. Uma eu sei que é vermelho, já a outra...
Nossa família era bem preparada para o futuro, sendo assim, meu pai e meu tio (pai da Lily) acharam melhor nos ensinar a mexer em um carro, o básico, mas foi isso que nos manteve vivas hoje em dia. Toda vez que eles tinham folga do trabalho, eles gostavam de arrumar seus carros. E isso chegava a ser louco, porque eu e Lily não nos importávamos de sujar as mãos com o óleo ou graxa. Achávamos super interessante. Ou talvez fosse porque nós queríamos passar o máximo de tempo possível ao lado deles. Não sabíamos se eles voltariam do trabalho, ou se os companheiros deles nos ligariam para dar uma notícia desagradável. Me despertei do momento flashback ao ouvir a voz da minha ruivinha.
– Char se concentra por favor. – Lily falou começando a disparar alguns tiros nos zumbis que estavam mais próximos, mas no ritmo em que se encontrava ela não conseguiria segurá-los por muito mais tempo.
– Verde. – Exclamei um pouco exaltada demais ao lembrar a cor que faltava.
Puxei desajeitadamente os fios para fora, até que ficassem perfeitamente na minha linha de visão e os entrelacei do jeito que me recordava. Quando o ronco do motor foi ouvido por nós, soltamos o ar que nem percebíamos que estava preso em nossa garganta. Deixei escapar um pequeno sorriso de alívio, e pisei firme no acelerador esmagando o restante do bando de zumbis que queria nos devorar.
– Por isso você é da família. – Lily disse com um discreto sorriso no canto dos lábios enquanto passava as mãos no cabelo ajeitando-os.
– Eu sei, Lilyca. – Falei toda orgulhosa de mim mesma, e à propósito, não era só eu que tinha um apelido irritante, ela também havia herdado esse presente da nossa família.
Ela revirou as suas orbes de cor indefinida e apoiou sua cabeça no vidro da janela, fechando os olhos e soltando um suspiro. Com tudo o que aconteceu hoje, nem reparei o quanto estávamos cansadas da "pequena" viagem que completamos. A paisagem que adentrava minha visão, era somente a estrada de asfalto em linha reta, com as árvores nas laterais dando o desfecho final. Aparentemente, a duração da viagem seria de 3 horas para a cidade mais próxima. Ao dar uma rápida olhada em Lily, vi que a mesma estava dormindo profundamente.
Suspirei para logo em seguida deixar um discreto sorriso aparecer em meu rosto. Nós duas estávamos bem, na media do possível. Conseguimos sobreviver por mais um dia. E eu tinha certeza que venceríamos isso, lutaríamos pelo mundo que havíamos conhecido. Nós duas. Porque era isso que nossa família iria querer.

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