Those Days

3 Capítulo 2: Aquele dia que te vi


Notas iniciais
Olá olá! Como estão? Primeiramente: Em algumas traduções o nome da bebida que o Corteo fabrica está como Cachaça, maaas, cachaça em lugar nenhum tem aquela cor, então resolvi chamar de Whisky pois se aparenta apenas com Rum ou Whisky. Estou postando esse cap com uma baita antecedência (Ele está programado) pois já dei início ao Cap três. Esse capítulo está muito repleto de diálogos, eu sei, mas também com muita explicação necessária, eu sei que está longo (Bem mais longo que o primeiro) mas eu já tinha dito que seria assim de qualquer forma aushuash. Vocês não estão comentando... deem sinal de vida por favor, apenas para mostrar que não estou escrevendo isso apenas para mim e algum fantasma. Digam se preferem os caps como este (bem longos) ou como o primeiro um tanto mais curto. Obs.: Capítulo ainda sem trilha sonora, estou procurando algumas para se encaixarem mas está difícil

Capítulo 2: Aquele dia que te vi

O som incessante dos goles começara a preocupar Corteo que encarava o outro com os braços cruzados, Cerotto virava seu terceiro copo de Whisky logo antes de elogiar o quanto a bebida estava forte e encorpada como sempre. Ele viera a seu apartamento para buscar novos potes da bebida, pois o estoque havia terminado completamente em seu bar, restando agora nem ao menos uma gota. Pelo menos Cerotto reconhecia ser de certa forma o culpado por aquilo, sabia ter que visitar o amigo uma vez por semana; já que o outro não possui um automóvel para ir até o bar; e ele mesmo bebe ao menos duas garrafas da bebida amarronzada enquanto trabalha, acarretando no desperdício de no mínimo oito vendas. Mas à Corteo isso não importava contanto que aquele que é seu melhor cliente continuasse a comprar consigo.

—Essa desceu rasgando! –Comenta contorcendo o rosto numa feição de desgosto, mas logo se transforma em um sorriso largo. –É por isso que vivo te dizendo para vender esse negócio pra família Orco. Você faria o triplo do que faz agora nesse seu apartamentozinho. O triplo! –Repete as palavras dando ênfase enquanto fazia um 3 com os dedos. Cerotto sempre fora exagerado; e essa característica apenas se realçava quando bêbado; desde suas falas às suas expressões, tal característica acabava por irritar as pessoas à sua volta, porém Corteo não se importava muito com isso. Deveria irritar-se com o outro graças a ter passado grande parte de sua infância com seu “irmão” que praticamente não se expressava como alguém normal, mas aquilo apenas o fazia se identificar com Cerotto, é assim que Angelo devia o enxergar quando eram crianças.

—Eu não suporto a máfia. –Responde descruzando os braços e sentando-se em uma das cadeiras vagas do cômodo, a permitindo pender para trás enquanto encarava o teto sobre suas cabeças. “Graças à máfia, a família do Angelo foi...” Pensava sem se permitir terminar a frase, mesmo que não a estivesse entoando de fato. Pensar naquilo; mesmo que já tenham se passado sete anos­; ainda lhe doía. Não ousava pensar o quanto Angelo ainda sofria. Cerotto o encara com uma feição desentendida, logo dando espaço a um sorriso de deboche.

—Essa é boa, –Corteo o encara, desviando finalmente o olhar vago que se mantivera até o momento fixo em um ponto qualquer no teto branco. –vindo de um contrabandista. –Corteo não responde ao comentário feito pelo amigo, de fato o que fazia como emprego era atualmente categorizado como algo ilegal, mas não se considerava um contrabandista, apenas... um vendedor. Vendedor este no qual apenas seguira tal rumo por precisar urgentemente de dinheiro para pagar sua faculdade. –Veja só, um camarada meu trabalha agora com um tal de Fango. –Comenta levantando-se da cadeira para aproximar-se mais do pote contendo a bebida, virando outra dose de seu contingente no copo de vidro que usava e induzindo o amigo novamente a vender aquele produto à máfia ao invés de pequenos bares como o seu próprio.

—E por que isso deveria me interessar? –Mesmo sua fala sendo entoada de forma rude, o outro não se importava com tal fato, o ignorando por completo e voltando à mesma linha de raciocínio.

—É um sujeito que entrou na família Orco. Dizem que é um baita dum cliente. –Diz analisando o contingente do recipiente de vidro, imaginando a fortuna que estaria nadando naquele momento se fosse ele o criador de tal produto.

Corteo não costumava ser rude como estivera sendo naquela conversa, mas o outro também não costumava ser tão insistente em algo que sabia não ter fundamento. O que acabava por intensificar a irritação do míope que o encarava incomplacente desejando voltar logo ao silêncio rotineiro de sua moradia, quebrado apenas pelo som dos fornos a preparar os litros de whisky.

—Chega, já tá na hora de ir, Cerotto. –Afirma finalmente levantando-se da cadeira que pendia para trás, rumando à porta de seu apartamento.

—Escuta aqui, Corteo, cá entre nós. Até quando viverá nesta espelunca... –Antes que pudesse terminar sua frase é cortado pela fala do anfitrião, já sem paciência com sua presença insistente.

—Já mandei partir! –A fala alta não intimida o que agora virava seu quarto copo de whisky, que desce com uma sensação quente e desconfortável em sua garganta, mas não demonstra qualquer desgosto com o sabor da bebida forte. Corteo estava ao lado da porta recém aberta por si, dando ênfase que agradeceria a ida do outro.

—Tanto faz então, não é problema meu. –Ele bate o copo com certa força na mesa de madeira envernizada e ruma a porta com as mãos nos bolsos, brincando com as pontas dos dedos com os detalhes do isqueiro que levava na vestimenta.

Para Corteo que buscava a paz e o silêncio naquele resto da tarde, o que passou por sua porta não poderia ser pior. Antes que Cerotto pudesse finalmente deixa-lo sozinho, um homem alto trajado como uma criança pronta para ir a um jogo de beisebol; e aparentemente era ele o rebatedor, pois a arma que carregava não tratava-se de uma acolchoada luva de gigante, mas sim um taco de madeira pesada; o que em nada combinava com o alto e musculoso homem que precisava se abaixar para passar pela porta de madeira. Sente apenas seu coração acelerar e as pernas tremerem ao vê-lo adentrar sua moradia sem discrição e ouvi-lo entoar com a voz grave:

—Você aí que vende o produto? –Ambos os mais baixos recuam dois passos conforme o outro se aproximava. Pela expressão de Cerotto, que o anfitrião podia enxergar parcialmente de onde se encontrava, conhecia aquele homem. Pelo formato dos rostos, Corteo até chutaria serem irmãos se não fosse pela próxima ação de ambos.

—Então camarada... ele não suporta a máfia. –Mal tem tempo de terminar sua frase e seu é nariz acertado sem delongas pelo brutamonte com uma cabeçada. Cerotto sente a visão ficar turva e se permite ajoelhar-se no chão enquanto tentava impedir o sangramento em seu nariz. A dor era grande, mas não a ponto de gritar ou agoniar.

—Venda-nos essa bebida aí. –O brutamonte mais ordena do que pede, era perceptível sua ameaça enquanto balançava o bastão de um lado para o outro, Corteo analisava as chances que teria de não acabar desacordado se dissesse “não” para o homem com tamanho suficiente para cobri-lo de todas as formas, tanto pela altura quando pela largura.

Em um movimento um tanto estranho, ele leva a mão esquerda que não segurava o bastão, à nuca de Corteo, a deixando ali por alguns segundos. O mais baixo chega a pensar que teriam uma conversa lógica e sensata, quase deixando um suspiro de alívio escapar de sua garganta com tal constatação, mas o homem abaixa repentinamente sua cabeça, fazendo seu estômago bater contra o joelho que levantara para o golpe. Com a dor o míope se encolhe no chão, abraçando a área atingida como forma de consolo, mas o outro não estava disposto a parar e desistir do que queria com apenas um golpe.

—Vai vender ou não? –Sua voz é novamente ouvida pelo homem que agora tentava em vão amenizar a dor do golpe que levara bem na boca do estômago. Se tivesse parado parar pensar por alguns segundos, talvez Corteo não tivesse dado aquela resposta curta e insensata, mesmo que fosse sua vontade, a atitude de qualquer cidadão que preze por sua vida, seria repensar se vale a pena apanhar para alguém que se comparava a um gorila apenas por não querer se envolver com certas ilegalidades.

—N-não vou... –Responde com a voz falhada, havia um nó em sua garganta que o impedia de falar corretamente, talvez o medo, talvez a dor aguda que demoraria a passar, talvez uma junção de ambos.

Diferente do que pensava, a criança-brutamontes não o acerta com seu taco de madeira pesada, não sabia se agradecia mentalmente por isso ou xingava em sussurros, pois a ação do outro fora pior do que simplesmente lhe dar alguns golpes, ele caminha lentamente pelo apartamento rumando a cozinha enquanto assobiava uma música sem ritmo. De repente, o som de metal sendo amassado ecoa pelo apartamento, Corteo presencia ainda caído no chão, o homem acertar a caldeira de seu fogão, onde fazia as bebidas, logo outro golpe, depois é vez do barril onde deixava a bebida descansar da noite para o dia, por sorte estava vazio, e então outro golpe na caldeira.

—Pare com isso! –Gritou enquanto observava impotente o outro destruir aquilo que era sua fonte de sustento. Mais um golpe em sua caldeira, que agora já se encontrava completamente amassada, assim como os pensamentos positivos que Corteo poderia ter em tal situação.

De repente alguém passa ao seu lado o assustando, não percebe quem era a princípio, percebendo apenas o que julgou ser uma capa negra.

—O negócio é matar a concorrência logo na raiz! –Braveja prestes a acertar novamente as caldeiras de metal, porém, sua fala assim como sua ação morrem ao ser acertado na cabeça por uma ferramenta de ferro, caindo completamente desacordado ao chão. O brutamonte não teve tempo de perceber quem o acertara, talvez passasse a vida inteira achando que um fantasma o nocauteara. Até mesmo Corteo demorou alguns segundos para perceber que aquele que desmaiara o brutamonte e trajava a suposta capa escura era seu irmão.

—Angelo...? –Sua voz deixa a garganta em tom de dúvida, havia muitos anos que não encontrava o irmão, nunca esperaria uma visita repentina, sem qualquer aviso prévio. Se bem que Angelo não era o exemplo de cidadão comum, mas também não era o exemplo de mal-educado, levando Corteo a concluir que se tratava de uma visita necessária.

Eles explicam a situação ao proprietário, pedindo que ligasse para a polícia e levasse o homem que invadira seu apartamento. Eles arrastam o homem de corpo largo até o corredor, onde esperaria pacientemente a polícia chegar.

Voltando ao apartamento, finalmente tem a chance de se falarem após tantos anos sem qualquer contato, nem ao menos cartas. Pois Corteo não conhecia o local onde o outro residia. Ele tinha essa desculpa, mas Angelo não, tanto que assim que chegara a Lawless fora diretamente aonde lembrava-se morar o irmão e melhor amigo de longa data. O míope não sabia exatamente como começar uma conversa, se agradecendo pela ajuda com a criança-gigante, ou pedindo esclarecimento quanto ao desaparecimento por tanto tempo, acabando por escolher uma terceira opção, apresentar o outro com algo que sabia que gostaria, seu whisky.

—Eu que fiz, –Mesmo que obvia ele decide falar tal informação, mais para quebrar o silêncio do que qualquer outra coisa, conhecia a inteligência de Angelo há muito tempo para ter certeza que ele entendera pelas caldeiras sobre seu fogão e as várias caixas de madeira espalhadas pela casa, cheias de potes de vidro com a bebida amarronzada. –experimente.

O homem a sua frente não mudara quase nada, aparentemente apenas crescera um pouco, ele logo percebe o quanto estava errônea sua constatação, a personalidade do outro mudara de forma a não reconhecer quem estava sentado à sua frente. Angelo ascende um cigarro dando uma curta tragada, logo soltando a fumaça cinzenta pelo ar, um pouco depois de recitar a frase: “Eu sei que é bom.” Corteo logo percebe haver algo de diferente naquele Angelo, não sabia a atual profissão do outro, poderia ser um policial e ele estava ali oferecendo uma bebida ilegal a um homem da lei.

—Não é minha intenção fazer bebidas ilegalmente... Só quero guardar dinheiro para estudar. –Mesmo que aquilo não o livrasse de qualquer acusação, julga importante deixar o fato marcado na conversa, além de achar constrangedor o apartamento em completo silêncio. –Angelo... Por onde esteve nos últimos sete anos? –Questiona enquanto fitava o outro, o fumante estava de lado na cadeira, encarando um ponto aleatório no chão, sem em momento algum fitar os olhos daquele que não encontrava fazia sete anos.

“Ele está falando comigo! Quanto tempo Corteo! Nossa, ele não mudou quase nada...Oh, agora ele usa óculos, por que você não usa óculos, Avilio?”

A voz em sua mente se manifesta de repente sem aviso prévio, a forma como se dirige à Corteo quase o faz achar que o outro também poderia ouvi-la, todavia isso seria impossível. Não se tratava de uma voz de verdade afinal, apenas sua mente perturbada lhe pregando peças.

—Avilio Bruno, agora sou conhecido assim. –Ignora completamente a voz infantil que falara consigo. Mesmo que aquilo não respondesse a pergunta feita pelo irmão, não teria mais do que aquilo de si.

“Você está sendo chato, Avilio! Ele quer falar comigo, oras. Me deixe falar com ele”

Novamente ignora a voz fina e irritante em sua mente, se perguntava o motivo para aquilo persistir mesmo que não estivesse sozinho, a voz costuma calar-se em momentos de convívio social, o que não eram muitos.

—Não há problema em você voltar para cá? –Finalmente Avilio dirige seu olhar a algo que não o chão, encarando a bebida amarronzada sobre a mesa e levando-a aos lábios, em seguida dando uma segunda tragada em seu cigarro. Cansado do silêncio e falta de respostas do outro, Corteo se levanta com um sorriso amarelado no rosto.

—Você deve estra cansado, não? Pode usar este cômodo. –Corteo achara não receber respostas assim como para todas suas outras perguntas, e ele de fato não receberia, mas diferente de antes o irmão se manifesta com um questionamento.

—Cadê a sua mãe? –Pergunta sem discrição, tinha quase certeza da resposta do outro, mas ainda assim não via mal algum em perguntar. Não era um exemplo de pessoa empática, nunca fora.

—Partiu no verão passado. –Avilio não dá suas condolências pela perda do outro, se limitando a jogar o cigarro no chão de madeira e pisá-lo com a sola do sapato.

—Então nada mais te prende aqui. –O míope encarava-o sem entender, de fato não conhecia o novo Angelo que diz se denominar Avilio. –Quer fazer uma nota comigo? –Corteo não entende a princípio o que o outro queria dizer com aquilo, erguendo uma das sobrancelhas com os lábios entre abertos. –Quero vender isto aqui àquela família. –Diz simplesmente erguendo o copo com o whisky que o irmão fizera. Sua fala talvez devesse demonstrar complacência, mas Corteo não entendia o motivo para o outro chegar a sua casa dizendo que queria vender sua bebida para pessoas que já negara os pedidos.

—Não quero nada com eles. –Pela segunda vez no dia tentava convencer alguém que não estava disposto a simplesmente vender sua bebida para alguma família mafiosa. –Você também não... –O que quer que fosse dizer ao irmão, é interrompido pelo mesmo que o encarava com a face mais neutra que já vira em qualquer um.

—Por favor, Corteo... –Sua fala e expressão não demonstravam súplica, mas também não demonstravam ordem. De fato Corteo não conhecia o homem que chegara de repente a seu apartamento sem aviso prévio e o salvara de um brutamonte vestido como criança.

Novamente o silêncio, Corteo não sabia exatamente o que deveria responder, muito menos se deveria de fato responder. Não conhecia as intenções do outro e sentia não conhecer aquele que estava sentado à sua frente, nem ao menos sabia se ainda o considerava seu irmão. O silêncio é quebrado pelo som de algo feito de papel se chocando contra o chão amadeirado.

—Uma razão de existir dá poder. –Diz erguendo a mão direita ao chão para alcançar a carta que caíra do casaco que depositara no encosto da cadeira de madeira. O papel em suas mãos parecia pesar mais do que deveria, talvez pelo significado que carregava consigo. –A amizade é mais confiável que uma faca, aliás, somos irmãos, não somos? –Avilio abre um curto sorriso que ninguém nem mesmo ele saberia dizer se era falso ou verdadeiro, era amável demais para ser a mesma pessoa que estava conversando minutos antes. Esse homem que via à sua frente era igual à criança amável que o chamava de irmão quando criança. Este sim era Angelo, e não Avilio.

Corteo não responde a princípio, tentando entender o que aquela feição junto àquela frase significava. Seu irmão estava ali dentro, não era aquele que havia conversado consigo e nocauteara o brutamonte na sua cozinha, este era Avilio, e não seu irmão.

O homem dos olhos castanho-escuros não saberia explicar o motivo para concordar com Avilio e vender sua bebida para uma das famílias mafiosas que tinham o poder sobre a cidade, no caso os Vanettis. Talvez por ajudar aquele que em muitos aspectos lembrava seu irmão, talvez por precisar logo do dinheiro para sua faculdade, no entanto, qualquer que fosse o motivo não era bom o bastante para justificar os perigos que acabariam passando ainda naquela tarde.

Ambos chamaram um táxi que os deixara na ponte principal, de onde conseguiam enxergar a Ilha. Local este completamente corrompido graças a lei seca, não se pode impedir as pessoas de fazer algo no qual já se acostumaram, ninguém naquela cidade saberia dizer o que tinham na cabeça os políticos para ilegalizar algo comum como a bebida alcoólica, tal atitude apenas trouxe satisfação para as famílias da máfia, que agora lucravam não apenas com armas e drogas, mas também com as bebidas.

—Aquele lugar se chama Ilha, é onde se consegue os melhores preços. –Diferente do que imaginara, Avilio não o pergunta como sabia daquilo, mesmo que soubesse que não vendia seus produtos à mafiosos, vez ou outra cobrar um pouco mais por uma dúzia de garrafas o ajudava. Percebendo que a pergunta não viria, Corteo continua. –Desde a lei seca, tornou-se o paraíso dos sujeitos perigosos... –Lembrava-se dos péssimos acontecimentos da última vez que estivera ali, quase fora esfaqueado por um homem que não concordara com seu preço. –Os bares de lá são para uma clientela especial. Não vão nos deixar entrar. –Não estava afim de passar pelos mesmos males que passara algumas semanas atrás.

Avilio joga o cigarro que fumava no largo rio que passava abaixo, observando-o ser levemente carregado pelo vento e finalmente se chocar contra a água, logo desaparecendo na imensidão azul.

Contradizendo as últimas palavras de Corteo, eles rumam à Ilha. De fato assim que terminam de atravessar a ponte que levava até ela, sentem o clima pesado que os cobre, a gravidade sobre suas cabeças parece ter sido intensificada, os obrigando a caminhar de cabeça baixa. Eles passam por um carro de coloração verde musgo, um homem lia o jornal local dentro dele e cospe um pouco do tabaco que mascava.

—Dizem que até aquela igreja se tornou bar. –É exatamente para lá que eles rumam, o maior bar e de maior renome da Ilha, Avilio sente uma sensação crescente de adrenalina começar a correr por seu peito, sem deixar transparecer é claro. Sensação essa causada pela voz que não se calava em sua mente.

“Huhuhu, isso vai ser divertido!”

“Cuidado para não morrer, ein Avilio.”

“Vai adorar as pessoas de lá de dentro!”

Não sabia dizer se sua mente apenas o fazia sentir-se ansioso atoa, ou tentava o avisar de um perigo que não percebera rondá-lo.

Dentro desta “Igreja”, dois homens tentavam vender sua bebida para o proprietário do local. Melhor dizendo, um tentava enquanto o outro apenas deliciava-se com as bebidas que podia pagar. Eram contrabandistas, ou pelo menos é o que preferiam demonstrar.

Aquele que de fato trabalhava tinha o difícil dever de convencer o comprador de que a bebida na qual vendia era fruto da fronteira, e não que não fora contrabandeada de outra família mafiosa. Ele não se saía bem.

—A família Orco controla todas as rotas da fronteira. –Pego em sua mentira, o homem não vê outra coisa para dizer a não ser abrir um sorriso amarelo e esperar o que o outro falaria em seguida. –Estão saqueando os Orcos? –O outro descobrir aquilo não era de fato um problema no momento, o problema viria apenas se algum dos integrantes de tal família ouvisse.

—Oh, como foi se dar conta?! – Se pronuncia novamente o trajado com o terno pálido. Aquele show de fracassos começara a irritar o terceiro homem que nada falava, apenas fumava seu cigarro enquanto aguardava o outro realizar as compras.

—É só olhar para essa sua cara... –O proprietário e comprador tem sua fala interrompida pela de Avilio, que acabara de adentrar o local.

—Senhor Granchio. –Na placa do local informava o nome do proprietário, que deveria ser obviamente o único trajado como barman. Avilio deposita a mala de couro falso amarronzado sobre o balcão. –Quero que comprem nosso Whisky. –Sua fala direta é direcionada a todos no recinto, recebendo total atenção dos dois que conversavam.

—Vai embora, vai. Não estocamos bebidinha de quinta feita por gente como você. –Se pronuncia o proprietário apontando para a porta de onde vieram, Corteo não se ofende com o comentário, a bebida podia ter uma aparência normal, nada muito convidativo, mas possuía um ótimo sabor, disso tinha certeza.

Mas Avilio demonstra se sentir ofendido, levando um olhar de canto de olho ao homem que sem motivo aparente possuía uma arrogância na voz. Ele abre a mala retirando uma das garrafas com a bebida, despejando seu contingente em um copo de vidro que encontrava-se sobre o balcão, logo o arrastando para mais perto do proprietário, em um pedido óbvio para que bebesse. O homem levanta o copo apenas alguns centímetros do balcão e despeja seu líquido amarronzado no chão. Todos encaram a cena impassíveis, apenas Corteo deixa um grunhido de surpresa escapar por sua garganta.

“Que mal-educado! Não gostei dele, Avilio.” —Pela primeira vez em muito tempo concorda com o que a voz em sua mente dissera. Também não gostara daquele homem, porém isso não importava, não é necessário gostar de seu cliente, apenas entregar seu produto, receber o dinheiro e dar as costas. Bem simples.

Corteo observava a tudo surpreso, já teria desistido da venda assim que notasse a grosseria do proprietário. Na verdade talvez tivesse desistido assim que percebesse ter de entrar na Ilha. Todavia, Avilio vivia aquilo da forma mais natural e profissional possível, como se já acostumado a conflitos de tal calibre.

O homem deposita novamente o copo sobre a mesa com um baque alto, agora apenas sujo com a bebida amarronzada que perdera completamente seu valor, caída no chão frio e empoeirado.

—Seu moleque, pensa muito de si, não é?! –Avilio não percebe quando o homem agarra a gola de sua camisa, mas o fazia. Aquela frase demora a deixar sua mente, quantas vezes já não ouvira a mesma frase sendo dita da boca de tantos? Não entendia como demonstrava “pensar muito de si” quando nem ao menos poderia ser considerado algo mais que uma casca vazia há poucos dias atrás.

Estranhamente não recebe sequer um único comentário da voz infantil em sua cabeça, tudo estava no mais completo silêncio, silêncio esse que não poderia ser considerado normal para a mente perturbada de Avilio. Volta a si apenas quando sente o homem que puxara sua gola, começar a balança-la para frente e para trás.

—Seu... –Ele percebe que receberia um soco, não seria a primeira vez é claro, e diferente de qualquer cidadão sensato, aquilo não o intimida. Não por ser um louco em um momento de loucura silenciosa, mas sim por perceber que o braço do homem estivera levantado por mais tempo do que o normal para dar um soco. Após poucos segundos percebe que o homem que estivera sentado no balcão com um cigarro entre os dentes, finalmente fizera algo diferente de ignorar a todos. Segurava o braço do proprietário, o impedindo de disferir um soco certeiro contra o rosto de Avilio.

Contrariado, o homem trajado como um barman de pé-sujo puxa seu braço de volta, se afastando alguns passos dos homens e esperando o que quer que o homem que até o momento não se pronunciara pretendia fazer. Ele ascende um fósforo que carregava em uma caixa no bolso de seu casaco e leva sua chama para próximo da bebida que Avilio não percebera que ele servira. Assim que a chama entra em contato com a superfície líquida, a mesma começa a queimar com uma coloração azulada. Os três que não haviam levado muita fé na bebida dos jovens, soltam exclamações de surpresa, encarando o que provava a qualidade do Whisky.

O loiro que impedira o soco, deposita a mão sobre o copo, impedindo as labaredas de receber oxigênio, logo apagando. Ele leva o copo aos lábios, primeiro sentindo o cheiro e logo provando a ardência da bebida forte, permitindo que um som de satisfação escapasse por sua garganta. Entrega rapidamente o copo ao seu companheiro de roupas brancas.

—Vamos comprar. –Afirma encarando aqueles que trouxeram a bebida ao bar. Atrás de si o proprietário virava o copo, também soltando um som de satisfação, provando que estava enganado sobre praticamente humilhar os rapazes que foram até ali justamente para vender o produto.

—Vou considerar estocar, –Responde simplesmente percebendo o erro que cometera ao julgar a bebida dos garotos antes de prova-la. –se nos venderem diretamente. –Ele passa a bebida de volta para o homem trajado de branco. Com sua fala que contradizia o que acontecera há apenas segundos atrás, o loiro soca o balcão em irritação.

—Você é o cara que derramou tudo, –Discursa indignado com a contradição do proprietário. –eu que bebi. Já se esqueceu? –Eles pareciam se esquecer completamente que os vendedores os observavam enquanto discutiam entre si quem compraria a bebida ou não.

Enquanto isso, o trajado de vestes claras, sentia a fragrância da bebida, era forte, forte de mais para o gosto do fino homem. Dando um pequeno gole sente toda sua garganta, língua e bochechas começarem a ficar dormentes e extremamente quentes, odiava bebidas muito fortes como aquela, fazendo uma careta em desgosto.

—Ei meu senhor, traga um café pra mim. –Se pronuncia o homem cuja garganta queimava em desgosto, precisava urgente de algo para tirar aquele sabor forte de seu paladar. A contra gosto o barman responde um baixo: “É pra já”, rumando à cozinha.

—Quanto por garrafa? –Questiona o loiro voltando a se sentar de frente ao balcão. Avilio levanta os cinco dedos da mão, indicando obviamente: cinco por cada. Mas o outro zomba de si, fingindo não entender.

—Três por cinco.

“Ei Avilio, esse cara não te passa uma sensação estranha? Ele é bonito, não? Ei ei, pare de me ignorar! Sabe que ele faz seu tipo, relaxa, ele não é ninguém em especial... Huhuhuhu”

Dividido entre gritar para seu próprio subconsciente se calar e responder ao comentário imbecil do homem à sua frente, Avilio prefere não ser taxado de louco.

—Fora de cogitação. –Afirma desviando o olhar, de fato aquela voz tinha certa razão, mas não tanta. Cabelos loiros caídos sobre os olhos, uma barba estranhamente desalinhada, olhos de um azul opaco, e porte aparentemente atlético pelo que podia perceber com todas aquelas camadas de vestimentas a cobri-lo. “Não é nada demais” —Pensa respondendo agora à voz infantil que insistia em atormentá-lo. Dando mais uma olhada no loiro para confirmar o que pensava. “Menos do que nada demais, definitivamente ele não é meu tipo.”

Há muito tempo Avilio percebera sua sexualidade, não se incomodava com isso, mas quando notara como eram suas reações que deveria ter com mulheres, tendo com homens, de fato se assustara. No entanto, é algo que já superara, há muito tempo não é um adolescente com dúvidas de sua sexualidade, é um homem formado com um propósito lúcido à frente. Porém, não é como se ele não tivesse tentado mudar sua sexualidade, algumas mulheres deitaram a seu lado, mas mesmo que tenha conseguido satisfazê-las, não conseguia satisfazer a si próprio. Sempre a sentir faltar algo, sobrar algo. Nunca estava como queria.

Se o perguntassem, saberia dizer perfeitamente o motivo para nunca ter estado com um homem, e talvez dissesse aquilo com a mesma naturalidade com que responderia o horário: “Não há muitos prostitutos baratos.” É o que responderia, com a maior naturalidade possível, sem falar que recorrer a prostitutos era algo que devia ter-se cuidado, inúmeras doenças são transmitidas através do sexo, e isso não é algo que ele; com o baixo poder aquisitivo que tem; tem como lidar. Por isso recorria a indivíduos comuns, em um dia ruim ou em um dia perfeito, dias esses onde pessoas comuns saem exclusivamente para beber. E então simplesmente se aproximava um pouco mais e conseguia o que queria. Todavia por algum motivo nunca o fizera com homem algum, talvez por não querer levar socos, talvez por não suportar tarados imundos, isso ele não saberia afirmar com certeza.

—Quanto consegue nos vender por semana? –Questiona com um sorriso o loiro percebendo que o mais novo parecia refletir sobre algo enquanto encarava um ponto qualquer no chão amadeirado.

De repente um grito, alguém tentava entrar pela porta recém-trancada, mas não fora ele o dono do grito alto que correra por todo o bar. O dono do grito estava em posição fetal ao lado da porta, ninguém saberia dizer o que acontecera a ele. Outro homem devidamente armado com uma AK-47, abre a portinhola de ferro aos pés da porta de madeira, mas antes que pudesse atirar contra as pernas do outro lado, uma lâmina se aproxima de seu pescoço, o homem engole em seco, ao olhar para cima um senhor de feições sádicas e cabelos grisalhos o encarava.

—A-bra a-go-ra. –Ele sussurra ainda encarando o homem abaixado com a AK em mãos. Ele faz assim como o mandado, abrindo caminho para o homem que esperava do outro lado da porta, este em particular, trajava vestes um tanto peculiares, as pernas de suas calças eram de cores diferentes, sendo uma amarronzada e a outra azul, além de seu cabelo tingido de loiro com uma mecha vermelha e a barba negra logo abaixo, transformando ele em uma junção indiscreta de cores.

—Ora ora, o senhor foi pego com a boca na botija. –O trajado de branco sussurra observando o nada discreto novo loiro adentrar o bar.

—Cale-se, ninguém aqui é cego. –Responde rudemente o proprietário.

—E aí?

—Por ora vamos só assistir.

—Pois é. –Os cúmplices; o trajado de branco e o loiro; conversavam enquanto a nova figura chamativa adentrava o local, pegando a AK que fora largada pelo homem que ali estava abaixado.

—Tudo bem se eu ficar com ela? –Sua voz é grave e ao mesmo tempo falsamente melodiosa, ele se referia à arma que já encontrava-se em suas mãos ao homem que agora era ameaçado pela lâmina do senhor de feições maldosas.

—Seu filho da... –Antes que pudesse terminar seu xingamento, tem sua face acertada pela base da arma, certeiro em seu rosto. O novo loiro começa a discursar como se um mar de pessoas pudessem ouvir sua voz, quando na verdade havia apenas seis pessoas além dele próprio no bar.

—Me perdoem por ser um estraga-prazeres! –Sua voz agora é pausada, como se cantasse enquanto discursava. –Eu me chamo Fango. Acabo de entrar na família Orco. –Corteo sente seu peito gelar, sabia que se envolveriam em algo ruim se fossem à Ilha, acabara por estar certo, estava odiando estar certo. –Tenho negócios com um jovem chamado Nero Vanetti.

Avilio sente seu coração parar uma batida, aquele homem estaria ali? Naquele mesmo recinto? Era por isso que a voz em sua mente não deixava de perturbá-lo. Ele precisa se impedir de gargalhar e olhar para todos ali como se tivesse encontrado um grande tesouro há tanto perdido. Mas não podia, assim como não podia simplesmente roubar a arma das mãos do tal Fango e atirar em todos no recinto, talvez estivesse enganado e o cujo dito não se encontrasse ali. Ainda assim não deixaria suas emoções tomarem a razão, precisava encontrar o mais importante daquela carta, o verdadeiro mandante por trás do assassinato de sua família: Vicente. Só então poderia se dar ao luxo de matar o tal Nero.

Notas finais
E então, o que acharam? Sabem de quem é a voz na mente do Avilio? hahaha talvez seja muito óbvio, mas enfim. Finalmente Nero aparece! Eu ia dividir esse cap em dois por ter ficado muito maior que o esperado, mas já tinha decidido que ele apareceria no segundo cap então teve de ficar assim mesmo. Algumas partes podem ter ficado com menos descrição do que eu queria, mas o cap teria ficado monstruoso então resolvi cortar algumas coisas que julguei não importantes.