Thom Harper: O começo do fim
3 Uma garota estranha
Capítulo três
Uma garota estranha
Desembarquei, mas como a plataforma ficava um pouco distante da minha escola, eu fiz o restante do percurso caminhando. Só que de tempos em tempos eu tinha a sensação de que estava sendo observado ou talvez fosse apenas paranoia minha.
Depois de andar um pouco, cheguei a St. Edwards College. A escola ficava cercada por um imenso pátio, onde havia várias “ilhas” de gramados que eram atravessados por longas calçadas de tijolos de concretos na cor cinza. Para ir até a entrada precisávamos passar por um círculo de 5 a 6 metros de diâmetro, que estava ali basicamente para servir como uma espécie de pequeno banco para que os alunos pudessem se sentar nos intervalos ou horas vagas. Seria um círculo comum, caso suas extremidades não fossem abertas, para que uma passarela passasse e fosse direto a porta do colégio.
Nesse dia estava tudo bem movimentado, os alunos estavam por todas as partes e todos trajavam o mesmo uniforme, um blazer de cor azul escuro, camisa branca, uma gravata listrada em vários tons de verde. Os garotos usavam calça social acinzentada e as garotas uma saia da mesma cor que ia até os joelhos. Todos pareciam estar felizes e animados com o começo das aulas, salvo por um veterano ou outro que deixava escapar frases do tipo “Todo ano isso, nunca que vai acabar esse negócio?”.
Em todo caso quando eu menos esperava, soou um barulho estridente, semelhante ao badalar do sino de uma igreja (e na verdade era). Todos ali começaram a se apressar para entrar no prédio, eu me enfiei no meio da multidão e adentrei na escola.
Passei direto pelo rol de entrada, o prédio tinha dois andares que podiam ser acessados através de escadas que começavam a uns dez metros da entrada, e depois se dividiam em dois lances, uma para esquerda e outra para a direita. Tudo me lembrava a uma descrição de uma mansão da Era Vitoriana, o que dava certa atmosfera assustadora ao lugar.
Os alunos começaram a subir e seguirem para suas respectivas classes. E eu bom, estava perdidinho. Até que de repente uma mão tocou meu ombro direito, eu me virei e dei de cara com uma mulher de pouco mais de quarenta anos, trajando um terno empresarial de cor azul, com os cabelos presos em um coque impecável e um broche no lado esquerdo da camisa escrito “Inspetora Liz”. Os alunos que passavam por mim ao verem a cena faziam pequenos burburinhos, alguns audíveis do tipo.
“Coitado, mal começou e já vai se dar mal!”. ou “Boa sorte calouro”. Outros diziam de uma maneira sarcástica.
Engoli em seco, a mulher quebrou o clima e disse.
“Senhor Harper?”.
“Sim senhora!”. Respondi de um jeito militarizado quase que por instinto.
“Imaginei, o senhor não veio na iniciação e por isso não recebeu o uniforme”. ela disse.
“E, eu...”. e antes que eu se quer pudesse me justificar ela saiu andando e disse. “Me siga!”.
Subimos as escadas pegamos a vertente que ia para a esquerda. O corredor era bem longo a ponto de eu não enxergar seu fim. Andamos um pouco até que ela entrou repentinamente numa porta em que estava fixada uma placa “Assistência estudantil”. Ao abrir a porta me deparei com uma sala de porte médio com uma escrivaninha de madeira rústica, aonde em suas costas havia uma grande janela.
E ao lado da escrivaninha, tinha alguém em pé. Uma garota que estava de costas parecia estar organizando alguns papeis.
“Já terminei, inspetora”. Ela se virou e nossos olhares se cruzaram.
Por um momento tive o sentimento de que o mundo a minha volta tivesse parado. Eu me vi olhando para o ser mais perfeito que eu já conheci. Uma garota que tinha a minha idade, cabelos ruivos bem lisos e longos, olhos verdes que pareciam ser pequenas esmeraldas e aquele uniforme que parecia tão sem “sal” tomava certo gosto quando era ela quem vestia.
“Vocês já conhecem?”. Perguntou a inspetora
“Não, senhora”. A garota respondeu.
“Bom, agora vão se conhecer, Melissa esse é o senhor Harper, senhor Harper essa é Melissa.” A inspetora nos apresentou.
Me aproximei dela e peguei em sua mão.
“Agora que já se conhecem, Melissa irá te mostrar os horários das aulas”. Senhora Liz disse me dando um pequeno pacote com o uniforme da escola e ainda completou. “Senhor Harper, dessa vez irei tolerar o a falta do seu uniforme, mas se houver uma próxima...”. Ela não terminou a frase, porém deixou explícito enquanto abaixava um pouco seus óculos e olhava por cima deles com uma expressão ameaçadora.
Após falar isso, ela apontou para porta como se estivesse pedindo para que saíssemos. Saímos, e começamos a volta no corredor.
“Harper, não é?”. Perguntou Melissa.
“Sim, sim”. Respondi um pouco tímido.
“O que você pretende aqui?”. Ela perguntou.
E sinceramente eu não sabia como responder, nunca tinha parado para pensar nisso, então só respondi com o que me veio primeiro na mente:
“Estou aqui para estudar”. Ela parou subitamente veio até mim e ficou próxima a ponto de quase se encostar.
“Estudar é?”. Disse ela enquanto olhava dentro dos meus olhos. “Gostei de você Harper, você é sincero de uma maneira diferente”. Disse isso, se virou e continuou andando.
E eu só podia pensar em algo. “Que garota estranha!”
Continuamos o resto do caminho sem trocar uma palavra se quer. Ela então parou em frente a uma porta e disse. “Você fica por aqui, Thom Harper”. Ela sorriu e se afastou caminhando de costas até certo ponto, depois se virou e continuou seu caminho. Foi ai que notei algo estranho. “COMO EXATAMENTE ELA SABIA O MEU PRIMEIRO NOME?”.
As aulas naquela manhã foram bem entediantes. A maior parte dos professores ficou explicando seu método de ensino e avaliação. E eu não conseguia tirar Melissa da minha mente.
Quando finalmente a aula acabou, sai do colégio olhando para todos os lados para ver se a encontrava, mas não consegui encontrar nada. Resolvi seguir para a biblioteca, era hora do rush e as ruas estavam bem movimentadas. Depois de uns quarenta minutos e de me perder algumas vezes (sim, meu senso de direção não é dos melhores), eu cheguei onde queria.
A entrada da biblioteca era semelhante à de um museu monumental, tinha duas entradas frontais, uma com escadaria que levava até uma porta que era cercada por imensas colunas gregas e uma entrada lateral que tinha uma passarela de pedras negras, com várias coisas escritas em branco.
Entrei pela lateral, caminhei bastante e tudo parecia normal, bem normal se levar em conta que aquele lugar era uma maravilhar arquitetônica, que remetia a construções do século XVII ao XX, isso sem contar as melhorias que uma reforma terminada um ano antes trouxera.
No lado de dentro a biblioteca lembrava um grande shopping, com várias galerias circulares. E lá em cima, bem no centro, havia uma cúpula de vidro transparente por onde entrava luz durante o dia. Nesse dia estava tudo bem calmo, não havia excursões agendadas (o que era bem incomum), então depois de organizar algumas coisas eu poderia me sentar e ler o quanto quisesse. O meu supervisor não estava na cidade, ele tinha sido convidado para uma conferência internacional na Espanha, e ficaria umas duas semanas por lá.
Após terminar os meus afazeres subi até o antepenúltimo andar, procurei a área de leitura que era basicamente formada por um conjunto de mesas semicirculares de cor branca, postas sobre um tapete de veludo vermelho, e toda mesa tinha uma espécie de mini poltrona, de forma cúbica e sem encosto. Sempre gostei desse lugar para ler, por ser o local em que quase ninguém gostava de ir. E nisso já era o meio da tarde, quando me pus a ler um livro sobre fantásticas histórias da mitologia grega.
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