Thom Harper: O começo do fim
2 Malditos sonhos
Capítulo dois
Malditos sonhos
Estou caminhando, não sei onde estou e minha respiração está ofegante como se eu estivesse buscando oxigênio, mas ele insiste em fugir de mim. O chão sob meus pés tinha uma textura um tanto engraçada que me causava um sentimento de nostalgia, logo notei que estava pisando no que parece ser neve. Me assustei, pois estávamos no outono, então de onde vinha todo aquele gelo? Olhei para frente tentando alcançar o horizonte só que tudo até onde à vista podia enxergar não passava de uma imensidão branca.
Comecei a correr freneticamente e a cada passo parecia que eu estava afundando cada vez mais em toda aquela neve, como se já não bastasse começou a ventar e a primeira coisa que eu bradei foi “Pronto era o que me faltava, morrer de hipotermia no meio do outono!”
Estava um frio tão cortante que parecia que o vento era uma chuva de pequenas lâminas vindo de encontro a minha pele. Até que uma voz ecoou “VOCÊ!” olhei em todas as direções e não havia absolutamente nada a não ser eu prestes a virar picolé. E novamente “VOCÊ...”. A voz parecia vir de todos os lugares só que ao mesmo tempo de lugar nenhum. Era uma voz que ecoava dentro do meu crânio fazendo meus ossos tremerem mais do que já estavam por causa do frio. E na terceira vez essa voz pareceu completar a frase que tentava dizer. “É chegada a hora de eu retornar a esse mundo e você será a minha passagem de ida”, após dizer isso esse lugar inteiro foi invadido por outro som. Só que mais brando. “Thom acorda, Thom você já está atrasado.” Acordei sobressaltado em minha cama e em pé ao meu lado estava minha mãe.
“Começou a ter esses sonhos estranhos de novo?” disse ela. “Pensei que esses sonhos tinham parado”. Afirmou ela com uma expressão de preocupação.
“Mãeee, o que eu disse para a senhora? Não se preocupe comigo, a senhora já tem problemas demais para ficar se preocupando com as noites de sono de um adolescente.” Eu disse.
“Mas-“ e antes que ela completasse a frase eu interrompi. “Sem essa de ‘mas’, a senhora vive fazendo plantões no hospital”. Minha mãe é enfermeira.
“Vá tomar uma ducha que enquanto isso eu preparo o café”. Eu disse e ela respondeu. “Ah Thomas, o que eu faria se não tivesse você?!” Ela me deu um beijo na testa e saiu do quarto.
Me levantei e ao firmar os pés fora da cama, uma tontura muito forte me pegou de jeito e eu cai no chão que nem um saco de batatas. “Buumm”
“Thom, está tudo bem?” gritou minha mãe. “Sim mãe eu derrubei alguns livros!” respondi.
Tenho esses sonhos estranhos desde a morte do meu avô, e toda vez que eu acordo de um deles meu corpo parece fraco como se algo tivesse “sugado toda a minha energia”. Respirei fundo me coloquei em pé novamente só que com cuidado para não me espatifar no chão de novo. Passei a mão na testa e notei que aquilo iria deixar uma marca.
Minha mãe e eu morávamos em um apartamento pequeno, de cinco peças nos suburbs de Liverpool. Ela trabalhava como enfermeira em um hospital no centro da cidade. Não passávamos dificuldades financeiras, mas minha mãe se matava de trabalhar.
Nosso apartamento tinha cinco cômodos, sendo que dois deles eram quartos, um meu e outro da minha mãe. Meu quarto não era tão grande, mas era aconchegante, isso é, quando você ignorava as pilhas de livros espalhadas por todos os lados e uma cama de casal que eu nunca tive a chance de ver arrumada.
Um papel de parede de fundo bege se estendia do chão até o teto, porém até a metade da parede (na horizontal), ele tinha algumas figuras de flores diversas. Tinha poucos móveis, uma cama, um criado mudo do lado direito da cama e uma grande prateleira de livros que se estendia por quase todas as paredes do quarto. Tinha também uma janela que ficava quase do lado do criado mudo, e ela dava em um beco aonde na maior parte das noites os gatos se reuniam para fazer suas serenatas. Morávamos no terceiro andar de um prédio com mais de vinte.
Com as forças já recobradas, fui até um espelho que ficava do lado de uma das estantes de livros e tudo que eu vi era um jovem, meio alto, magro, pele clara, cabelos negros que estavam por aparar e olhos escuros, que segundo a minha mãe eu herdara do meu pai, apesar de eu nunca tê-lo conhecido. A única foto que eu tinha dele não passava apenas de mim com uns três anos de idade sentado no colo de um cara de quem eu não podia ver o rosto. E sim, eu me peguei perguntando várias vezes. “Por que um fotógrafo iria tirar uma foto cortada pela metade?”.
Eu nunca soube o que aconteceu com meu pai, às raras ocasiões em que perguntei a única resposta que minha me dava era “Ele se foi, porque tinha algo importante para fazer!” É, bem mais importante que a própria família eu suponho. Nunca disse isso a minha mãe, pois sentia que ela nutria certo fascínio e admiração por ele. Enfim, eu me arrumei as pressas, era setembro e eu começaria a estudar em uma nova escola aonde que por algum milagre eu ganhará uma bolsa. Iria ser o primeiro ano do ensino médio e eu não estava muito eufórico, exceto pelo fato de que minha nova escola chamada de St. Edwards College ficava a uns vinte minutos de bike da biblioteca em que eu trabalhava. Diga assim só de passagem, que o nome da minha mãe é Karoline Harper, uma mulher de meia idade, bonita e gentil. Nunca teve outro relacionamento depois que meu pai foi embora, ela nunca disse, mas de alguma maneira eu sempre tive a sensação de que ela esperava que a qualquer momento alguém fosse bater na porta e ela iria abrir e daria de frente com meu pai.
Eu me aprontei o mais rápido que pude, fui até a cozinha fiz um café, preparei alguns ovos mexidos com bacon, peguei uma torrada coloquei na minha boca, agarrei minha bolsa e a joguei sobre meu ombro direito, desci de escada porque o elevador estava quebrado, cheguei ao saguão e passei pelo guarda.
“Bom dia, Thom!”. Ele disse, e por causa da torrada em minha boca eu me lembro de ter respondido algo parecido com. “Um ummm!”
Sai desesperado para pegar o metrô, o famoso Merseyrail de Liverpool, seria bem ruim chegar atrasado no primeiro dia de aula, já que eu não tinha conseguido ir no dia da iniciação em julho e quase acabei perdendo a bolsa (não me culpem, eu estava ocupado na biblioteca). Com muito custo consegui pegar o metrô a tempo.
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