This is from Matilda
1 Prólogo - Feita de fumaça
Notas iniciais
"E eu me perdi em meio às cinzas e a poeira da minha própria mente".

A primeira vez que ele a viu foi por puro acidente. Estava muito distraído enquanto viajava entre as sombras e não era de se esperar que ele simplesmente se perdesse. Foi parar em uma estação de metrô, que como qualquer outra estava barulhenta e agitada.
O que, exatamente, tinha chamado a atenção dele, não tinha ideia. Talvez fosse o cabelo, as mechas escuras e onduladas, com a parte da frente mais comprida que a de trás. Realmente interessante. Ou talvez tivesse sido suas roupas: mesmo que a garota parecesse gostar de jeans rasgados e seu par de all star sujo, com certeza aquelas folhas emaranhadas em seu cabelo e a blusa suja de terra não fazia parte da imagem Punk-revoltada-2007 que ela queria passar. Ou, a mais provável das opções, andava desviando de tudo, como se pudesse realmente esbarrar em alguma coisa, o que era muito suspeito.
Gritava e chamava, ameaçava se jogar na frente das pessoas apressadas que pareciam nem ver a garota esquisita largada na estação de metrô. Ela estava desesperada para chamar a atenção de alguém. Alguém. Qualquer pessoa. Nico.
- Mas que droga é essa? — Ela gritou alto, claramente irritada. Ninguém pareceu ouvir.
Já tinha visto isso antes. Muitas vezes, na verdade, era bem comum. Eles estavam numa estação de metrô, então provavelmente a garota tinha caído, se jogado, sigo jogada ou qualquer coisa assim. De vez em quando, eles não conseguiam ir para o submundo por algum motivo, a maioria das vezes, porque não sabiam que estavam mortos.
É claro, fazia tempo que ele não via nada assim em Nova Iorque. Fazia tempo que ele não via Nova Iorque.
"6 anos" contou mentalmente, como se não fizesse isso todas as manhãs quando o sol começava a aparecer. 6 longos anos longe de Nova Iorque. Longe da Califórnia. Longe da Grécia, longe da Itália e longe de qualquer lembrança que ele quisesse evitar.
"Como se isso ajudá-se a afastá-las" Pensou.
O semideus observou como ela agia. Viu quando a menina percebeu que não conseguiria chamar a atenção de ninguém, e o pior, quando tentou tocar em alguém e sua mão simplesmente entrou pelo ombro da pessoa como se ela não fosse sólida.
Como se fosse feita de fumaça.
Sentou-se no chão sujo da estação e apoiou a cabeça nas mãos, então começou a bater o pé incontrolavelmente. Ele diria que ela parecia mais irritada do que confusa naquele momento.
Teve a impressão de que ela ia começar a chorar, então hesitou por um momento. Não queria, de modo algum, interromper a tristeza da garota morta jogada na estação de metrô. Mas ela só continuou batendo o pé direito, repetidamente, bufando e balançando os dedos rapidamente. Nico andou até lá sem muita vontade, olhando para os lados para não esbarrar em ninguém. Parou ao lado dela, a olhando pelo canto dos olhos, o cabelo escuro caindo na frente do rosto.
- Ei — Ele a cutucou com o pé, provavelmente um gesto um pouco rude, mas ele não podia simplesmente se ajoelhar e consolar o invisível.
A menina levantou o rosto. O cabelo escuro e todo repicado o fazia lembrar de Thalia, a caçadora filha de Zeus. Caçadora, como Bianca. Mas isso não vem ao caso. Ela demorou uns três segundos para que seu rosto tomasse uma expressão de surpresa e ela logo se levantasse, um brilho meio louco nos olhos, soltando as palavras como canhões.
- Você pode me ver?
Nico assentiu. Ela sorriu, como se fosse a melhor coisa que já tinha acontecido a ela. Então arqueou uma sobrancelha, o olhando com uma expressão desconfiada. Ora, era só o que faltava. Ele tentando ajudar e ela desconfiando. O que ela pensava? Que ele ia assaltá-la ela ou coisa assim?
- Você nunca apareceu em um dos meus sonhos antes — Comentou, cruzando os braços. Se bem que este aqui está bem estranho!
- O que? — Ele a olhou confuso antes de balançar a cabeça em negação. — Não, escuta, isso aqui não é um sonho.
Ela o olhou, esperando para que o garoto estranho à sua frente lhe desse algum tipo de explicação. Nico bufou, olhando para os lados para ter certeza que não havia mais ninguém prestando atenção neles, ou melhor, nele, já que ela era invisível. O lugar estava como sempre, lotado e barulhento, nenhuma daquelas pessoas realmente prestava atenção no que estava acontecendo à sua volta: Só falavam no celular, carregavam suas pastas, as crianças seguravam fortemente as mãos de suas mães com medo de se perderem na multidão. Só estavam preocupados em chegar em seus destinos, pouco se importando se o mundo ao seu redor estava explodindo ou não.
E no meio da multidão, duas pessoas conversavam desconfiadas uma com a outra. Uma provavelmente estava morta. A outra passou metade da sua vida falando mais com os mortos do que com os vivos.
- Qual é o seu nome? — Ele perguntou.
- Porque? Quer me sequestrar e pedir resgate? Porque se é isso...
- Você quer sair daqui, ou não? — Exclamou.
- Matilda — Ela respondeu, rapidamente, ainda com um certo tom de desconfiança na voz. — Matilda Greyfeather.
- Sou Nico — Disse o filho de Hades, pegando a mão fria da menina e a puxando para dentro de uma sombra, direto ao mundo inferior.
E no meio da multidão, duas crianças ligadas à morte desapareceram numa sombra escura e enevoada.
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