This is from Matilda

2 Capítulo 1 - A santa Morte


Notas iniciais
Hey, como estão? Quase esqueci de postar hoje, mas acho que se as coisas continuarem legais eu vou postar todo sábado. Aqui está mais um capítulo de This is from Matilda.

"I'll dig my shallow grave, 'cause it's not me you'll save 'cause i'm a lost cause..."

Nico acabou se desconcentrando durante o processo de viagem pelas sombras, para variar. Acabou caindo no chão, mas isso acontecia de vez em quando, e no máximo ele iria ter alguma parte do corpo doendo no dia seguinte. Então a menina decidiu cair bem em cima dele, gritando o caminho todo, até perceber que a viagem tinha acabado. Parou de gritar. Olhou para ele com os olhos grandes de filhote de cachorro.

Ela gritou mais uma vez e se afastou de Nico, levantando-se — para a felicidade dele, já que ela não era nada leve. Apontou o dedo indicador, a mão trêmula, dando passos para trás como se ele fosse um tipo de monstro de sete cabeças, parecia horrorizada. Os olhos de filhote quase saltavam para fora.

– Que droga foi essa? C-como você... como fez isso? Onde estamos?

Ela olhava em volta semicerrando os olhos, não tendo certeza se devia analisar o local ou ficar de olho no garoto. Também não sabia se devia ficar irritada, assustada, confusa ou todos os sentimentos, ao mesmo tempo. Não teve muita escolha.

Ele repetiu o ato, também não sabia para onde tinha os levado, mas definitivamente não era o mundo inferior. Parecia uma rua. Quer dizer, era definitivamente uma rua, e tinha muita gente dos dois lados, em pé na calçada. Suas roupas eram coloridas e havia muitos enfeites nos postes, luzinhas coloridas iluminavam o céu. Percebia-se que as pessoas estavam esperando muito ansiosos por algo no fim da rua: não tiravam os olhos de lá — mal perceberam que duas pessoas tinham simplesmente saído de uma sombra no meio do nada.

– Em primeiro lugar, se acalme! — Pediu ele, tentando não chamar a atenção. — Eu vou te explicar, mas primeiro você tem que parar de gritar! Ei, tá me ouvindo?

Matilda estava no meio do aglomerado de pessoas cutucando todos que via pela frente, ou melhor, tentando cutucar, já que seu dedo sempre atravessava a superfície sempre que ela tentava tocar em algo vivo. Ela parou de tentar falar com as pessoas e virou-se para Nico, os ombros levantados.

– Já entendi! — Respondeu, jogando as mãos para o alto como se estivesse rendendo-se. — Isso é um pesadelo! O pior de todos, certo? Eu preciso morrer, não preciso? Então eu vou acordar e vou estar na minha casa, como sempre...

Aquela menina com certeza tinha algum problema como Déficit de Atenção ou coisa assim, pois ela não conseguia prestar atenção no que ele dizia por mais de 5 segundos.

Nico a agarrou pelos ombros. Ele era mais alto que ela, então conseguiu facilmente forçá-la a ficar quieta e olhar para ele. Agora percebia que seu cabelo escuro possuía uns fios azuis, provavelmente já tinha sido tingido de azul um tempo atrás. E isso ele só sabia porque conversara algumas vezes com Thalia, é claro. Desviou seus pensamentos do cabelo estranho que um dia Matilda devia ter tido — porque agora estava só preto e curto, como o dele — e voltou à realidade.

– Presta atenção...

Mas ele não pôde terminar sua frase. Foi interrompido por um barulho bem no fim da rua, vindo de longe. As pessoas ao redor pareciam ansiosas, também começaram a fazer barulho, principalmente as crianças, que estavam todas em cima dos ombros de seus pais. Gritavam enquanto estavam esperando para ver alguma coisa. O vento frio batia no rosto de Nico e Matilda, os dois ainda confusos, naquela multidão, em ruas iluminadas por luzinhas coloridas e recheada de ansiedade.

Aquilo era música? Sim, com certeza era. Feita de vários instrumentos diferentes, junto com o barulho de vários pares de pés batendo no chão ao mesmo tempo — uma sincronia perfeita.

Logo no fim da rua, um borrão colorido já podia ser visto. Matilda abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, mas logo a fechou, sem palavras. Nico apertava os olhos para tentar ver o que é que estava vindo. Centenas de pessoas vinham andando, marchando, dançando e pulando. Bonecos gigantes como caveiras em carros alegóricos decorados com panos coloridos. Ao fundo, o maior carro alegórico: Branco e preto, uma grande boneca da melhor personagem: A Santa Morte. Enquanto isso, bailarinas rodopiavam entre as pessoas, com sua maquiagem de caveira mexicana já quase saindo dos rostos em razão do suor e do clima quente daquele dia.

Nico puxou Matilda para a calçada, todo o barulho daquela festa ainda bloqueava qualquer outro tipo de som. Os dois saíram do meio da rua para que não fossem atropelados, agora que as pessoas se misturavam com os músicos e dançarinos.

– Isso é... — Ela aproximou-se do ouvido do garoto para que esse pudesse a ouvir. Respirou ofegante antes de continuar a frase — O circo?

Seus olhos agora brilhavam nas mesmas cores das lanterninhas coloridas. Parecia admirada, do mesmo jeito que ele tinha ficado quando vira aquela festa pela primeira vez. Nico balançou a cabeça, negando. E embora estivesse se esforçando muito para prestar atenção no problema em que os dois tinham se metido, ambos eram incapazes de desviar seus olhos de todas aquelas fitas coloridas e malabaristas maquiados como caveiras.

Seus ouvidos estavam infestados com a música contagiante e seus olhos estavam totalmente afogados em todas aquelas cores.

– É o festival do Dia dos Mortos — Explicou Nico.

– Desde quando as pessoas ficam felizes com isso? Não sabia que a morte era tão colorida.

Ele ignorou o comentário, enquanto ela ainda olhava para todos os dançarinos, que não olhavam para ela. Olhou mais uma vez para os artistas, para a multidão. Confete colorido caía em cima de suas cabeças. Nico levantou a mão, pegando um dos pedacinhos de papel que rodopiavam pelo vento frio. O soltou, olhando em volta.

– Acho que viemos parar no México.

Ela o olhou de olhos arregalados, a boca aberta em surpresa, mas dessa vez Nico não sabia se ela estava assustada ou mais admirada. Só sabia de uma coisa: estava na hora de explicar aquela história, e a parte mais cansativa seria fazê-la acreditar no que ele dizia.

x

Nico contou tudo que pôde. Sobre os deuses gregos e romanos e sobre o porquê deles estarem nos Estados Unidos. Sobre os maus hábitos de todos eles, de simplesmente sair do Olimpo e ter uma dúzia de filhos com mortais, denominados semideuses. Sobre o Acampamento Meio Sangue e sobre o Acampamento Júpiter, e sobre como depois da Guerra contra Gaia, a mãe Terra, agora havia um Acampamento Greco-Romano.

Ele ficou duas, talvez três horas contando sobre monstros e missões. Sobre como conheceu cada um de seus amigos, com quais já não falava há muito tempo. Ocultou a parte sobre estar afastado daquele mundo, sobre ser filho de Hades, e claro, sobre ela estar morta.

Como já previsto, ela não acreditou. Ameaçava ir embora — até lembrar que estava no México e era invisível.

– Você é louco — Ela deduziu, levantando-se da calçada pela terceira vez. — Totalmente perturbado!

– Como você explica isso então?

Ele apontou para o cenário ao seu redor, já irritado com a descrença dela. Agora sim ele se lembrava porque não se relacionava com pessoas. Elas nunca entendiam nada e ele não era lá a pessoa mais paciente para explicar.

– O quê? Você mesmo disse que eles fazem todo ano. É só uma festa do Dia dos Mortos ou... qualquer coisa assim.

Nico bufou. Eles estavam em Nova Iorque e, três segundos depois estavam no méxico, no meio de um desfile. Ela era mortal — e por acaso, estava morta — mas sim, ela ainda sofreria os efeitos da viagem pela sombra. É claro que ela sentira o frio na barriga, o arrepio na espinha, falta de ar, medo do escuro, aquela impressão de que um milhão de mãos estão tentando lhe agarrar pelas sombras.

Como é que ela podia duvidar dele?

– É sério, eu não sei se você fugiu de algum lugar ou qualquer coisa assim — Com "lugar" ela obviamente estava querendo dizer clínica psicológica. — Mas você tem que me levar para casa. Para Nova York, entendeu? Nova...

– Eu não sou louco — Nico reagiu com uma careta.

Ainda tinha que fazer alguma coisa para que ela acreditasse. Podia ser simples como mais uma viagem pelas sombras, mas ele estava cansado demais para isso. Se ele pudesse só criar a sombra e tirar algo pequeno de dentro... algo pequeno e morto. Sim, tivera uma ideia, e parecia ótima.

Matilda concordou em sentar-se novamente. Restos de confete colorido estavam presos em seu cabelo. Nico decidiu pegar uma sombra já existente — estava cheio de sombras por lá, já era fim de tarde. Tirou um esqueleto de rato de dentro, pois foi a única coisa que conseguira pensar.

– Isso é... é... — Ela mexia as mãos enquanto olhava para a calçada, agora vazia, só com restos de fitas coloridas pisadas. — Isso é... não sei explicar, meio que impossivelmente incrível e perturbador?

Ela parecia mais animada do que deveria, até ele lembrar que tivera a mesma reação quando descobrira sobre tudo aquilo. Uou, fazia muito tempo mesmo. Afastou as memórias da cabeça — não gostava de pensar naquilo. Não naquele momento.

– Mas sinceramente, você seria mais legal se fosse um Xmen ou coisa assim... — Ela continuou falando, incontrolavelmente. — Você é um meio-deus filho de quem?

– Semideus — Nico corrigiu, sorrindo de lado. Aquilo era engraçado, como ela falava descontrolada sobre todos os livros de mitologia greco-romana que já tinha lido (embora não soubesse falar semideus).

– Tá, semideus — Ela deu de ombros. — Você é tipo, aquelas crianças de, hum, quem mesmo? Ah é, Hermes. Você não sabe quem é seu pai-deus ou mãe-deusa ou... seja lá o que for?

Ele desviou o olhar, levantando-se bruscamente. Nico já tinha dado dicas, ele não gostava de simplesmente sair contando para todo mundo que era filho de Hades, até porque, é proibido contar isso à mortais — mortos são exceção.

– Não importa.

– Bem, se não quer falar, está ok — Ela disse, dando de ombros como ele.

Ele soltou um sorrisinho fraco ao ver sua expressão. Qual é, aquela garota era adorável! Embora ela devesse ter mais ou menos sua idade (idade que aparentava ter, não a que tinha de verdade), ela lembrava Nico de quando ele mesmo era criança. Ele não podia — ou melhor, ele não queria, olhar para ela e dizer: "Ei, você está morta. Siga seu caminho". Além disso soar muito clichê, como se ele fosse um médium de algum filme de terror antigo, ele não queria fazer isso. Os dois estavam com roupas nada agradáveis a olhos estranhos. Ambos tinham uma pele pálida doentia e círculos escuros ao redor dos olhos. Cabelos negros. A principal diferença é que o coração de Nico ainda batia.

Por que então ela parecia estar tão mais viva que ele?

Não queria contar, de jeito nenhum. Mas ele tinha que fazer, porque sabia que de um jeito ou de outro, ela ia acabar descobrindo. Ou ia ficar presa no mundo para sempre tentando adivinhar porque ninguém a vê, imaginando que é como Jack Frost ou coisa assim.

– Tem, hum... mais uma coisa — Começou.

Matilda o olhou, arqueando as sobrancelhas, como se dissesse: "Não acha que já está bom, não?", mas parecia disposta a ouvir. Queria que não estivesse.

– Eu sou filho de Hades, você sabe...

– Hum... — Ela olhou para cima, apertando os olhos como se estivesse tentando lembrar. — É, o deus do submundo?

– É — Respondeu, ligeiramente surpreso por ela lembrar dos livros de mitologia que lera na quinta série. — Eu geralmente consigo ver, ah... fantasmas e coisas assim, entende?

Ele a olhou, esperando que ela gritasse "Okay, me enganei, você ainda é perturbado" e "Vou sair agora então, seu esquisito" ou "Fica longe de mim, seu doente". Mas ela o olhou como se ele fosse um Winchester, embora o rosto pequeno da menina tenha adquirido uma expressão de confusão que estava bem explicíta.

Porém, agora ele via. Pode parecer exagero de Nico, mas se ele não estava se enganando (e ele não estava), ela o olhava como se ele fosse um herói grego ou coisa assim. Do mesmo jeito que ele mesmo costumava olhar para Percy. Era exatamente o mesmo olhar — exatamente as mesmas expectativas. Não pode mentir, ficou um pouco orgulhoso, mas teve que dar uma bronca em seu próprio cérebro por lembrar o que não deveria.

– Matilda, eu... — Ele fechou os olhos e respirou fundo por um segundo.

Nico podia ouvir seu próprio coração batendo no peito, o que era estranho, porque de tanto tempo que passava enterrado em seus próprios pensamentos no escuro do mundo inferior, ele começava a se sentir morto. Por alguns momentos, ele parecia hipnotizado. Não ouvia, não respirava, não via nada, não falava nada. Totalmente imóvel, o que o lembrava da vez em que ficara aprisionado em um jarro por dois irmãos gigantes. Por um momento ele sentiu-se daquele jeito de novo, afogado, como se seus pulmões fossem explodir com as maravilhas do nada.

Então bastou uma simples brisa gelada bater em seu rosto para que retornasse a realidade, onde uma menina fantasma estava o esperando, sentada à sua frente.

Pensou em como os olhos grandes e brilhantes da menina perderiam toda a luz colorida depois que a contasse. Por um momento, queria poder trazê-la de volta a vida ou algo assim. Só para não ter que se sentir culpado pela covardia. Ele queria ser um herói. Um herói grego, como ela o via. Mas não.

Ele não era um herói. Era só um garoto.

– Eu acho que você está morta.

Notas finais
Frase do ínicio: "Eu vou cavar minha cova rasa, pois não sou eu quem você vai salvar, eu sou um caso perdido" da música Lost Cause do Imagine Dragons. Espero que tenham gostado, qualquer comentario, seja crítica ou elogio é bem vindo! XoXo Bunny