This is How Life Begins
1 Capítulo Único
Notas iniciais
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“A vida é transitória. Quando você começa algo, trate de terminar o mais breve possível”.
Ryleigh apreciava uma ultima vez o rosto de sua mãe, havia por fim cessado toda aquela noite brusca e envolta de fortes emoções. O caixão onde ela se encontrava finalmente seria lacrado, enterrado e encerrado. Era mais uma vida que se terminava ali. Num breve momento olhou para o lado e viu seu pai cochichando com a sua avó, respirou profundamente e pousou suas mãos frias, quase sem vida dentro do moletom azulado e desgastado que sempre usava, tornou mais uma vez olhar para o lado, e avistou os amigos Camden e Shawn, eles, somente eles, lhe parecia ser os únicos a entender todo o turbilhão de sentimentos que se plantara dentro de si. Fez um leve gesto com a cabeça, como se pedisse para que eles se achegassem a ele e num abraço apertado entre os três, Ryleigh por fim entregara-se ao choro desesperado que lhe entalava a garganta, foi neste instante então que fora interrompido por seu pai.
— Ryleigh! – Exclamou o pai – está na hora de irmos. – O filho lhe fitou aturdido e apenas consentiu. Disse algumas palavras aos jovens amigos, e afastou-se sumindo no espesso nevoeiro que cobria a cidade naquela manha fúnebre.
Camden e Shawn eram lhe amigos de infância, sempre frequentaram a escola juntos, e já no termino do ultimo ano, os três haviam se apegado ao deleite das lembranças da vida boa que tinham quando estavam juntos desde de crianças. Camden mais ainda, pois era sempre sisudo, descontente com isso ou aquilo, e trazia consigo uma magoa forte de pecados que lhe acometiam, das mazelas de uma vida pobre, sempre às margens e a mercê dos riquinhos e mimados da escola Taupo High, nunca era novidade ser sempre acometido de uma profunda depressão, e uma enxurrada de pensamentos sobre a vida. Ele era sem sombra de dúvidas, o mais abastecido e imbuído de sentimentos contraditórios, entre os três. Ao contrario de Shawn, que sempre transparecia uma cordialidade para com a vida, que, nas palavras de Camden, ele era “irritantemente feliz”, não que o jovem tivesse uma vida cheia de amores e privilégios, ele tinha ainda que diminutamente seus pequenos demônios, mas isso nunca lhe acometia tão sordidamente como com Camden. E por fim Ryleigh, o doce e ao mesmo tempo explosivo Ryleigh, doce para quem lhe conhecia verdadeiramente e não somente aquela carapuça de valentão que vestia, e explosivo, para quem tinha a má sorte de lhe cruzar o caminho. O jovem não era algum tipo de bully, mas quando se tratava daquilo que ele achava ser o certo, (e raramente errava), pra quem o cruzasse, era o inferno na terra.
Haviam se passado duas semanas após seus últimos dias dentro de Taupo High, e os três mais do que nunca, conjecturavam sobre as suas vidas, os percalços dela, e o que seria dali em diante. Surgira então a brilhante ideia, por parte de Shawn, de aventurarem-se, para não dizer propriamente, fazer uma mochila e fugir. A ideia era simples, cada um com seu skate, uma mochila nas costas, e o destino, Aukland, the great big city. Na cabeça de Shawn, aquela era uma proposta e tanto, e afinal, não fugiriam, apenas tirariam férias sem que os pais soubessem. A ideia passara meio descabida por Ry e Cam, eles eram impetuosos, ardis, cheios de si (a idade plena da adolescência os acometiam), contudo, não chegariam a tanto, em algum momento Cam, chegou a pensar veementemente na possibilidade, mas fora tão furtivo, quando seu estado de humor frequentemente instável. Não era a toa que tomava três psicotrópicos.
- Dois Hambúrgueres para Três -
— Como você está? – Perguntou Cam, com um semblante preocupado ao jovem amigo enlutado.
— Como eu deveria estar mesmo?! Apenas estou! – Respondeu Rayleigh baixinho, com as mesmas mãos enfiadas no mesmo moletom de sempre.
— Vamo da um rolé de skate? – Perguntou Shawn.
— Qual é Shawn, esse não é o momento!
— Pô, eu sei que não, mas ficar remoendo vai ser muito pior... Só estou querendo ajudar!
— Relaxa galera – sugeriu Ryleigh em um tom de voz suave com um leve sorriso de canto de boca. – Afinal, acho que isso é uma boa ideia sim – E entrou correndo para buscar o skate e a touca que sempre usava em conjunto com os eles.
Os três garotos eram inquebráveis, intocáveis, era como se eles juntos, formassem um elo absurdamente maciço, como sempre dizia Shawn, suas amizades eram feitas de adamantium, a uma clássica referência as garras indestrutíveis de seu herói preferido, Wolverine. Alguns minutos depois estavam eles descendo as ladeiras de Taupo, naquela algazarra aterrorizadora que sempre faziam. O sol já se punha naquela tarde pós-velório, e os três se dirigiam para o mesmo lugar de sempre. Um terreno baldio de um antigo hotel abandonado onde jazia uma piscina gigantesca, velha e vazia, que lhes propiciavam as melhores manobras de skates possíveis. Ainda que houvesse parques na cidade para tal, aquele lugar abandonado com ares de hotel mal assombrado era na verdade o esconderijo deles, ou como dizia Ryleigh, sua batcaverna.
— Life suck’s! – Disse Camden, enquanto estavam os três sentados na borda da piscina, a fim de descansarem um pouco após longas horas de flips, fazendo os amigos Ryleigh e Shawn rirem desenfreados com a sua declaração rotineira.
— Quando não é afinal Cam?! – respondeu Shawn ainda contendo o riso. — Aliás, eu já devia estar acostumado com você sempre falando isso – e riu mais uma vez passando a mão nos cabelos do amigo. – Você tá muito magro, mais do que o normal, você não tá comendo não seu vadio?! Aquela frescura de dieta ainda? – atou.
— Nada, eu sempre fui magro, você que nunca repara a minha magreza! – E riu disfarçadamente.
— Aham, até parece!
Ryleigh então interrompeu o interrogatório de Shawn e partiu para dentro da piscina novamente a dar continuidade em suas manobras.
— É... Meu abdômen ta doendo um pouco, acho que vou parar por hoje galera! – Disse Cam, se levantando e colocando o skate pendurado em sua mochila nas costas.
— Mas já – respondeu Shawn!
— Bom, então eu também vou... Espera Cam... – Disse Ryleigh.
— Hey! Esperam por mim também seus filhos da puta! – E saltou Shawn pra fora da piscina como um gato que foge de água.
...
— O que você tá ouvindo aí?! – Perguntou Shawn puxando um dos fones de ouvido de Camden – Porra, essa merda em francês de novo?! Ou melhor, sempre né... Eu falo, você mesmo instiga sua própria depressão – ressaltou Shawn irritadiço.
- Primeiro – Disse Cam num tom severo – não é uma merda em francês... Isso é arte, é Edith Piaf. Segundo – diminuindo a altivez em sua voz e denunciando já uma resposta mais suave – Você sabe quem é ela? Quem foi ela? – E lhe sacou um olhar curioso, mas sabendo que ele mesmo daria a resposta – Ela foi uma mulher à frente o seu tempo, que cantava os seus amores, dissabores, dores e sofrimentos, foi infligida por tantas perdas, mas ao contrário de desmotiva-la, isso só a encorajava mais ainda a cantar sobre a vida, sobre a sua vida. Drogas, amor, traições, desprezo, desespero... Criticas a respeito de sua aparência... Ela parecia uma octogenária quando morreu aos quarenta e sete anos, devido tantas drogas que tomava para estancar os sofrimentos e demônios que lhe acometiam, no final, mesmo tendo vivido uma vida, por vezes desregrada, cheia de reviravoltas, uma verdadeira montanha russa, ela teve coragem, porque ainda que tudo o que ela passara, havia tomado tanto dela... Ela... Ela jamais se arrependeu! É isso que essa música que você chamou de merda, basicamente fala... Non, je ne regrette rien...
- Still Suck’s – Respondeu Shawn com um riso anasalado.
— Você me ama! – remendou Cam já sabendo da resposta do amigo.
— Bora pegar uns hambúrgueres? To morrendo de fome! – Disse Ryleigh apontando para o fastfood a sua frente.
— To sem grana aqui – respondeu Cam.
— Eu também – salientou Shawn.
— Deixa eu ver quanto eu tenho aqui... – tirando algumas moedas do bolso, e contou seis dólares, seria o suficiente para dois hambúrgueres e uma batata grande – Bom acho que isso aqui dá! – Moça, por favor! Dois hambúrgueres pra três...
(Kings of Convenience – Misread)
Os meninos então agarraram o lanche e seguiram em cima de seus skates, avenida e ruas abaixo, e iam numa curva e outra, dividindo uma mordida aqui, outra ali, e jogavam o lanche um para o outro como uma bola de beisebol, fazendo com que os três rissem da tamanha bobeira que faziam.
Aquela noite para os três havia sido como há muitos anos em suas vidas, mais uma entre tantas, contudo, todas as noites dos jovens, eram diferentes uma da outra, por vezes uns tombos, ou uma risada, quem sabe uma piada nova, mas reclamar que suas vidas ainda que sortisse rotineira, pelo menos entre eles, nunca era. No máximo “isso me lembrou daquilo ou aquele”, mas igual, nunca.
— Bom! Entregue Cam. – Disse Ryleigh abraçando o amigo e dando-lhe um soco de leve no queixo.
— E amanhã? – Perguntou Shawn!
— Amanhã é o inicio de todas as nossas dúvidas – respondeu Cam, com um semblante entristecido.
— Hey, para, a gente acabou de se formar, não é o fim do mundo também... – Salientou Shawn, fazendo com que Cam, olhasse sutilmente para Ryleigh como se não fosse exatamente aquilo.
— Na verdade eu não queria entrar! – Disse Cam cabisbaixo e sofrido.
— Eu sei bro, eu sei que teu pai é foda, mas aguenta as pontas, jajá a gente sai disso aqui!
— É verdade bro, relaxa, e se precisar você sabe, é só gritar! – E os três cumprimentaram-se instantaneamente com alguns gestos de mãos que sempre faziam desde a quarta serie. Cam deu mais alguns passos, e entrou em sua casa pela porta dos fundos. Enquanto Ry e Shawn contornavam a esquina separando-se um do outro.
— See ya bro...
— See yaa
- À Caminho do Caminho -
Shawn foi despertado pelo seu celular tocando sem parar, olhou inicialmente par ver as horas, e constatou, eram três e cinco da manhã “porque diabos o Cam me ligaria esse horário?” pensou, e atendeu em seguida.
— Hey Cam, que foi? – Perguntou Shawn curioso e preocupado.
— Bro... Eu preciso de você! – disse Camden do outro lado da linha com a voz embargada e um choro contido.
— O que foi? O que o seu pai fez dessa vez?! Espera, estou indo aí... Vou ligar pro Ryleigh...
— Não... Espera... – respondeu Camden contido – qual a possibilidade da gente executar o seu plano?!
— Plano? Que plano? – perguntou Shawn ainda meio sonolento.
— Fugir bro... Pegar nossas mochilas e nossos skates e fugir!
— Are you serious?! – Perguntou Shawn interessado, mas ao mesmo tempo com um tom preocupante, naquele momento pensara, “porque eu fui dar ideia”.
— Eu tou indo Shawn... Só liguei pra te falar, você não precisa vir, mas eu estou indo.
— Hey calma! Onde você esta? Espera, vamos conversar...
— Eu estou no começo da estrada vicinal que dá para a fazendo dos Greenwall...
— O Ryleigh esta aí com você?
— Não... Mas eu já liguei pra ele... E falei as mesmas coisas... Então bro... Se você topar, eu vou te esperar aqui por meia hora. Caso vocês não apareçam... Eu vou sozinho! Mas não se preocupe, se você não vir... Você sabe que eu te amo irmão... E eu vou entender – E desligou o celular.
Cam estava inebriado em sua atitude, havia ele afinal, tomado uma, por si próprio, depois de longos anos e duras tentativas para com sua consciência. E, ainda que parecesse infantil e nada saudável uma fuga, para ele, contudo, era fator importantíssimo. Deveria ele fadar-se aos seus medos e apegos para com os receios que lhe tomavam ao colocar em prática aquilo que sempre almejou? Estar por fim, longe, bem longe dali, de sua vida miserável, de seu pai, de seu autoabandono, e estar de uma vez por toda tomando conta verdadeiramente de si e de seu sentimento conturbado e atingido pelas mazelas da vida, de forma tão contundente. Sim o jovem era duro, amargo pelo o que lhe acometera, e sem sombra de dúvidas, um apreciador compulsivo de suas pretensões depressivas.
Já ao lado de Ryleigh, Cam, havia entendido a decisão de Shawn em não ter chegado ainda. Apesar de aquela ser sua ideia, Shawn, sempre era o agitador compulsivo, mas na hora “H”, faltava sempre aquele seu ímpeto inicial. Entretanto, Camden dizia para si mesmo, não posso cobrar dele, apenas pelo fato de ser meu melhor amigo, que tome para ele também essa atitude tão doida. Olhou então com os olhos marejados para Ryleigh, deu um leve suspiro e disse:
— Acho que enfim, é hora de irmos! – E antes mesmo de colocar os pés em cima do skate, escutou um assovio ao fundo; era Shawn correndo contra ao tempo, e se aproximando dos dois.
— Vocês acharam mesmo que eu não viria?! – Perguntou com um semblante ofegante – Mas aqui estou! “um por todos, e todos por um” – fizera ele algum tipo de citação que ele mesmo desconhecia, afinal era Shawn, quase sempre, sendo complementado por Camden.
— Alexandre Dumas...
— Essa porra mesmo! – Disse rindo, e subiram os três em seus respectivos skates, descendo a vicinal escura, apenas iluminada pela lua brilhante que se fazia.
— Alguém aqui trouxe comida?! – Perguntou Shawn curioso.
— Eu trouxe dinheiro – respondeu Ryleigh. – Alias do meu pai...
— Eu trouxe algumas economias também – salientou Camden.
— Dinheiro? – questionou Shawn com ares de alguém que não sabia nada do que estava fazendo.
— Porra Shawn! Dinheiro, comida... O que mais você não trouxe? – Disse Ryleigh. Shawn então deu uma risada maliciosa, e tirando um tufo de dinheiro do bolso disse aos risos:
— Só não trouxe os cartões do meu pai – E os três riram deslizando em seus skates em conjecturas sobre os dias que viriam a seguir.
- Next stop, Life -
Quando os três meninos depararam-se com o primeiro posto de gasolina em quilômetros e quilômetros de distancia já percorridos, os jovens aceleraram seus skates o mais rápido que puderam em direção à cafeteria daquele pequeno posto. Estavam ávidos de fome.
— Então o que os três jovens vão querer?! – Perguntou uma garçonete enfadonha, cheia de curvas e insinuações, causando aos três algum desconforto engraçado, enquanto ela sugestivamente atirava os fartos seios em cima do balcão da cafeteria, fingindo que nada acontecia ali.
— É... Ovos mexidos e leite! – Disse Ry.
— Muito leite por sinal – complementou Shawn olhando sugestivamente para os seios da garçonete, fazendo os dois amigos rir e a garçonete retirar-se dali sem graça a fim de fazer seus pedidos.
— E então, alguém quer voltar? – Perguntou Cam.
— Alguém falou em voltar? – Concluiu Shawn – você deu a ideia, agora vamos até o fim.
— Como é que esta o pessoal uma hora dessas lá em Taupo heim... – resmungou Ry – alguém aqui deixou algum bilhete ou algo do tipo.
— Eu deixei – disse Shawn entre risos – “Pai fui viajar” – e riu novamente.
— Jura – perguntou os dois amigos rindo – isso tá ficando cada vez melhor – atou Cam.
— Aqui esta meninos! Bom apetite.
— Thank’s – disse todos em coro.
Cam observava a comida de forma apática, não parecia estar com apetites para aquilo, mas comeu na marra, a fim de enganar o estomago por mais algumas horas.
...
— Acho que seria bom a gente levar alguns biscoitos, água, suco, barra de cereal sei lá – sugeriu Shawn enquanto folheava uma revista pornográfica na conveniência do posto – a gente já sabe qual o motel mais próximo para dormirmos essa noite? – Perguntou ele curioso e ao mesmo tempo admirado abrindo as três partes da revista que expunha toda a performance do ménage fotografado – caralho, como é que faz isso? – disse ele embasbacado e mostrando para os amigos do outro lado da conveniência a cena na revista, fazendo seus amigos rirem, e duas senhorinhas corar e cochichar uma com a outra, a falta de educação dele, foi neste momento que o dono da conveniência sugeriu que ele levasse a revista ao invés de folhear. – É... Desculpa-me senhor. E bros o que vocês pegaram pra levar?
— Eu peguei algumas...
— Cam, Cam... A sua boca, a sua boca está sangrando! – Disse Shawn interrompendo Cam, que levou a ponta dos dedos na boca e pode notar o gosto forte de sangue – o que isso? Você mordeu a língua?
— Sim, acho que foi isso... – disse Cam indo em direção ao banheiro.
— Mas parece que esta sangrando na gengiva, me deixa ver isso, disse Shawn levando as duas mãos em direção ao seu rosto, e segurando a cabeça de Cam.
— Sai me deixa, não é nada demais... – disse ele esquivando-se de Shawn e olhando para Ryleigh.
— Relaxa Shawn, é só um sangramento.
— Beleza. Bom, vamos nessa? – Sugeriu Cam.
- Let’s do it!
(Ages and Anges – Divisionary)
Os três urravam que nem lobos, descendo a rodovia, fazia um entardecer esplendoroso naquele dia, em cima de seus skates, era como se aquilo exemplificasse, toda aquela cena, a liberdade que eles tanto almejavam. Sobretudo, Camden que tomava a frente do trio na descida, abriu os braços a fim de deixar o vento tocar-lhe o corpo, o rosto, os cabelos, e seus pensamentos iam de devaneios a um êxtase de felicidade inebriantes, ele estava por fim, livre. Livre de si mesmo para começar, livre das vontades impelidas, da falta de coragem, o vento que tomava, ia como uma espécie de água benta, lhe lavando, limpando, junto com o sol, e com tudo o que lhe cercava naquele momento, ia limpando-lhe de tudo o que lhe sempre atrasara.
— Hey Cam – Gritou Ry na descida – tá tudo bem?
— Relaxa, tá tudo perfeito... – respondeu ele abaixando os braços
— Pelo meu GPS tem um motel daqui uns quinze quilômetros, se você quiser descansar, dar uma parada antes, você me fala. – Dizia Ryleigh.
— Se você for ficar de baba, eu vou começar a me irritar com você – disse Cam.
— E então, o que os dois estão fofocando – disse Shawn, enquanto desciam, se achegando ao lado dos dois.
— Nada demais, só estava dizendo para o Cam que tem um motel daqui mais uns quilômetros.
- Uma Noite no Motel -
— Só tem canal de jornal nessa porra – disse Shawn enfurecido enquanto fuçava na televisão.
— Tá na hora de crescer Shawn – argumentou Cam tomando o controle da sua mão e sintonizando em um canal.
— Hey qual é – falou Shawn pulando em cima dele e começando uma lutinha com ele em cima da cama, enquanto os dois iam aos risos.
— É... vocês dois estão parecendo duas crianças no jardim de infância. – provocou Ry – que em seguida fora observado pelos dois lutadores que pularam também juntamente em cima dele.
Os três estavam felizes, estavam livres de permissões, e chatices cotidianas vividas com seus pais. O momento não era se não o melhor de suas vidas, então era preciso celebrar.
— Vou pegar umas cervejas para nós, isso aqui precisa melhorar. – Concluiu Shawn levantando-se da cama, e indo em direção a recepção do motel.
— E então, o Shawn não esta mais aqui, agora me fala, como estão as dores? – Perguntou Ry.
— Estão melhores – respondeu Cam sucinto.
— Só isso? Melhores? Me fale algo mais concreto!
— O que você quer que eu diga Ry? Estão melhores porra! – completou ele irritadiço.
— Are you taking your meds? – perguntou Ry mais uma vez.
— Sim! – respondeu seco.
— Cadê?! Onde estão?
— Onde estão o que Ryleigh…
— Os remédios, eu quero ver! – Disse Ry duvidoso.
— Estão na mochila, hey, qual é? Virou meu pai agora, quer dizer, meu pai não né, porque ele não se preocuparia com isso.
— Exatamente, mas eu me preocupo.
— Mas você não é meu pai – respondeu Cam mais uma vez seco e irritadiço.
— E você é um tremendo idiota Cam. – E saiu do quarto nervoso esbarrando-se em Shawn com as ceverjas.
— O Que tá acontecendo aqui? – Perguntou Shawn curioso.
— Nada demais, é o Ry, na sua porção paternal. – Respondeu Cam com uma cara nitidamente arrependida pela forma como falara com Ryleigh.
— Vocês brigaram? Jura? Numa horas dessas?! Disse Shawn enquanto abria uma lata para ele, uma para Cam e outra para o Ryleigh que estava lá fora. – pega essa porra e vai lá conversar com ele – disse Shawn lhe entregando as duas cervejas.
...
(Aaron Wright – Song for the Waiting)
— Hey... – Disse Cam, se aproximando sutilmente da beira da piscina onde Ryleigh estava e sentou-se ao seu lado – Desculpa, eu, eu só estou meio nervoso com isso tudo. Você sabe que você significa muito mais que um pai para mim – dizia enquanto compartilhava um gole de cerveja com Ry.
— Eu me importo com você Cam... Não é um exagero! – Atou Ry enfiando as mãos em seu moletom.
— Sorry... I know that more than anyone! – Disse Cam colocando seu braço em volta do pescoço de Ryleigh – Sabe, eu sei ser idiota quando eu quero, sei afastar as pessoas que me querem bem simplesmente por medo ou por não saber lidar com isso, mas você sabe que com você e o Shawn isso não existe não é verdade! I Love you man... you know that? – Ryleigh lhe olhou ternamente dando um leve soco em seu queixo e dizendo – I don’t wanna lose you – tremulando o queixo como quem segurava um choro. Antes que houvesse uma resposta Shawn chegou furtivamente e os empurrou para dentro da piscina aos risos desenfreados. – Shawn seu filho da puta, vai ter volta – disse Cam rindo e jogando água nele.
— Hey – acho que a filha do cara do motel ta afim de mim! – Disse Shawn em malicia.
— Todo mundo é afim de você Shawn – respondeu os dois dentro da piscina em coro e rindo. – Bora sair, disse Ryleigh, isso aqui tá muito frio. – e saíram os dois em direção ao quarto em que estavam. Era um motel fuleiro e de beira de estrada, mas para o objetivo deles, aquilo parecia um hotel cinco estrelas.
...
(Patrick Watson – The Great Scape)
— Guys – disse Shawn – vocês estão dormindo já?!
— Não – respondeu Cam.
— Eu também não – disse Ryleigh
— Eu não sei vocês, mas, eu estou com umas mil mensagens e telefonemas do meu pai no meu celular, e não tô com coragem de atender, só respondi que estava bem e para ele não se preocupar. – disse Shawn receoso, como se tivesse feito algo de ruim.
— É... Eu também – complementou Ryleigh – tô no mesmo barco! Se fosse minha mãe, com certeza eu atenderia...
— Bem, vocês não tem o que reclamar. A única mensagem que eu recebi no meu celular até agora foi de um anuncio – disse Cam rindo – isso não é bom? – Os dois amigos silenciaram-se por alguns instantes, pois reconheciam a ironia no tom de Camden. – Come on guys... Vocês não precisam se preocupar, isso não faz diferença para mim. Vocês sabem disso – concluiu – o que importa na verdade, pelo menos para mim é tudo isso aqui que nós estamos vivendo, isso não tem preço, já pensou daqui uns anos, como nós vamos nos lembrar disso? – falou dando um riso anasalado – “a vida nos surpreende nas piores maneiras”, umas vez eu ouvi isso, e tive que concordar, mas neste caso, pelo menos agora, essa é uma das melhores maneiras de ser surpreendido. Vocês não acham?! – e a resposta fora um ronco forçado por parte de Shawn – Shawn seu filho da puta – atou Cam pela graça.
— Foi mal – risos – não resisti! Mas sim bro, isso tudo esta sendo único.
— Muito único! Afinal, somos os três mosqueteiros não é mesmo? – Argumentou Ry.
— Yep! This is are our great scape...
- Inside the Woods of Me -
Os três haviam se embrenhado em uma pequena floresta, decidiram já próximo de seus objetivos, que desviariam o caminho para uma pequena reserva natural Hannua Range, localizada há alguns quilômetros de Aukland. Juntaram suas economias e compraram uma barraca grande alguns acessórios e resolveram por fim, que acampariam no caminho de suas viagens, lhes haviam sobrado ainda bastante dinheiro, mas a partir dali, entenderam que já não poderiam mais ter gastos supérfluos se o objetivo fosse chegar até Auckland, e faltava pouco para isso, e lembraram também que deveriam poupar para a volta, então fracionaram o dinheiro em dias, estocaram comida, água, bebidas, e foram para a “selva” que lhes esperavam.
...
(MGMT – Time to Pretend)
— This is fucking awesome! – esbravejava Shawn do topo da pequena cachoeira, da onde se jogava pela milésima vez, fazendo com que Cam e Ry, rissem.
— Yeah, we all know that, you Said like, a hundred times – complementou Camden.
— Best summer ever – disse Shawn voltando de seu mergulho e emergindo entre os dois garotos. – vamos beber – contornou seus braços em volta dos pescoços dos amigos e retiraram-se os três em direção à barraca que ficava há cem metros dali.
— Parece que vai chover hoje – disse Camden olhando para cima. Fazia algumas nuvens escuras no horizonte, e pelo vento que tocava certamente aquela chuva lhes alcançariam o que lançara alguma preocupação no grupo, se de fato a barraca suportaria.
— Relaxa claro que suporta. Primeiro! A gente não esta a deriva, nem em alguma clareira, então a chuva não nos atinge diretamente, ela primeiro vai bater nas arvores e depois cair suavemente na barraca — Disse Ryleigh sorrindo e trazendo algum conforto aos rapazes.
— Bom, eu vou beber – disse Shawn pegando uma vodka.
— Você só faz beber – salientou Camden – faz três dias que nos estamos aqui, a gente podia levantar acampamento amanhã para Aukland, falta tão pouco pra gente chegar! – disse ele com algum receio em seu tom.
— Por mim tudo bem! – respondeu Shawn.
— Pode ser – complementou Ry.
— Tá tudo bem Cam? – perguntou Shawn curioso.
— Tá sim bro. Só tô meio cansado, precisando de uma cama de verdade – risos – e um bom chuveiro claro! Afinal quem aqui não tá cheirando a leite azedo – e os três riram em acordo – só sabonete e água de cachoeira não resolve! – complementou olhando para Ryleigh que transmitia alguma preocupação. Camden afastou-se disfarçadamente de perto do Shawn e fora sugestivamente acompanhado por Ryleigh.
— Você tá bem? – disse um Ryleigh preocupado.
— Estou! São só as dores, estão um pouco maiores que o normal! But, I can handle... We need to go to Auckland soon as possible!
- OK! Já tá escurecendo e agora seria uma péssima ideia, mas amanhã cedo a gente sai! – disse Ry dando um abraço longo e sentido no amigo.
...
(Bon Iver – Re: Staks)
— Isso esta parecendo os dias de acampamento escolar – risos – tirando a parte em que eu estou levemente alterado – disse Shawn, enquanto segurava um espeto com marshemellows na ponta em cima de uma fogueira improvisada.
— Então são três – respondeu os outros dois rapazes em coro.
— I miss the bonfire times at school, one of the few things that was cool about Taupo High.
- Isso eu concordo com você! – disse Ryleigh, sendo seguido de Shawn.
— Alguém aqui ainda é virgem? – perguntou Shawn rindo – fazendo com que Cam baixasse a cabeça envergonhado.
— O único tarado aqui é você Shawn – disse Ryleigh rindo – É... De fato eu ainda sou meio virgem... thats suck’s!
— Você teve tantas oportunidades Ry-ry – disse Shawn aos risos – mas você preferiu ser chupado por aquela japonesinha da turma de intercambio – rindo alto – That was totally inappropriate, her mouth was so fucking tiny. – e continuou rindo – enquanto Cam ria comedidamente – mas eu me lembro da sua tentativa com aquela magrela da Melody Prior, eu lembro de vocês dois – enquanto Shawn contava a historia Ryleigh apenas o observava e ria de todo seu entusiasmo – lembro que eu peguei ela pelada no seu quarto em cima de você, e você tinha o quê? Uns doze anos, aquela magrela enorme e horrorosa, com seus dezessete anos, sei lá, querendo perder a virgindade com você, e quando eu abri a porta ela saltou de cima de você feito uma perereca louca, supostamente seus pais não estavam em casa, mas eu estava, e quando eu vi o seu “pirulitinho” era o menor pau do mundo – ele então ria cada vez mais, sendo acompanhado por Ryleigh e aos poucos por Cam – afinal você tinha doze anos, que tipo de pau você teria com essa idade, se não um gravetinho... Você começou a atirar as coisas em cima de mim, e ela começou a chorar implorando para que eu não dissesse nada a ninguém, quando então ela foi embora, eu te perguntei por que você tava bravo comigo, se era porque eu não deixei você comer ela, aí você me disse, “não filho da puta, é porque você viu que eu não ia conseguir comer de qualquer jeito” – os três então riram desenfreados, enquanto Ryleigh enxugava as lagrimas de tanto que ria.
— You are a fucking bastard Shawn Raven! – Disse Ryleigh contendo o riso. – Agora fala das suas quebradas! – risos – você também não teve nenhuma grande, ou boa experiência – neste instante Cam resolveu colocar os fones de ouvido a fim de não ouvir mais a conversa, mas fora interrompido por Shawn que lhe jogava um graveto para que ele olhasse para ele.
— Hey... Porque o fone de ouvido?! Vamos conversar! – Disse Shawn, sendo observado por Ryleigh.
— As experiências de vocês são bem mais saudáveis e engraçadas que as minhas, então, prefiro não – Shawn levantou-se de onde estava e sentou-se ao lado do amigo em volta da fogueira.
— E desde quando a gente tem segredo um com o outro?! – Perguntou ele. Cam olhou para ele sentido, abaixou a cabeça e começou a chorar.
— Te garanto que os meus não são pra rirem... – disse ele entre soluços — Eu sou gay... Shawn! – Disse Camden olhando firme para frente enquanto mexia na fogueira com uns gravetos. Fazendo com que Ryleigh lhe olhasse como quem dissesse, vá em frente, continue – Eu...
— Cam! – Disse Shawn lhe interrompendo – você realmente acha que isso é algo novo para mim? – Camden então lhe olhou assustado – eu não posso dizer que... Que eu sempre soube, mas de alguma forma, eu já sabia. E isso não faz a mínima diferença para mim. – Camden abaixou a cabeça e começou a mexer em seu iphone tentando fugir daquela cena. Em seguida Ryleigh levantou-se e sentou-se do lado de Cam, segurando-lhe o pulso que tremia. – Você não é obrigado a viver uma vida de mentiras para sempre Cam... A gente esta fazendo isso tudo para evitar isso! Eu não me importo se você curte garotos, se você é depressivo, se você é chato, ou qualquer coisa do tipo – risos – eu me importo com você só isso! – Camden lhe olhou ternamente, segurando as lagrimas que formavam em seus olhos, respirando fundo. – você quer ter histórias para contar? – Perguntou Shawn olhando para firme para Camden – aqui esta o momento para elas acontecerem... – concluiu Ryleigh, em resposta a pergunta de Shawn.
(Keaton Henson – You Don’t Know How Luck You Are)
— Hey... – disse Shawn sussurrando — Do you wanna Kiss me?! – enquanto ele lhe fitava. Cam apenas lhe retribuía o olhar cheio de dúvidas e vontades, o beijo quisto, não era de paixão, não seria era algum tipo de beijo de amor, era um beijo de autoconhecimento, de desejo, de vontade, era o beijo que ele nunca dera em alguém, e que ali naquele momento era tudo o que ele queria e nunca em outro tempo, teve tanta coragem de fazê-lo.
Shawn levou seus dedos na face de Cam, e os dois então começaram a se beijar ternamente, imbuídos de um sentimento ardil. Algo queimava dentro deles, enquanto Ryleigh suavemente o acompanhava tocando o abdômen de Camden por trás e lhe dando pequenos beijos em sua nuca, em seguida Shawn o abraçou, indo ao encontro da boca de Ryleigh, que lhe retribuía o beijo com a mesma vontade, começou a se acariciarem, enquanto Shawn tirava a camiseta delicadamente de Camden, e então ele pode ver com seus próprios olhos, as marcas da exclusão, da falta de amor, do ódio, no dorso e por todo o abdômen de Cam, eram marcas de cortes, manchas de sangue pisado, marcas de surras, das inúmeras que ele, Camden, levara de seu pai, nesse instante Shawn começou a beijar cada uma delas suavemente, e a cada beijo, a cada toque, a latência de suas vontades ficava cada vez mais evidente, deixando à mostra o volume que se formava por de baixo de suas bermudas, que eram apalpadas por suas mãos firmes e desejosas. Shawn então se levantou e pegou na mão dos dois se direcionando para dentro da barraca, onde então deram inicio ao cumprir de seus sentimentos. Eram toques, beijos, saliva, encontros, abraços, desejo.
Enfim Camden estava entregue, finalmente entregue a si mesmo, às suas vontades, ao seu verdadeiro eu, estava embalado nos corpos de seus dois melhores amigos, entre suores, músculos, braços, cheiros, sensações, ereções, enquanto a chuva caía suave sobre a barraca, fazendo com que o momento lhe soasse como algo surreal. Aqueles corpos nus, apropriados em si, desejosos de toques e trocas de caricias, e foi nesse tom, nesse embalo, que Camden, pela primeira vez dormiu sem medo, entre os corpos inebriantes e viris, de seus amigos.
...
— Camden, Camden... – Cam podia ouvir uma voz suave lhe chamando ao fundo, não queria acordar, tinha medo de que tudo aquilo pudesse ter sido um sonho – Camden Trevor Deaton, wake up! – foi então que ele abriu os olhos, era Ryleigh. – Good Morning Sunshine... Time to go! – Camden deu um leve sorriso olhando para o lado, e avistou que Shawn já havia se levantado.
— Cadê o Shawn! – Perguntou ele curioso
— Foi fazer as necessidades matinais – respondeu Ryleigh rindo. – Você esta melhor?! – perguntou ele lhe passando a mão na testa – Nossa! Você ta queimando, você tá ardendo em febre... – Camden então olhou para Ryleigh mais uma vez e fechou os olhos.
— Camden – disse Ryleigh o chacoalhando – Camden, Camden – ele alterava cada vez mais o tom de sua voz – Camden... SHAWN, SHAWN – Ryleigh então começou a gritar o mais alto que pode pelo outro amigo – SHAWN...
- Aukland -
Ali estavam os dois, Ryleigh e Shawn, dentro de um hospital em Aukland, a espera de noticias sobre Camden, haviam se passado mais de oito horas desde o resgate. E o clima instalado entre os jovens era de alguma beligerância, inconformismo, principalmente por parte de Shawn.
— How could you do this?! – perguntou Shawn contendo algumas lagrimas. – How could you lie, you and him, to me like that? I will never forgive you!
— Shawn… please
— He could die, for god sake he could fucking die…
- Não é tão simples como perdoar! – disse Ryleigh – ele não te contaria de qualquer maneira Shawn, porque ele sempre soube que você jamais o deixaria fazer isso, que você tentaria o mundo e o fundo para reverter isso!
— Isso sequer é uma justificativa! – Argumentou Shawn, já contido em suas lágrimas. – Vocês foram mesquinhos, acharam que podiam me salvaguardar de algo, como se eu fosse algum tipo de criança mimada, que não compreende nada.
— Shawn...
— Ele tem leucemia Ryleigh... Leucemia Ryleigh – dizia ele, com a voz embargada e mais algumas lágrimas – ele pode morrer, no estado em que ele esta. Quando é que vocês iam me dizer isso? – perguntou ele levando a mão na cabeça – quando vocês iam me contar isso? Quando Ryleigh? Quando eu o visse dentro de um caixão?! Porra Ryleigh... Porra! – Shawn se levantou olhando para a porta no final do corredor, e pode avistar sua mãe e seu pai entrando pelo longo corredor acompanhado do pai de Ryleigh e sua avó.
— Mom – Ele soltou uma voz sentida, atribulada, e foi de encontro aos prantos e abraços da mãe que tentava lhe acalmar, enquanto o pai lhe passava a mão na cabeça a fim de conforta-lo.
— He will die mom! – Disse ele chorando.
— Se acalme meu filho, ele não vai morrer, se acalme. – Dizia sua mãe com a voz embargada.
— He will die mom, I knew that fucking bastard… He will die.
Ryleigh então chorou ao ouvir o desespero do amigo, pois parte dele concordava com o que Shawn dizia.
— I’m Sorry dad – lamentou Ryleigh – enquanto seu pai lhe abraçava e dizia – Não há motivos para pedidos de desculpa agora meu filho.
Foram interrompidos então pela entrada de um médico, com uma prancheta na mão, e a cada passo de aproximação, o coração dos jovens vinham-lhe na garganta.
— Boa Noite! – Disse o médico, que era jovem e de aparência simpática, mas trazia consigo um semblante nada animador. – Algum familiar do paciente se encontra aqui? – Perguntou ele.
— Não Doutor, o menino, ele é órfão de mãe. E o pai, bem, ele e o pai não tem um relacionamento muito saudável, ele foi contatado, mas não quis estar aqui. – Disse a mãe de Shawn para o médico.
— Presumo então que vocês são a família dele?!
— Sim – Respondeu os dois jovens, com suas vozes embargadas.
— Isso é o que importa! – Disse o médico docemente – Bem, ele gostaria de ver os dois rapazes que estavam com ele.
— Mas como ele esta doutor – perguntou a mãe de Shawn, notando um semblante desanimador por parte do médico.
— Meninos – disse o médico olhando para os garotos – vocês podem ir ver o amigo de vocês, a enfermeira lhes vai direciona-los, enquanto isso eu converso com os pais de vocês, tudo bem? – Disse o médico chamando a enfermeira e orientando-a.
Enquanto os dois caminhavam pelo corredor extenso, aquele cheiro de álcool misturados com mercúrio, trazia algum mal estar em Ryleigh, que sentia as suas pernas cambalearem, era como se ele estivesse indo para guerra ou algo do tipo, em algum momento, achou que estava sentindo cheiro de sangue, mas acreditou ser coisa da sua cabeça. Olhou para o Shawn que caminhava firme, com olhos vidrados, e não titubeava sequer um centímetro, Ryleigh então enfiou as mãos nos bolsos do velho moletom azulado, abaixou a cabeça sentido, e naquele instante, desejava estar morto, era o que ele queria para ele, pois aqueles corredores, aquelas paredes brancas, aqueles odores, lhes fazia lembrar o que ele havia passado há pouco tempo com a mãe, que falecera acometida por um severo câncer, Ryleigh então balbuciou a palavra “mom”, com uma voz sombria, cheia de angustia e saudades, e naquele caminhar, que mais parecia uma subida dura e cheias de obstáculos, travou, no meio do corredor. Foi aí, que a amizade sempre, falaria mais alto. Shawn silenciosamente estendeu sua mão tirando a mão de Ryleigh de dentro do seu moletom, entrelaçou seus dedos com os dele, segurou com toda força e o levou junto consigo.
— Ele esta um pouco sonolento devido os sedativos, mas se vocês tiverem paciência...
— Ok – disse os dois interrompendo a enfermeira.
— Hey mate – disse Shawn com a voz tremula e se aproximando do leito de Cam, enquanto Ryleigh segurava a mão do amigo do outro lado – você como sempre aprontando com a gente – disse ele com um semi sorriso no rosto – fica firme, a gente tá aqui. – Encorajou-o segurando suas lágrimas e olhando para Ryleigh.
(Alexi Murdoch – Trough the Dark)
— Cam, its Ry…
— I know it’s you douche – disse Cam abrindo os olhos lentamente, com a voz preguiçosa, e um peso absurdo sobre suas pálpebras – os dois então riram com as palavras dele, e enxugaram as lágrimas que caiam.
— Porque você fez isso? – lhe perguntou Shawn diretamente e com inconformismo.
— Shawn, por favor! – atou Ryleigh. Camden então virou o rosto para o amigo lhe admirando de forma terna e começou a dizer algumas palavras:
— Me desculpa Shawn, eu não consegui te falar, eu não queria te falar, por que você é o motivo de todos esses últimos dias maravilhosos que nós três tivemos juntos, todas as horas incontáveis, todos os momentos sóbrios de felicidade, quer dizer, meio sóbrio – risos – se eu te contasse, eu não teria nada, absolutamente nada disso, e eu não poderia ir viver em paz, sem ter de fato vivido ao menos uma vez sequer. – Camden derramou uma lágrima, que fora acolhida pelas pontas dos dedos de Shawn. – A ideia original foi sua, lembra? – Comentou ele rindo com alguma dificuldade – E olha onde a gente chegou! Não fomos longe o bastante?! Eu não te amo menos por não ter te contado antes, mas eu te amo o suficiente por ter te poupado de saber antes. Porque se não, você não seria o Shawn que eu conheço se você soubesse de algo antes. Olha a sua volta, olha todas as suas conquistas, todas as nossas lembranças e os nossos dias juntos... Não houve preocupações exageradas, não houve cuidados extremos, apenas... Bro, apenas vivemos cada segundo! Eu soube dessa doença dias antes da gente se formar, e o estágio em que já estava, e assim como você, Ry-ry não sabia, mas esse filho da puta sabe ser detetive – risos – lembra quando na oitava serie ele decidiu que descobriria quem dedurou ele para Mrs. Bonenberger – e riram os três contendo suas lágrimas – pois é não foi planejado, não foi por que eu quis, foi porque tinha que ser. E aqui estamos...
— Eu te amo bro, eu te amo Cam! – dizia Shawn entre lágrimas e apegos. – I don’t wanna lose you!
(Imagine Dragons – Shots)
— Quem foi o idiota que te falou isso? – balbuciou Camden – Ninguém vai perder ninguém aqui! – Camden então olhou para Ryleigh, acenando-lhe a cabeça em agradecimento, em seguida dizendo – Ry-ry... We got it!
— Yep, a gente tá Aukland! – salientou Ryleigh segurando o choro.
— Now... this is how life begins!
- FIM -
Notas finais
(Kings of Convenience – Misread)
(Ages and Anges – Divisionary)
(Aaron Wright – Song for the Waiting)
(Patrick Watson – The Great Scape)
(MGMT – Time to Pretend)
(Bon Iver – Re: Staks)
(Keaton Henson – You Dont Know How Luck You Are)
(Alexi Murdoch – Trough the Dark)
(Imagine Dragons – Shots)
*em ordem de cena.
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