This Must Be Love
30 Love The One You're With.
Notas iniciais
O verão havia chegado e, com isso, as ideias foram passando de forma espirituosa e aventureira pela minha mente. A ânsia de viver e experimentar sensações únicas e desconhecidas, no sentido desregrado, preencheu-me com agudez e naturalidade momentânea. Emily e eu conheceríamos alguns países da Europa antes de embarcamos à França; essa era a minha grande ideia, meu maior projeto para o nosso verão inteiro.
— Vamos nos divertir tanto, Em! — Eu havia dito semanas antes, referindo-me à nossa viagem por todos os cantos da Europa.
Toda a minha acuidade desaparecera por completo no meio desse processo insano de desejar viver rápido. E, agora, eu precisava manter isso na memória para nunca mais repetir os mesmos erros.
— Eu quero levá-la para conhecer os lugares... Seremos apenas você e eu. — Acentuei mais uma vez, exalando animação e euforia.
Ainda conversávamos sobre as mudanças de planos, que incluíam alguns países da Europa para visitar, conhecer e, até mesmo, aprofundar-se antes da nossa tão aguardada viagem à França. Emily parecia conter-se diante de tudo o que eu estava a oferecendo. Mas não era por menos, ela era sempre a prudente e eu a inconstante.
— Está bem, Ali. — Emily sorrira finalmente, depois de pouca insistência, rendendo-se às minhas divagações sobre tudo o que faríamos fora de Rosewood. — Você sabe que não existe nada neste mundo que eu não faria por você. — Admitiu em meio a um suspiro longo e vencido, mas, ao mesmo tempo, apaixonado.
Um sorriso de canto logo se formou em meus lábios, mostrando minha contida satisfação diante do que estávamos prestes a vivenciar.
— Cuidado, amor. Eu posso sugerir coisas realmente perigosas. — Avisei com um aceno discreto de cabeça, deslocando-me do banco em sua janela e jogando-me em seus braços.
Ela caiu de costas em sua cama, deixando-me por cima do seu corpo macio e bem receptivo ao meu, onde eu comecei a despi-la rapidamente, beijando e apreciando cada pedaço de pele que eu mesma revelava. Emily parecia sempre impecável sob qualquer luz, principalmente quando estava desprovida de qualquer roupa e essa era uma das coisas que eu mais tirava vantagem.
***
Era uma sexta-feira à noite e, a essa altura, nós estávamos em Amsterdã. As luzes da capital holandesa brilhavam intensamente durante a noite, dando a sensação de diversão eterna pelas ruas que predominavam um estilo único a cada vagada. De cenários românticos e essência liberal, a Holanda entrava para a lista de melhor lugar para se viver, de acordo com aspectos de vivência que encantavam a muitos. A aura liberal que engenhosamente influenciava pessoas deveria ser um dia o país que mais domina massas com sua grande e admirável tolerância.
— Ainda não está pronta? — Perguntei ao me deparar com o óbvio.
Havíamos sido convidadas para uma festa por alguns caras que se achavam muito bons para qualquer um, e Emily estava deitada de costas na cama, olhando fixamente o lustre que iluminava todo o quarto do hotel em que estávamos. Suas roupas não eram de longe as mais festivas, visto que ela vestia pijama rosa com bolinhas pretas que ela comprara quando chegamos à Amsterdã. Enquanto isso, seus cabelos estavam presos num coque desleixado, porém adorável e confortável.
— Eu já disse que vou ficar no quarto hoje. — Resmungou num murmúrio quase insolente. Desloquei-me da porta da suíte e caminhei até a cama a passos descuidados.
— Eu pensei que tivesse mudado de ideia. — Disse de forma despretensiosa, sentando-me ao seu lado na cama e relaxando os músculos ao encará-la.
Seu rosto virou devagar, quase como se obrigando a retribuir meu olhar no mínimo motivador.
— Vamos lá, Emmy! Será divertido. — Insisti com um sorriso esperançoso quando ela me fitou serenamente, dessa vez mostrando-se incerta. Ela sentou-se na cama, ficando, então, de frente para mim.
— Eu não tenho mais tanta certeza disso, Ali. — Discordou, completamente alheia às minhas vontades.
Nós passamos por muitas festas desde o começo sem sentirmos a necessidade de parar, mas foi apenas de uns dias para cá que Emily resolveu que estava cansada de farrear e viver desregradamente como se não houvesse um amanhã para se preocupar. Seu interesse pelos nossos joguinhos foi perdendo a força conforme os dias se desenrolavam.
— Não vejo mais diversão em ver você se jogando para cima de outras pessoas. Na verdade, nunca vi. — Ela confessou, forçando um sorriso corajoso, porém indiferente.
Depois de conhecermos a real natureza de Amsterdã, Emily e eu tivemos a ideia de tentar nos adequar aos costumes de quem vivia aqui, começando por criar um relacionamento estritamente aberto. Claro que essa ideia havia partido de mim, o que me fez trazer de volta o jogo do “Isso não”, que havia sido criado por Jason e seus amigos quando eu estava no sétimo ano e que, por anos, havíamos reaproveitado para nos referir às pessoas chatas e perdedoras da nossa escola, quem valia e quem não valia à pena.
Mas, no nosso caso, uma decidiria pela outra. Se Emily dissesse Isso não para quem eu estivesse tentando conquistar, eu deveria me afastar e não prosseguir ao passo três, que seria o beijo por toda sua excelência, enquanto o passo dois era a conquista num todo e, o um, a falsa apresentação.
Entretanto, como todo bom jogo, tínhamos nossas próprias regras, fundamentadas no intento de evitar desavenças e outras bobeiras que o ciúme pudesse vir a causar. Portanto, chegamos a um acordo de que as regras seriam: nunca dizer nossos verdadeiros nomes; obedecer quando uma dissesse Isso não; e, a mais importante de todas, nunca passar apenas de um beijo. Havíamos, também, concordado que o futuro do nosso relacionamento dependia dessas três regras básicas.
— Você sabe que não sou eu, Em. São todas aquelas pessoas que nós mesmas inventamos. — Lembrei, enfatizando minha doçura sem ao menos precisar de esforço. Meu lado sentimental florescia tão naturalmente quanto possível quando eu estava com Emily. — Eu já disse isso uma vez, e volto a repetir: com as outras pessoas é só um jogo, mas, com você, é real. — Aproximei-me lentamente dela, parando meu rosto a centímetros de distância do seu. Sua respiração acelerava gradualmente conforme eu roçava nossos lábios eroticamente.
— Como você consegue trocar de personalidade tão facilmente? — Indagou ligeiramente espantada, tocando minha mão sobre seu rosto com carinho.
— Sobrevivência, meu amor. — Forcei um sorriso inofensivo a ela, mas, por dentro, eu estava queimando.
— Eu estou cansada desse jogo. — Admitiu sinceramente. — Podemos, por favor, voltar a ser um casal normal? — Pediu com os olhos brilhando diante da possibilidade. Forcei um sorriso complacente e beijei seus lábios suavemente, tocando seu rosto com candura enquanto a beijava sem pressa.
— Nós somos um casal, Em. Mas não um comum. — Sussurrei contra os seus lábios, inclinando-me em sua direção. — No entanto, chega de jogos. Não suporto mais vê-la beijando outras pessoas. — Confessei com a voz possessiva, fechando os olhos vagarosamente e selando seus lábios mais uma vez.
Seus braços entornaram minha cintura delicadamente, puxando-me para mais perto do seu corpo e, então, pressionando-os firme.
— Verdade? — Ela questionou, afastando-se de mim e me fitando carinhosamente. Eu assenti com um sorriso desconcertado, acariciando seu rosto enquanto eu roçava nossos lábios devagar. — Às vezes, eu esqueço o quão ciumenta você é. — Comentou entre risadinhas confortáveis.
— Não é ciúme, Em. — Discordei em tom de reprovação. — É cuidado com aquilo que é só meu. Eu vacilei com aquela Samara-vadia no passado, mas não cometo o mesmo erro duas vezes. Você está no meu radar, mocinha. — Sussurrei com meus lábios próximos aos seus.
Um sorriso divertido se formou em seu rosto quando ela percebeu que eu estava falando sério. Fitei seus olhos por alguns poucos instantes, sentindo borboletas flutuando no meu estômago. Era tremendamente incrível o efeito que ela tinha sobre mim. Emily me deixava em um patamar elevado de boa espiritualidade, e por ela eu faria qualquer coisa, como tentar me livrar de todas as tragédias que me moldavam desde muito cedo, transformar em algo produtivo e que valesse à pena.
E posso dizer que eu havia conseguido realizar tudo o que eu desejava. Por todas essas semanas eu vinha me portando como uma pessoa comum, sem máscaras ou superioridade encobrindo minha real natureza. Eu não precisava de nada disso com Emily. Com ela, ser impecável o tempo todo, de repente, não parecia importar tanto.
— O quê? — Perguntou quando notou que eu estava sorrindo bobamente.
— Eu só... Acabei de lembrar que tenho algo que pode nos distrair por algumas horas. — Respondi imediatamente,selando seus lábios brevemente e saindo de cima dela.
Fui até a minha bolsa e peguei os saquinhos de dentro enquanto Emily deitou novamente na cama, esperando pacientemente o que eu tinha para oferecê-la.
— O que é isso? — Questionou com um misto de curiosidade e confusão em seu semblante quando eu voltei para a cama e me ajoelhei de frente para ela.
— São bolinhos. — Respondi esboçando um sorriso amplo, oferecendo um a ela.
Por um breve momento, um olhar desconfiado cruzou seu rosto, mas, no segundo seguinte, desapareceu como se não houvesse existido. Ela aceitou de bom grado o bolinho de chocolate, no entanto, antes que ela pudesse colocá-lo na boca, eu a impedi a tempo de avisá-la:
— Talvez você não queira comer isso, Em. Tem maconha aí dentro. — Inicialmente, ela pareceu em choque e, então, olhou para o bolinho de maneira pensativa e astuta.
— E você vai comê-lo? — Perguntou receosa, desviando os olhos para poder me encarar com seriedade.
— Eu vou, mas não quero que se sinta pressionada a fazer o mesmo. — Avisei ao retribuir seu olhar prudente e cheio de compreensão. — Eu já te obriguei a fazer muitas coisas que você não queria e não quero que isso se repita nunca mais. — Deixei bem claro, tocando a ponta do seu nariz de leve com meu dedo indicador.
Ela sorriu e deu a primeira mordida no bolinho, mastigando devagar e engolindo. Confesso que tal ato me pegou desprevenida, uma vez que eu não esperava que ela fosse realmente comê-lo.
— Sua vez agora. — Emily disse depois de um momento, rindo da expressão que ainda se mantinha em meu rosto. — Não fique tão espantada por eu querer compartilhar um momento desses com você. É isso o que eu faço, sempre vou apoiá-la no que for. — Garantiu como se fosse algo óbvio e, de sua parte, muito sincero.
Puxei-a institivamente para um beijo caloroso e apaixonado, sentindo-me a pessoa mais sortuda por ser amada por alguém como Emily, onde o amor se tornava algo puro entre nós duas.
— É por isso que você sempre foi a minha favorita. — Sussurrei contra os seus lábios, afastando uma mecha de cabelo do seu olho e mantendo nosso contato visual por alguns instantes antes de eu finalmente comer o bolo com surpresinhas dentro.
Os efeitos, eu sabia, viriam em torno de uma hora e, até lá, eu poderia me divertir com Emily de outra forma.
— Ainda temos uma hora antes de ficarmos completamente chapadas. Que tal um pouco de amor? — Sugeri com um sorriso lascivo e amoroso moldando meus lábios, que logo foi retribuído por ela.
Emily estava deitada e eu sentada em cima dela, observando seus sentidos calmos e aprazíveis.
— Você sabe, eu adoraria. — Assentiu, entrelaçando nossos dedos preguiçosamente. — Tire sua roupa, eu quero vê-la. — Disse com suavidade, acariciando a palma da minha mão com a ponta do seu dedo indicador.
Meu ventre pulsou levemente com esse pequeno e singelo estímulo, o que me levou a fazer o que ela me pediu. Tirei minha camiseta e a joguei de lado, sorrindo maliciosa quando Emily seguiu meus movimentos no meio do processo.
— Pode me ajudar com o resto? — Arqueei uma sobrancelha em desafio, deslizando minha mão por toda a extensão do seu abdômen lentamente.
Ela imediatamente sentou-se na cama, numa postura ereta. Esperei pelo seu toque ansiosa, até que senti suas mãos vagarem pelas minhas costas devagar, arranhando minha pele de forma provocativa. Seus lábios vieram de encontro aos meus, afoitos e eróticos. Nossas línguas se tocavam com urgência, levando seus toques ao extremo. Emily abaixou as alças do meu sutiã depressa, separando nossos lábios e descendo até meu peito, onde depositou beijou suaves. Em seguida, afastou seu rosto para poder me observar, como ela havia dito que faria. Um sorriso doce, porém desejoso surgiu em cada canto dos seus lábios, provocando também o meu.
Eu estava nua do pescoço à cintura, e Emily somente me olhava. Devoção e comprometimento brilhavam em seus apaixonantes olhos negros, deixando-me cada vez mais excitada e envolvida com sua demora. Então, como se houvesse acabado de despertar, puxou minha cintura contra o seu corpo, tocando meu seio esquerdo com seu lábio inferior e mordendo meu mamilo de leve. Levei minha mão à sua nuca, pressionando minhas unhas em sua pele conforme ela intensificava as carícias e me apertava contra o seu corpo macio e convidativo. Toquei seu rosto com a minha mão livre, erguendo-o para que eu pudesse beijá-la enquanto suas mãos percorriam pelas minhas pernas, acariciando a parte interna da minha coxa com necessidade.
Rapidamente, Emily inverteu nossas posições ao se virar com certeira precisão e deitar-me na cama. Um sorriso glorioso se formou em meus lábios, logo após um suspiro deleitoso.
— Se você soubesse o quanto eu aprecio esta visão... — Sussurrou com um sorriso amoroso, inclinando-se sobre o meu corpo e roçando seus lábios nos meus lentamente. Eu conhecia sua intenção, e resumia-se apenas em me provocar antes de qualquer coisa.
— É por isso que gosto de assumir o controle. Você é tão lenta! — Disse devagar, puxando seu rosto para o meu e selando nossos lábios demoradamente.
Um riso baixo e abafado ecoou dentre nossos rostos colados, o que também me fez rir. Sua risada, fosse o que fosse, provocava sempre o melhor em mim.
— Você é tão dominadora! — Emily rebateu em meio a um suspiro voluptuoso, não parando o beijo que se aprofundava cada vez mais rápido. Minha respiração já estava no começo de uma desestabilização trépida.
Sua mão foi descendo pela minha barriga devagar, arranhando a pele enquanto puxava meu lábio inferior com os dentes. Ela mordiscava com cuidado para não machucar, distraindo-se com o delicado passeio que seus dedos faziam ao redor do meu ventre, o que levava o meu coração a bater cada vez mais rápido e pulsar forte na região da minha virilha. Eu não podia reclamar, já que isso tornava tudo muito mais gostoso.
Assim que alcançou o cós da minha calcinha, sua brincadeira passou a ficar mais séria e, devagarzinho, Emily deslizou seus dedos pelas minhas pernas, prolongando o máximo que pôde. Então, foi preciso apenas um breve momento até eu me perceber sem a última peça que havia me restado. Seus lábios foram descendo da minha garganta até os meus seios, onde se dedicou por alguns minutos. Eu adorava a sensação que era ter sua boca em contato com uma das partes mais sensíveis do meu corpo, estimulando-me com sabedoria e provocando meus gemidos roucos e baixos.
Aos poucos, seus lábios foram de encontro ao meu abdômen, sugando a pele com força e urgência. Meus sentidos começavam a entrar em desordem e a necessidade do contato mais íntimo fazia-se presente conforme as pulsadas se tornavam mais intensas. Arqueei meu quadril institivamente quando senti sua boca se aproximar da região que mais precisava do seu toque, gemendo alto seu nome pela primeira vez. Mas, ao invés de ir direto ao ponto, ela começou a depositar beijos suaves na parte interna da minha coxa, vez ou outra, passando a língua delicadamente pela minha virilha.
Foi só no segundo que eu menos esperava que Emily finalmente escorregou sua língua por toda a extensão da minha intimidade, o que me provocou um gemido de extrema surpresa e deleite. Abri ainda mais minhas pernas, movimentando meu quadril contra sua língua quente e, em contrapartida, ela me puxava com força para baixo, pressionando firme. Mas o melhor ainda estava por vir; seus lábios sugavam meu sexo completamente inchado e molhado. Atendo-se, ainda, à minha entrada, ela fez questão de introduzir seus dedos enquanto sua língua forçava a minha região mais sensível. Eu arfava alto, arranhando seu braço com violência no intento de liberar um pouco da carga do grande prazer que eu estava recebendo. Era insanamente gostoso... E, mais que depressa, Emily subiu com seus lábios novamente até os meus, tomando-os no mesmo instante. Nossas línguas atrelaram-se famintas, e o meu próprio gosto inundou minha boca instantaneamente.
— Em, sua roupa. — Apontei ofegante, descendo os meus dedos até as extremidades da sua blusa e a puxando para fora do seu corpo com agilidade. Em resposta, ela também se esforçava para se livrar das próprias roupas. — Amor, eu preciso tanto de você agora! — Deixei escapar entre suspiros longos, mordendo sua mandíbula com força enquanto eu tentava arduamente tirar a calça do seu pijama o quanto antes. Gemidos roucos ecoavam dentre seus lábios inchados, aumentando minha excitação progressivamente.
— Deixe-me ajudá-la com isso. — Ofereceu com a voz ardente, puxando sua calça para baixo com precisão e rapidez. Um sorriso satisfeito cruzou ambos os rostos, que logo se juntaram novamente num beijo feroz e cheio de paixão. Minhas mãos deslizaram pelas suas costas, procurando o fecho do seu sutiã azul bordado que eu mesma havia feito especialmente para ela.
Uma vez que eu finalmente havia conseguido arrancar as últimas peças que faltavam para deixá-la nua, tratei de puxar seu corpo contra o meu com firmeza, sentindo a maciez da sua pele roçar contra a minha. Seus lábios sugavam meu pescoço intensamente, deixando alguns sons conhecidos escaparem inevitavelmente da minha boca, enquanto suas mãos apertavam minhas coxas e me puxavam contra sua cintura, como se quisesse fundi-las de alguma forma.
Antes que Emily perdesse completamente o seu muito estimado autocontrole, ela começou a me tocar com o mesmo cuidado de sempre, afrouxando seus fortes apertões em minhas coxas. O beijo ainda continuava intenso e sua respiração apontava o ardente desejo que se ampliava a cada batida descompassada dos nossos corações, que agora batiam um contra o outro. Com cuidado, seu corpo repousou com mais solidez sobre o meu, causando arrepios de excitação por cada centímetro da minha pele.
Ela tirou minha mão da sua nuca delicadamente, fazendo o mesmo com a outra que arranhava suas costas com afinco. Então, entrelaçou nossas mãos amorosamente ao deixá-las uma de cada lado da minha cabeça, elevando-as até onde meus braços podiam ir enquanto segurava minhas mãos com firmeza contra a cama.
Seus olhos não abandonaram os meus nem por um segundo, e eu pude assistir a cada mudança significativa em sua feição de quem não aguentava mais esperar por um contato íntimo entre nossos sexos. E, por conseguinte, Em se encaixou cuidadosamente entre minhas pernas, mantendo seu olhar faminto e gentil ao mesmo tempo conectado aos meus enquanto dava início a um movimento devagar e ritmado.
O roçar compromissado e cuidadoso dos nossos corpos um contra o outro, ao mesmo tempo em que preenchia quase todos os espaços vazios do mais profundo do meu âmago ao mais superficial da matéria física, causava-me também certa angústia. Faltava algo que nos trouxesse ainda mais comprometimento, e esse era um vazio que eu não conseguia identificar, ou como supri-lo.
— Eu quero que você seja minha para sempre. — Sussurrou com extrema dificuldade, gemendo fraco ao tombar levemente a cabeça quando suguei seu lábio inferior com força. — Prometa-me, Ali. — Ela pressionou seu quadril contra o meu, entregando-se ao instinto da luxúria aos poucos.
Seu líquido se misturava com o meu de forma tão deliciosa e irremediável, e eu só conseguia deixar sons abafados ecoarem da minha boca, uma vez que ela se mantinha ocupada com qualquer pedaço de pele que meus lábios podiam alcançar, como seu ombro e mandíbula.
Tomei um grande gole de fôlego misturado com força de vontade para, assim, conseguir respondê-la.
— Você deveria saber que não é seguro pedir esse tipo de coisa durante o sexo. — Tentei soar o mais simples possível ao som dos nossos corpos suados movendo-se um contra o outro.
Emily sorriu e beijou-me calmamente, inserindo sua língua dentro da minha boca. Ela apertava minhas mãos intensamente na tentativa de transmitir todas as sensações que varria cada nervo do seu corpo, assim como acontecia com o meu a cada investida mais brusca que, por instantes, fugiam do seu domínio.
— Você deveria saber que não é só sexo. — Ela murmurou, afastando seu corpo do meu lentamente. Mas, antes que a minha pele pudesse emitir qualquer tipo de reação à sua ação, como a de abandono, Emily começou a beijar meu seio suavemente, sugando vez ou outra meu mamilo entumecido.
Ela era tão carinhosa e cuidadosa comigo, como se qualquer coisa pudesse me machucar. E eu sabia muito bem que era exatamente assim, mesmo sendo incapaz de ferir até mesmo um inseto, Emily se importava demais com os sentimentos de quem estava à sua volta. Em especial com os meus, mesmo quando ela não os conhecia com certeza. Porque esta era a minha Emily: verdadeira benevolência irradiava do seu coração puro.
— Eu te amo tanto, Emily Fields! — Confessei com intensidade ecoando em cada palavra que escapava dentre meus lábios. Era difícil me concentrar em qualquer coisa que não fosse sua boca fazendo maravilhas nas minhas partes mais delicadas. — Amor, um pouquinho mais para baixo. — Orientei afavelmente, acariciando seus cabelos no mesmo nível de carinho que eu me dirigia a ela.
Emily imediatamente obedeceu, arrastando seus lábios pelo meu estômago, abdômen e, por fim, pairando divertidamente na minha cintura. Ela mordia e chupava a pele mais do que intensamente, e logo suas carícias foram descendo até a parte interna das minhas coxas, onde ela começou a deslizar sua língua pelas beiradinhas da minha virilha.
— Mais um pouquinho, Em... — Ela ergueu seus olhos para poder me encarar, e então sorriu.
Aquele sorriso significava que ela queria ouvir o pedido sair da minha boca, da mesma forma que eu havia feito com ela na nossa última vez, dizendo coisas como: “Eu não tenho certeza do que você quer, amor. Seja mais clara, diga-me o que deseja.”, então ela o fazia prontamente.
No entanto, com um pequeno movimento dos seus lábios, Emily deslizou sua língua longamente até a minha entrada, onde pressionou com ardor e eficiência o mais fundo que pôde. O ritmo que ela impunha entre suas investidas variavam de acordo com os gemidos que inevitavelmente escapavam dos meus lábios. Faltava muito pouco, eu sentia a chegada do meu ápice conforme seus movimentos tornavam-se cada vez mais vigorosos e contínuos, porém não era desse jeito que eu queria.
— Em... — Eu a parei rapidamente, equilibrando-me sobre os meus cotovelos estacados no colchão confortável. — Vem para mim. Eu quero senti-la agora mesmo. — E ela veio.
Muito calmamente, seus lábios encontraram os meus e o seu corpo repousou sobre o meu ao tempo que ela me fez deitar novamente na cama, enquanto as minhas mãos envolveram sua cintura. Eu a beijava com pura veemência, arranhando as extremidades de suas costas e pressionando seu quadril cada vez mais contra o meu. Então, antes de qualquer coisa, Emily se encaixou afoitamente, gemendo fraco e dando início aos movimentos bruscos e ávidos que se seguiram por gloriosos instantes antes de todo o meu corpo começar a responder com vibrações elétricas da minha cintura para baixo.
Nossos lábios grudados tentavam manter um beijo simples, porém era difícil se concentrar em algo que não fosse o roçar ardoroso do seu sexo quente e excitado contra o meu. E, enquanto isso, os gemidos que ecoavam pelo quarto tornavam-se cada vez mais audíveis, uma vez que toda a magia do clímax estava a alguns poucos estímulos de chegar. Sendo assim, ergui minha cabeça e passei a roçar meu lábio inferior no peito descompassado de Emily, deslizando minha mão até seu seio e o massageando com vontade. Minha mão disponível emaranhou-se nos seus cabelos úmidos, onde eu acariciava e recebia mordidas no meu pulso em troca, abafando os sons que escapuliam dos seus lábios.
Incrivelmente, ela foi a primeira a alcançar o ápice do prazer que juntas dividíamos, então não demorou e eu a segui de forma não tão menos gloriosa. Aos pouquinhos, Emily foi diminuindo a velocidade com que ela movia seu quadril, beijando meus lábios no processo lento e delicioso com que nossas respirações entrecortadas voltavam ao ritmo regular. Suas mãos agora vagavam por cada centímetro de pele das minhas pernas, enquanto sua boca deslizava até minha mandíbula e, em seguida, meu pescoço.
— Deus! — Exclamou entre sucções na minha pele à mercê dos seus lábios ainda vorazes. — Seu corpo é tão viciante!
Emily arranhava a parte interna da minha coxa, e não era de leve. Suas carícias estavam começando a ficar intensas e urgentes novamente, como se quisesse repetir tudo de novo. No entanto, eu já me sentia cansada e faminta. Talvez, e muito provavelmente, o efeito da maconha ingerida já estava acontecendo há algum tempo, mas eu realmente não saberia dizer isso ao certo.
— Em, estou com fome. — Murmurei quando ela finalmente afastou seus lábios dos meus, deixando-me respirar.
— Eu também. — Ela sorriu, mordendo o meu queixo levemente. — Precisamos de muita comida, aí posso espalhá-la por todo o seu corpo delicioso. — Eu ri de maneira descontrolada com a forma desajeitada que as palavras saíram de sua boca.
— Você acabou de soar tão sexy! — Disse com um sorriso satisfeito nos meus lábios inchados pelas diversas mordidas de Emily.
— Eu fico muito sexy quando estou com você. — Em sussurrou no meu ouvido, rindo divertidamente. — E você fica muito, mas muito gostosa quando está comigo.
— Sim, porque somos um casal extremamente quente. — Assenti sedutoramente, juntando-me a ela.
Passei os meus braços pelo seu pescoço e a abracei carinhosamente, inalando o cheiro de sexo misturado com o cheiro de nossas peles que se estendia por todo o quarto. Definitivamente, não havia uma combinação de odores melhor do que essa.
— Já estamos chapadas? — Emily perguntou baixinho, como se isso fosse algum segredo.
— Ainda não. — Respondi na mesma altura. — Os efeitos demoram uma hora para virem quando se ingere a erva. Ainda temos algum tempinho... — Disse devagar, deslizando minha mão pelo seu quadril.
— Então vou aproveitar para comprar comida para nós duas. — Emily antecipou, impedindo minha mão de tocá-la de forma mais íntima e profunda.
Ela saiu de cima de mim e recolheu algumas roupas do chão, vestindo-as logo em seguida. Mas, antes de sair, veio até a cama e se agachou para poder me beijar delicadamente nos lábios. Só assim eu percebi que ela estava usando a minha camiseta, o que provocou meu sorriso instantaneamente.
***
Eu não tinha certeza de que dia da semana era, porém sabia que havia se passado no mínimo dois dias desde que Emily e eu começamos a experimentar todas as coisas que eram consideradas erradas e ilegais em nosso país, mas que, aqui, eram perfeitamente liberadas. Por isso, tudo o que fiz assim que abri os olhos com aquela dificuldade preguiçosa e percebi que Emily não estava ao meu lado foi pegar o meu celular e discar o seu número. Chamou uma, duas, três vezes e, então, ela atendeu.
— Onde você está? — Exigi de forma rabugenta e sonolenta, não lhe dando a chance de dizer nem um simplório “Alô”.
— Ali, meu amor... Finalmente acordou! — Gritou para que sua voz se sobressaísse do barulho irritante que fazia no lugar que ela estava.
Era perfeitamente possível escutar as vozes animadas que se misturavam com músicas altas e agitadas do outro lado da linha. Eu podia apostar um fabuloso par de botas da minha atual coleção da Dior que ela estava em algum bar do subúrbio.
— Por que você não está aqui, Em? — Suspirei cansadamente, virando-me na cama e olhando para o relógio digital que estava em cima da cômoda de marfim, marcando sete e vinte da noite.
Ainda era cedo e eu estive dormindo a tarde toda porque havia bebido demais na noite passada, deixando Emily um pouco chateada comigo. Talvez fosse por isso que ela não voltou de onde quer que ela tenha ido, o que tornava meu humor ainda mais detestável contando com o fator ressaca.
— Você está bem? — Ela perguntou, notando minha voz não muito sóbria. Quase que imediatamente me dei conta das fisgadas incômodas nas têmporas. Meus olhos ardiam e minha cabeça girava, porém eu não conseguia me lembrar de muita coisa sobre a noite passada.
Alguns flashes de Emily e eu nos beijando calorosamente, rindo de tudo o que falávamos passavam pela minha mente de maneira confusa e distinta. Eu não sabia identificar o que havia sido real do que não havia sido.
— Você sabe, não muito bem. — Murmurei, sentindo uma raiva crescente atravessar minha garganta.
Eu sentia raiva e irritação por ela ter me deixado aqui sozinha, enquanto ela estava fora, se divertindo sem mim. Então, antes que eu pudesse me controlar, continuei ao pronunciar cada palavra lentamente:
— Emily, eu quero você aqui, entendeu? — Disse um pouco desajeitada, sentindo minha garganta arranhar dolorosamente. — Você não devia ter me largado aqui como se eu fosse uma ninguém. Nós transamos, portanto tenha um pouco de respeito.
Um sorriso zombeteiro logo surgiu em meus lábios, mesmo sabendo que ela não podia vê-lo.
— Desculpe, eu prometo não demorar e recompensá-la quando chegar. Agora preciso ir, tchau. — E, então, desligou.
Fiquei pensando no que diabos ela poderia estar fazendo para preferir descartar minha companhia, e as inúmeras e desagradáveis possibilidades me incomodavam com pertinência quase descabida... Emily seria incapaz de fazer qualquer coisa errada, mesmo longe de mim.
Depois de algumas horas, no entanto, ela ainda não havia voltado e eu já tinha transitado pelo quarto todo buscando algo que mantivesse minha mente ocupada até sua volta. Isso não aconteceu, portanto tive a ideia de ir a algum lugar que vendesse comida a essa hora da noite. Claro, tinha o restaurante do hotel e eu podia muito bem pedir a comida no quarto, porém eu não aguentava mais permanecer nesse mesmo ambiente. Eu precisava de ar fresco...
Então, quando saí para a noite, tratei logo de começar a vasculhar alguns pontos específicos da cidade, esperando encontrar algo de novo por qualquer canto, até o momento em que decidi entrar em algum bar que estivesse aberto para comprar um pouco mais de erva, já que as minhas haviam acabado quando decidi fumá-las enquanto eu estava sozinha. Afinal, eu merecia ter alguma diversão enquanto Emily não chegava. E, agora, eu me encontrava faminta.
— Esses bolinhos são ótimos. — Soou uma voz atrás de mim.
Automaticamente, virei-me para poder encarar quem estava se dirigindo a mim e fiquei ligeiramente impressionada com o tipo de beleza que o rapaz que me observava possuía. Ele não parecia ser alguém comum, e havia alguma coisa nele que me causou certo tremor.
Talvez fossem os olhos extremamente azuis, que mais pareciam lentes de contato, ou o corpo perfeitamente atlético que ele orgulhosamente exibia numa camisa de manga comprida colada ao peito.
— São mesmo. — Concordei com um sorriso forçado, voltando minha atenção no segundo seguinte para os inúmeros tipos de ervas que serviam de ingrediente dos diversos bolinhos à minha frente, numa fileira quase impecavelmente organizada.
— Aqui, leve estes. — Ele se aproximou de mim e me ofereceu alguns de sua própria escolha, soando muito gentil e, ao mesmo tempo, zombeteiro.
Ao perceber minha hesitação, sorriu e os colocou em minha mão cuidadosamente. Aquele simples toque fez alguma coisa se agitar dentro de mim, o que me fez encará-lo com altivez e curiosidade sufocante.
— Isso é tão embaraçoso. Você não se lembra de mim. — Ele parecia espantado. — Vamos lá, Ali, faça um esforço. — Encorajou-me esperançoso, fazendo com que uma luz se ascendesse imediatamente dentro de minha mente quando ele disse meu nome de maneira suave e profunda.
— Nick. — Sussurrei com o coração quase saindo pela boca.
Meus batimentos aceleravam rapidamente conforme algumas imagens de aproximadamente quatro anos atrás iam surgindo em forma de retrospectiva pela minha cabeça. Eu mal acreditava que fosse realmente possível reencontrá-lo logo aqui, meu ex-namorado de personalidades atrás.
— Você cresceu. — Ele disse, sorrindo preguiçosamente enquanto me analisava de maneira calculada. — Nunca pensei que a encontraria novamente.
— Você está... Diferente. — Decidi, rindo nervosamente.
Seu cabelo castanho, antes repicado e pontiagudo, agora tinha um leve topete de um homem educado e respeitador. Ele ainda era muito mais alto do que eu, e seus braços e peito agora pareciam mais fortes e firmes.
— Digamos que eu gastei um pouco do meu tempo na academia esses últimos anos. — Deu de ombros, sorrindo de lado quando percebeu que eu também estava analisando-o.
— Certo. — Assenti cuidadosamente, firmando meus pés ainda mais no chão. — Então? O que faz aqui, estranho? — Lancei um olhar incógnito a ele, sorrindo de forma amistosa e despreocupada.
— Eu trabalho aqui. — Respondeu como se fosse óbvio. — Eu me mudei há dois anos para cá, e consegui isso.
— Isso realmente dá dinheiro, não é? — Apontei para os bolinhos em embalagens diferenciadas na minha mão, sentindo-os pesar toneladas. Parecia errado fazer qualquer coisa sem Emily.
— Você não tem noção do quanto. — Afirmou enfaticamente. — E quanto a você, o que faz aqui? Além de passando suas férias como uma menina rica, claro.
Não pude deixar de sorrir, achando graça de sua observação. Ele instantaneamente cruzou os braços sobre o peito rígido, esperando uma resposta de maneira aberta.
— Eu estou me divertindo. — Balancei os saquinhos de outras ervas que tinha na minha outra mão animadamente.
— Você é muito perigosa. — Nick riu encantadoramente, mostrando que seu galanteio, mesmo que involuntário, ainda continuava o mesmo.
— Já me disseram isso. — Sorri fraco, lembrando brevemente de quando Emily me chamou assim. — Eu preciso ir. — Disse de repente, dando-me conta de que o efeito do que eu havia usado há alguns minutos antes estava começando a me deixar cansada e libertina.
— Posso acompanhá-la? Eu já estou de saída, de qualquer forma. — Ele se propôs gentilmente, pegando seu casaco e dizendo alguma coisa para o senhor que estava atrás do caixa-balcão.
No final, eu acabei decidindo por ficar apenas com os bolos de baunilha, chocolate e morango, que, como ingredientes, possuíam haxixe e maconha separados por sabor, uma vez que eu preferia ingerir e esperar pacientemente que os efeitos viessem. Fumar parecia tão... Vulgar.
O restante do tempo se passou lentamente, e eu mal tinha noção do que acontecia à minha volta, mas sabia que eu estava me divertindo horrores. E não me importei em, nem por um segundo, pensar em Emily. A raiva que eu sentia havia retornado em brasa, fazendo-me ponderar que se ela podia se divertir sem mim, eu também podia.
Portanto, quando retornei ao hotel, a única coisa que eu me lembro de ter feito foi tirar minha calça jeans e minha blusa de botões para, em seguida, me jogar na cama e apagar, ficando completamente fora do ar.
***
Bem aos poucos, o calor foi me despertando lentamente, deixando-me com a sensação de sufoco e agonia. Então, me dei conta de algumas batidas na porta, logo após a voz distante de Emily me chamando e dizendo que a porta estava trancada. Abri os olhos com dificuldade e tudo o que enxerguei foi uma vasta escuridão, foi quando percebi que havia braços fortes ao redor da minha cintura, como se estivessem me protegendo.
Minha cabeça automaticamente girou e meu coração disparou com a possibilidade.
Em instantes, o barulho do cartão sendo passado na porta soou ruidosamente até ela se abrir e permitir que um punhado de luz adentrasse o quarto enquanto eu mal tive tempo de me mover.
— Você... — Foi tudo o que ela conseguiu dizer quando acendeu a luz e me flagrou na cama, ainda seminua e... Com outra pessoa bem ao meu lado! — Não pode ter feito isso comigo. — Choramingou baixinho, desviando os olhos para o outro lado e fungando melancolicamente.
“Não pode ser” foi a primeira coisa que dolorosamente consegui pensar para, então, saltar da cama imediatamente, de repente ficando toda sóbria e racional novamente.
— Emily, espere! — Gritei quando ela deu às costas, caminhando para fora do quarto.
Comecei a recolher minhas roupas em cada canto e as vesti apressadamente enquanto tentava me equilibrar. Por último, peguei a jaqueta college de Emily e a coloquei no caminho para fora do quarto, batendo a porta com força ao sair no corredor de paredes resplandecentes e decoradas com diversos quadros num estilo sofisticado de Versalhes, com influências gregas, romanas e francesas.
Ela correu para o elevador, apertando os botões freneticamente para que as portas se fechassem a tempo de eu não conseguir alcançá-la.
— Droga! — Esbravejei quando as portas se fecharam.
— Alison! — Nick apareceu no corredor, vestindo sua camisa. — O que houve? — Ele perguntou assim que se aproximou de mim.
— Não houve nada. — Respondi insipidamente, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escorrer dos meus olhos. — Eu pensei que tivesse mandado você embora. — Alterei levemente o meu tom de voz, fitando-o nos olhos com empáfia.
— Agora pouco? Você nem olhou para mim. — Argumentou, soando ligeiramente magoado.
— Não, não agora. — Balancei a cabeça incrédula com alguns flashes que irrompiam do meu cérebro a todo vapor. — Quando tentou me beijar. — A lembrança estava cada vez mais nítida.
Antes de eu adormecer, estávamos sentados na cama, conversando sobre o dia em que terminamos, sobre quando ele também havia me flagrado com outra pessoa. Tudo parecia tão malditamente errado... Como eu explicaria aquilo para Emily?
Fechei os olhos com força por um momento, tentando engolir a fúria que, cada vez mais, invadia-me com tamanha propriedade. Agora, eu sentia raiva de mim mesma. Aquilo não era para ter acontecido, eu não deveria ter dormido. Não era para ter acontecido.
Com um simples movimento de cabeça, livrei-me de tais pensamentos e entrei no elevador assim que ele voltou, esperando que me levasse até o primeiro andar. Antes que as portas se fechassem, pude ver o desapontamento brilhando nos seus bonitos olhos azuis. Então, rapidamente, os números, de sete a um, foram caindo e logo eu já estava na recepção do Palace Western Hotel, situado num dos pontos mais agitados da cidade. Algumas pessoas entravam e saíam, tornando o fluxo do hotel quase rotineiro.
Caminhei a passos apressados até a porta automática, recebendo lufadas dolorosas do vento cortante no meu rosto e, junto delas, chuviscadas que aumentavam a intensidade progressivamente. Nem mesmo a jaqueta confortavelmente folgada de Emily era capaz de espantar o frio que castigava alguns e agraciava outros.
Corri imediatamente na mesma direção que ela, tentando alcançá-la numa tentativa frustrada de fazê-la parar e me ouvir, recebendo, porém, seu silêncio carregado de sentimentos ocultos que eu preferia não pensar a respeito. Nem mesmo a tempestade que se aproximava a cada batida eufórica do meu coração mostrava-se capaz de diminuir seu sagaz ensejo de continuar se afastando de mim. E, mesmo com sua provável visão anuviada, atrapalhada pelas gotas pesadas de chuva que ensopavam a nós duas, Emily não se importava de adentrar vielas escuras e desertas, no intento de que eu fosse simplesmente parar de segui-la.
— Emily, amor, por favor! — Resmunguei, dando potência à minha voz para que ela se sobressaísse ao barulho da chuva.
Conforme eu me esforçava para chegar até ela, minhas roupas molhadas e pesadas ficavam cada vez mais incômodas, tirando minha paciência aos poucos, uma vez que eu sabia que meu sistema imunológico era patético. O hotel, entretanto, não ficava muito longe de onde estávamos, porém o beco escuro e deserto em que nos encontrávamos parecia nunca ter fim.
— Eu sei que está brava comigo, mas você precisa parar por um minuto e escutar o que eu tenho a dizer. — Insisti mais uma vez, tentando fazer com que minha voz saísse clara e objetiva e não chorosa como eu temia.
— Eu não estou brava, Alison! — Contestou enraivecida, virando-se imediatamente para trás e encarando-me como se deixasse subentendido que sua raiva denominava-se mais em sentir dor.
E eu a conhecia o suficiente para saber que era exatamente isso o que ela, em silêncio, explicitava.
— Eu só estou tentando lidar com este sentimento amargo que desce rasgando pela minha garganta, que rouba meu ar e, no final, despedaça meu coração. — Confessou, abaixando a cabeça assim que algumas lágrimas ameaçaram a escorrer dos seus olhos.
Ela tentava arduamente ser forte e, por um momento, pensei que ela iria conseguir se segurar, mas, então, junto ao barulho da chuva, pude ouvir seu soluço ecoar dolorosamente nos meus ouvidos. Com isso, todas as minhas estruturas foram ao chão.
Minhas pernas se moveram mais rápido do que eu poderia calcular e, no instante seguinte, eu estava segurando-a nos meus braços, com os nossos lábios colados e corpos pressionados firmemente. Afastei algumas mechas de cabelo completamente molhado do seu rosto e aprofundei o beijo assim que senti seus pequenos e baixos soluços contra minha boca.
— Por favor, não chore. Eu amo você. — Sussurrei com dificuldade contra os seus lábios, apertando sua cintura contra o meu corpo ao senti-la tremer entre soluços quase mudos. Minha garganta arranhava dolorosamente, dando-me a sensação de que estava engolindo espinhos.
— Eu confiei em você... — Emily disse depois de alguns instantes, recuperando-se do seu breve momento de fragilidade. — E, em troca, você foi lá e me traiu. — Concluiu tristemente, tentando fazer com que eu me afastasse dela.
Ela queria que eu ficasse longe, então eu fiquei. Eu não precisava de ninguém que não queria estar comigo, ainda mais depois de me chamar de traidora — coisa que não sou e nunca seria.
— É o que você realmente pensa, não é? — Perguntei, fingindo indiferença e neutralidade e, então, recuando alguns passos para trás. — É o que sempre achou, que sou uma traidora. Indigna de sua confiança, como agora. Você já esperava que qualquer eventualidade que provasse que estava certa aconteceria! — Gritei, forçando minha voz a sair acima do barulho da chuva, deduzindo aos poucos com o olhar fixo no vazio obscuro que me cercava.
— Tudo o que eu sempre esperei de você foi comprometimento e honestidade! — Exclamou incrédula diante do que, inevitavelmente, saía da minha boca. — Eu esperava que você fosse me levar a sério, que seríamos um casal de verdade. Com um relacionamento saudável. Mas, pelo visto, depositei minhas esperanças no lugar errado. E na pessoa errada. — Enfatizou bem suas últimas palavras, relaxando os ombros e encostando suas costas na parede atrás dela. Um suspiro de dor e desgaste escapou dos seus lábios, provocando um arrepio desagradável na minha nuca. Talvez ela estivesse certa e eu errada. Era difícil admitir isso, mas era preciso.
— Eu estava tentando, Emily! — Esbravejei entredentes com um sentimento ruim florescendo em mim. — Eu tentei fazer o certo quando estávamos juntas, tentei ser boa o bastante para merecê-la, mas eu...
— Mas você estragou. — Emily me interrompeu, concluindo o que eu estava para dizer com a voz distante e deprimida. Em seguida, balançou a cabeça de maneira chorosa, como se afastasse algum pensamento ruim. — Eu não sou o suficiente para você, agora eu entendo.
— Não. — Neguei rapidamente. — Você está errada. O problema não é você, sou eu.
— Corta essa, Alison! — Forçou um riso agudo, cobrindo seu rosto com as mãos logo em seguida. Minha tentativa de reconciliação estava demorando mais do que o necessário, o que me levou a me reaproximar dela novamente e arriscar um contato físico delicado, porém cheio de significado.
— Eu sei que eu fui estúpida, eu sei. Mas você precisa acreditar em mim quando eu digo que não transei com ninguém além de você! — Disse baixinho, exasperando um pouco ao proferir as últimas palavras. — Aquilo que você viu não foi o que está pensando... Eu não fiz nada com ele, eu juro pela minha vida. — Choraminguei na esperança de que ela finalmente me escutasse e, por consequência, acreditasse em mim.
Ela tirou o rosto de suas mãos e olhou para mim. E, mesmo com as gotas de chuva que molhavam seu rosto, era possível distinguir as lágrimas silenciosas que escorriam dos seus olhos tristes. Aproximei meus lábios do seu ouvido, sussurrando calidamente:
— Eu não menti quando disse que você é a minha única exceção. E não estou mentindo quando digo que eu só quero você na minha vida. Emily, você tem que confiar em mim. — Supliquei em rendição, encostando a ponta do meu nariz no seu cabelo molhado.
Talvez eu estivesse apenas piorando a situação, mas o que eu não podia era deixar que ela continuasse com a ideia de que eu era uma traidora. Algo que não havia, de forma alguma, veracidade.
— Eu só quero que isso passe... Faça parar. — Ela implorou, agarrando-se ao meu pescoço enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto gélido e abatido.
Trouxe seu rosto para próximo do meu, analisando cada detalhe da sua feição e pedindo silenciosamente que ela me dissesse o que queria que eu fizesse.
— Faça minha dor ir embora. — Sussurrou com aparente desgaste emocional. Apenas isso foi o suficiente para me destruir em milhões de pedacinhos.
Encostei meu corpo no dela e a pressionei contra a parede, segurando sua cintura com confiança e propriedade. Em seguida, beijei sua boca ponderando força e gentileza, acariciando seu lábio inferior com a ponta da minha língua e, então, aproveitei sua falta de reação para aprofundar o beijo significativamente.
Tirei a jaqueta que eu estava vestindo e a joguei no chão, sentindo o efeito do vento contra os meus braços e tirando a de Emily logo em seguida. Sua camiseta branca estava transparente, o que me fez arrancar imediatamente seu sutiã por baixo dela e agarrar seus seios com vontade. Um gemido rouco, por pouco contido, ecoou dentre seus lábios colados nos meus.
Rapidamente, fui desatando os botões de sua calça e não hesitei em colocar minha mão dentro de sua calcinha encharcada. Sua respiração já se encontrava desestabilizada, uma vez que a minha atitude ousada mexeu com sua estrutura emocional e a fez esquecer por um instante que eu havia a ferido.
— Alison, o que está fazendo? — Ela suspirou com deleite, apoiando sua cabeça em meu ombro enquanto eu procurava sua entrada nervosamente.
— Se um beijo é capaz de curar dores, então imagine só o que um pouco de sexo intenso pode fazer? — Tentei dizer sem soar ansiosa pela excitação que o momento me causava.
Para minha inegável surpresa, ela sorriu e, então, me puxou para a escadaria que se distanciava a poucos passos de onde nós estávamos. Em seguida, beijou-me com ardor, ao passo em que eu a guiava até três degraus superiores ao chão, onde fiz com que ela se sentasse e, então, recostasse no degrau de cima. Nossos corpos colados um no outro acendia a chama que lutava para se libertar dentro de mim. Seria difícil me controlar, ela me queria tanto quanto eu a queria e tudo o que eu desejava era me entregar aos diversos sentimentos que bombeavam juntamente com os meus batimentos cardíacos.
Abaixei sua calça rapidamente, fazendo o mesmo com sua calcinha e introduzindo meus dedos na sua entrada quase no mesmo instante, enquanto nossas línguas lutavam para se manterem em contato. Houve um momento em que desisti de tentar e desci meus lábios até seus seios ainda por cima da camiseta, onde a suspendi e tomei seu seio esquerdo com a boca.
Seus gemidos tornaram-se cada vez mais audíveis, embora ela lutasse para controlá-los, quando aprofundei significativamente meus dedos na sua entrada e comecei um vai e vem intenso, estimulando seu orgasmo com muito mais eficácia. E o fato de estarmos fazendo sexo no meio de um beco escuro e quase totalmente silencioso, salvo pelo barulho da chuva, deixava tudo mais gostoso e satisfatório.
Meus lábios desciam pelo seu abdômen contraído, ao mesmo tempo em que minha mão livre agora massageava seus seios com firmeza. Deslizei minha língua de maneira ágil pela sua virilha, indo até sua intimidade sem pressa e tocando seu sexo úmido e inchado com uma já imposta pressão. Agora, eu já a estimulava de duas formas e sabia não demoraria até que Emily chegasse ao seu limite. E eu mal podia esperar, uma vez que minha boca sugava seu sexo com força ao tempo em que meus dedos a penetravam em movimentos contínuos e fora de ritmo, provocando seus inúmeros gemidos roucos e quase suplicantes.
Então, não demorou e um sabor diferente do da chuva inundou minha boca e eu logo fiz questão de lamber todo o líquido que escorria por dentre as pernas de Emily, que, rapidamente a isso, me agraciou sussurrando meu nome de maneira satisfatória.
Conforme eu tirava meus dedos de dentro dela, ainda com a minha língua deslizando por toda a extensão da sua intimidade, sua respiração começava a voltar ao normal, ficando cada vez menos entrecortada e difícil, assim como a minha.
Fui subindo com meus lábios aos poucos pela sua barriga, acariciando com a língua e sugando de leve o seu mamilo rígido para, enfim, chegar até sua boca e beijá-la apaixonadamente e sem pausas. Meus dedos tocavam cada parte exposta do seu corpo deliciosamente convidativo.
— Eu te amo tanto, Emily! — Sussurrei com a voz falha, tomando o cuidado para não machucá-la ao apoiar meu corpo sobre o dela, uma vez que ela ainda tinha suas costas apoiadas na quina do degrau. — Eu juro que não faria nada que pudesse fazê-la perder sua confiança em mim. Eu não sou uma traidora, nunca serei. — Assegurei, numa tentativa de expor toda a minha sinceridade.
— Conte-me o que aconteceu. — Pediu calmamente, como se houvesse acabado de ser restaurada.
— Agora quer saber? — Ri fracamente, mordendo seu maxilar levemente apenas para provocá-la.
Emily bufou e me empurrou de cima dela, recolocando suas peças de roupa e se recompondo em questão de instantes. Fiquei observando seus movimentos graciosos e decididos, e protestei quando ela virou às costas para mim. Subi os degraus rapidamente e peguei nossas jaquetas jogadas no canto da parede em que estávamos minutos antes.
— Contarei tudo assim que estivermos quentes e seguras no nosso quarto. — Prometi ao ajudá-la com os botões de sua calça jeans.
Recebi um olhar indecifrável de sua parte, fazendo com que eu sofresse por antecipação sobre o seu julgamento. Com isso, nossos olhares se dispersaram para outro canto à procura de mais alguma peça perdida pela vasta escuridão que aos poucos nos engolia.
Assim que voltamos ao Palace Western, Emily havia pedido para que trocássemos de quarto e dessa forma eu o fiz depois que tomamos banho; imediatamente nos transferi ao quinto andar para que ficássemos um dia e uma noite, uma vez que viajaríamos no outro dia.
— Está feito. — Anunciei ao entrar no quarto, referindo-me ao voo que eu havia acabado de reservar para nós duas. — Podemos conversar agora? — Perguntei com hesitação, esperando perto do batente da porta do quarto.
— Deite aqui comigo. — Emily deu tapinhas de leve na cama, onde estava deitada com o rosto colado no travesseiro, convidando-me a me juntar a ela.
Tranquei a porta atrás de mim e fiz o meu caminho até a cama, sentando-me de joelhos na sua frente. Um sorrisinho cansado cruzou seus lábios momentaneamente, fazendo com que eu me inclinasse em sua direção e a beijasse carinhosamente nos lábios.
— Eu sinto muito, Em. — Abaixei a cabeça, enrolando o lençol nos dedos nervosamente. — Eu não me lembrava do que realmente tinha acontecido, mas, agora, tudo está claro.
Ela parecia surpresa, então, com um movimento lento e atento a mim, apoiou sua cabeça sobre os cotovelos e esperou que eu prosseguisse.
— Eu pensei que eu tinha chegado e, então, dormido. Mas Nick e eu ficamos conversando, rindo e competindo sobre banalidades. — Lamentei com a voz calma e, ainda assim, tristemente arrependida.
— Você trouxe um desconhecido para o nosso quarto. — Ela refletiu vagamente, desviando os olhos para o vazio.
— Ele não é um desconhecido. — Discordei hesitante, evitando o seu olhar. — Você consegue se lembrar de quando eu contei a você sobre um cara mais velho com quem eu estava ficando?
Seu semblante sofreu uma drástica mudança, o que a fez se sentar na cama e encostar suas costas contra a cabeceira. Emily apoiou sua cabeça em seus joelhos, parecendo angustiada.
— É claro que eu me lembro, você estava tão animada. — Assentiu com a voz falha e cheia de mágoa.
— Bem, é ele. — Disse por fim, torcendo meus dedos com ansiedade. — Ele foi o meu namorado secreto, não Ian Thomas como vocês pensavam. — Admiti com seriedade, arqueando os ombros de leve.
— Eu estou enjoada. — Ela decidiu de repente, erguendo sua cabeça e arrastando seus joelhos para fora da cama.
— Emily... — Segurei seu pulso antes que ela pudesse se afastar para longe de mim novamente. — Estou tendo um momento de extrema honestidade com você, portanto tenha respeito. — Eu a repreendi com firmeza, fitando seus olhos com impecável decoro. — Agora, sente-se porque eu ainda não terminei.
Ela desviou seus olhos com a expressão indizível, então, muito a contragosto, fez o que eu havia pedido. E, ao contrário do que pensei, ela se manteve bem próxima a mim.
— Eu quero que você saiba o que realmente aconteceu, quero que você me escute com atenção. — Emily assentiu lentamente, agora com os olhos nos meus. — Eu sei que foi terrível o que você viu, eu sei, e também teria ficado furiosa se fosse você. Mas eu posso garantir que não houve nada enquanto você não estava. Foi só conversa jogada fora e risadas à toa... Nem um beijo, eu juro.
Conforme eu falava, as memórias brotavam impertinentes na minha cabeça. Eu tinha que tomar certo cuidado para que não as confundisse e acabasse dizendo o que não havia necessidade.
— Sabe qual é o problema? — Emily disse de repente. — Eu conheço seu temperamento, sei dos seus momentos de inconstâncias e, também, dos seus caprichos. Tenho completa consciência de que você é possessiva, controladora e tempestuosa, e eu sei lidar com tudo isso.
Ela pausou, tomando um generoso e delicado punhado de fôlego. Eu permanecia quieta e atenta ao que Em dizia, esperando que o que ela fosse acrescentar trouxesse bons frutos para nós duas, ao invés de condenar e estragar todo o meu esforço.
— No entanto, o que eu não posso lidar é com a falta de certezas sobre o nível do nosso relacionamento. Eu não consigo decifrá-la nos momentos cruciais, como também não consigo lidar com a ideia de que um dia você pode acordar e perceber que eu não sou com quem você gostaria de estar. — Confessou num sussurro, deixando com que uma lágrima silenciosa escorresse pela sua bonita maçã do rosto.
Nesse mesmo instante, eu me inclinei em sua direção e a beijei nos lábios, tocando seu rosto delicadamente. Sua fragilidade provoca um inegável senso de proteção em mim.
— Olhe para mim. — Pedi vertiginosamente, erguendo seu rosto com cuidado. — Eu amo você e não existe nada neste mundo que me faça questionar isso. — Assegurei a ela com um sorriso torto e sincero, beijando sua testa afetuosamente.
— E por que ainda me sinto tão mal? Como se faltasse algo... — Ela murmurou vagamente.
— Porque eu fui estúpida e fiz com que se sentisse assim. — Respondi amargamente, puxando-a para mim.
Ela se aconchegou no meu peito, deitando-se de forma confortável, e logo tratei de puxar os lençóis para cima de nós duas. O quarto estava quente o suficiente para nos permitir a usar poucas roupas, o que deixou nossas peles em contato uma com a outra. Meus dedos acariciavam seus cabelos de forma preguiçosa e, aos poucos, ela foi se rendendo ao mais profundo sono. E era muito compreensível, uma vez que seu cansaço ia além do físico.
— Eu sinto muito. — Beijei o topo de sua cabeça com candura, fechando os olhos em seguida. Então, não demorou muito e eu havia me juntado a ela...
***
Havíamos pegado o último voo para irmos até Luxemburgo, onde ficaríamos alguns poucos dias antes de embarcamos para Lorena, uma região do nordeste da França — Luxemburgo fazia fronteira com alguns países, como Alemanha, e bastava pegar um trem para chegarmos ao nosso verdadeiro destino desde o início. Emily, porém, tornou-se ansiosa para finalmente deixar a Holanda, por razões que ela não ousaria trazer à tona tão cedo.
Então, quando chegamos à cidade luxemburguesa, nos deparamos com diferentes culturas e adoramos isso, visto que passamos algumas semanas vivendo desta maneira: cultuando o desconhecido e exaltando o que de novo nos viesse saudar na Holanda do Norte.
Apesar de ser quase dez horas da manhã do dia seguinte em Luxemburgo, o céu não estava tão claro quanto deveria estar. O tempo duramente cinzento dava a impressão de beirar às oito horas da noite. Agora, estávamos a caminho do Castelo de Vianden, no distrito de Diekirch, num carro que eu havia alugado apenas para passar o nosso último dia e conhecer os lugares que pudéssemos antes de partirmos.
— Ali, sinto falta das meninas. — Emily choramingou assim que leu em voz alta o e-mail que havia acabado de receber de Hanna. — Spencer me mandou um e-mail também. Ela perguntou se eu já quero voltar. — Ela disse em meio a um riso fraco, ao mesmo tempo em que seus olhos estavam baixos e concentrados em nossas mãos entrelaçadas no seu colo, o que também me fez rir sem que ela notasse.
— Spencer é de quem eu menos sinto falta. — Comentei com um fio de raiva escondida num tom natural de deboche.
— Você ainda está brava por ela ter interrompido nossa noite romântica? — Emily sorriu divertidamente, inclinando-se em minha direção e beijando o canto dos meus lábios castamente para, em seguida, morder meu maxilar de leve.
Instantaneamente, um apaziguamento se instalou outra vez em mim, fazendo-me relevar o fato de Spencer ter conseguido azedar todo o clima romântico que eu mesma havia criado especialmente para Emily depois que chegamos à capital de Luxemburgo, a qual possuía o mesmo nome.
Com sua ligação repentina bem no meio do nosso banho de banheira, Spencer havia feito Emily escutá-la sobre todas as infelizes novidades que diariamente ocorriam com sua família perturbada.
No entanto, antes de finalizar a chamada, ela havia pedido para conversar comigo e aproveitou para me contar em primeira mão que sua avó falecera há duas semanas. Então, muito a contragosto e ligeiro ressentimento, me explicou que a leitura do testamento havia sido no dia anterior à sua ligação e que eu estava nele. Segundo Spencer, eu havia herdado o dobro da fortuna que a vovó Hastings deixara a ela — e isso, certamente, se dava ao fato de eu ter ficado com a parte da minha irmã mentalmente insana.
— Vamos apenas dizer que ela consegue ser uma vadia muito inconveniente quando quer. — Dei de ombros, afastando todos os pensamentos desnecessários para o momento e voltando a prestar atenção nos caminhos que eu tomava pela frente, uma vez que era muito fácil se perder nas diversas entradas que davam à Vianden.
Emily olhou ao redor com os olhos semicerrados, então pegou o Guia da Cidade de Luxemburgo e começou a citar os lugares de que mais gostou, esquecendo-se do tópico “Spencer-estraga-prazeres” por um momento.
— Eu acho que já passamos por aqui. — Emily observou depois de um momento, atentando-se às montanhas compostas por árvores que cercavam ambos os lados da estrada.
Seus olhos brilhavam alegremente com tamanha intensidade do verde que a natureza esbanjava sem rogo. Alguns arbustos volumosos insistiam em rebelar-se para fora do guard rail de concreto, acentuando ainda mais as vistas fotogênicas vindas de todas as partes. Havia alguns dias que Emily insistira para fazermos um tour nas redondezas de Diekirch e o primeiro atrativo que ela escolhera, mas estávamos realizando somente agora, havia sido o tão famoso Castelo de Vianden.
— Não me lembro. — Murmurei com indiferença enquanto eu dirigia pela estrada cheia de curvas e paisagens exuberantes. Pelo canto do olho, vi que agora ela tinha seus olhos cravados em mim.
— Você tem certeza? Porque acho que foi por aqui que você se perdeu. — Ressaltou com um sorriso contido de reminiscências para, logo em seguida, explodir numa gargalhada deliciosa.
— Eu não me perdi, está bem? — Disse no meio de uma tentativa falha de conter uma risada. — E, de qualquer forma, isso me ajudou a conhecer melhor por onde estávamos andando. — Expliquei, dando de ombros logo em seguida.
— Como quiser, senhora sabe-tudo. — Emily assentiu, voltando sua atenção ao mapa em seu colo.
Pouco mais de cinco minutos mais tarde, estacionei o carro e observei enquanto Em montava coordenadas interessantes no verso do mapa de Luxemburgo. Ela possuía habilidades engraçadas e meramente questionáveis, digamos.
— Nós já chegamos, só para você saber. — Anunciei, inclinando-me em sua direção e depositando um beijo casto no seu rosto.
Repousei minha mão sobre sua coxa e encostei minhas costas no couro macio do banco, passando a observar Emily com cuidado e atenção. Ela usava jeans preto skinny que detalhava perfeitamente suas deliciosas curvas e usava, também, um casaco azul marinho que me pertencia, e o qual ela adorava. Enquanto isso, seu cabelo clareado nas pontas espalhava-se longamente pelos seus ombros e costas, deixando-a ainda mais irresistível.
— Em, eu já disse o quanto eu amo vê-la usando o meu casaco? — Perguntei casualmente, ajeitando minha cabeça para melhor fitá-la. Ela parou imediatamente de rabiscar as coordenadas e lançou seu olhar divertido em minha direção.
— Você disse ontem depois que fizemos amor. — Gorjeou. — No entanto, é sempre bom ouvi-la dizer isso. — Sorriu docemente, inclinando-se para mim e beijando-me nos lábios demoradamente.
Ela deixou o mapa de lado e se dedicou mais ao nosso beijo cheio de carinho, pegando minha mão que antes estava em sua coxa e a entrelaçando na sua. Eu ri nervosamente quando senti a ponta do seu dedo polegar pressionar contra a palma da minha mão direita, causando-me cócegas suaves e arrepios na nuca.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você sabe por que eu adoro este casaco? — Ela se afastou pouquíssimos centímetros de distância dos meus lábios, apontando com os olhos para o nosso casaco. Talvez eu fizesse alguma ideia, mas eu gostaria de ouvi-la dizer por que ela gostava. — Porque é a minha cor favorita, azul índico, que também é a cor dos seus olhos. — Ressaltou com um sorriso satisfeito e preguiçoso, selando meus lábios brevemente.
— Isso me faz lembrar a vez em que eu havia lhe dado um conjunto de pijamas provocativos na cor azul escuro, dizendo que era para que você nunca se esquecesse de mim. — Suspirei relaxadamente, tocando seu rosto com carinho e sorrindo com o efeito que certas lembranças tinham sobre mim.
— E eu disse algo do tipo, “como se isso fosse realmente possível”. — Admitiu como se tivesse sido a coisa mais boba que ela havia feito. Mas, no fundo, eu sabia que Emily ainda possuía mágoas dessa época, uma vez que eu sempre tirei vantagem de sua paixão por mim.
— Perdoe-me por todas as vezes que eu fui cruel com você. — Peguei sua mão e a beijei afetuosamente, encostando meu rosto na palma. Um sorriso gentil e condescendente cruzou seus lábios.
— Eu já te perdoei há muito tempo. — Garantiu-me, descendo sua mão até o meu pescoço e puxando-me para um beijo lento e cheio de carícias. Seu lábio inferior roçou contra o meu de uma forma quase erótica, porém, antes que as coisas começassem a esquentar demais, Emily parou o beijo devagar. Em seguida, abriu os olhos e me fitou com um olhar cintilante. — Porque eu amo você.
— Eu também amo você. — Sussurrei de volta, mordendo seu lábio e sorrindo amplamente com o brilho que estampava seus profundos olhos negros.
— Agora vamos antes que fique muito tarde e não dê para vermos os lagos e alimentarmos os patos. — Apressou-me animada, apontando com os olhos o castelo acima das montanhas de árvores que o cercavam deliberadamente.
Saímos do carro e subimos a colina que nos levaria em direção ao tão requerido Castelo de Vianden. E, assim que chegamos ao imenso portão grosso de ferro da entrada, Emily começou a tirar fotos e enviar para Aria, que certamente morreria para estar aqui também. Aria considerava-se uma artista com uma mente aberta e de visão multifocal, portanto, tudo o que envolvesse Arte, Filosofia, História e Literatura, ela estava mais do que dentro; seu interesse era genuíno e, digamos, um pouco insano. Mas ela era uma artista, e a insanidade faz parte do pacote e, às vezes, é o brinde que não fazemos questão.
— Estamos sozinhas, que divertido. — Murmurei insipidamente, olhando ao redor e analisando toda a arquitetura medieval que compunha o interior do castelo.
— Você pode ao menos fingir que está gostando? — Emily voltou-se para mim, parando perto de uma estátua numa posição engraçada no canto do longo corredor.
As paredes e o chão eram o mais puro concreto, talvez pelo fato de estar em obras de recuperação, o que era muito compreensível, visto que quando o castelo voltou para as mãos do governo daqui estava em total ruína. No entanto, ainda era perfeitamente possível ter uma noção de como era em seu tempo medieval.
— Ainda não estou me divertindo, mas eu sei que vou. — Assegurei com um sorriso levemente forçado.
Emily me arrastou por todos os gigantescos cômodos, vez ou outra se aconchegando em mim para admirar as armaduras empoleiradas em cada canto. Eu, entretanto, não fazia muita questão de prestar atenção, uma vez que toda a minha concentração eu dedicava somente a ela. Eu estava tão voltada à minha felicidade que mal conseguia ser capaz de assimilar o contexto de toda a história que o castelo tentava passar.
Emily era a minha felicidade, meu porto seguro — o lar que eu sempre quis e jamais encontraria em alguém. E eu precisava urgentemente que ela soubesse disso.
— Por que está tão distraída? — Ela havia notado quando estávamos no quarto que pertencera a alguém importante da realeza na época medieval. — Eu estou te entediando?
— De maneira alguma. — Neguei rapidamente, puxando-a para perto de mim gentilmente. — Eu só estou pensando, nós realmente deveríamos estar nos amando loucamente na cama do hotel, ou no chão, se assim o preferisse. — Disse casualmente, meu tom beirando a sugestão.
Ela riu e então puxou meu rosto para um beijo rápido e significativo. Envolvi sua cintura delicadamente, abraçando-a forte e não a deixando escapar. E, cada vez que eu a tinha em meus braços, uma sensação gostosa varria minhas entranhas, dando espaço para as infinitas borboletas se perpetuarem em meu estômago.
Somente ela tinha esse efeito sobre mim, e eu a amava com todo o meu coração. Ela era, para mim, aquilo que as pessoas chamavam de redenção, pelo simples fato de eu me transformar em alguém diferente quando estava em sua presença. Além disso, trazia-me de volta o que há muito eu havia perdido e, por conseguinte, esquecido; Emily aquecia o meu coração e desabrochava a bondade que um dia existira, porém me fora arrancada da forma mais egoísta. Ela me fazia querer ser boa, tomar as decisões certas e dividir minha vida com ela.
— O que houve? — Emily perguntou assim que regressamos ao carro, notando que eu havia parado em frente à porta do motorista de repente.
— Nada, eu só acabei de me dar conta. — Disse com a voz distante, inalando o forte cheiro de eucalipto.
— Droga, você esqueceu alguma coisa lá em cima? — Ela olhou desanimada para o topo do monte que cercava o castelo, de frente à porta do passageiro.
— Não. — Ri confortavelmente, observando um alívio genuíno tomar conta de sua expressão. — Eu só percebi que também quero que você seja minha para sempre. — Confessei timidamente, baixando os olhos por um segundo e perdendo sua reação diante do que eu havia acabado de lhe dizer.
— Serei sua por toda a eternidade. — Prometeu decididamente, segurando a emoção que irradiava dos seus olhos.
— É uma pena que você esteja tão longe agora. Caso contrário, eu a agarraria agora mesmo e ninguém seria capaz de me fazer soltá-la. — Sorri de maneira terna e divertida, destravando as portas e assistindo enquanto Emily deslizava para dentro do carro com um sorriso quase tão jubiloso quanto o meu.
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