Notas iniciais
Ficou menor do que eu esperava, mas achei melhor não enrolar muito com algo que já era mais do que esperado.
Boa leitura, que enfim é o último. :D

Flashback

Num quarto de hotel, Aoi lia alguns relatórios e tentava esvaziar sua mente de pensamentos que pudessem levá-lo de volta aos olhos castanhos que por tantas vezes ele sentiu se perder em suas imensidões. Não estava sendo tão fácil quanto ele imaginava, mas todas as vezes que a cena de Uruha beijando outro homem cobria seus olhos ele sentia seu estômago embrulhar, lhe causando náuseas, e seus olhos lacrimejarem.

Ele amava aquele homem, mais do que a si próprio. E não ia ser por puro egoísmo do outro que ele ia jogar tudo fora. Tinha uma longa vida pela frente, e a viveria, mesmo que longe de quem tanto amava, ele se julgava capaz de conseguir lidar com a falta.

Eram quase onze horas da noite quando percebeu que faltavam alguns documentos importantes que deveriam ser entregues na manhã seguinte. Ele não havia os trazido com sigo da última vez que fora ao seu antigo apartamento, havia se esquecido, nem ao menos teve vontade de passar pelo seu escritório, apenas havia pegado o resto de suas coisas no quarto e saído o mais rápido possível. Agora teria de buscá-los e consequentemente ver mais novo outra vez.

Aquela com certeza seria uma grande provação para si. Certamente Kouyou estava em casa naquele horário e teria de encarar o fato de vê-lo, para o desespero de seu coração machucado.

Deixou a pilha de papeis onde estava e saiu. Tomou um táxi e em menos de quinze minutos estava em frente ao prédio que até pouco tempo atrás habitava. Não tinha porque ficar enrolando, era adulto e todo de sua consciência; era entrar, pegar o que precisa e sair; fim de história.

Não houve necessidade de seu nome ser anunciado, então subiu diretamente ao terceiro andar onde ficava o apartamento tão seu quanto de Kouyou, mas que havia abdicado completamente.. Caminhou pelo extenso corredor até encontrar o número 306. Pôs a chave na fechadura a girando, a grande peça de madeira se abriu em um “clic”.

Estava tudo calmo demais, tudo quieto demais, tudo vazio demais. Caminhou a passos lentos até o quarto, por um momento achou que o outro não estaria em casa. “Deve estar se refestelando pelos bares já que agora não tem nenhum idiota que o prenda em casa.”, pensou. Abriu a porta do quarto e também não encontrou nada, cada passo que dava pelo assoalho bem cuidado o levava ainda mais a crer que o outro estava muito bem longe de si, feliz e excitado na cama de outro. Seus passos agora ecoavam novamente pelo corredor, e notando a porta do quarto de hóspedes aberta – coisa que Kouyou detestava, pois enchia o, lugar quase nunca utilizado, de pó – resolveu parar ali para fechá-la e ao adentrar a porta do local e que sentiu seu coração comprimir-se contra o peito.

Sobre o chão havia um corpo esguio, mais magro do que lembrava algum dia já ter visto, jogado de qualquer jeito no tapete felpudo, alguns fios de cabelo sobre o rosto, os lábios entre abertos por onde uma espuma esbranquiçada escorria. Não sabia o que fazer, não esperava encontrar o outro daquela maneira. Esperava encontrar o outro em plena festa, feliz por ter se livrado de si, desfrutando da liberdade que havia conquistado à custa de um coração quebrado. Não espera encontrá-lo daquela forma, na verdade não queria acreditar que aquilo realmente estava acontecendo.

Kouyou havia tentado se matar?

O mais velho saberia a resposta, se houvesse reparado nas cartelas de comprimido sobre a cama do quarto que um dia fora deles, se houvesse reparado na garrafa vazia de vodka esquecida quase abaixo da cama – um pouco ao lado do corpo do mais alto. Porém ele estava longe, sua mente vagava pela possibilidade de nunca mais ver o outro, pela possibilidade de ter encontrado o amor da sua vida morto – jogado e largado.

Quando seu cérebro finalmente pareceu entender e processar a situação, correu em direção ao corpo do outro e assim que verificou que ainda havia pulso – mesmo que fraco – pegou-o em seus braços e saiu correndo apartamento a fora. Assustando o porteiro de cabelos grisalhos e atacando o primeiro táxi que passava pela rua, nem ao menos se importando com o fato de ele já estar ocupado. Estava com medo, muito medo.

Só quando adentrou o táxi e ajeito o corpo do outro sobre si, que teve a oportunidade e tentar avaliar a situação. O mais novo estava inconsciente, pode leigamente constatar. Sua pulsação era fraca e sua respiração falha, tinha as pálpebras dilatadas e salivava – ainda que insignificantemente – pelo canto dos lábios – sempre tão desejosos e convidativos e que agora possuíam uma coloração pálida. Não era médico, não sabia dizer mais do que seus olhos escuros viam e esse era o seu medo, não saber o que se passava com o outro estava o deixando desesperado.

Não poderia perder o mais alto. Apesar de tudo, ainda amava aquele homem e precisa dele ao seu lado.

Apressou o motorista que já ia o mais rápido que a lei lhe permitia.O hospital não ficava tão longe dali, ele poderia salvar o outro, ele tinha que salvar. Havia tomado uma decisão assim que entrara naquele taxi, faria o possível e o impossível para torná-la real.

Fim do Flashback

- Obrigada, Yuu. – mesmo que cansado, um sorriso brotou em seus lábios. No final das costas seu plano não havia dado tão errado, havia ido para o céu e reencontrado o anjo da sua vida. Anjo de olhos negros e profundos, lábios fartos e pele macia.

- Eu fiz o que deveria ser feito. – Acariciou o rosto do homem deitado sobre a cama e se afastou deixando o quarto. – Apesar de tudo que passamos, sou humano e não o deixaria lá daquela forma.

Mesmo assim, mesmo com Yuu ali, Kouyou não se sentia satisfeito, satisfeito consigo mesmo. Agora mais do que nunca se sentia um nada. Nem se matar ele conseguiu, como então conseguiria levar um amor adiante? Como ele seguiria sua a vida com o peso de um fracasso e a falta de um amor? Morrer? Isso ele já havia tentado e infelizmente, a seu ver, não havia conseguido. “Deprimente, Takashima, deprimente. Idiota o bastante para não conseguir dar um fim na sua própria desgraça.”, xingava-se mentalmente. Vendo por outro lado, por um lado mesmo auto-flagelador, ainda havia um ponto positivo, ainda havia uma chance, uma esperança, uma luz no final do túnel. Yuu estava ali e era tudo que importava no momento.

Era manhã de terça-feira. Naquela tarde Kouyou receberia alta e poderia voltar para casa, o que o deixava bastante agitado, já que odiava hospitais e o estranho enjôo que sentia ao encarar as paredes pálidas daquele lugar. O sol entrava sem timidez alguma pela janela do quarto, assim o loiro mel se sentia um tanto mais vivo, uma energia boa parecia circular por suas veias, mas não totalmente. Ouviu a porta se abrir e um homem que aparentava uma aura negra – devido os olhos, o cabelo e a coloração tão comum das roupas – que contrastava completamente com o local onde estavam, mas que na verdade possuía uma das almas mais puras que já haviam cruzado na vida de Kouyou, adentrar o cômodo. Sorriu ao que o outro se sentou na cadeira ao seu lado e segurou sua mão.

- Kouyou, eu sei que você ainda está debilitado, mas nós realmente precisamos conversar. – Negros nos castanhos.

- Eu sei que precisamos conversar, Yuu, eu preciso te explicar o porquê de eu ter feito isso. – Abaixou a o olhar, mordendo os lábios ressecados.

- Não, você não precisa me contar. Não precisa me contar o porquê de você ter vindo parar aqui, não agora, não preciso saber o motivo, por mais que eu já tenha uma leve ideia sobre tal. Só me diga o porquê de ter me traído. Por mais que eu tente não consigo entender. – Suspirou, soltando a mão do outro.

- Bem, não sei explicar direito, é complicado até pra mim. No final das costas te traí porque não te amava, isso era o que eu achava. – Reatou o contato visual. – Enquanto eu dizia que você não me amava eu estava tentando convencer a mim mesmo que eu não te amava. Estava completamente confuso e nem me dava conta, negando o óbvio e sendo idiota por não aproveitar tudo que eu tinha em mãos.

- Mas por quê? – Insistiu o outro.

- Não sei, eu estava confuso, nunca imaginei que poderia me apaixonar a ponto de amar alguém, nunca imaginei que você poderia ser o sentido da minha vida e quando o perdesse desejasse a morte. – Lágrimas se formaram em seus olhos, ameaçando caírem a qualquer momento. – Acho que me sinto mais perdido agora do que antes. Não consigo te explicar o porquê das merdas que eu fiz, porque eu não consigo explicar nem a mim mesmo, aquela não foi a primeira vez que te traí. – Fez uma pausa, esperando alguma reação que não veio. – Me sinto um crápula em te falar isso, mas te esconder a verdade não é algo que eu deva fazer. Quero tentar me redimir, mesmo que você não me queira mais por perto, quero tentar ser alguém melhor, quero tentar sem melhor pra você.

- Kou. – Ousou chamá-lo pelo apelido. — Entenda uma coisa: Eu te amo demais para suportar ficar longe de você, esse meses que nós ficamos longe um do outro foram os piores da minha vida. Eu não saberia o que seria de mim se essa sua tentativa se suicídio tivesse sido bem sucedida. – Um riso fraco escapou dos lábios de ambos, ao mesmo tempo em que pequenas lágrimas estampavam suas faces. – Não digo que te entendo, ou que vou esquecer tudo isso. Porém, estou disposto a te dar uma nova chance, a dar uma nova chance para nós dois. Sei que também tenho uma parcela de culpa, negligenciei muito tempo para nós dois, não te dei a atenção devida. Erros fazer parte da vida, parte da existência humana, e só cabe a nós humanos aceitarmos esses erros e tentar modificá-los. Nenhum amor é perfeito, não vivemos em um conto de fadas, precisamos de imperfeição para viver bem com tudo a nossa volta. – Ouviu o outro fungar, perdido entre lágrimas e felicidade. – Se você estiver disposto a viver, eu também estou.

- Então você me perdoa, Shiro? – Perguntou baixinho, sem encontrar palavras para responder ao mais velho. – Estou mais que disposto a viver, a reverter as burradas da minha vida, mas só quero viver se for com você.

- Não tenho porque não te perdoar, sei que está sendo sincero, posso ver nas suas lágrimas. Só não me machuque de novo, dói demais, Kou. – Sorriu em meio às lágrimas.

- Prometo dar o meu melhor, para sermos uma única alma até o final de nossas vidas.

-

Era uma bela tarde de verão. Kouyou e Yuu passeavam de mãos dadas pelas redondezas do Palácio Imperial, gostavam daquele lugar. Crianças brincavam alegres ao redor deles. Era um dia perfeito, ao menos eles diziam isso. Não se importavam com os olhares tortos lançados para suas mãos dadas ou demonstrações de afeto, se amavam e nada mais importava.

Nada voltou a ser como antes e nem voltaria. Por mais que Aoi amasse o outro ele ainda ficava apreensivo com as saídas noturnas de Uruha, mas bastava ao acordar ver o corpo esguio deitado ao seu lado – na cama — todas as suspeitas sumiam, um sorriso brotava em seus lábios e ele se via tentado a beijar os tão bem desenhados lábios do outro. O loiro, com o tempo fora aprendendo a lidar com aquele sentimento tão novo para si, era estranho amar, o amor era estranho para si; tinha medo, medo de estragar tudo de novo, pois ele sabia que se o moreno partisse outra vez não voltaria novamente, não é de o seu feitio dar uma terceira chance a algo ou alguém, tinha seus princípios.

Não houve mais brigas nem reclamações. Takashima até poderia passar o dia todo sozinho em casa, coisa que acontecia raramente agora que Yuu passara a trabalhar mais em casa, que ao cair da noite ele receberia o outro com beijos carinhosos. Ele estava amando e se sentia bem com essa sensação, por mais estranha que ela parece, estava amando amar o outro.

Aoi nunca pressionou o para contar o porquê de ele ter tentado se matar, ele sabia o real motivo, e isso lhe machucava mais como se adagas estivessem sendo perfuradas em sua pele. Então ele apenas fingia esquecer-se de tudo e fazia o que fosse possível para ver o sorriso brotar nos lábios em forma de coração do mais novo.

- Koi, vamos para casa, já esta anoitecendo. – Levantou-se e se pôs a caminhar, mas logo sendo parado por uma mão em seu pulso. – O que foi? – Virou-se em direção ao mais alto.

- Eu te amo. –O outro sorriu, passando seus braços em volta de sua cintura fina, em um meio abraço.

- Eu também, Kou. Eu te amo. – Passou braços em volta do corpo de Uruha e puseram-se a caminhar fazendo o caminho de volta para casa.

Não é errado amar, errado é ter medo de amar. Medo é a ausência de fé e o amor é a fé que um ser deposita no outro.

O amor certas vezes nos leva a cometer ações que parecem ser erradas, que aos nossos olhos e aos dos outros são erradas, mas que nosso coração julga ser o melhor. O amor nos trás novas sensações, eleva nossa alma e contempla o ser amado com plenos sorrisos. Não há porque não querer amar, não há porque não perdoar, quando amor é forte o suficiente para passar por cima de qualquer barreira que imponhamos.

O amor não nos pede licença, não avisa quando está chegando. Apenas nos pega e faz gato e sapato de nossos corações, mas ele é fundamental, essencial e não há ser no mundo que possa viver ser ele, viver feliz sem ele.

Fim.

Notas finais
Então é isso. The end.
Obrigada por todos os reviews, todas as favoritações, todas as recomendações, todo o tempo que vocês perderam lendo a minha humilde história. Obrigada de coração, a todos vocês.
Espero que tenham gostado, pois ela fora feita com toda a dedicação possível.
Beijão e espero encontrar vocês numa próxima. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!