This Hunter Saved my life
1 When an angel appears
Notas iniciais
Deixem seus comentários, okay? Beijos O/
P.O.V Liah
Abri os olhos, tremendo e suando. Os pesadelos. Continuavam acontecendo. Estão cada vez piores.Minhas íris demoraram um pouco para se acostumarem com a luminosidade repentina, mas em alguns segundos eu já enxergava normalmente. Ajeitei meu corpo que estava paralisado pelas horas dormidas e olhei ao redor, suspirando ao reconhecer a familiaridade da coisa toda. Na janela ao meu lado, as árvores passavam como um borrão e algumas construções de beira de estrada ficavam para trás. O Chevette 82 continuava avançando sobre o asfalto, desde a hora em que eu apagara no banco de carona.
-Bom dia, Bela Adormecida.- falou Rachel, minha irmã, no banco do motorista, com uma das mãos no volante e o outro braço apoiado na janela totalmente aberta.
-Não dormiu a noite inteira?- perguntei, esfregando os olhos e me espreguiçando do jeito que dava.
-Não tô cansada.- afirmou, dando de ombros.- E eu ia parar para dormir, mas Steve me ligou e adivinha só? Temos um caso.- fingiu animação, sem tirar os pés do acelerador.
-Eu deveria ficar surpresa com isso?- comentei, com uma das sobrancelhas levantadas em direção a ela.
-Não.- disse finalmente, me estendendo um jornal dobrado.- Ele me avisou e eu dei uma checada no jornal. Parece ser o nosso tipo de coisa, mesmo.
Capturei o objeto com os dedos e li a primeira matéria, que tinha o título em negrito e letras grandes. Dei uma lida rápida na matéria, que havia sido escrita um dia antes.
Homem encontrado morto de maneira bizarra
O empresário Kirk Rort foi encontrado morto nesta manhã de terça feira, pela filha mais velha, Emily. Ele foi encontrado no banheiro, com os olhos sem pupilas e uma poça de sangue. Os médicos dizem ter sido uma hemorragia cerebral que chegou até os nervos do cérebro. A casa não tinha sinais de arrombamento e nada suspeito. Será que temos um assasino a solta? A polícia alega não haver motivo para medo, portanto, só podemos prestar nossos pêsames para o falecido.
-escrita por Suzanne Wibson
-Tem razão, parece ser nosso tipo de coisa.- admiti, franzindo a testa para o papel.- O que pode ser? Ghoul? Espírito vingador?
-Talvez.- Rachel disse, os olhos focados no horizonte que se estendia a frente de nós.- Mais uma hora para chegarmos lá. Se quiser voltar a dormir e esperar seu príncipe, ainda dá tempo.
-Cala a boca!- falei, revirando os olhos.
Rachel riu, depois ligou o rádio, que começou a tocar Nirvana. E ao som da voz de Kurt Cobain, o Chevette rolou os pneus sobre o asfalto.
Portalnd, Oregon
Caminhamos até o outro lado da rua, onde a casa de Kirk Rort se erguia sobre a calçada, criando sombras contra o chão. Era pintada de branco, um sobrado não muito grande. No jardim, algumas pessoas iam e vinham, a grande maioria policias. A faixa amarela Do not cross estava em quase todos os arredores.
-Droga!- reclamei comigo mesma.
-O que foi?- perguntou Rachel, parecendo surpresa com minha reclamação.
-Esses saltos! Machucam meus pés, são muito altos!
-Argh, para de resmungar. São lindos, então relaxa e segura a onda.- falou, decidida.
Para ela era fácil falar. Parecia extremamente confortável em seu vestido azul marinho e saltos da mesma cor, maquiagem impecável. Já eu, de cara lavada, conjunto de saia e blusa social pretos e saltos iguais, estava me sentindo estranha. É claro, Rachel não precisa fazer esforço para ser bonita. Ela é ruiva, com olhos verdes. Eu, tenho cabelos castanhos e olhos da mesma cor, só que mais claros. Totalmente sem graça. Por onde ela passa, as pessoas param para olhar. Ela nega, mas a verdade é que sempre vivi a sombra dela. Mesmo, eu sendo um ano mais velha.
Estávamos quase na casa do homem falecido, quando um policial nos barrou na entrada.
-Quem são vocês?- perguntou, tom de voz firme. Acho que para um policial, é a primeira coisa que eles checam ter.
-Agentes Jackson e Potter, FBI.- falou Rachel, enquanto nós levantávamos nossos distintivos falsos respectivamente.
O policial assentiu e nos deu passagem, sem dizer mais nada. Passamos por ele e entramos na casa, os pares de saltos fazendo barulho no chão. Vimos um homem no corredor, ele conversava com um senhor que tinha as palavras médico legista escritas na parte de trás da jaqueta. Quando nos viu, interrompeu a conversava e veio até nós, enquanto o outro tirava fotos da casa, provavelmente para análise.
-Como posso ajudá-las?- perguntou, chegando perto. Só quando estava perto o bastante, o vi direito. Ele era jovem, uns vinte e poucos anos, cabelos cor de ferrujem e olhos azuis. Uau, foi a primeira palavra que formulei mentalmente.
-Somos do FBI.- respondi rapidamente, percebendo que Rachel lançava a ele olhares nada discretos.
-Sou o xerife Tyler.- estendeu a mão e nós a apertamos, uma por vez.- Porque o FBI está se envolvendo em casos de uma cidade pequena como Portland?
-Bom, estão deixando o escritório mais eficiente, sabe como é.- Rachel disse, mordendo os lábios ao olhá-lo.- Não é muito jovem para ser xerife?
-Fui selecionado para o cargo depois que meu pai morreu. Acho que, as pessoas confiavam nele e querem confiar em mim.- disse ele, dando de ombros.- De qualquer forma, não creio que queiram saber minhas histórias de vida.
-Oh, não, conte.- minha irmã falou, com um olhar malicioso.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa constrangedora que me deixaria com cara de tacho, me adiantei.
-Pode nos mostrar a cena do crime?
-Claro, venham comigo.
O acompanhamos até o andar de cima, onde ele virou no corredor longo e abriu com a mão a segunda porta a direita. Estiquei o pescoço para ver lá dentro e fiz uma careta. Havia muito sangue no chão, junto com placas amarelas da perícia. Um pote de remédios que me pareceram ante depressivos, estavam caídos no chão, os comprimidos manchados de vermelho.
-Já levaram o corpo? Esperávamos encontrá-lo aqui, para darmos uma olhada.- Rachel parecia decepcionada, por isso ou porque o xerife não parecia ter lhe dado atenção, não sei.
-Sim, a perícia o levou para o necrotério, o legista queria vê-lo o quanto antes. Assim que mencionaram os olhos sem pupilas, ele ficou muito curisoso a respeito.- respondeu Tyler, encarando o sangue no chão.- Provavelmente foi uma morte natural, mesmo.
-Porque acha isso?- perguntei, encarando-o.
-Kirk era um homem bom. Brigava na prefeitura pelos direitos dos cidadãos, fazia churrasco para todos aos domingos depois da igreja.
-Sei...ele tinha algum parente? Esposa, talvez?- falei, tentando anotar tudo mentalmente. Pelo silêcio da minha irmã eu sabia que ela estava fazendo o mesmo.
-Não, a esposa dele faleceu a alguns anos. Mas ele tinha duas filhas, Emily e Alexis. Elas estão lá embaixo, podem conversar com elas, se quiserem.- sugeriu, com as mãos na cintura.- Tenho que dar mais uma checada na casa, para ver se encontro algo relevante.
Só naquele momento, me lembrei da menção a Emily no jornal.
-Certo. Se lembrar de qualquer coisa importante, ligue para nós. Para mim.- Rachel falou, entregando um cartãozinho para o xerife, que o pegou e olhou os números de telefone digitados ali.
Sorri uma última vez para Tyler, como se pedisse desculpas, depois em virei e segui Rachel escadas abaixo. No corrimão e andar de baixo checamos alguns cantos, disfarçadamente. Já no jardim, paramos lado a lado.
-Alguma coisa?- perguntou a mim, fazendo um coque rápido com o cabelo ondulado.
-Nada de enxofre, nem vestígio nenhum. Sem dêmonios, pelo menos.- falei, respirando fundo.
-Isso só nos deixa com mais 525 probabilidades possíveis. Incrível.- disse Rachel, erguendo os braços.
-Agora você que está reclamando.
Avistei ao longe um membro da polícia falando com duas figuras encolhidas, como se estivessem com peso sobre os ombros. Imediatamente eu soube que eram as filhas da vítima. Como eu descobri? Acho que porque, era assim que eu e Rachel estávamos quando nossos pais morreram. Encolhidas e carregando peso. Afastei o pensamento com um aceno de cabeça. Cutucei Rachel e apontei para os três, ela confirmou com a cabeça e fomos até lá.
-Com licença, assumimos daqui.- minha irmã ergueu seu distintivo para a mulher que estava lá e a mesma assentiu e se afastou.
As filhas de Kirk nos observaram, os olhos pareciam cansados e doloridos, como era de se esperar. A mais velha, Emily, estava com os braços cruzados e tinha uma expressão impassível no rosto. A mais nova, que deveria se chamar Alexis, estava com um vestidinho vermelho comprido de alçinhas e tinha um cobertor nas costas, para protegê-la do frio da tarde nublada.
-Meninas, nós só queremos fazer algumas perguntas, okay?- me apressei em dizer, sabendo que nessas situações de lidar com pessoas, eu era melhor do que Rachel. De acordo com ela, eu sempre escolho as palavras certas. O mais engraçado, é que eu nem percebo. Só...sigo meu instinto.-Você o encontrou, não foi?-perguntei a Emily, que assentiu com a cabeça fracamente.
-Eu estava voltando da faculdade e quando cheguei em casa, Alexis estava com umas amiguinhas e bem, eu subi para tomar um banho e ir dormir, uma noite como qualquer outra. Mas então ele estava lá, caído no banheiro, os olhos dele...-lágrimas escorreram de seu rosto, ela nem fez esforço para limpá-las. Como se estivesse cansada de fazer alguma coisa.
- Como era o pai de vocês?
-Um bom homem.- respondeu Emily, coincidindo com o comentário do xerife Tyler.
-Ele tinha algum inimigo?- perguntou Rachel, ela estava com os olhos estreitados e parecia estar tentando encaixar todas as pontas soltas.
-Não, claro que não.
-Isso foi minha culpa.- murmurou a menininha, para quem exatamente, foi difícil saber.
-Para de falar besteira, Alexis!- ralhou a mais velha, se virando e saindo batendo os pés contra a grama verdinha.
Me abaixei, apoiando as mãos nos joelhos, para ficar da altura da garotinha, que me mediu com seu olhar inocente. A faixa de bolinhas na cabeça dela estava caindo e tinha alguns cabelos escapando para a frente.
-Porque acha que a morte do seu pai foi culpa sua, Alexis?
Outra coisa que Rachel diz, é que eu tenho jeito com crianças. Vai saber.
-Eu falei Blood Mary três vezes no espelho. Ela veio e pegou ele no meu lugar. Ele morreu por minha causa.- ela disse, sua voz fina pela idade.- Acredita em mim?- ela perguntou, parecia abatida. Uma criança tão pequena não deveria passar por isso.
-Acredito, Alexis, acredito.
-Acreditou mesmo nela?- perguntou Rachel, enquanto entrávamos com as malas no quarto de motel que havíamos acabado de alugar.
-Sei lá, por que não? Já lidamos com coisas mais estranhas.- falei, colocando uma mochila sobre uma das camas de solteiro com estampa de flores.
-Tá, só que existem milhares de mitos sobre a Blood Mary. Alguns dizem que ela é um espírito, outras que ela é uma garota morta que voltou a vida para matar os merecedores da morte. E devem existir mais e mais jeitos de possivelmente matar essa coisa.- comentou Rachel, suspirando.
-Então acho bom começarmos a pesquisar.- falei, tirando meu laptop da mochila e sentando-me na beirada da cama que, havia acabado de adotar como minha provisoriamente.
-Boa sorte com isso. Eu vou sair. Trago seu jantar.- disse, soltando os cabelos e deixando-os caindo sobre os ombros.
-Tudo bem.- falei, sabendo que não ia adiantar nada contrariá-la.
-Beijos.- falou, depois saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Rachel sempre fazia isso. Saía para se divertir, ficar com alguns homens, enquanto eu fico fazendo o trabalho. Típico. Mas como eu disse, não adianta contrariar.
Fiquei algum tempo pesquisando sobre a Blood Mary e percebi que Rachel estava certa. Haviam centenas de coisas sobre ela na internet. Chequei alguns dos sites mais confiáveis, mais acessados. Enquanto comparava dois deles, escutei um barulho vindo do lado de fora do quarto.
Me sobresaltei, olhando para os lados, alerta. Não havia nada a vista. Me levantei, colocando o computador sobre o colchão. Puxei minha arma da calça, uma sensação muito comum. Abri a porta do quarto com uma das mãos e pulei para fora, virando para os dois lados em uma fração de segundo. Nada.
-Você é Liahndra Hoffman?
Me virei assustada, com a arma engatilhada e por pouco, não apertei o gatilho. Parado atrás de mim havia um sujeito de estatura mediana, com cabelos escuros e olhos claros como o dia. Ele vestia roupas sociais e um sobretudo bege, que chamava a atenção.
-Quem é você?- perguntei, sem baixar a arma. Ninguém conhece meu nome verdadeiro a não ser Rachel.
-Meu nome é Castiel, eu sou um anjo do senhor.- disse, serenamente.
Pude sentir meu cérebro entrar em curto circuito, pouco a pouco. Um anjo. Já caçei todos os tipos de monstros e criaturas possíveis, mas em toda a minha vida, nunca vi um anjo ou soube da existência de nada ligado ao céu. Mesmo tendo visto tudo o que vi, era difícil acreditar.
-O que você quer?
-Você é uma vidia de Deus, Liahndra. Vim te buscar.- falou, como se estivesse ditando uma receita de bolo.
-Como é que é? Vi..o quê? Buscar? Quer me levar para onde?- disparei as perguntas, incapaz de me conter. Eu já havia quase esquecido a arma em meu punho.
Ele estralou os dedos e minha arma sumiu, me vi segurando o nada. Observei minhas próprias mãos, incrédula.
-Você verá.- dito isso ele se aproximou e encostou dois dedos na minha testa.
Depois disso, tudo ficou escuro.
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