Things We Lost in The Fire

6 4x06 - This is My Death


Notas iniciais
Nesse capítulo discutiremos a importante questão: Alicia, humana ou monstro?

Você sabe pelo que vale a pena lutar,

Quando não vale a pena morrer?

Isso te deixa sem ar?

E você se sente sufocando?

A dor supera o orgulho?

E você procura um lugar para se esconder?

Alguém partiu seu coração por dentro?

Você está em ruínas

Green Day

O outono acabou e dezembro chegou trazendo o Inverno de forma rápida demais. A expectativa era palpável. Selos estavam sendo quebrados, caçadores e civis estavam morrendo e boatos sobre o apocalipse surgiam em todo o lugar, mesmo que para a grande maioria dos seres humanos, fosse mais uma dessas histórias que sempre surgem pelo fim do mundo. Não estava dando para negar que havia algo diferente acontecendo, a não ser que você realmente não quisesse ver. Mortes, acidentes e situações inexplicáveis continuavam a acontecer, assim como pessoas que desapareciam misteriosamente ou começavam a agir de um jeito estranho. Um número considerável de casos de pessoas que se diziam possuídas por demônios, e também por anjos, continuavam a surgir. Seitas religiosas radicais nunca tinham sido tão populares.

Dean e Alicia assistiram a Sam ficar cada vez mais esquisito. Eles se preocupavam muito. Desde o exorcismo de Samhain, Sam jurava que não tinha usado mais os poderes e sim, Sam sabia há muito tempo que havia sangue de demônio no seu corpo, informação passada para ele pelo próprio Azazel.

Sam estava mais agressivo e mais instável. Não lembrava mais a pessoa doce que tinha sido até então. Ele continuava entrando e saindo da vida de Alicia com uma enorme facilidade. Tanto Dean quanto Alicia achavam que Sam estava mentindo e escondendo coisas, mas não conseguiam descobrir o que.

Alicia estava lentamente descobrindo seus novos poderes, como por exemplo, aquele que tinha derrubado as Bruxas de Salém. Quando voltaram ao local, nenhum dos corpos ainda estava lá, o que preocupava Alicia. Será que ela havia apenas apagado os demônios? Se elas não estivessem mortas, quer dizer que ainda estavam a soltas por ai.

O grande problema agora, no entanto, era o mapa que eles haviam pegado nas montanhas do Colorado. Aquilo estava escrito em enoquiano, a língua dos anjos, e era muito confuso. Supostamente, o mapa deveria guiar eles até um lugar chamado A Sala das Profecias, onde guardiões eram responsáveis por guardar. Supostamente, porque não havia como traduzir aquele mapa. Alicia não confiava em muitas pessoas e por isso, estava fazendo o trabalho toda sozinha, rodando bibliotecas em busca de livros que explicassem enoquiano. Era muito trabalho e não andava. Se ela não encontrasse alguém para ajuda-la, terminaria de traduzir isso dali a mil anos. Allie precisava saber a verdade.

Alicia estava em Jacksonville, na Florida. Foi até a cidade por causa da sua conhecida biblioteca de história antiga. Não que essa conhecida biblioteca estivesse ajudando em muita coisa. A mesa do motel na sua frente estava coberta de livros empoeirados. Ela estava extremamente cansada depois de tantas horas de pesquisa. Agora ela sentia fome, mas a cada dia que passava, sentia menos fome. Anjos e demônios não precisavam comer, mas esse era um hábito que Alicia não tinha intenção de abrir mão. Deitou a cabeça na mesa, reunindo forças para se levantar e ir comer alguma coisa. Ela odiava a Florida, que era quente mesmo no inverno. O calor a deixava ainda mais com preguiça. Então ela sentiu uma presença atrás dela.

Ela se virou bruscamente da cadeira, que já era velha, e acabou caindo no chão. Castiel, o anjo, estava lá. Assim que conseguiu se levantar, Alicia já recuperou a compostura.

–O que está fazendo aqui? Pensei que eu era uma aberração que não deveria existir.

–Você é – respondeu Castiel, seu tom de voz sempre neutro. – estamos tendo outro tipo de problema. Nós localizamos Asmodeus.

–Nós quem?

–Os anjos. Embora este deveria ser um problema do Inferno. Mas, diferente de nós, eles não parecem muito preocupados em controlar seus integrantes rebeldes.

–O Inferno é para ser rebelde. Como vocês o localizaram? Ele é impossível. As vezes ele simplesmente deixa de existir.

–Ele é muito discreto para um demônio rebelde. – os olhos de Castiel focalizaram a pilha de livros sobre a mesa atrás de Alicia e ele franziu a testa – por que está estudando antigo enoquiano?

–Preciso traduzir uma coisa. – ela respondeu rapidamente. Ela não confiava em Castiel. – Asmodeus é o motivo para o qual você está aqui?

–O que você precisa traduzir? – perguntou Castiel, e Alicia percebeu que ele não falaria sobre Asmodeus a não ser que ela respondesse.

–Um mapa.

–Eu posso ajudar. – se ofereceu Castiel, surpreendendo Alicia por um segundo. Depois ela se lembrou que ele não estava fazendo isso por ser legal.

–O que você quer em troca?

–Você precisa se livrar de Asmodeus. Ele está realizando atividades perigosas.

–E vocês anjos não podem fazer isso?

Castiel ficou em silencio por alguns segundos.

–Você é a única pessoa que pode mata-lo. É o seu destino.

Alicia cruzou os braços. O anjo estava entregando Asmodeus para ela e iria traduzir o mapa. Não podia ser melhor. Claro, isso a preocupava. Era quase bom demais para ser verdade.

Castiel tirou do bolso do sobretudo um folheto. Ele a entregou para Alicia. Dizia: IGREJA DO FIM DOS TEMPOS. Embaixo, havia um texto anunciando o Apocalipse. O que assustou Alicia foi que a lista de sinais do Apocalipse era composta por Selos, tantos Menores quanto Maiores. Quem fez aquele folheto realmente sabia do que estava falando.

Mas adivinha só: o único jeito de salvar sua alma era se juntar a Igreja do Fim dos Tempos, na Georgia.

–Asmodeus é o pastor. – informou Castiel, quase provocando um choque na Alicia.

–Você está brincando comigo.

–Não, estou falando bem sério. Não entendo porque você acha que eu brincaria com isso.

Alicia suspirou.

–Esquece. Eu não consigo imaginar o que ele pode querer como pastor. – falou Alicia, pensativa. Seu pai era louco, disso todos sabiam, mas pastor? Ela também estava pensativa com o que Castiel tinha dito: que era seu destino matar Asmodeus. Isso estaria na sala das profecias?

–Ele quer almas. – Castiel deu a resposta.

–Almas? Como um pacto?

–Ele já foi um demônio poderoso. Se conhecer um grupo de pessoas influenciáveis a matar, ou então a cometerem suicídio, ele estaria pegando essas almas para ele. Almas são fontes de energia extremamente poderosas. Você precisa mata-lo antes que ele faça isso. É uma aberração que já ficou viva tempo demais.

–Castiel, você sabe o que Asmodeus quer, não sabe? Ele quer me matar. Porque ele queria me controlar e que eu lutasse por ele nesse apocalipse, mas eu resolvi lutar sozinha. Ele acredita que não há espaço para eu e para ele separadamente. A profecia diz um terceiro lado, não um terceiro e um quarto.

–Esse é um bom motivo para mata-lo.

–Como você pode acreditar que eu sou a única que pode mata-lo, mas não acredita no terceiro lado do apocalipse?

–Porque todos nós sabemos que o final é entre Céu e Inferno, tanto quanto sabemos que você é a única que pode matar Asmodeus. Eu irei ajuda-la com seu mapa, assim que você resolver o problema com ele. Ele está em Carnesville, na Georgia, e já converteu todos os 500 habitantes. O plano agora é a expansão. Ele quer abrir, como se diz, um canal de televisão.

Castiel desapareceu, levando o mapa. Alicia pegou o celular e ficou na dúvida de para quem ligar: Shane, seu braço direito, ou Dean e Sam, sua família.

Ela ligou para Dean. Se é que Alicia sabia de alguma coisa na sua vida, era que a família devia vir primeiro. E se ela estava pronta para resolver um problema familiar com seu pai, não iria sozinha ou com estranhos. Iria com Dean e Sam, que estiveram lá por ela a vida toda.

–-

Carnesville, Georgia, 23 de dezembro de 2008. Uma hora da manhã.

A neve cobria a pequena cidade. A entrada da cidade era composta por pequenas fazendas uma de frente para a outra, seguindo então para uma rua principal, que terminava na praça da igreja. Todas as outras casas estavam em volta da igreja.

Carnesville tinha 500 habitantes. Assim que o Impala passou rapidamente pela rua, chegando à igreja, Alicia percebeu que estavam em perigo. A cidade era pequena demais. Não tinha como Asmodeus não saber que ela e os Winchester estavam ali, e obvio, estaria atrás dele. Dean deve ter pensado a mesma coisa, porque deu meia volta com o carro na cidade silenciosa e decorada para o natal, voltando para uma cidade próxima e mais populosa, Royston. Foi lá que eles encontraram um quarto de motel. o motel era pequeno e tinha apenas 20 quartos disponíveis, sendo que apenas um estava livre. Dean, Sam e Alicia se apertaram nele. O status de relacionamento do casal continuava indefinido, podendo variar entre: ex que se pegam, amigos com benefícios ou juntos, mas eles nunca falavam exatamente sobre o assunto.

Na manhã seguinte, enquanto tomavam café numa pequena lanchonete, Sam acessou o site do jornal local, para saber mais. Logo eles descobriram que o antigo pastor da Igreja de Carnesville sofreu uma morte súbita e no dia seguinte foi prontamente substituído pelo Pastor Alfred Jackson (Asmodeus, obviamente). Ele logo se tornou muito popular e querido, atraindo pessoas próximas para verem seus cultos. Até que ele começou a falar sobre o apocalipse, e nisso as opiniões se dividiram: alguns tratavam como fanáticos e loucos, outros acreditavam fervorosamente.

Castiel tinha dito que Asmodeus buscava almas humanas para conseguir mais poder. Era simples agora: sabiam onde ele estava. Eles apenas precisavam ir até lá e Alicia o mataria.

–Ei, olhem isso. – falou Sam de repente. Estavam todos muito quietos naquela manhã. Matar Asmodeus era algo grande para eles. Sam virou a tela do notebook para que Dean e Alicia pudessem ver. – são relatos de possessões e desaparecimentos, mas também de muitas mortes. E pelo que eu li até agora, o centro de tudo é essa região.

–O que isso significa? – perguntou Dean.

–Significa que Asmodeus está matando anjos e demônios. Há sinais claros disso nessas noticias. Como não percebemos antes?

–Eu tenho um grupo de pessoas caçando Asmodeus. É a única coisa que eles fazem o dia todo há meses, e não conseguiram perceber esse padrão. – falou Alicia, irritada. – fantástico. É ótimo saber que eu só tenho idiotas trabalhando para mim. Bem, dizem mesmo que se você quer um serviço bem feito faça você mesma...

Eles se calaram. Alicia nunca falava muito do que estava fazendo com seu misterioso exercito, e nem Sam nem Dean sabiam muito o que dizer. Parecia agora que existia duas Alicia: a Alicia deles, que tinha crescido com eles e era a caçadora que eles conheciam e amavam, e a outra Alicia, a Alicia meio anjo, meio demônio, que era uma criatura sobrenatural líder numa revolução dos excluídos sobrenaturalmente. Eles não conseguiam imaginá-la nesse outro mundo e por isso, na maioria das vezes, preferiam fingir que essa Alicia não existia.

Dean anunciou que precisava ir no banheiro – embora todos soubessem que ele ia deixar seu número com a garçonete loira e peituda. Sam aproveitou o momento.

–Você está pronta para isso, Allie?

–Para o que?

–Matar Asmodeus. – Sam fez uma pausa – eu entendo que Castiel disse que é seu destino, mas tudo isso que você passou é muito recente. Se você não se sentir preparada para isso, não faça. Eu não quero que você se arrisque, não quero que você se machuque...

Eu não quero que você morra ficou subentendido no contexto. Embora Alicia tivesse um poder de cura, Asmodeus poderia muito bem acabar com ela.

–Eu estou pronta, Sam. – mentiu Alicia – eu sou mais poderosa que ele.

Ela era, mas a verdade era que Alicia não tinha a mínima ideia de como matar um demônio. Sam, por outro lado, sabia como exorcizar um demônio.

–Eu posso ajudar.

–Você não pode. Sabe que não devia usar seus poderes.

Os poderes deles tinham praticamente a mesma origem. Será que o que Sam fazia para exorcizar um demônio era o mesmo que Alicia tinha que fazer? Sam tinha aprendido com Ruby, mas Allie estava aprendendo sozinha.

–Por que você pode e eu não? O que tem de tão diferente? Azazel para mim e Asmodeus para você. Esses demônios são irmãos.

–A diferença, Sam, é que você ainda é humano. Eu não tenho mais chances.

Sam não queria brigar com ela e por isso não respondeu. Dean voltou, sorridente, e eles se prepararam para montar o plano deles. Teriam que fazer tudo com muito cuidado. Dean entrou no carro. Antes que Sam entrasse, Alicia segurou o braço dele.

–Eu não tenho a mínima ideia do que fazer. Você precisa me ajudar. Eu não sei como mata-lo ou como exorciza-lo.

Ela estava apavorada.

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–Você tem que se concentrar, Alicia. Não tem como praticarmos aqui... Mas pense no que você quer fazer. Se concentre. E vai acontecer.

Sam estava há duas horas tentando explicar para Alicia como exorcizar um demônio, mas ela não entendia.

–Você já efetivamente matou algum? – ela perguntou por fim – não adianta mandarmos ele de volta pro Inferno. Ele vai voltar de lá porque ninguém o quer lá.

–Não – admitiu Sam – mas é o mesmo principio, só que o uso do poder é máximo.

Alicia suspirou, chutando uma pedra do chão. Estavam na área aberta atrás do motel. O mundo estava congelado e ninguém com a cabeça no lugar estaria lá.

–Talvez eu devesse usar meus poderes de anjo. Mas eles são ainda mais confusos que os de demônios.

–Eu não entendo. Quando você passou seis meses desaparecida, não deveria ter aprendido tudo isso?

–Você está certo, Sammy – ela falou, lentamente, como se tivesse acabado de acordar – eu realmente aprendi. Eu consigo me lembrar disso agora que você falou. Mas é tão difícil. Lá a magia era fluida. Aqui, no mundo real, é um bloco de mármore duro sobre o qual eu não consigo dominar. É frustrante, sabe? Todo meu trabalho é frustrante. – Alicia foi falando cada vez mais enrolado, beirando ao histerismo. – eu não tenho a mínima ideia do que eu estou fazendo com a minha vida. Todos dizem que eu sou a mudança, o terceiro lado, a rainha – ela soltou uma risada dolorida – eu me pergunto do que.

–Allie – disse Sam, a abraçando. Ela relaxou prontamente com o contato do corpo quente dele com o dela. Ele estava sendo um idiota a maior parte do tempo ultimamente e a magoava, mas ela o amava tanto. – você não tem que fazer nada. Você pode apenas... Caçar. Só ser você mesma. Você não precisa ser a líder, o terceiro lado, você também não precisa matar Asmodeus. Você não precisa fazer nada do que não queira.

Alicia deu um sorriso triste.

–Esse é o problema, Sam. Eu quero ganhar.

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Eles só tinham aquela noite. A noite seguinte era a véspera de natal e a Igreja estaria lotada. Durante a madrugada, eles invadiram a igreja. Estava escura e gelada. A casa do pastor ficava no terreno ao lado, e tinha um grande jardim separando-a da igreja. Sam e Dean pintaram armadilhas do demônio em todo o lugar, enquanto analisavam a estrutura para poderem elaborar um plano. Enquanto eles trabalhavam nisso, Alicia invadiu o escritório do pastor. Felizmente, todos os cultos do dia seguinte tinham sido cancelados para poderem organizar para o Natal. O primeiro compromisso do pastor estava marcado para as sete da manhã. Isso era fácil – eles passariam a madrugada na igreja, esperando por ele. Ele ficaria preso em uma armadilha de demônio e Alicia o mataria. Simples, fácil, tranquilo.

Alguém precisava pensar em um plano B caso aquele falhasse, mas por enquanto, eram a única coisa que tinham. Castiel tinha sido claro na urgência de matar Asmodeus, para impedir que ele usasse o poder das almas.

Alicia aproveitou o tempo livre para investigar o escritório dele. Devia ter alguma coisa útil ali. Havia uma incoerência na história que estava sendo contada: se o tempo todo, Asmodeus poderia ter sido o líder do terceiro lado, por que tinha se preocupado em dar vida para Alicia?

Ela abriu cada gaveta, revirou cada estante, sem se preocupar em deixar as coisas organizadas. Arrombou armários e gavetas trancadas, chegando a fichas completas de membros da seita. Mas ela queria alguma coisa mais concreta, alguma coisa com os planos verdadeiros de Asmodeus.

Frustrada e com raiva de não estar encontrando nada, ela jogou um arquivo de metal no chão, que caiu com um ruído oco no chão.

Alicia tinha descoberto alguma coisa. Ela empurrou o tapete para longe, e viu o recorte na madeira, indicando um alçapão. Felizmente, não estava trancado. Ela pulou lá dentro, apesar de ser um buraco escuro. Não era muito profundo. Com ajuda da lanterna, localizou um interruptor e uma luz se acendeu. Era uma sala pequena e quadrada, com várias prateleiras, havendo uma caixa com um monte de folhas dentro. Alicia pegou a caixa, examinando o conteúdo com a ajuda da lanterna. Havia muita coisa naquela maldita língua enoquiana e coisas que pareciam com grego e aramaico antigo.

–Alicia? – uma voz vinda de cima a chamou. Era Dean. – está tudo bem? Você precisa vir. Luzes se acenderam na casa do pastor.

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Alicia se arriscou a por tudo a perder, mas roubou a caixa e só sossegou quando a colocou no porta-malas do Impala.

Dentro da igreja, Sam e Dean se esconderam entre os bancos e Alicia ficou escondida no altar. Eternos minutos depois, uma pequena porta lateral se abriu e um homem, de camisa social branca e calça preta, além de um grosso casaco preto, entrou. Era um homem já na casa dos 50 anos, mas muito bem apessoado. Alicia sabia que Asmodeus tinha possuído o corpo dele.

Ele acendeu a luz da igreja e Alicia se encolheu, se sentindo muito exposta. Sabia que precisava não sentir medo para lutar contra Asmodeus. Precisava de fúria. Tentou pensar em todos os motivos pelo qual odiava ele, pensou na raiva que sentiu da única vez que realmente o enfrentou e venceu, mas tudo o que ela conseguia sentir era medo paralisante. Sou fraca. Sou fraca. Sou fraca. Sou fraca. Sou fraca. Sou fraca. Sou fraca...

Asmodeus não conseguiu mais avançar. Tinha sido pego por uma das armadilhas do demônio pintadas no teto. Sam e Dean se levantaram, apontando armas carregadas de sal grosso para ele. O demônio sorriu e seus olhos ficaram amarelos.

–Sam e Dean Winchester. Por que não consigo ficar surpreso? Eu estava estranhando a paz. – a voz dele era rouca e causava arrepios.

Alicia desceu do altar, tentando demonstrar confiança. Os olhos de Asmodeus se cravaram nela.

–Bem – ele falou, zombeteiro – eu acho que essa é a minha morte.

–Você apenas fala quando eu falar para, correto? – falou Alicia e sua voz ecoou, alta e firme, pela igreja. Estava começando. Ela estava se sentindo poderosa. – mas você está certo. Esse é seu fim.

–Eu não temo a morte. – respondeu ele – e com certeza não temo você. Você não vai conseguir fazer nada comigo, Alicia. Eu sou seu pai. Eu não consigo mata-la, e você não consegue me matar.

–Não o escute, Alicia, ele só quer mexer com sua cabeça! — gritou Sam.

Mas Alicia e Asmodeus pareciam estar completamente hipnotizados um pelo outro, sem prestar atenção nada ao redor.

–Há uma pergunta na sua cabeça – continuou o demônio – e a caixa que você roubou não contem as respostas. Eu vou te contar, se você me deixar ir.

–Você deve estar realmente desesperado – falou Alicia, mas estava tentada a aceitar a proposta. Asmodeus a conhecia: não era fácil para ela mata-lo, afinal. Por isso seu medo. Ela o odiava e ele era um monstro, mas ela cresceu desejando conhecer seu pai. Sonhou com ele inúmeras vezes. Fugiu da única família que conheceu para encontra-lo. A decepção tinha sido grande, tinha destruído e a levado para um caminho da autodestruição.

Sua raiva por ter sido decepcionada e ter como pai um monstro tinha levado até aquele momento pelo qual Alicia estava esperando há anos: a oportunidade de matar Asmodeus.

Mas ele ainda assim era o pai dela. Sangue do sangue dela. Parte dele estava nela. E Alicia, meio anjo, meio demônio, talvez fosse humana demais. Tão humana que tinha dificuldade em matar o monstro que era seu pai.

–Diga para mim então – ela conseguiu juntar as palavras, tentando parecer dura, mas na verdade falhando. – diga para mim. Se você podia ser o todo poderoso, só precisava de algumas almas, por que me criou? Eu não precisava ter existido. Eu não precisava ter sofrido.

–Há mais coisas do que você sabe, Alicia. Eu penso sempre há longo prazo. Um destino nunca é algo plenamente determinado. Seu destino é controlar o universo. Mas eu estou escrevendo uma nova história. Esse destino sempre devia ser o meu. Eu sou o novo Lúcifer, eu cai para criar um novo mundo. Você é Eva. Você é a chave para minha linhagem, para criar os legítimos descendentes do Céu e do Inferno.

–Alicia, porra, o que você está fazendo? – gritou Dean, e soou muito distante para Alicia – mate ele logo!

A igreja começou a tremer, e Alicia não sabia se era ela ou Asmodeus que estava fazendo isso.

–Você não pode me matar agora, Alicia, porque é humana demais e isso é culpa de sua mãe, quem quis te proteger. – Asmodeus sorriu. – fico surpresa que você tenha achado que conseguiria. Há amor demais no seu coração. Apenas monstros matam a própria família, e um monstro é dominado pelo ódio.

–Há um destino. Há uma profecia. – falou Alicia, confiante.

–Eu nunca encontrei a profecia. – confessou Asmodeus. – e eu procuro por ela há séculos. Eu estava agindo como um anjo, achando que o destino é imutável, e não eu. Eu criei você para ser minha arma. Você escolheu lutar sozinha. Eu estou lutando da maneira que eu posso. Eu não desisti nem quando fui expulso do Inferno, por que vou desistir no momento que minha filha está tendo uma crise rebelde de adolescência?

Alicia não conseguia encontrar palavras, estava paralisada pela confusão de sentimentos e poderes. Ela não estava pronta para mata-lo. A verdade que ela desconfiou desde que Castiel apareceu a sua frente, não, desde antes, quando ela não se empenhava nas buscas para achar Asmodeus, agora se apresentava na frente dela e estava dançando na cara dela, aos som dos erros que ela tinha cometido, que a levaram para aquele momento.

E era um péssimo momento. Ninguém estava prestando atenção, mas o teto estava rachando, arriscando destruir aquela armadilha do demônio que prendia Asmodeus.

–Porque você, Alicia, é só uma adolescente rebelde que vai voltar para mim quando não tiver mais ninguém. Quando perceber quem é, que você é um monstro, quando você desistir de lutar para ser humana, sou eu quem vou estar aqui. Continuo afirmando isso. O filho sempre retorna a casa. Mas, infelizmente, não posso esperar pacificamente. Estamos em pleno Apocalipse, afinal. Preciso de força, ou vou ser morto. Já consegui muitas almas aqui. Eu acho que posso ir caçar mais algumas, digamos, na Bolívia. Adeus.

Uma parte do teto caiu, atingindo Alicia na cabeça e ela desmaiou no chão. Asmodeus saiu, fumaça preta abandonando o corpo, antes que Sam e Dean pudesse chegar até ele.

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–Foi uma batida feia – falou Dean, quando ele e Sam colocaram Alicia desmaiada na parte de trás do Impala, enquanto a igreja desmoronava. – se ela não pudesse se curar, teríamos que a levar para o hospital.

–Eu não entendo porque ela não fez nada – falou Sam, chateado – ela ficou paralisada.

–Cara – falou Dean – eu também não conseguia reagir. Eu não sei como funciona essa coisa de almas, afinal, as que ele conseguiu não vão para o Inferno porque ele foi expulso de lá.

–Acredito que ele está absorvendo para ele todo esse poder.

–E é uma porra de um poder grande – observou Dean – Alicia terá mais problemas com ele do que eu podia imaginar.

–O que você tem a dizer sobre tudo aquilo que ele disse? Sobre Alicia ser Eva?

–O demônio é louco. Vamos sair daqui. Ah, pegue a caixa que Alicia roubou. – enquanto eu dirijo, você vai descobrir o que tem lá.

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Havia muita papelada em outras linguagens ali dentro, inúteis no momento. Dean dirigia sem parar, pretendendo cair fora da Georgia o mais rápido possível. Alicia continuava inconsciente, o que levou ambos os irmãos a desconfiarem que não foi só a pedrada na cabeça que a deixou assim, que Asmodeus devia ter feito alguma coisa. Ambos se preocuparam, mas nenhum quis falar nada.

Durante a longa viagem, Sam finalmente foi se entendendo com os manuscritos. Eram lendas e histórias sobre as sete dimensões que o universo se divide, descrevendo cada uma delas e suas separações.

O mundo acabaria quando as sete dimensões se reunissem em uma só, causada por uma luta imensa no mundo, chamada Apocalipse. E assim começaria uma nova era...

Mas as histórias ali eram confusas e se contradiziam inúmeras vezes. Afinal, eram lendas originadas muitas vezes da tradição oral.

Sam então entendeu porque precisavam da profecia. A profecia falaria exatamente o mesmo que estava naquela caixa, mas seria a verdade.

A verdade sobre Alicia.

Notas finais
Escrevi “Alicia desmaiada” e a única coisa que eu conseguia pensar era em: JULIANA ESTÁ DES-MAI-ADA. Enquanto num capítulo falo o quanto Alicia é um monstro, nesse estou te dizendo o quanto ela ainda é humana. Esse capítulo aqui serviu para eu deixar várias, muitas, mais muitas, dicas para o futuro da minha história amada. Esse capítulo me surpreendeu MESMO, porque eu tinha a ideia: “colocar Asmodeus e Alicia juntos de novo, Asmodeus está usando almas para conseguir poder” e mais nada do que ia acontecer, e acabou saindo isso. É bom ter tudo planejado, mas é mais gostoso ainda quando sua própria história te surpreende. Ah, feliz 2015! Comentem para garantir que serão felizes esse ano (risada maligna)