Things We Lost in The Fire
4 4x04 - Rockies
Notas iniciais
As vezes parece que eles querem me lembrar
Enviando todos esses vilões atrás de mim
Eu não sou a heroína deles,
Mas isso não significa que eu não fui corajosa
Eu nunca andei na linha
Mas isso não significa que eu nunca tive medo
Eu não sou sua heroína
Mas isso não significa que nós não somos únicos e os mesmos
Tegan and Sara
23 de março de 2008. México.
Berenice Castillo tinha se perdido.
A mãe dela já tinha avisado inúmeras vezes para não ficar caminhando pela floresta, mas Berenice amava a floresta. Ela adorava ficarem horas andando e se orgulhava de saber sempre o caminho de volta para casa. Mas alguma coisa errada tinha acontecido e agora ela estava completamente perdida. Ela não sabia onde tinha errado o caminho tão familiar. A floresta era o que ela sempre lembrava – as altas arvores tampavam o céu e produziam um ambiente fresco, o ar úmido, o som de animas, a sensação macia de pisar no tapete de folhas caídas, o cheiro de terra molhada e plantas, vivas e em decomposição. Mas ela nunca tinha estado naquela parte antes.
Berenice tinha 15 anos e vivia sozinha com a mãe, num pequeno vilarejo mexicano próximo à floresta. Sua mãe era curandeira da vila. Berenice não sabia nada sobre o pai. Ela também não sabia, mas estava prestes a conhecê-lo.
Respirou fundo quando avistou um pequeno grupo de casas a sua frente. Eram casas muito simples e rusticas, mas já era civilização. Assim ela se localizaria e descobriria como voltar para casa. O chão da vila era de terra batida e estava quente. Berenice não usava sapatos, como sempre.
Ficou ainda mais assustada quando percebeu que a vila não era habitada. Por Deus, onde é que tinha ido parar? Começou a entrar em cada uma das casinhas, mas estavam vazias mesmo. Não havia sinal de que o lugar era habitado.
Deu um grito que ecoou pela casa vazia quando alguém colocou a mão no seu ombro. Ela se virou bruscamente, o coração batendo acelerado. Era um homem muito velho e com aparência muito doente. Ele falou, a voz rouca da idade:
–Olá, Berenice. Eu sou seu pai.
A reação normal dela seria gritar e sair correndo e considerar aquele homem completamente maluco. Mas, ao olhar nos olhos profundamente escuros daquele homem, Berenice simplesmente soube que ele falava a verdade. Não fazia sentido, mas aquele homem era seu pai.
–Eu sou Thoth.
Berenice tinha crescido com a mãe contando histórias e lendas sobre deuses variados. Ela sabia que Thoth era um deus egípcio.
–Como o deus? – ela murmurou, mas de repente percebeu que não era como o deus. Aquele na sua frente era o deus Thoth. E o deus Thoth era seu pai.
Absurdo, claro, mas por que fazia tanto sentido? Porque parecia tão real? Ela se sentia confusa e tonta, mas inexplicavelmente feliz, como se tudo aquilo fosse um sonho muito louco.
–Eu estou morrendo, Berenice – continuou Thoth – e tem uma coisa que eu preciso que você faça. Você precisa encontrar Alicia Kavanagh e dizer a ela as coisas que eu vou te falar, certo?
–Alicia Kavanagh – repetiu Berenice. Racionalmente, ela sabia que aquele homem devia ser um velho louco e que ela provavelmente estava em perigo. Mas inexplicavelmente, ela acreditava. – por que eu acredito em você?
–É magia. – respondeu Thoth, sorrindo. Ele não tinha mais dentes. – é magia e é real. Sua mãe sabe. Ela sempre soube que esse dia chegaria...
Thoth colocou as mãos nos ombros de Berenice. Imagens passaram na cabeça dela – histórias, fatos, informações. Ela fechou os olhos, tonta com tanta informação. Quando abriu, estava de volta à sua casa, em sua própria cama.
–Mãe! – ela gritou. Sua mãe não respondeu. Ela se levantou da cama, chamando pela mãe. Desceu as escadas. Encontrou a mãe caída no chão da sala.
–Mãe, o que está acontecendo? – sangue escorria pelo nariz dela.
–É a hora. – ela respondeu, mas estava muito fraca – estive esperando por esse momento há 15 anos. Ele a encontrou, não foi? Faça o que ele te disse para fazer. É importante...
Ela empurrou alguma coisa na mão de Berenice e fechou os olhos.
Assim que ficou de pé novamente, Berenice sabia que seus pais tinham morrido.
–-
9 de outubro de 2008. 13 horas. Denver, Colorado.
No dia anterior, Alicia tinha recebido uma ligação desesperada de uma garota. Ela dizia que precisava falar com Alicia urgentemente, que estava procurando por ela há meses. Alicia falou que não caçava mais, mas a garota afirmou que não era sobre caçadas. Era sobre Thoth.
Ela não quis dizer o que era no telefone, então Alicia tinha sido obrigada a dirigir até Denver. Agora ela estava sentada em uma lanchonete, uma arma escondida sobre seu casaco azul celeste. Sempre podia ser uma armadilha.
Seu celular tocou. Era Dean. Os Winchester tinham voltado a estrada há umas duas semanas, enquanto Alicia permaneceu em Sioux Falls.
–Oi, Dean.
– Eu estava pensando, você acha que existe alguma possibilidade de Jo e Ash estarem romanticamente envolvidos?
Desde que Jo tinha comunicado a eles que estava trabalhando em algo com Ash, Dean estava meio paranoico e culpado por não ter sido mais caloroso com Jo quando voltou do Inferno. Era frequente as ligações que ele estava fazendo para Alicia para conversar sobre Jo.
–Dean, Ash é uns 20 anos mais velho que Jo.
–Isso alguma vez impediu você?
–Não, mas eu sou eu e Jo é uma garota fofa. Eu tenho certeza que é só trabalho. Eles são caçadores, afinal. Você está bêbado?
–Talvez. Tchau, Allie.
Dean desligou antes que Alicia pudesse dizer mais alguma coisa – ou especificamente, perguntar sobre Sam. Ela estava dando o espaço que ele parecia precisar e esperando pacificamente quando ele voltasse para ela. As coisas tinham ficado um tanto mais complicada quando Jessica Moore tinha retornado dos mortos, deixando Sam numa situação bem ruim. Dessa vez, no entanto, ela não tinha corrido atrás dele para ajuda-lo e dar em cima, esperando que ele corresse para os braços dela em busca de consolo. Não, Alicia estava disposta a mudar algumas coisas naquele relacionamento. Se Sam precisasse dela, ele a procuraria. E logo ele iria ceder. Era teimoso.
Obviamente ele estava sendo um pouco mais teimoso do que Alicia tinha imaginado a principio, mas ela estava com paciência.
A porta da lanchonete se abriu, trazendo vento gelado para dentro e uma adolescente de cabelos castanhos e pele morena, com roupas inadequadas para o clima. Seus olhos percorreram a lanchonete e ela sorriu ao ver Alicia olhando para ela. Ela andou apressadamente até a mesa de Alicia.
–Você é Alicia Kavanagh? – o inglês dela era carregado de um forte sotaque espanhol.
–Sou, e você é?
A garota se sentou à frente de Alicia.
–Meu nome é Berenice Castillo. Eu sou filha de Thoth.
Alicia não poderia estar mais surpresa.
–Você quer dizer, filha mesmo, ele é seu pai?
–É. Thoth morreu há alguns meses. Antes de morrer ele me procurou e pediu para procurar você... Acredite, eu já tive algum tempo para me acostumar com tudo o que aconteceu.
Berenice queria passar firmeza em sua fala, mas Alicia podia ver que no fundo ela estava muito assustada.
–Então você é uma semideusa.
–É – gaguejou Berenice – mas não sei muito bem o que fazer isso ainda. Quero dizer, eu estive sozinha. Procurando por você. Ah, sim, eu tenho algo para te dizer. Certo. Então, Thoth disse que ainda há coisas que você precisa saber.
Berenice ficou olhando com expectativa para Alicia, mas não falou mais nada.
–E ah, por acaso Thoth disse quais seriam essas coisas?
–É, não, mas ele me disse onde você pode encontrar o mapa. – Berenice mal podia conter sua animação – é muito bom finalmente encontra-la! Eu descobri muito sobre você nos últimos meses e eu acho que é incrível isso que você está fazendo. Sabe, ajudando pessoas como eu. Eu sei que só faz alguns meses que eu descobri que não sou completamente humana, mas eu fui diferente toda a minha vida. Ok, eu sei que sou muito nova, mas... Você é incrível!
Berenice falava numa mistura de inglês e espanhol confusa, e Alicia fazia força para entender. Alicia percebeu que não poderia despacha-la. Era só uma menina, estava sozinha, com frio e possivelmente com fome.
–Por que você não pede alguma coisa para comer enquanto me conta sobre esse mapa? Eu pago. – Alicia sorriu, gentilmente. – pode pedir o que quiser.
Berenice parecia ainda mais animada. Enquanto ela escolhia, Alicia mandou uma mensagem para Shane. Precisava que ele levasse Berenice e a mantivesse num lugar seguro. Ela precisaria de proteção, porque se não, logo demônios, anjos e sabe-se lá mais o que estariam procurando por ela e pelo que ela sabia. Shane poderia protegê-la e também ajudar a treina-la. Se ela era uma semideusa, tinha poderes.
Assim que a garçonete anotou o pedido de Berenice, ela continuou a falar:
–Então, sobre o mapa, que Thoth me falou... Eu demorei um tempo para entender o que ele queria, o que significava, qual é o lugar que estaria esse mapa. O mapa está aqui, no Colorado, nas montanhas. – ela fez uma pausa – eu não quero ir até o local. Tenho medo do que pode estar lá, guardando o mapa. Mas é importante que você vá.
–Tudo bem – falou Alicia – um amigo meu pode leva-la para um lugar seguro.
Era Shane, claro. Primeiro, que assim que demônios, anjos e sabe se lá mais o que soubessem que a filha de Thoth estava circulando por ai, cairiam em cima dela. Thoth era quem sabia o que ia acontecer, o que Alicia significava. Ela precisava ser protegida, então ficaria sobre a responsabilidade de Alicia. Segundo, Shane poderia encontrar alguém para treiná-la. Estavam acostumados a lidar com meio humanos. Alicia tinha visto o quanto Thoth era poderoso e mesmo se apenas pequena parte daquele poder estivesse presente em Berenice, ela ainda seria muito poderosa.
A comida chegou e Alicia mandou uma mensagem para Shane. Berenice deu mais detalhes.
Alicia não iria até as montanhas rochosas sozinha. Agora, ela queria ajuda. Ela estava mudando. Era bom não ser mais uma instável emocional. Sentiu orgulho de si mesma.
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–Por que você está me ligando?
–Nossa, oi para você também mal educado. Estou te ligando porque Dean não atende o celular.
Alicia teve que ligar para Sam. E ele estava bêbado.
–Falando nisso, estamos no meio da tarde. Como assim vocês dois estão bêbados?
–Estamos em Vegas. Dean quis vir. Agora ele está ocupado com duas strippers.
–Parece divertido – respondeu Alicia, ironicamente. – por que você não está com strippers também?
–Porque estou falando com você no telefone.
–Boa resposta. Assim que vocês voltarem a si, venham para Denver. Eu tenho um caso. É importante.
–Espere, você está chamando nós dois para participar de alguma coisa? É realmente o fim do mundo.
–Eu estou mudando, Sammy. Não sou um caso perdido.
Eles desligaram. Alicia estava mais feliz. Ela queria mostrar para Sam que ela valia a pena.
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10 de outubro de 2008, 17 horas, Twin Lakes, Colorado
Alicia tinha alugado um chalé em Twin Lakes, uma minúscula cidade a beira do Monte Elbert, a maior montanha do Colorado. Segundo Berenice, era lá em cima que havia as ruinas de uma igreja em que estava escondido o mapa que Alicia precisava.
O funcionário da empresa que alugava os chalés veio e acendeu as lareiras, no quarto principal e na sala, deixando também uma garrafa de vinho. Desde que Richard Suvimann começou a dar dinheiro a ela, Alicia pode abandonar os motéis baratos e ir atrás de alguma qualidade de vida.
Pouco depois, ela ouviu o conhecido ruído do motor do Impala.
–Uau – disse Dean, assim que entraram. O chalé era elegantemente decorado. Tinha uma sala/cozinha, uma suíte e um quarto menor. – pena que só vamos passar uma noite aqui. Eu poderia viver aqui.
Ele se jogou no sofá vermelho, feliz.
Alicia sorriu timidamente para Sam, que ainda estava parado à porta.
–Qual é o caso? – perguntou Sam abruptamente e Alicia não pode deixar de se sentir decepcionada. Mas escondeu isso e rapidamente relatou – Berenice Callisto, Thoth, o mapa na igreja do alto da montanha. Na manhã seguinte, eles alugariam um jipe e subiriam até o topo. E partir dai, era achar a tal igreja, o mapa, e enfrentar qualquer coisa que Berenice disse que vivia ali em cima.
–Bem, obrigado por nos chamar para ajuda-la. – falou Sam simplesmente. Alicia ficou ainda mais chateada. Ela estava dando a ele o espaço que ele precisava, mas ele tinha que só falar com ela sobre trabalho?
Mas vamos ser otimistas: pelo menos Sam estava falando com ela.
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23 horas.
Eles tinham decidido dormir cedo, para estarem descansados no dia seguinte. Dean prontamente deitou e dormiu, e agora roncava alto na cama ao lado de Sam. O som era só uma das coisas que não deixavam Sam dormir.
Ele não conseguia parar de pensar em Alicia, que estava há apenas alguns metros de distância dele. Ele sabia que poderia tê-la de volta facilmente – era só ir até aquele quarto e tudo estaria resolvido entre eles. Mas ele podia fazer isso?
Alicia vinha agindo diferente do normal com ele. E não demostrava ter raiva dele. Mas Sam ainda se sentia culpado: pelas coisas que falou a ela quando Dean morreu, por ter fugido dela, por ter a ignorado e principalmente por ter dormido com Ruby. Ele sentia como se tivesse traído Alicia, mesmo que ele tivesse terminado o relacionamento. Sentia nojo de si mesmo por ter cedido a isso. Depois de voltar a investigar casos com Dean e principalmente, depois do espirito de Jess tinha aparecido, ele prometeu ficar longe de Ruby e de tudo que ela significava. A vingança não valia perder as pessoas a quem ele amava. Tinha prometido a si mesmo que não cairia mais na conversa de Alicia, mas ele pode ver como ela estava mudando. Ela finalmente estava tentando ser alguém melhor, por ele, e isso era a prova de amor que ele precisava.
Era uma pena que a situação tivesse chegado aquele ponto extremo para Alicia mudar. Mas ela tinha mudado e era isso que importava. Ver Jess tinha mexido muito com ele, lembrando de toda a culpa que sentia pela morte dela. Dean tinha resolvido isso da maneira que ele sabia melhor: caçar, álcool e por fim Las Vegas. Mas tudo isso também fez Sam pensar na promessa que fez a Alicia, sobre como ele queria ser feliz antes de morrer.* No fundo, ele sabia que Jess queria que ele fosse feliz. Sam nunca quis se tornar um obcecado por vingança como seu pai.
Isso tudo poderia ser resumido em uma só frase: ele queria Alicia de volta.
Precisava falar com ela. Num impulso, se levantou da cama e quando percebeu já estava abrindo a porta do quarto de Alicia. Sem bater.
O sono dela devia estar leve, porque ela acordou com a porta se abrindo, virando-se bruscamente para ver quem estava invadindo. Sam aproveitou que ela estava acordada e acendeu a luz.
Alicia se sentou na cama, ainda mais incomodada com a claridade.
–O que você está fazendo aqui, Sam? – ela perguntou, confusa.
–Eu queria conversar. Eu sinto muito, não devia ter vindo. – ele fez menção de sair do quarto. Alicia estava usando para dormir uma camisa xadrez de flanela, que ele tinha certeza que era dele.
–Bem, agora você já está aqui.
–É verdade – concordou Sam, fechando a porta atrás dele. De repente não sabia o que dizer; então se sentou na cama dela, de frente para ela.
–Obrigado por nos avisar sobre esse mapa. Obrigado por nos incluir dessa vez, e não ter sumido. Isso significa muito para nós, mas principalmente para mim...
–Eu estou tentando, Sam. Você sabe. Ser uma pessoa melhor. Não sumir. Essas coisas.
–Eu sinto muito pela maneira que falei com você e tratei você nos últimos meses.
–Sam, você não precisa pedir desculpas. Eu quem errei com você, varias e varias vezes. Eu quem errei e pedia para você me aceitar de volta, mas continuava agindo da mesma maneira. Eu sei que eu errei com você inúmeras vezes. E eu sinto muito por isso. Eu não quero mais fazer você sofrer, Sam. Você merece mais do que isso.
Sam sorriu. Ele sabia o que vinha agora e estava muito feliz com isso. Essa era a parte em que eles se perdoavam. Ele pegou a mão dela, e os dois se olharam intensamente. Foi fácil e rápido deitar-se na cama e puxar Alicia para cima dele, fechando os olhos, feliz com o beijo dela e o corpo dela junto ao dele.
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–Sam, você tem que acordar. Estamos um pouco atrasados.
–Hm? – ele resmungou, sem abrir os olhos. – Allie, volte para a cama. Está frio.
–Eu bem que gostaria, querido, mas temos uma missão importante, lembra?
Sam abriu os olhos. Alicia estava de pé aos pés da cama, sorrindo para ele. Ela usava uma camiseta cinza com a frase I PUT THE “HOT” IN PSYCHOTIC. Ele tinha sentido falta das camisetas com frases engraçadinhas dela.
Ele empurrou os cobertores para longe, se levantando meio tonto da cama. Alicia tinha os olhos fixos nele enquanto ele caminhou até ela e abraçou. Sam a beijou. Ele realmente queria voltar para a cama.
–Sam, amor?
–O que foi?
–Nós precisamos ir. E você não está usando nada.
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A subida foi longa e gelada.
Dean estava dirigindo o jipe que Alicia tinha alugado com a recepção do hotel e ele estava odiando. Berenice tinha dado coordenadas a Alicia, que ela tinha colocado no GPS. Outra coisa que incomodava Dean: ele detestava GPS.
A primeira parte da subida foi tranquila, rumo ao topo. Eles não conversaram muito dentro do carro. Alicia estava radiante. Ela e Sam estavam juntos novamente. A fé dela, que eles voltariam a ficar juntos, era o que a tinha guiado nos últimos meses e durante todo esse tempo ela estava certa. Ia mostrar para Sam que ele não iria se arrepender de ter dado mais uma chance a eles. Dessa vez, seria diferente.
Em determinado momento, tiveram que se desviar da trilha principal, a qual os turistas em jipes normalmente usavam para chegar até o topo. O GPS indicava que eles tinham que virar numa trilha secundária, rumo a uma parte da montanha que era proibida ao público. Tiveram que estacionar e arrombar o portão que impedia a entrada naquela região, sempre esperando para que não houvesse câmeras, seguranças ou mais turistas. Felizmente, não era alta temporada.
Embrenharam nas florestas de pinheiros. Tudo era silencioso, apenas pelo som do motor. O ar cheirava a Natal – pinheiros e neve. Naquele ano, Alicia tinha um apartamento e pessoas o suficiente. Podiam fazer uma ceia natalina. Sam ficaria feliz, ele sempre gostou dessas coisas meio bregas.
Certo, ela sabia que eles estavam em guerra e estavam indo numa missão perigosa, procurar um mapa que indicava a localização de tal Sala das Profecias que conteriam informações importantes sobre ela. Informações como quais seriam os Sete Reinos, que ela supostamente devia conquistar com uma guerra... As vezes, Alicia ficava com preguiça de tudo isso.
A mata foi ficando cada vez mais fechada. Já fazia duas horas que eles estavam subindo. Durante mais meia hora, Dean continuou dirigindo, até que as arvores foram ficando cada vez mais espaçadas e eles se viram numa clareira. O GPS indicava que eles haviam chegado, mas não havia nada ali.
Desceram do jipe, cautelosos e atentos, as armas já aos alcances das mãos. O chão era coberto por folhas, que estavam úmidas devido a neve descongelando com a luz do dia.
Juntos, os três seguirem em frente, todos os sentidos atentos a qualquer coisa errada. Berenice tinha dito a Alicia que não gostaria de participar daquela missão, pois haveria coisas horríveis lá.
Depois de andarem pela aquela área desmatada por uns 20 minutos, chegaram a uma construção destruída. A fachada estava relativamente preservada – uma construção de tijolos, com musgo preto e outras plantas subindo pelas paredes. A escadaria, de pedra, era longa, e estava muito desgastada e faltando pedaços em alguns lugares. A torre estava pela metade. Havia uma cruz de madeira caída e virada no chão, provavelmente tinha despencado junto com a torre.
Eles seguiram até a escada de pedra. Sam foi o primeiro a dar o passo para subir a escadaria, e assim que seu pé encostou lá, um som animalesco e brutal foi produzido. Do alto da escadaria, uma criatura humanoide, toda branca, com a região dos olhos cinzenta, mas sem nenhum olho visível, desceu correndo em direção a Sam. Alicia a jogou longe com um movimento da mão e a criatura sumiu em seguida, numa explosão de fumaça cinza e cheiro de enxofre.
–Son of a bitch,o que era isso? – Dean foi o primeiro a se manifestar.
–Provavelmente algum demônio de alguma cultura extinta que nem ninguém tem ideia do que ainda exista. – respondeu Alicia. – vamos tomar cuidado.
Vieram mais, muito mais. Eram dois tipos por enquanto: esse baixo branco e um bem mais alto, com a pele cor de berinjela e olhos vermelhos. Os brancos não tinham bocas (assim como não tinham olhos), mas os roxos falavam uma língua antiga e absurda, num tom de voz de arrepiar os cabelos. Sam e Dean atiravam em todos – felizmente eram vulneráveis a balas de sal – e Alicia usava seus poderes para mantê-los longe. Um movimento da mão e as coisas eram empurradas, desaparecendo em pleno ar. Assim, eles conseguiram subir os 50 degraus da escadaria, até chegar a porta de madeira da igreja.
–Será que é só isso? – perguntou Alicia, cansada. A porta de madeira parecia simples. Havia várias letras entalhadas na porta. – não, não é só isso. – ela acrescentou ao reparar nas estranhas palavras.
–Isso é uma escrita antiga – falou Sam – aramaico ou coisa do tipo. Fiz um curso enquanto estava em Stanford. Acho que eles estão pedindo por sangue... Um pouco de cada um que vai passar pela porta.
–Você tem certeza disso? – perguntou Dean, enquanto ele e Alicia olhavam para Sam, sempre com aquela expressão surpresa. O garoto podia ser uma caixinha de surpresas.
–Não, mas isso é o melhor que podemos tentar. – ele acrescentou e tirou uma faca prateada do bolso. Com cuidado, ele cortou seu antebraço. Ele pegou a lamina suja de sangue e passou na porta. Enquanto Dean fazia isso com a própria faca, Alicia esticou o braço para Sam e permitiu que ele a cortasse.
A porta da igreja se abriu e permitiu que eles entrassem. Estavam cansados, suados e machucados pelas lutas com os demônios. O interior da igreja era uma bagunça, com velhos bancos de madeira virados para todo o canto, trechos de tijolos. Enquanto andavam, um pedaço do tento desabou.
–Então, o que estamos procurando? – perguntou Dean.
–Um mapa. Uma caixa. Eu não sei. Eles separaram e começaram a procurar. Felizmente, era uma igreja simples. A torre não existia mais, o que tinha sobrado era apenas o grande salão... Era difícil ficar lá dentro por muito tempo. Havia a presença muito forte de algo maligno. Alicia sentia-se como se fosse chorar a qualquer momento, sentia uma angustia muito forte. A igreja era velha, mas a falta de acumulo de poeira indicava que pessoas vivem por ali.
Alicia se aproximou do antigo altar, subindo três degraus. O altar todo era coberto por um velho tapete vermelho, que devia ter sido bonito há 50 anos. A antiga bancada de mármore estava intocada, mas atrás dela, uma cruz de ouro estava caída. Atrás da cruz, havia uma caixa, também de ouro, com detalhes em veludo vermelho. Alicia deduziu que aquela caixa devia ser onde ficavam guardado as hóstias, quando a igreja ainda era funcional. Ela foi caminhando até a cruz, até em que determinado momento, uma força invisível a impediu de continuar.
Ela chamou Sam e Dean, que vieram correndo até ela. Nenhum dos dois tiveram problemas em avançar até a cruz. Confusos, começaram a olhar ao redor. Sam levantou um pedaço do tapete, revelando que a caixa estava protegida por uma armadilha do diabo.
–Bem – falou Alicia, se sentindo envergonhada. – aparentemente eu sou demônio demais para essa armadilha do diabo.
–Isso já tinha acontecido antes? – perguntou Sam.
–Não, mas nos últimos quatro meses, pelo que eu me lembro, eu nunca cheguei nem perto de uma armadilha do diabo.
–E o quarto de pânico de Bobby? – perguntou Sam – lá é sempre cheio de armadilhas do diabo.
–Eu apaguei as armadilhas em volta do quarto quando fui invocar Castiel. Pensava ainda que ele poderia ser um demônio. E tanta coisa aconteceu lá que eu esqueci de colocar de novo. E Alicia não entrou na área que tem a armadilha. – explicou Dean.
–Ai! – gritou Alicia, quando Sam jogou água benta no rosto dela. – isso queima. Por que você fez isso?
–Como vamos ter certeza que você é realmente Alicia? – perguntou Sam, desconfiado. – isso nunca tinha acontecido antes. E você está diferente. Você nunca nos chamou para ajudar em algo relativo a você antes.
–Você está brincando comigo né? – Alicia disse, incrédula. Ela olhou para Dean em busca de ajuda, mas esse também estava desconfiado. – eu não posso ser possuída. Somente humanos podem ser possuídos.
–Você nunca teve problemas com armadilhas do diabo e água benta antes – falou Dean.
–Pensem comigo! – ela quase gritou, exasperada – agora é diferente, eu deixei de lado tudo que havia de humano em mim. Se eu tenho os poderes, eu devo ter as fraquezas em mim também. Isso é lógico.
Mas Sam e Dean ainda pareciam desconfiados. Alicia entendia a razão deles, mas como ela poderia provar que ela era mesmo e não estava possuída? Perguntas pessoais não adiantariam muito. Um demônio que a possuísse poderia muito bem ter acesso a essas informações na mente dela, mas ainda assim... Era só ser um pouquinho racional: apenas humanos podem ser possuídos.
Sam e Dean estavam sem reações. Alicia fechou os olhos. Quando abriu, eram amarelos. Atrás dela, suas asas apareceram brevemente – azul marinho, presas, juntas, entrelaçadas por um fio prateado que reluzia. O fio prateado era causado pela tatuagem que continuam as asas de Alicia e a impediam de ser localizada por causa de todo o poder que ela tinha. Seu poder chamava atenção por aonde ela ia, atraia humanos e criaturas sobrenaturais, que desejavam o poder que ela tinha. Quando ela escolheu esconder seus poderes, escolheu perder suas asas.
Sam nunca pensou que a veria assim. Estava ainda com as roupas normais, mas sua pele tinha adquirido um tom branco assustador, as tatuagens negras, quase brilhavam devido ao contraste. Ele podia sentir o quanto poder tinha cada um daqueles desenhos naquela pele, naquele corpo que ele achava que conhecia tão bem quanto conhecia o próprio. Mas Alicia escondia muitas coisas, seus olhos eram os amarelos com que Sam tinha tido pesadelos tantas vezes, suas asas eram imponentes e impressionantes. Ele se perguntou tanto como podia amar tanto alguém cujo pai tinha destruído sua vida. E ele a amava, ele a amava mesmo assim, mesmo ela, claramente, não sendo humana.
–Isso é o suficiente para vocês serem convencidos que sou realmente eu? – ela perguntou, os olhos ainda naquele tom de amarelo horrível. Ela podia ver que Sam e Dean pareciam um pouco horrorizados de vê-la assim, mas isso era o que ela era na verdade. Seus olhos voltaram a verdes. – vamos, o mapa está na caixa. Eu posso sentir. Por favor, o peguem. Aqueles demônios não vão ficar longe por muito tempo.
Foi Dean que pegou a caixa, e seus dedos queimaram. A caixa estava extremamente gelada, tão fria que queimava. Ele tirou o casaco, envolvendo a caixa nele, enquanto tentava lidar com o frio e abrir a caixa. Sam continuou olhando para Alicia, presa na armadilha do diabo. Ele estava fazendo aquela cara de cachorrinho sem dono, seus olhos dominados por uma profunda infelicidade. Alicia quase podia ler o que ele pensava.
–Eu não sou um monstro, Sam. – ela murmurou, mas suas palavras ecoaram pela igreja vazia. Sam não respondeu. Dean finalmente se levantou, carregando uma caixa de madeira. Um vento gelado começou a soprar e todos eles arrepiaram. Murmúrios estranhos em outras línguas começaram a aparecer e foram aumentando de intensidade, centenas de vozes que reclamavam.
–Vamos sair daqui. – falou Dean. – e rápido.
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