They are angels now
1 Allison can't play with you anymore
Notas iniciais

Ela era pequena, tinha seus quatro aninhos de idade, seus cabelos eram castanhos, iguais aos de sua irmã. Cabelos estes que ela tinha muito orgulho de ter, porque segundo ela, a deixava mais bonita e mais parecida com a irmã mais velha. Seus olhos eram azuis, assim como os olhos do pai, com uma inocência que enchiam o coração de Allison de felicidade.
Ela sempre se pegava pensando no futuro da pequena, Allison não queria que ela fosse criada no meio disso tudo, Alicia era muito pequena, muito inocente e pura para vivenciar todas essas coisas.
A garotinha não merecia todos os riscos que vinham com essa “profissão”, tão nova e já havia perdido a mãe, quem garantiria que o próximo não seria o pai ou até mesmo Allison?
Depois que Victoria morreu, Allison virou a única figura materna que Alicia tinha, e as duas tinham uma cumplicidade tão grande, que por vezes a garotinha dizia que Allison era o seu anjo da guarda, enviada ao mundo para cuidar dela.
Victoria não era uma mãe muito boa.
Não quando o assunto era a pequena Alicia.
Allison se lembrava bem da depressão que a mãe adquiriu quando a pequenina nasceu, ela se lembrava de todas as noites que teve que passar em claro, com a pequena garotinha de olhos azuis e cabelos pretos, nos braços, velando pelo seu sono.
Ela se lembrava da vez em que a mãe tentou matar Alicia por achar que a garotinha era uma criatura sobrenatural. Na época, Allison tinha apenas 13 anos de idade e não sabia que todas essas coisas realmente existiam.
O tempo passou e Victoria foi aprendendo a amar a pequena Alicia, não do jeito que a garotinha merecia, mas do jeito dela. Um jeito torto e meio sem noção, mas era amor do mesmo jeito.
Neste momento Allison estava deitada na sua cama, de olhos fechados e pensando em como todas as coisas haviam mudado desde que ela chegou em Beacon Hills.
Allison estava pensando em um jeito de salvar seus amigos.
Um jeito de salvar Lydia.
“Allison, Allison, Allison, Allison!”
Ela escutou uma vozinha pequena e suave a chamando, ela sorriu e abriu os olhos, se deparando com duas pequenas bolinhas da cor do céu e um sorriso de covinhas com alguns dentinhos faltando.
“Allison, Allison!” A pequena pulava de um lado para o outro.
“Oi princesa.” Ela sorriu e a pegou no colo, colocando-a deitada do seu lado, “Você já tomou banho?”
“Allison! Eu não gosto de tomar banho!” A pequena fez cara feia e Allison riu.
“Mmm, então é por isso que eu estou sentindo esse cheirinho azedo?” Ela riu e começou a fazer coquinhas na irmã, a fazendo rir.
Allison adorava esses momentos com Alicia, era como se nada pudesse atrapalhar a felicidade delas, como se nada de ruim estivesse acontecendo do lado de fora. Como se o sobrenatural não existisse. Era como se ela fosse uma adolescente normal, sem nada tentando matá-la a cada esquina. Só ela, Chris e Alicia.
“Alicia!” Chris chamou. Ela arregalou os olhinhos e colocou as mãozinhas na boca.
“Ah não!” Allison a olhou e riu.
“O que foi que você fez Allie?”
“Ele quer me dar banho, mas eu não quero tomar banho agora. Eu quero brincar!” Allison riu, levantou da cama e a pegou no colo.
“Mas está tarde e você precisa dormir. É melhor você ir tomar banho, antes que o papai se irrite e venha aqui atrás de você.”
“Antes que ele se irrite? Allison, você não viu ele me gritando? Ele vai querer me matar! Você não pode deixar o papai me encontrar! Por favor, eu tomo banho depois, eu só quero brincar!” Ela olhou para Allison e fez biquinho, os olhinhos cheios de lagrimas.
Allison levantou uma sobrancelha e sorriu pra ela.
“E se eu te contar uma história nova?”
“Sério? Você vai me contar uma história nova?” Ela sorriu, os olhinhos brilhando.
“Sim, mas você tem que ir tomar banho primeiro. Se não, nada feito!” Alicia sorriu e fez uma reverência.
“Você vai me dar banho?”
Allison sorriu, e saiu andando com ela em direção ao banheiro.
“Claro. Quero ter certeza que você sabe tomar banho direito.” Ela riu e seguiu a pequena garotinha para o banheiro.
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“Qual história você quer ouvir hoje?” Allison sorriu e a olhou.
“Ah... Eu acho que quero a história da Branca de Neve.” Allison andou até a prateleira de livros, e escolheu um onde havia as histórias de todas as princesas, ela sorriu.
“Então vamos lá.” Allison sentou-se na cama da irmã, abriu o livro e começou a ler a história que era a favorita de Alicia.
Allison parou de ler para olhar a irmã, checar se ela já havia dormido, sorriu quando viu que as duas bolinhas de gudes ainda continuavam abertas, e apesar de estarem quase se fechando, ela estava prestando uma atenção quase religiosa ao que ela dizia. Ela olhou no relógio, suspirou e fechou o livro.
“Agora está na hora de você dormir.” Allison sorriu.
“Mas eu não quero dormir Allison!” Alicia abriu a boca e coçou os olhinhos, “Eu ainda não estou com sono.”
Allison a olhou, levantou uma sobrancelha e riu.
“Não? Você prometeu que iria dormir se eu te contasse uma história. Eu contei, agora é hora de dormir, já está tarde.” Allison levantou, colocou o livro na cabeceira da cama de Alicia e sorriu pra ela, “Vamos dormir agora?”
Alicia suspirou, coçou os olhinhos novamente, sorriu e abraçou seu ursinho.
“Ally...” Alicia a olhava com olhinhos arregalados.
Allison a olhou, suspirou e andou até o guarda-roupa.
“Não tem monstro aqui Allie, viu? Nadinha.”
“Embaixo da cama...” Ela sussurrou.
Allison suspirou novamente e se abaixou, olhando embaixo da cama.
“Nada. Você sabe que não precisa ter medo não é?” Ela sorriu.
“Eu sei, você e o papai sempre vão estar aqui para cuidar de mim, mas eu tenho medo do bicho papão vir me pegar. Eu não quero que ele me leve embora.” Ela bocejou e sorriu para Allison.
Allison sorriu com a inocência da irmã, se abaixou, fez cafuné nela e a beijou na testa.
“Pode dormir Allie, quando você acordar amanhã, eu vou estar aqui e a primeira coisa que nós vamos fazer é brincar. Okay?”
Alicia balançou a cabeça e se aconchegou na cama, fechando os olhinhos.
“Você promete?”
“Prometo.”
“Eu amo você Allison.”
Allison sorriu e se encostou na porta.
“Eu também amo você Alicia.”
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Tudo estava silencioso, calmo, era como se a natureza não se importasse com o pai que perdeu a filha ou com os adolescentes que perderam uma amiga.
Chris olhou ao redor, vendo todos aqueles rostos que ele aprendeu a amar, todas aquelas crianças que não faziam ideia se iriam conseguir superar isso um dia.
Eles não mereciam isso.
Ele não merecia isso.
Sua filha era nova demais para morrer, eles eram novos demais para experimentar essa dor. Apesar de todas as coisas que passaram, eles continuavam sendo crianças.
Crianças que cresceram rápido demais, que tiveram que lidar com perdas estando jovens demais, e apesar da vontade de ajuda-los, de faze-los voltarem a ser crianças, isso era uma coisa que ele sabia que não tinha poder algum para fazer.
O que ele podia fazer era ser forte.
Era ser forte por eles.
Pra ele.
Por Allison.
Ele suspirou, fechou seus olhos e se segurou para não desmoronar, para não se deixar ser visto desmoronando; ele não havia sido criado pra isso; ele não era uma criança; ele havia sido criado desde pequeno para esconder seus sentimentos.
Ele conseguia lidar com isso.
Se doía?
É claro que sim. Ele perdeu sua irmã, sua mulher, seu pai e agora, sua filha.
Como suspostamente ele deveria viver agora?
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A tristeza esmagadora estava quase sufocando-o enquanto ele dirigia para casa. Seu coração estava martelando no peito enquanto ele se esforçava para ficar composto. A cena repetida várias vezes em sua mente. Ele tinha chegado um pouco tarde e por causa disso, ela tinha morrido. Morrido. Allison estava morta. Ele balançou a cabeça, forçando esse pensamento a deixar a sua mente. O pior não tinha acabado. Ele tinha que contar a sua filha caçula — única viva; Alicia...
Normalmente, ele sempre ficava muito animado para vê-la mas agora, ele temia esse reencontro. Ele não sabia como dizer a pequena garotinha que sua irmã, a única figura materna que ela tinha, havia morrido.
Chris entrou na casa, respirou fundo e fechou os olhos. “Talvez eu pudesse esperar mais um pouco. Provavelmente ela deve estar dormindo agora.” Ele pensou, “Eu posso esperar para contar depois que ela já estiver acordada.”
Chris suspirou e mordeu seu lábio inferior, tentando parar as lagrimas que rolavam sem permissão. Ele lembrou-se de sua última conversa com Allison.
“I love you. I'm proud of you. I'm proud of us.”
Ele respirou fundo mais uma vez e subiu as escadas, ele tinha que checar se Alicia estava bem. Ele não aguentaria se alguma coisa tivesse acontecido com ela também.
Não com ela.
Ela era a única coisa que restava para ele agora, seu único pedaço de sanidade.
Chris estava andando de cabeça baixa, pensando em como contar a sua pequena filha, que Allison havia morrido, quando ele escutou um chiado, como se alguém estivesse chorando.
Ele olhou para cima e viu sua pequena filha encostada na porta do quarto de Allison. As costas encostadas na porta, os joelhos junto ao peito, em um abraço apertado enquanto a cabeça estava curvada sobre os mesmo. Chris sentiu seu coração pesar.
Ela estava esperando Allison para brincar.
Chris respirou fundo e andou até a pequena garotinha.
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Eram 8hrs da manhã e Alicia já estava acordada. Isso não seria um fato muito impressionante, levando em conta que ela sempre acordava cedo, mas nunca nesse horário.
A garotinha tinha tido um pesadelo, e não querendo mais dormir, resolveu que seria uma boa hora para levantar e começar a pintar. Logo logo Allison acordaria, e elas iriam brincar de Barbie, como elas sempre faziam.
Ela estava deitada no chão de seu quarto, brincando de colorir. Ela não se lembrava exatamente qual havia sido o pesadelo que tinha tido, mas ela se lembrava que haviam gritos, escuridão e que ela havia acordado chorando e com uma dor no peito que nunca tinha sentido antes.
A pequena garotinha sentou no seu tapete, suspirou e olhou no relógio, tentando decifrar qual era a hora que ali marcava. Allison havia prometido que iria ensina-la a saber as horas.
Ela estava pintando um desenho da Branca de Neve, sua princesa favorita. Ela havia acordado e sentido uma vontade enorme de pintar algo para Allison, algo especialmente pra ela. Então ela se levantou, pegou seu livrinho de desenhos e procurou a sua princesa favorita, que consequentemente a lembrava de Allison.
Ela estava encarando a porta de segundo em segundos, esperando o momento em que ela seria aberta pela irmã mais velha, esperando o momento em que ela iria se sentar com ela, iria pegar aquela Barbie que era da Allison e não dela.
Ela tinha prometido que iria vir brincar com ela, ela tinha prometido que estaria aqui quando ela acordasse, ela tinha prometido que iria continuar a história que ela estava contando.
Não aguentando mais esperar, Alicia se levantou, e correu para o quarto da irmã, batendo na porta com seus pequenos punhos.
“Allison! Você quer brincar?” Ela parou e ficou nas pontas dos pés, tentando ver se era grande o suficiente para olhar pelo buraco da fechadura, descobrindo que não, ela não estava tão grande assim, “Allison!” Ela gritou o nome dela outra vez, Alicia sentou-se no chão, costas para a porta, seus pequenos joelhos vieram para seu peito e ela os abraçou forte, colocando a cabecinha em cima dos mesmos.
Allison nunca deixava Alicia esperando. Allison nunca deixava Alicia sozinha.
“Alicia?” Chris estava de joelhos na frente dela. Ele parecia estranho, diferente.
“Papai?” Ela ficou de pé, olhinhos arregalados, vendo como uma lagrima solitária escapou dos olhos dele, “Onde está a Allison?” Ela falou baixinho, mordendo o lábio. Allison sempre fez o que prometeu. Allison nunca dormiu até tão tarde. Allison sempre, sempre abre a porta quando ela bate, “Ela iria brincar comigo.”
Ele a pegou no colo e a carregou até seu quarto, a colocou em cima da cama.
“Allison não pode mais brincar com você, Allie.” Ele encarou seus pés e a garotinha pode perceber como ele estava chorando.
“Papai? Do que você está falando? Porque você está chorando?” Alicia odiava ver o pai chorando. Era como se as coisas não estivessem certas. Ela rastejou um pouco em direção a ele, envolvendo seus pequenos braços em volta do pai, pressionando seu pequeno corpo contra o dele.
“Ela não pode mais brincar com você querida. Allison foi embora. Ela foi para um lugar melhor.”
“Mas ela não se despediu de mim papai! A mamãe se despediu, ela disse que me amava e que sentia muito! Porque a Allison foi embora?” A garotinha franziu a testa e seus olhos se encheram de lagrima, “Foi alguma coisa que eu fiz papai? A Allison me deixou por causa de algo que eu fiz?”
“Não! Não querida! Quem disse isso pra você?”
“A mamãe foi embora porque ela não gostava de mim. A Allison foi embora porque não gostava de mim também não é? Eu fiz a Ally ir embora e deixar a gente!”
Chris sentiu seu coração ser esmagado mais uma vez e pensou, “De quantas maneiras um coração pode ser despedaçado e ainda continuar batendo?”
“Não. Você não fez nada de errado meu amor. Você nunca fez nada de errado! Você se lembra daquilo que eu te falei sobre a sua mãe?” Ele olhou para baixo, e a pequena garotinha balançou a cabeça, com um sorriso no rosto, apesar de ainda ter algumas lagrimas nos olhos.
“Você me disse que Deus precisava de um anjo.” Ela disse as mesmas palavras que ele havia repetido muitas e muitas vezes quando ela não queria acreditar que a mãe havia simplesmente ido embora.
“Sim, você está certa.” Ele suspirou e olhou para longe, “Deus acha que sua mãe é um anjo maravilhoso, e ele pensou que a Allison seria um anjo incrível também.” Ele tentou sorrir para a garotinha e ela sorriu para ele.
Para a garotinha tudo fazia sentido. Allison era tudo o que um anjo precisava ser. Ela parecia com as fotos de anjos que ela havia visto. E Allison era a pessoa mais doce, gentil, leal e linda que Alicia já havia visto na vida.
“Allison é um ótimo anjo.” Ela balançou a cabeça, concordando. As mãozinhas perto da cintura e um sorriso no rosto. Ela estava tão orgulhosa que Deus havia pedido para Allison e sua mamãe para serem anjos, “Papai?” Ela se virou e ele olhou-a de volta.
“Sim?” Ele colocou a mão na perna dela e ela virou-se para olha-lo direito.
“Você acha que eu seria um bom anjo também?” Ela não entendeu o porquê Chris começou a chorar e mais ainda, o porque ele colocou seus braços envolta dela, porque ele a estava pressionando em seu peito e a abraçando tão apertado.
“Você daria um anjo maravilhoso querida.” Ele pressionou seus lábios no cabelo dela, dando-lhe um beijo suave e parou por um segundo, “Mas eu espero que Deus entenda que eu gostaria de manter um dos meus anjos comigo e que eu realmente sinto falta das outras.”
A garotinha sorriu e apesar de não entender a gravidade das coisas, ela disse:
“Não se preocupe papai, eu nunca vou te abandonar. E se um dia Deus me pedir para ser um dos seus anjinhos, eu vou dizer que não posso deixar meu papai sozinho. Porque agora eu sou a única coisa que ele tem e ele é a única coisa que eu tenho.”
E apesar dela sempre bater o pé e dizer que Allison era o seu anjo, no final, Alicia era o anjo da família Argent.
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