Theres No Winter Without Summer
22 Capítulo Vinte e Um
Notas iniciais
Asha Greyjoy não parecia nada feliz com a situação enquanto observava o irmão partir. Ao seu lado estava Robb, que estava menos feliz ainda enquanto sua esposa desaparecia de sua vista com Greyjoy. Quando o navio era apenas um ponto no oceano imenso, Asha virou-se para os seus homens e mandou que remassem em direção ao Norte. Fariam o mesmo trajeto de quando Robb e Mykhaela foram levados à Pyke e buscaria em Winterfell o corpo dos homens que morreram na batalha de retomada do reino.
A viagem parecia durar menos do que da primeira vez e os olhares que caíram sobre ele quando adentrou as muralhas de Winterfell sempre ressoariam em sua mente. Desceu do cavalo e viu o rosto ansioso de Alyssa Orleans, procurando pela irmã. Sua mãe o abraçou mas por cima dos ombros dela, Robb viu Jon, com o filho no colo, procurar com o olhar por Mykhaela.
"Vejo que encontrou seu caminho até em casa" Robb sorriu pequeno para a irmã Arya que o abraçava.
"Jon a trouxe" Catelyn soltou um suspiro e então passou a procurar em volta, como todos os outros.
"Onde está ela?"
Robb encarou o irmão e a preocupação nos olhos nevoados dele. Como diabos iria falar pra Jon que perdera Mykhaela pra Greyjoy? Como iria explicar tudo aquilo? Limitou-se apenas a balançar a cabeça negativamente e a ver a expressão do irmão cair numa tristeza que ele nunca vira. Pegou o pequeno Eddard dos braços dele e observou Jon se afastar, consternado.
"O que aconteceu, Robb?" Catelyn tinha a voz temerosa, mas tentava mantê-la firme.
"Eu estou cansado e com fome. Podemos conversar depois?" O ruivo fez menção de andar na direção do castelo, mas a jovem Alyssa entrou em seu caminho, agarrando-o pelos braços.
"O que aconteceu com Mykhaela, Robb. Me diz, por favor" Os olhos da criança estavam cheios de lágrimas e desespero. Não podia negar a ela uma explicação, mas também não tinha humor algum para falar.
"Ela está num navio, voltando pra Iberia" Ele limitou-se a dizer e voltou a andar, ignorando os pedidos de explicação que se seguiram. "Harwin, acomode Lady Greyjoy e seus homens. Quero que reúna os restos mortais dos homens da Ilha de Ferro e entreguem a ela amanhã quando partir"
O guarda fez uma reverência e o obedeceu, partindo em seguida com outros homens da Guarda Real. Robb caminhou a passos duros até a torre de seus aposentos e ali, sozinho, onde tudo gritava por Mykhaela, permitiu-se chorar pela primeira vez. Sentou-se no chão frio de pedra e agarrou os cachos ruivos nas mãos, perguntando-se em que parte daquilo tudo ele tinha perdido o controle? Como é que ele tinha perdido a esposa e o filho para Greyjoy? Que honra havia em ter que ver sua mulher se vender ao inimigo para salvar sua vida? Pensou que preferia ter morrido com a espada em sua nuca do que ter que encarar aqueles olhos novamente. Do que ter que engolir a vergonha e dizer a todos eles o que aconteceu. Que ele voltou para casa como uma donzela enquanto Mykhaela lutou como um homem pela vida dele.
Perdido em seus pensamentos, foi interrompido pela porta aberta de forma violenta e fechada em seguida. A figura de seu irmão estava embaçada pelas lágrimas quando Robb levantou a cabeça para vê-lo. Afastou a umidade das orbes azuis e viu Jon tremendo de raiva, andando de um lado para o outro.
"Como você deixou ela morrer, Robb? Como você deixou ela morrer quando eu a entreguei pra você, quando eu confiei que você a protegeria?" O moreno gritou as acusações não se importando com quem ouviria. Nada mais importava, Mykhaela estava morta.
"Ela não está morta, Jon" Robb disse num sussurro, levantando-se.
"Onde ela está então?"
"Theon ia me executar e sabem os deuses fazer o que com Mykhaela depois. A espada estava acima de minha cabeça quando ela pediu para falar e ele permitiu. E eu não pude evitar Jon, eu juro que não pude. Quando ela começou a falar eu tentei, mas ele mandou que eu me calasse e eles fizeram com que eu me calasse"
"Qual seu ponto, Robb?"
"Ela fez um acordo com ele pela minha vida"
"Que tipo de acordo?"
Robb corou e abaixou o olhar, constrangido.
"Ela mentiu pra ele, disse que o reino do pai dela me pertencia e o ofereceu a Theon. Ofereceu o reino e ofereceu a si mesma. E ele foi embora com ela pra Iberia"
"Ela se ofereceu?"
"Ela se vendeu pra ele, pra que eu pudesse viver, Jon" Robb gritou, algumas lágrimas de constrangimento escapando de seus olhos.
"E você não fez nada?"
"O que eu ia fazer? Você bem sabe que quando ela coloca uma ideia na cabeça ninguém tira"
"Por que diabos ela faria isso?" Jon passou as mãos pelos cabelos, transtornado, enquanto encarava a tempestade de neve lá fora.
"Ela estava grávida, Jon" Robb disse fungando.
"Eu sei" O irmão respondeu sem muita paciência. Robb fizera um ótimo trabalho em acabar com tudo.
"Ele tem minha esposa e tem meu filho"
"E você tem a irmã dele"
"Ele está longe, Jon. Não liga pra irmã nem pra Pyke, nem pra nada agora. Renunciou o seu direito às Ilhas de Ferro em nome da irmã. Agora ele tem Iberia, tem Mykhaela e tem meu filho"
"Nós não temos nada pra fazer?"
"A não ser que eu tire uma frota de navios de guerra do rabo, Jon, não temos o que fazer" Robb se irritou com o irmão. Aquele olhar acusatório, como se fosse Jon ao invés de Robb, as coisas teriam saído diferentes. Como se ele tivesse algum poder mágico e estúpido que o faria salvar a todos. Apenas porque ele a amou primeiro não significa que Robb sofria menos. Ele a amava tanto quanto Jon.
"Então nós a perdemos para sempre, é isso que quer dizer?"
"Ela não era sua pra você perder, Jon"
Os dois irmãos se encararam com raiva e um pequeno rastro de bom senso fez Jon sair do quarto antes que socasse o irmão até ver o sangue lhe escorrer o rosto.
-x-
O remexer das ondas já fora mais amigo de Mykhaela em dias passados. Ultimamente os enjoos eram constantes, mas ela queria se enganar de que era apenas pelas ondas. Segurou o filho nos braços, acariciando a barriga crescida enquanto Greyjoy ressonava cansado ao seu lado. Jogou o cobertor de pele de lado, sentindo as gotículas de suor descerem por sua testa. Tentou se levantar sem fazer barulho e subiu as escadas rumo ao convés. Não ficava mais presa ali, não havia para onde fugir a não ser o mar e Mykhaela estava longe de ser apta a respirar embaixo d'água.
A brisa noturna soprou em seus cabelos e o calor do enjoo deu lugar a um frio repentino. Sentia saudades de casa, mas sentia mais saudades de Robb, de Eddard, de Alyssa e de todos os outros. E o caminho era duro e torturante, longo demais. Encarou a lua cheia no céu, sabendo que quando a próxima chegasse, ainda estaria ali, e a outra também, e só na outra, com um pouco de sorte e vento a seu favor, estaria em Iberia. Era tempo demais, mas tinha que ser forte. Tinha que aguentar tudo aquilo por todos eles.
"Vossa Graça" Mykhaela virou-se para encarar o dono da voz rouca. "Rei Theon está chamando por você"
Mykhaela assentiu e suspirou, dando uma última olhada para o mar. Rei Theon, ele se auto proclamava agora. Não era metade do que um homem necessitava ser para ser chamado de rei, mas nada disso importava a ele. Obrigou os pés descalços a caminhar de volta às escadas e desceu até onde a cama de palha guardava seus pequenos momentos de horror. E lá estava ele, acordado, nu e pronto; o membro viril pulsando por ela. O enjoo ficou mais forte, mas segurou-o em sua garganta. Se fizesse algo errado teria mais inchaços no rosto para acompanhar os mais antigos. Ele tirou a camisola de linho do corpo de Mykhaela e apertou de forma rude seus seios, enchendo sua boca com a saliva doce e enjoativa. Jogou Mykhaela na cama e agarrou-se à ela como um cachorro se agarrava a uma cadela no cio. Dizia que era melhor assim, pois não poderia ver a barriga inchada. Por vezes praguejava e jurava pelos deuses que mataria a criança assim que nascesse. "Não quero nunca mais ter que olhar para um Stark" ele dizia.
-x-
A manhã estava nevoenta e escura quando Jon saiu pelos portões de Winterfell. Não se despediu de ninguém, estava com muita raiva para fazer isso. Ele queria culpar alguém, ele queria culpar Robb, mas quanto mais pensava na situação, menos conseguia. Se Robb tivesse força para protegê-la de si mesma, já teriam voltado pra casa faz tempo. Ele viu nos olhos do irmão o quanto aquilo o fazia sofrer, o quanto o afetava. E pensou em Eddard, se ele também fosse privado de conhecer o filho. Robb nunca veria o seu filho.
A viagem foi cansativa e pesada e Jon desejou que o verão voltasse, mas era improvável que isso acontecesse tão cedo. Assim que atravessou os portões do Castelo Negro, Samwell Tarly correu pela neve. De alguma forma parecia mais redondo com a quantidade de roupas que o cobria.
"É Lord Mormont, Jon"
"O que aconteceu?"
Será que era possível lidar com mais notícias ruins?
"Ele quer te ver"
Jon suspirou e entregou o cavalo para um garoto novo, que havia acabado de fazer seus votos quando Jon partiu. Fantasma correu na direção do castelo, sumindo em seguida e Jon foi acompanhando o ritmo lento do amigo até a torre de Mormont. Quando entrou no cômodo pessoal do Lord Comandante, Jon mal podia reconhecê-lo. Estava muito mais magro desde a última vez que o vira, e não fazia mais de duas semanas. Parecia uma caveira, a pele branca e fina demais.
"Snow"
"Lord Comandante. Meistre Aemon" Jon fez uma breve reverência. O senhor cego de repente parecia muito mais saudável do que o Velho Urso, como se alguma vez aquilo fosse possível. Mas Jon podia ver com os próprios olhos. O Meistre foi levado por Sam após deixar um frasco de vidro com um líquido viscoso ao lado da cama de Mormont. Jon puxou uma cadeira ao lado da cama e suspirou, aconchegado pelo calor da fogueira.
"Como foi o retorno de seu irmão? Acredito que ele esteja bem"
Jon suspirou, limpando a garganta e tentando soar indiferente.
"Sim, meu irmão está bem. Mas Greyjoy tem a rainha como refém"
"É uma pena ouvir isso"
"O que aconteceu, Lord Comandante?"
"Meistre Aemon não sabe direito e se o velho não sabe, não tenho lá muitas esperanças" Ele tentou sorrir, sem muita força e começando um acesso de tosse que durou alguns minutos.
"Quer que eu te dê alguma coisa?"
"Não, quero que cale a boca, Snow. E me ouça. Não tenho muito tempo pra falar" Ele tossiu mais algumas vezes e tentou se sentar com alguma dificuldade. "Preciso que você me diga algumas coisas e não minta, Jon"
"Sim"
"Quando você chegou aqui não passava de um moleque com mania de grandeza. Mas eu via potencial em você. Pelos deuses, nós só recebemos criminosos e gente sem futuro, eles não ligam pra Patrulha muito mais do que os Lords lá no Sul. Quando recebemos alguém que conhece as letras temos sorte de mantê-los em algum cargo de intendente. Você nunca gostou muito do seu cargo, mas eu tinha em mente o futuro de toda a Patrulha, não só o seu, Snow. Recebeu uma criação que a maioria aqui não teve, bem sabem os deuses, e tinha um futuro em vista pra você."
Mormont parou pra tomar fôlego e estendeu a mão para alcançar um jarro de vinho, bebendo direto da boca. Ele tossiu mais algumas vezes, inspirou fundo o ar morno do quarto e repousou o jarro nas mãos de Jon.
"Estava te treinando, garoto. Pra assumir o meu cargo quando eu morrer, o que não deve demorar"
"Lord Comandante, eu fico-"
"Mandei se calar, Snow. Ainda não terminei"
Jon sorriu pequeno e concordou com a cabeça, calando-se em seguida.
"Você sabe que eu estive sondando. Eu sei que você sabe. Preciso que me responda isso e não minta, Snow. Você quebrou seu juramento, não quebrou?"
"O que quer dizer?" Jon passou a ser cuidadoso com as palavras. Aquilo poderia ser sua sentença de morte.
"Não há o que entender ou não, Snow. A resposta é simples e é uma. Sim ou não?"
Jon sabia o que fazer. Sabia que tinha que olhar para ele e dizer que não, que sempre fora um Patrulheiro fiel. Mas o peso da espada embainhada não deixou que ele mentisse. Garralonga era a prova da confiança de Mormont nele, como quebraria aquilo em seu leito de morte? Ele fora como um pai para Jon e não merecia uma mentira.
"Sim" A voz de Jon não passava de um sussurro.
"O garoto de seu irmão. É seu não é?"
Jon suspirou, incapaz de responder. Não podia mentir, mas não podia entregar aquela verdade também. Não era apenas ele que tinha coisas a perder com aquilo.
"Responda, Snow"
"Se o garoto fosse meu se chamaria Snow e não Stark"
"Por favor, Jon. Não sou idiota"
"Eddard Stark não é meu filho"
"Não precisa falar em voz alta se estiver muito envergonhado" O Velho Urso teve mais um acesso de tosse e quando ela passou, segurou Jon pelo braço e o puxou próximo dele. "Vou te nomear Lord Comandante, Snow. Mas tem que me prometer uma coisa e dessa vez cumprir. Me prometa que não quebrará mais seu voto, Snow. Que vai se afastar de Mykhaela e de seu filho. Um Patrulheiro da Noite só tem uma família e é a Patrulha"
"Eu sei disso"
"Pois parece que não. Se quer que seus Patrulheiros honrem o juramento tem que honrar o juramento também, Snow"
"Eu sei, Lord Mormont. E vou jurá-lo"
"Prometa-me"
"Eu prometo, Lord Mormont, que não quebrarei mais meu juramento"
"Eu espero que não me decepcione, Snow. Espero estar fazendo a escolha certa. Agora me deixe dormir"
Jon desejou boa noite a ele e levantou-se, encaminhando-se até sua cela. Aquelas palavras martelaram em sua cabeça a noite toda, o impossibilitando de dormir. Mesmo que quisesse quebrar seu juramento, não podia. O único motivo que o faria quebrá-lo estava muito longe dele, longe demais.
Notas finais
Espero reviews.
Beijos.
Fale com o autor