Theres No Winter Without Summer
25 Capítulo Vinte e Quatro
Notas iniciais
Acho que todo mundo ficará minimamente contente com o que vai acontecer nesse capítulo.
Boa leitura.
O som da água batendo em madeira parecia estranhamento familiar agora. A brisa úmida e pesada fazia seus cabelos chicotearem em seu rosto, mas ela não ligava. Aquela umidade era reconfortante. Não apenas por ver, logo a sua frente, a terra natal, mas por saber que o fim estava próximo. Os olhos brilharam, mas ela segurou a água dentro deles. Era o momento de ser forte. Assim que as mãos repousaram no enorme ventre de fim de gravidez, Mykhaela sentiu Theon parar a seu lado, analisando com os olhos claros o país que se estendia diante de seus olhos.
"Chegaremos em dois dias, pelas minhas contas" Mykhaela disse vagamente, olhando as pedras brancas das casas que se estendiam através da capital de Iberia, Lumiar.
"O vento está bom" Theon concordou, analisando o rosto dela, pela primeira vez, com uma certa alegria.
O sol machucava seus olhos claros, mas forçou-os para continuar a ver o seu novo lar. Iberia tinha a costa recortada e rochosa, mas não verde e cinza como a de Pyke. Tudo era branco contra a água azul. Uma mistura tão bonita. As casinhas pequenas se estendiam nos morros até morrer em muralhas tão brancas quanto as casas e às vezes a cidade toda parecia se confundir. O castelo então se erguia onipotente sobre todas as outras construções, no ponto mais alto da cidade. As torres possuíam tetos arredondados e pintados de azul. Ainda não havia muitos detalhes para ver, mas parecia ser magnificamente belo. Mais a oeste, após a extensão do porto, podia-se ver as praias de areia tão branca quanto neve e o mar ficava num azul tão claro que parecia não ser verdadeiro.
"É realmente muito bonito" Theon soltou de maneira sincera, até meio abobalhada, fazendo Mykhaela olhá-lo com curiosidade. Agora ela se permitia sorrir ao olhar pra ele, a admirar cada parte do tempo que passava ao seu lado.
"É seu reino" Mykhaela disse, observando Theon inflar o peito.
"Nosso reino" Theon sorriu, quase que sem o ar de superioridade. "Posso te perguntar uma coisa?" Mykhaela suspirou antes de responder afirmativamente. "Valeu a pena?"
"O que?"
"Trocar a vida de Robb por isso?"
"A vida de Robb não significa mais nada pra mim"
"Ah, por favor, não sou idiota. Acha que o tempo todo em que ficaram prisioneiros não reparei em como olhava pra ele? É claro que você o ama"
"Se não acreditou em mim-"
"Por que aceitei sua proposta?" Theon interrompeu. "Ora Mykhaela, uma mulher apaixonada faz loucuras e sua loucura era relativamente lucrativa pra mim. Se os homens do norte não vingassem Robb Stark, hora ou outra Stannis não me acharia mais útil e me eliminaria"
"Você é mais inteligente do que eu esperava"
"Eu deveria me ofender com isso" Theon estreitou os olhos, mas logo voltou à expressão normal. "Sabia o preço que pagaria com a segunda invasão ao norte"
"E mesmo assim invadiu, matou pessoas"
"Eu prometi a meu pai que os Stark pagariam o preço de ferro pelo que fizeram"
"No final de tudo é a fome pelo poder que nos desgraça, Theon"
"O que quer dizer com isso?"
"Que para sentar num trono é necessário muito mais do que saber conquistar pela guerra"
"Acho que já aprendi isso, afinal, conquistei Iberia apenas entrando em suas saias" Theon riu e virou-se para um dos homens que o chamava do outro lado do navio. Não se importou em olhar para Mykhaela e estava tudo bem. Ela estava em casa e era isso que importava.
-x-
Quando o navio parou no porto uma grande movimentação acercou-os pela costa. Muitos curiosos observavam acima dos Guardas do Porto, que olhavam desconfiados para os homens que trabalhavam na embarcação. Não possuía estandarte, mas duvidavam que fosse um navio pirata. Eles não se atreveriam a chegar à costa em plena luz do dia com toda a Guarda do Porto ali. Mas então quando a viu, o capitão mandou abaixarem as armas e sorriu grandemente. Mykhaela retribuiu o sorriso, caminhando ao lado de Theon que envolvia o braço dela no seu. Saltou pela rampa e desceu até o chão de madeira úmida do porto.
"Vossa Graça" Os homens curvaram-se para ela e Mykhaela sorriu, saudando aqueles rostos que tanto desejou ver nos últimos três meses. Theon nada entendia daquela língua estranha e apenas continuava parado em sua pose pomposa demais.
"Parlock, é bom ver seu rosto" A rainha disse num tom amigável. "Fico feliz em ver a Guarda do Porto aqui. Temos sessenta homens a bordo desse navio, acha que seus homens são suficientes?"
"Suficientes? Para que?"
Mykhaela sorriu tão grande como não sorria há muito tempo. Era maldoso também seu sorriso, frio e vingativo. O corte em seu lábio doeu, rasgou-se novamente e gotejou sangue. Não importava, era a última vez que seus lábios sangrariam. As saias dela rodopiaram enquanto ela virava para o segundo em comando de Theon, ainda em cima do navio e falou na língua comum.
"Senhor, peça para seus homens permanecerem aqui, ao lado do navio, para que a Guarda autorize a entrada de todos. Quero que sejam identificados um a um"
"Sim, Vossa Graça" O homem fez uma breve saudação e virou-se gritando ordens aos homens.
Mykhaela voltou a olhar para Parlock, um traço de sorriso ainda adornando sua boca.
"Princesa?"
"Suficientes para matá-los"
Parlock a olhou com as sobrancelhas juntas, analisando-a por alguns instantes. Mas não demorou muito para ele afirmar com a cabeça e colocar a mão no botão da espada em sua cintura. Mykhaela sorriu e acenou com a cabeça, encorajando Theon a andar e voltaram-se para o caminho entre os guardas, afastando-se do porto. Ao passar pelos homens da guarda portuária, soltou em alto e bom som.
"Quero todos eles mortos e esse maldito navio queimado"
Assim que a madeira do porto deu lugar à primeira ruela de Lumiar, com as bancas de peixes encarando o mar, Theon ouviu os primeiros gritos. Virou-se para trás e seus olhos vislumbraram o vermelho sangue e a tentativa de defesa de seus homens. Soltou um guincho, as sobrancelhas juntas e olhou para Mykhaela.
"O que diabos está acontecendo?"
Mykhaela limitou-se a sorrir e largou do braço de Theon, vendo olhos conhecidos a encararem com grande surpresa. Deu dois passos a frente quando Arthur desceu do cavalo e tirou o elmo, andando na direção dela. Então Theon viu os cabelos de Mykhaela ondularem-se enquanto ela virava para olhá-lo novamente.
"Não precisa mais de seus guardas aqui, Theon"
Quando ela virou-se para frente, foi com satisfação. Ela viu nos olhos dele aquela faísca de certo entendimento. Aos poucos sentia em cada pedaço de seu corpo o quanto a situação se invertera. Não era ela que se sentiria aterrorizada agora.
"Pelos deuses, Mykha, o que faz aqui?" Arthur abriu um sorriso, analisando o corpo roliço da antiga princesa.
"Sua antiga princesa está de volta, Arthur. Devo apresentá-lo meu prometido, Theon Greyjoy" Mykhaela virou-se para chamar um ainda confuso Theon e ele se aproximou, o olhar frio e superior encarando Arthur como se ele fosse tão importante quanto um rato. Arthur por sua vez prestava atenção em Mykhaela com dúvida no olhar.
"O que está acontecendo?"
"Nos leve ao castelo, Arthur. Estou cansada da viagem, você bem sabe como ela é longa demais"
Arthur concordou solenemente e Mykhaela caminhou ao lado de Theon, o mesmo sorriso que não conseguia tirar do rosto. Ao fundo já não havia mais som algum e o cheiro de morte e sangue confundiu-se com o de madeira e carne queimando juntos. Era o melhor cheiro que havia sentido em muito tempo.
-x-
Theon olhava pela janela o por do sol com uma ansiedade visível. Seus dedos tamborilavam o metal da grade da varanda e sua perna balançava-se ininterruptamente no quadriculado branco e azul do piso. O laranja e vermelho jorrava no branco da cidade como sangue, sangue de seus homens. Nas muralhas altas e brancas podia-se ver os guardas do castelo observando tudo das ameias. Ele vestia roupas frescas que lhe foram dadas quando chegou ao aposento em que Mykhaela mandou que esperasse e lá ele ficou. Não que tivesse saída, dois guardas estavam do outro lado da porta, protegendo-o da liberdade. Quando o barulho de alguém entrando distraiu seus olhos do mar, Theon tentou manter a pose despreocupada, entrando no quarto. Mykhaela vestia uma seda leve e fluída que desenhava o arredondado de sua gravidez com perfeição. Era lilás e uma fileira branca de fios trançados prendia o tecido em sua nuca, sumindo pelas costas. Os cabelos dela, agora lavados e brilhantes, formavam um sofisticado trançado, caindo de lado por sobre seu ombro.
“Espero que esteja confortável, Theon” Mykhaela sorriu observando a câmara.
“Estou” Foi só o que conseguiu dizer. Tentava ler na expressão dela algo que entregasse suas intenções.
“Te apresentarei a meu pai e irmão no jantar”
Theon apenas concordou com a cabeça e olhou em volta. Sentia-se incomodado, estranho, com medo. Pensava em que parte daquilo tudo a esposa de Robb o convenceu a fazer tamanha besteira. Ela era boa com palavras, com a arte da persuasão, uma verdadeira governante, como Theon nunca fora. Viu um traço de diversão no olhar dela. Ela estava mesmo se divertindo à custa dele. Não duvidava se ela tinha convencido Robb de que gostava dela apenas para ser rainha. Ela facilmente dobrava as pessoas ao seu redor a sua maneira. Maldita. Aproximou-se dele, beijou seus lábios e o empurrou até a cama. Theon piscou meio surpreso. Mykhaela nunca fora exatamente receptiva sexualmente, não que isso o impedisse de fazer algo. Mas lá estava ela, despindo-o de suas roupas, peça por peça. Aquela mudança de comportamento excitou Theon, que passeava as mãos pelo corpo dela livremente. Seus dedos ágeis desataram os nós em sua nuca e o vestido dela deslizou de forma fluída por seu corpo, parando na cintura. A barriga dela estava enormemente redonda, mas ele não se importava muito àquele ponto. Havia aprendido a tomá-la para si de qualquer forma. Afinal, ela era dele.
Os braços magros e finos prenderam os ombros de Theon no colchão de penas e ela levantou o tronco para encará-lo. Viu com deleite os olhos de Theon ganharem confusão novamente. Acariciou o rosto liso pela barba recém feita e sorriu com um olhar de felicidade.
“Você gosta de me ter?”
Theon soltou um leve riso com a pergunta, acenando que sim com a cabeça.
“Você gosta de ter coisas só para você, não é?” O sorriso dela não era mais tão doce. “Mas você sabe, está fodendo os restos de Robb Stark”
O rosto de Theon caiu em uma expressão nada divertida e seu sorriso morreu.
“Espere, não só de Robb Stark! Com eu me esqueci disso? Antes dele teve Jon Snow. Meu primeiro homem” A confusão nos olhos dele divertia Mykhaela de forma doentia. “Então vamos ver, Jon Snow me fodeu, então Robb Stark fodeu os restos de Jon Snow e você fode os restos dos dois” Ela riu, o gosto amargo da vingança preenchendo seus lábios. Os olhos dela brilhavam de forma maníaca enquanto Theon, irritado, empurrava os braços dela para longe.
“Sai de cima de mim”
“Você não pode me machucar aqui” Mykhaela ficou séria de repente. “O que? Não gostou de saber que tem os restos de um bastardo? Está irritado porque não é especial?”
Theon levantou o braço para bater nela, mas Mykhaela parou o golpe a alguns centímetros de seu rosto, suas unhas entrando na carne de Theon.
“Me solta”
“Eu disse que você não pode me machucar aqui. Aqui você não é nada mais do que um monte de nada, Greyjoy”
Os olhos dos dois soltavam faíscas de raiva. Theon tentou novamente golpeá-la, mas Mykhaela pulou para fora da cama rápido demais.
“Rickard!” Ela gritou e um homem entrou no quarto na mesma hora. Theon viu que do lado de fora havia mais um homem, mas ele permaneceu lá, apenas observando. Mykhaela arrumou o vestido de forma desajeitada, cobrindo seus seios novamente com o tecido claro. Ela pegou a espada das mãos de Rickard e sorriu. “Esta é minha espada, sabia?”
Theon a observou encarar o aço de castelo.
“Ela só viu sangue uma vez. Até agora” Os olhos esverdeados voltaram a encarar Theon.
“O que vai fazer? Me prometeu um reino”
“Prometi?” Mykhaela riu. O homem ao lado dela, por sua vez, não estava nada divertido. “Eu não me lembro de ter prometido nada. Ah, Theon, você já brincou de Rei por três meses”
“Sua puta, você vai pagar por isso” Theon avançou na direção dela, mas Rickard o parou com um chute e Theon caiu no chão. Mykhaela andou até ele e pressionou o solado da bota no pescoço dele.
“Você sinceramente achou que eu deixaria Robb por você?”
“Acha que ele vai te querer depois de ter se deitado comigo?”
“Ele me quis mesmo já tendo me deitado com o irmão dele”
“Bom, ele sempre me considerou um irmão”
“Considerou, Theon? E o que você fez com isso? Manteve os irmãos dele reféns, tomou Winterfell”
“Eu fiz pelo meu pai!”
“Que seja, Theon. Suas atitudes te trouxeram até aqui. Vai encontrar seu amado pai, deve estar feliz” Mykhaela abaixou-se e pegou Theon pelo colarinho da túnica, levantando-o. De repente a imagem de grávida frágil sumiu de seus olhos e Theon podia ver, pela primeira vez, a verdadeira rainha do Norte. “Nós temos um jantar para ir”
Os homens seguiram Mykhaela enquanto ela arrastava Theon pelas vestes dele entre os corredores de pedras brancas e azuis. Entraram em uma galeria e no final dela portas duplas enormes de madeira foram abertas por dois guardas. Na parede oposta à porta estava um trono de mármore claro, onde o Rei Moryn estava sentado e em um cadeirão ao seu lado, o Príncipe Phillip. O olhar duro do rei deu lugar a um olhar cansado e fraco desde sua última visita a Winterfell. Duas fileiras de fidalgos e lords importantes deram espaço no centro para Mykhaela arrastar Theon, observando-o. Ela jogou-o no chão e ele deslizou pela pedra até os degraus que levavam ao trono. Theon olhou para cima, sentindo o ardor em seus braços e o sangue começando a gotejar dos arranhões em sua pele. Engoliu a humilhação e levantou-se.
“Theon Greyjoy, nós somos um reino justo” A voz do rei ouviu-se, na língua comum. “E um homem que cometeu crimes tem direito a um julgamento”
Theon sentiu-se aliviado, mas Mykhaela não pareceu tão feliz.
“Um julgamento?”
“É o que os deuses da justiça pedem, minha filha”
“Este homem ameaçou seus netos, bateu e abusou de sua filha e você quer lhe dar justiça?”
“Não estamos acima dos deuses, Mykhaela” A voz cansada do pai ressoou e o salão ficou em silêncio.
“Os crimes dele foram cometidos em meu reino, pai”
“Mas serão julgados em meu reino, filha”
“Eu sou Mykhaela Stark, Rainha no Norte e eu comando que esse homem seja sentenciado à morte”
O rei separou os lábios para responder-lhe, mas Mykhaela foi mais rápida, chutando a parte de trás dos joelhos de Theon e fazendo-o cair, avançando por cima dele com a espada em mãos. Quando Theon virou-se para encará-la, a espada de Mykhaela desceu na direção do rosto dele, cortando a pele e fazendo o sangue jorrar. A pequena multidão gritou interjeições de surpresa e Phillip levantou-se de seu cadeirão. Theon soltou um som afogado de dor, os olhos arregalados encarando Mykhaela. A rainha levantou a espada mais uma vez e voltou a descer com toda sua força no pescoço de Theon, abrindo a profundidade do corte. O corpo dele tremeu no aço, os lábios dele soltaram pela última vez um som estranho enquanto ele se afogava no sangue que subia por seus lábios e escorria pelo canto deles. Mykhaela subiu a espada mais uma vez e com o terceiro golpe separou a cabeça de Theon do corpo. Ainda assim não parou, continuou a golpear a cabeça dele com a espada até que o rosto estivesse completamente desfigurado e despedaçado. Uma figura assustadora restou no chão quando ela finalmente parou os golpes. Quando levantou a cabeça novamente, seu rosto estava salpicado de sangue, assim como seu vestido e espada. Mas seus olhos não conseguiam focalizar nada além do corpo inerte e morto de Theon Greyjoy a sua frente. Rickard aproximou-se de Mykhaela e tocou seu braço, mas ela se afastou do toque dele, jogou a espada no chão manchado de sangue e olhou para o pai antes de sair do cômodo sob o silêncio pesado.
“Aí está sua justiça”
Notas finais
Eu estava meio indecisa quanto a forma que o Theon morria, mas mandei o que escrevi pra minha amiga e ela gostou. Confiei no bom gosto dela e deixei assim, espero que vocês também gostem.
No próximo capítulo tem uma surpresinha pra vocês. Mas é uma surpresa feliz, prometo.
Aguardo reviews comemorando a morte do Theon.
Beijos.
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